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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Últimos poemas da Colónia de Férias,1971: Rui Knopfli.

“Não tenho lembranças de nada”.

“A surdina do meu canto, arame agitado ao vento da lembrança”.

“Sabor longínquo, sabor acre da infância a canivete repartida no largo semicírculo da amizade.”

 “Senhores que passeiam de palhinha e palm beach, baneanes magros de reverência solícita, um surdo marulhar de pedras giradas no mah jong.”

 

 

Rui Knopfli

 

 

Inscrição

 

Não tenho lembranças de nada:

Trago esta memória da morte

Feita toda à imagem da vida,

Rápida chama sem norte.

 

 

Adágio

 

Com esta flauta encantada

te direi o que mais nenhum homem

te dirá.

            Quando chegar a altura

da migração irás com as outras aves.

Eu ficarei nas dobras de um tempo

a fazer-se esquecimento.

                                            Outras

vozes enredarão sua teia caprichosa

em teu redor. Tu hás-de ouvi-las

com ar atento. E sorrirás.

Mas na ternura do teu sorriso

haverá um fino, esquivo traço

de malícia que tu ainda pressentes

(mais do que escutas) a surdina do meu canto,

 

arame agitado ao vento da lembrança.

 

 

Mangas verdes com sal

 

Sabor longínquo, sabor acre

da infância a canivete repartida

no largo semicírculo da amizade.

 

Sabor lento, alegria reconstituída

no instante desprevenido, na maré baixa,

no minuto da suprema humilhação.

 

Sabor insinuante que retorna devagar

ao palato amargo, à boca ardida,

à crista do tempo, ao meio da vida.

 

 

Sem nada de meu

 

Dei-me inteiro. Os outros

fazem o mundo (ou crêem

que fazem). Eu sento-me

na cancela, sem nada

de meu e tenho um sorriso

triste e uma gota

de ternura branda no olhar.

Dei-me inteiro. Sobram-me

coração, vísceras e um corpo.

Com isso vou vivendo.

 

 

Clara

 

Clara, loura e capitosa

como uma taça de espumante seco,

dizem-me que já pintas …

 

Dizes-me com que tintas?

 

 

Progresso

 

Estamos nus como os regos na Acrópole

e o sol que nos mira também os fitou.

Mas fazemos amor de relógio no pulso.

 

 

Praça sete de março

 

No centro da praça, meu pai acena

do fundo do tempo:  coração

da cidade ao voltar da esquina.

Por sobre os metais cintilantes da banda,

o Ali de cofió rendado e cabaia branca

leva a bandeja nos gestos graves.

Há um bule de loiça e uma chávena

a fumegar na tarde, o odor quente

e loiro das torradas, o travo amargo

da compota; senhores que passeiam

de palhinha e palm beach, baneanes

magros de reverência solícita, um surdo

marulhar de pedras giradas no mah jong.

O horizonte abre para o mar, lisa

matriz do sol. Móveis, as sombras

gizam no empedrado caprichos longos

como o passar da luz entre a folhagem.

E meu pai tão longe que já o não vejo,

talvez de ter passado, como a luz,

sobre esse tempo e esse lugar, ora mudados

em eco fruste da memória. No centro

da praça volto-me para acenar a meu filho.

 

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