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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Todos nascemos fora do tempo

 “O mais importante da vida é a ocasião”, Cleobulo de Lindos.

Para os que agora procuram asilo e liberdade, perderam a ocasião: vieram demasiado tarde.

Criar um animal que pode fazer promessas … Não será esta precisamente a tarefa paradoxal que a natureza criou a si própria no que respeita ao homem?”, Nietzsche.

Para os que agora procuram viver uma vida digna, perderam a ocasião: vieram demasiado cedo.

 

 

Cleobulo de Lindos, um dos considerados Sete Sábios, nascido no século VI a. C. em Lindos, na ilha de Rodes, dizia que “o mais importante na vida é a ocasião”. Mal ele sabia que 2.500 anos passados este seu pensamento continuaria a ter aplicação, sendo cada vez mais atual na nossa sociedade.

 

1. Os que chegaram demasiado tarde.

 

Vejamos por exemplo o caso da onda de refugiados de agora. Tivessem eles iniciado a sua fuga algumas dezenas de anos antes e teriam sido recebidos como heróis, como aconteceu com quase todos os que se escaparam dos perigos e da opressão da União Soviética, Vietname, China e Cuba, para se acolherem no “mundo livre”.

Em 1961, ainda não existia o muro de Berlim (começara a ser construído há apenas três dias) quando Conrad Schumann, soldado de 19 anos da Alemanha de Leste, se decidiu a saltar o rolo de arame farpado que na altura separava a cidade e o país, perante os cânticos dos alemães ocidentais que o incentivavam, “Komm’ ruber!” (Vem para cá), onde já o aguardava um carro da polícia que o transportou para a segurança. A sua fotografia a saltar fardado o arame farpado tornou-se icónica, símbolo dos bravos que tudo arriscavam na procura de uma vida melhor, fugido de um regime ditatorial. Era assim que naqueles anos sessentas eram acolhidos todos os refugiados que viessem do leste da Alemanha.

Com a saída dos americanos do Vietname, os anos setentas assistiram ao maior programa de instalação de refugiados feito pelo governo americano: foram recebidos de portas abertas 125.000 refugiados provenientes do Vietname do Sul.

Com o colapso da União Soviética e o desaparecimento do Papão do Comunismo, assistimos a uma interpenetração das economias a nível mundial, tornando mais porosas as fronteiras dos países. Tal ocasionou o aumento do número de pedidos de asilo de emigrantes de países falidos ou de países em zonas de conflito.

É quando aparece o termo “repatriação forçada” justificando o reenvio dos “boat people” que, fugidos do Vietname para se acolherem em Hong Kong (muito inglesa na altura), foram colocados em campos de detenção, para serem de novo encaminhados de volta ao Vietname, exceção feita para alguns escolhidos. A Tailândia e a Malásia rebocavam os barcos dos “boat people” de volta para as águas internacionais, muitas vezes sem lhes darem água ou alimentação. A Austrália gasta um bilião de dólares por ano na interseção de barcos que transportam refugiados em águas internacionais, encaminhando-os para Papua Nova Guiné, Nauru e Camboja.

Na Europa é o que se vê. A América, a principal responsável do caos no Médio Oriente, após grande insistência internacional, propôs-se aumentar o número de refugiados Sírios a receber para os anos de 2015-16 de 5.000 para 10.000.

Os que há cinquenta anos eram vistos como heróis e acolhidos sem reservas, são agora vistos como indesejáveis a manter fora das nossas fronteiras. Para os que agora procuram asilo e liberdade, perderam a ocasião: vieram demasiado tarde.

 

2. Os que chegaram demasiado cedo.

 

Para Hannah Arendt, a natalidade, a vinda ao mundo, era a condição ontológica da ação: cada nascimento continha em si a promessa dum novo recomeçar. Agir era assim o iniciar de uma nova partida, a possibilidade de aparecimento de um mundo novo.

Para ela, esta dimensão soteriológica da ação tinha a sua mais bela expressão “na pequena frase dos Evangelhos ao anunciarem a sua ‘boa nova’: ‘Nasceu-nos uma criança’”.

De facto, o mais importante que nos aconteceu na vida foi termos nascido e, contudo, “todo o ser humano só sabe que nasceu, porque lho contaram, já que não esteve lá para o presenciar” (Hans Blumenberg).

Só que ao nascermos ficamos imediatamente expostos a algo que não é seguro, que não é por nós controlável e sobre o qual não temos qualquer conhecimento: o mundo.

Deixamos a casa-mãe da nossa vida intrauterina, única que constitui nossa verdadeira terra natal, seguindo para um lugar incerto em que nada está de antemão assente, mas que tem de ser definido, onde se inclui ainda entre outros, o azar ou a sorte do local de chegada, sem, contudo, estarmos verdadeiramente preparados para o que vamos encontrar.

Se não encontrarmos uma mãe e outras pessoas que nos prometam um mundo para viver ou como viver num mundo, mesmo sabendo-se que devido à instabilidade das condições de vida na terra tais promessas estarão predestinadas a serem quebradas, é pouco provável que se sobreviva para além das primeiras 48 horas. O que seria o regresso ao nada.

O nosso simples nascimento constitui uma promessa para esse mundo que se sabe ser uma impossibilidade de cumprimento enquanto promessa, pelo que nos conduzirá previsivelmente a uma queda no que não é possível de se cumprir.

Todos aqueles que não conseguem ter o controle da sua própria vida, que continuam ao fim de 40 ou mais anos de vida a viver em casa dos pais e avós, deles no todo ou em parte dependentes, chegaram certamente demasiado cedo à vida. O que acabará por acontecer a todos nós.

Será, portanto, ainda possível hoje aquele ‘agir’ de que nos falava Arendt? Não estarão já os nossos atos à mercê de processos automáticos que nem mesmo o milagre de um recomeço radical poderá interromper, retirando-nos todo o poder de decisão? Não estaremos a viver numa época de mortos-vivos na qual já não seja possível não só a vinda ao mundo como a própria morte?

Para não sermos vidas abortadas à nascença por chegarmos demasiado cedo, talvez venha a ser possível, dados os grandes progressos científicos, nascermos com 40 ou 50 anos. Se mesmo assim, as promessas não poderem ser cumpridas, então talvez optar por suprimir uma, ou duas gerações. Ou todas. Por fim, as contas darão certas. É para isso que elas servem.

 

Para os que agora procuram viver uma vida digna, perderam a ocasião: vieram demasiado cedo.

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