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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Quem nos representa?

 “A fotografia transporta sempre consigo o seu referente”, R. Barthes.

Isto não é um cachimbo”, quadro de René Magritte.

Cada um é em si um partido.

Os parlamentares como espelhos da hiper-realidade que projetamos de nós, única ‘realidade’ em que nos reconhecemos.

 

 

Por princípio, ou melhor, no princípio, os representantes parlamentares eram os porta-vozes das massas trabalhadoras. Esta sua representação política era muito importante e tinha grande força. E isto porque defendiam realmente os interesses das classes trabalhadoras que representavam. Dizemos então que eles estavam diretamente ligados ao seu referente.

Hoje em dia, os representantes políticos não são vistos como os porta-vozes do ‘povo’, mas como empregados do sistema. Os parlamentares já não representam os cidadãos ou a opinião pública. Eles são o sistema político-económico e representam o sistema político-económico. Ou seja, o sistema político-económico passou a ser autorreferencial.

 

Sobre a fotografia, dizia Roland Barthes que ela era “uma emanação do referente”, querendo com isso significar que ela era a representação de um objeto real. O objeto real emitiria, no momento em que era captado, como que uma luminescência que impressionava a película, o que permitiria que a fotografia conservasse os traços quase materiais do referente real. A fotografia “transporta(va) sempre consigo o seu referente”.

Ou seja, a fotografia estava sempre ligada ao objeto real que ela representava. Ela era a emanação de um referente a que permaneceria ligada. Assim, a fotografia não era o lugar da ficção ou da manipulação. A fotografia era o lugar da verdade.

A tal ponto defendia Barthes a verdade da fotografia, que chegou a escrever que “por natureza, a Fotografia tem qualquer coisa de tautológico: um cachimbo é sempre um cachimbo, invariavelmente”, provavelmente reagindo ao quadro de Magritte “A traição das imagens” onde, debaixo da pintura de um cachimbo, Magritte tinha escrito “Isto não é um cachimbo”.

Com o aparecimento da fotografia digital ou numérica, tudo isto se vai alterar. Com ela, o real passa a estar presente apenas como citação ou como fragmento, mas não é representado. Estas citações, que são tiradas do real, são depois relacionadas entre si e misturadas à medida da imaginação de cada um.

É assim posta em causa de maneira radical a veracidade da fotografia. Ela já não representa o real, conduzindo mesmo a um divórcio definitivo entre a representação e o seu referente real. Reconstrói o real, apresentando uma hiper-realidade que deverá ser mais real que a realidade.

Entramos assim, e é onde estamos, no domínio da híper-fotografia criadora de um espaço hiper-real, autorreferencial, inteiramente independente do referente.

 

Se transpusermos este conceito para o sistema político-económico, poderemos igualmente dizer que o sistema político-económico é hoje autorreferencial, já não representando os cidadãos ou a opinião pública.

As massas, que antigamente estavam organizadas em partidos ou em associações, e que eram animadas por uma ideologia, encontram-se hoje decompostas em indivíduos isolados, meras quantidades numéricas unitárias, que vivem só para eles próprios, e que não participam em nenhum discurso público. Aliás, também não há qualquer discurso público.

Face ao apagamento da esfera pública, face à narcisação e ao inchaço do ego humano, que política, que democracia, poderá hoje ser concebida?

É concebível a existência de democracia sem discurso público?

Numa época em que cada um é em si um partido, em que as ideologias, que de certa maneira apontavam para um horizonte político, se desfizeram num sem número de opiniões e opções, para que servem os partidos políticos?

Deveremos fazer campanha pela instauração de uma democracia numérica na qual a tecla de “Eu gosto” substituiria o boletim de voto tornando totalmente supérfluas as campanhas eleitorais, os parlamentos, as assembleias gerais, as ideologias?

 

Pode até ser que, afinal os parlamentares de agora sejam mesmo os representantes desta sociedade em que vivemos, podendo por eles tomarmos consciência do referente verdadeiro que somos nós. Os parlamentares como espelhos da hiper-realidade que projetamos de nós, única ‘realidade’ em que nos reconhecemos.

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