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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Porque não foi Caim punido?

Avozinha diz-me cá, depois da guerra os ‘Dez Mandamentos’ voltam a entrar em vigor?”, Olaf Gulbransson, 1918.
Só se for para fins terapêuticos”, Código de Nuremberga.

 

É no Génesis que aparece contada a história de Caim e Abel. Para os que já não se lembrem e para os que andam distraídos, Adão e Eva tiveram, entre outros, dois filhos a quem chamaram Caim, o primogénito, e Abel ao que se lhe seguiu. Caim cultivava a terra e Abel pastoreava o gado. Um dia, resolveram ambos fazerem um sacrifício ao Senhor. Caim ofereceu produtos da terra e Abel ofereceu recém-nascidos do seu rebanho. Para espanto e indignação de Caim, o Senhor aceitou apenas as ofertas de Abel, desdenhando as de Caim. “E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante […] E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou. E disse o Senhor a Caim: ‘Onde está o teu irmão Abel?’” Caim responde com um: “Não sei. Acaso sou guardião do meu irmão Abel?”


Neste episódio há várias coisas interessantes: a dissimulação de Caim (‘descaiu-lhe o semblante’) significando que não pretendia confessar o crime; a hipocrisia do Senhor que, sabendo perfeitamente o que tinha acontecido, não só não interviera como até tinha dado motivo a que o ato fosse praticado. Mais inquietante é a resposta de Deus, que não só não pune o homicida, como o põe sobre sua proteção pessoal, ao dizer: “A vingança pertence-me”.
É assim lícito concluirmos que há crimes que são cometidos no mundo, que o Senhor não previra e cujo castigo não fora ainda equacionado. Por isso, a resolução do crime de Caim foi adiada para o Juízo Final.

 

Pelas cinco da tarde do dia 22 de Abril de 1915 em Ypres (Bélgica) o exército alemão libertou 160 toneladas de cloro pressurizado ao longo de seis quilómetros da frente de batalha que foram levados pelo vento em direção às trincheiras francesas e canadianas. Nesse dia começara a moderna guerra química. O seu inventor foi o químico Fritz Haber, que três anos depois recebeu o Nobel de Química.
O comandante em chefe da força expedicionária aliada, Sir John French, instou Londres para que lhe fossem fornecidos armamento idêntico, o que só foi possível de ser feito em Setembro. Foi desastrosa a sua utilização, porque devido a uma alteração do vento, foram envenenados centenas de soldados aliados.


Foram criados vários centros de pesquisas em quase todos os países com vista à obtenção de substâncias cada vez mais letais, fossem elas químicas, bacteriológicas ou farmacológicas, por forma a contribuírem para a vitória desejada. O historiador Ulf Schmidt, diretor do Centro de História da medicina da Universidade de Kent, conta-nos a parte relativa às experiências feitas nas instalações ultra secretas de Porton Down, no seu livro Secret Science: A Century of Poison Warfare and Human Experiments, da Oxford University Press, onde sobressaem alguns aspetos dignos de nota, como o da colaboração estreita que se verificava entre cientistas e militares, a sua ética e os seus métodos experimentais.
Porton Down com uma área de 2.500 hectares continha vários laboratórios onde trabalhavam uma elite de fisiologistas, patologistas, meteorologistas, e muitos outros vindos das melhores universidades britânicas como Oxford, Cambridge e o University College of London. Autodenominavam-se como sendo os “cognoscente”, a casta privilegiada que conhecia os segredos da guerra química. Inicialmente ensaiavam as substâncias em ratos, gatos, cães, cavalos e macacos. Faziam de tudo, desde gaseá-los a deitarem pós mortais ou concentrados de pimenta de caiena diretamente nos focinhos, na busca de novos agentes químicos.
Em 1917, perante um ataque alemão em que foi utilizado gás mostarda, foi criado um novo laboratório destinado às experiências com seres humanos, por forma a mais rapidamente se obterem resultados fiáveis. Foi seu diretor o fisiólogo Joseph Barcroft. As cobaias humanas escolhidas foram inicialmente soldados (nenhum oficial), que eram voluntários e a quem se pagavam mais uns xelins, nenhum sabendo realmente ao que se ia expor. Até 1989, em Porton foram feitas experiências em mais de 20.000 pessoas com gás mostarda, fosgénio, sarin e outros agentes nervosos, antraz, Yersinia pestis (bactéria da peste), mescalina, ácido lisérgico e outras drogas.
Ao entrar na II Guerra Mundial, quaisquer das três potências, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido faziam experiências com seres humanos. Os alemães recorriam normalmente a prisioneiros judeus, russos e polacos. Também em Porton, devido à escassez de soldados disponíveis, se utilizaram os cidadãos das potências do Eixo que tinham ficado prisioneiros.
Os avanços alemães foram notáveis neste campo, tendo criado o primeiro pesticida sintético, o tabún, que para além de ser letal era inodoro e incolor, e ainda o célebre zyklon b que usaram para assassinar milhões de pessoas. As armas químicas que tinham em armazém chegavam às 44.000 toneladas. Quantidades idênticas ou superiores deviam também ter os EUA: é significativo indicar que o Edgewood Arsenal do Chemical Corps do exército que dispunha em 1942de um orçamento da ordem dos dois milhões de dólares empregando 1.000 trabalhadores, viu este orçamento durante o período entre as guerras ser aumentado para 1.000 milhões de dólares e 46.000 trabalhadores. Só o projeto para a construção da bomba atómica é que recebera mais recursos e pessoal.


Porque não foram utilizados na II Guerra? Por receio de retaliação, por serem difíceis de utilizar, por serem imprevisíveis e por poderem atrasar o avanço das tropas caso a terra ficasse contaminada. Mas, as experiências em seres humanos continuaram, apesar do Código de Nuremberga proibir tais ensaios, “a não ser se tivessem fins terapêuticos”. Simples e convincente. Durante as décadas seguintes de 50 e 60 a grande maioria dos voluntários estava convencida que iam participar em ensaios para se encontrar uma vacina contra a gripe. As mortes no local das experiências (o vírus da gripe era por vezes gás sarin entre outros) eram prontamente camufladas pelo Ministério da Guerra invocando diferentes e plausíveis causas das mortes.


Entre 1946 e 1976, foram conduzidas 750 experiências em campo aberto, a maior parte delas realizadas nas colónias, Nigéria, Bahamas ou Malásia. Cinco desses ensaios fizeram-se no mar, com antraz ou com a bactéria da peste bubónica. Numa delas, os militares que libertaram a Yersinia pestis no Mar do Norte, perto da ilha Lewis, não deram pela presença no local de um barco pesqueiro, o Carella, com 18 pescadores. Em vez de os recolherem e trata-los com estreptomicina, deixaram-nos seguir. Resolveram aproveitar o acidente para verificar em os resultados.
Não é de espantar que a 26 de Julho de 1963, os cientistas de Porton Down tenham decidido libertar no metro de Londres, 30 gramas de esporas do Bacillus globigii. Esta bactéria que podia provocar septicémia espalhou-se por várias estações do metro num raio até 15 quilómetros.


Aos poucos a verdade foi sendo conhecida, e já neste milénio um tribunal do Reino Unido, face a uma ação interposta por um dos ‘voluntários’, acabou por reconhecer que a sua morte tinha sido um homicídio provocado pela ”aplicação de um agente nervoso numa experiência não terapêutica”. Em 2008, as autoridades britânicas desculparam-se publicamente, reconhecendo os danos causados, acabando por compensar economicamente 359 dos quase 22.000 soldados que foram usados em Porton Down. Assunto resolvido.


Por estes e muitos outros casos é que aguardo curioso e tranquilizado pelo dia do Juízo Final. Veremos o que vai acontecer nesse dia. Aguardemos enquanto os processos vão sendo estudados. Assunto resolvido.

 

 

 

 

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