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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os intelectuais são sempre de direita

Mon coeur est Français, mais mon cul est international”, Arletty.
O cu é um materialista mas de tendência dialética que parte do princípio de que está tudo na merda, mas que há esperança”, Peter Sloterdijk.
Acaricio a quem me dá presentes, ladro a quem não me dá nada e mordo os canalhas”, Diógenes de Sínope (413 – 327 a. C.).

Já todos nós passamos por aquela sensação estranha que por vezes ocorre durante a assistência a um muito badalado espetáculo de teatro, de dança, de cinema ou música, tido como muito erudito, avançado, muito para a frente ou muito retro, muito bem construído ou desconstruído, em que apesar de termos ido com imensa vontade de lá estar, de nos deliciarmos, ao fim de algum tempo começamos a sentir um certo incómodo que nos leva a mexermo-nos no assento, tentando mudar de posição. A impaciência começa a tomar conta de nós, e só ansiamos pelo fim do espetáculo. E se nos perguntarem porque não gostámos, não conseguiremos de todo explicar. É como se o cu sentado fosse o primeiro a alertar-nos para a qualidade do espetáculo. O que nos deixa perplexos, pois deveria ser a cabeça a fazê-lo. Depois, intentaremos racionalizar o que tão bem o cu precocemente analisara.


Sobre este assunto, um dos respeitados filósofos contemporâneos, Peter Sloterdijk, começa por nos dizer que o cu parece estar condenado a vegetar na obscuridade como se fosse o verdadeiro idiota da família. Mas seria de espantar que esta ovelha negra não tivesse a sua opinião sobre o que se passa nas regiões superiores. E se alguma vez a cabeça aceitasse dialogar com o seu antípoda, este certamente lhe diria: “acho que a nossa relação mútua está na merda”.
“O cu é o plebeu … está nas suas sete quintas nas retretes dos quatro cantos do mundo. A internacional dos cus é a única organização mundial que prescinde de estatutos, ideologias e quotas. A sua solidariedade é inabalável. Sem problemas o cu ultrapassa todas as fronteiras, ao contrário da cabeça, à qual muito importam as fronteiras e as propriedades.” Para um cu não corrompido não há diferença entre um banco, um trono, uma cadeira ou mesmo a cadeira de São Pedro. Aceita também, se necessário, o chão. O que não gosta é ficar de pé quando está cansado.
Até num sentido erótico, ele mostra-se sensível e superior. Passa facilmente por cima das fronteiras e das exclusividades. Quando censuraram a celebridade francesa da época, Arletty, por ter tido relações sexuais com os alemães, ela respondeu: “Mon coeur est Français, mais mon cul est international.” O cu pode pois viver em qualquer lado, reduzindo-se ao essencial, não se deixando nacionalizar. “Este pendor para o elementar e o fundamental predispõe o cu singularmente para a filosofia”. Milénios de mau tratamento, pontapés, beliscões, palmadas, fazem com que ele tenha uma imagem do mundo vista de baixo para cima, uma imagem plebeia, popular, realista. “Fizeram dele um materialista, mas um materialista de tendência dialética que parte do princípio de que está tudo na merda, mas que há esperança.”
Também Freud lhe consagra muita atenção, chamando inclusive estádio anal a uma etapa fundamental do desenvolvimento. Temas como o poder e o não-poder, ter-de e não-ter-o-direito, ter e reter, têm tudo a ver com as experiências e os destinos do cu. “Compreender o cu seria, pois, a melhor escola preparatória para a filosofia.”


Para tentarmos compreender o problema e não o situarmos no campo da mera boçalidade anárquica e anedótica, teremos de o inscrever no campo da filosofia política, e de recuarmos mesmo até à Antiguidade Grega. É aí onde todo o trabalho filosófico se inicia através da tentativa de perceber como seria possível manter o Caos afastado do Cosmos, para assim evitar que este desaparecesse. A conclusão a que chegaram foi a da necessidade de se encontrar um sentido, uma racionalidade que explicasse que o Cosmos não era fruto de um qualquer capricho, mas de uma ordem universal e imutável. As coisas são o que são, ordenadamente, porque são o produto de um pensamento, de uma racionalidade que faz delas o que são.
A descoberta pelo homem da existência dessa ordem cósmica objetiva, dessa racionalidade universal, desse “logos”, vai fazer com que venha a ser punida com o máximo de rigor tudo e todos que atentassem contra essa ordem do mundo, por tal conduzir ao colapso do cosmos, à sua morte e consequentemente ao suicídio da mesma humanidade. Há que preservar a todo o custo a ordem. Este é o mandamento cosmológico a que Sócrates, Platão e Aristóteles permanecerão fiéis.


Só que a prática cultural resultante desta asserção levou ao aparecimento da teoria da virtude-ciência, do saber como constituindo o bem, à atitude contemplativa, e á ideia platónica como entidade universalizadora. Em resumo, a uma filosofia idealista e à colocação das ideias por cima de tudo. O que estava bem de acordo com a postura de filosofia e de vida ateniense dos senhores, toda ela feita de diálogos e argumentos, surgindo a matéria apenas como simples reflexo da ideia, sombra, poluição, como degradação da ideia.
A filosofia ensinada nas academias pressupunha sempre o diálogo, e o diálogo só por si, pressupõe um compromisso idealista. É na fala que tudo se passa, é no diálogo cerebral que se teoriza. Do diálogo cerebral só poderão sair teorias cerebrais, sempre. A matéria só era pois admitida no diálogo universitário como sujeito de reflexão e não como existência. É pois um diálogo que está viciado à partida: penderá sempre para a ideia e não para o que se considera ser o seu reflexo, a matéria.
Com tais constrangimentos como se poderá dar voz aos que diariamente sofrem estas imposições de pensamento, costumes, ações, que não são suas, mas dos senhores? Dialogar não resulta, como vimos. Não se tratava de um não acatamento da ordem cosmológica, mas da forma como ela fora apropriada pelos bem pensantes para imporem e se imporem na sociedade. O essencial não deveria ser o saber como bem mas considerar antes a ação como virtude. Virtude vista como algo que exige esforço, um penoso trabalho de conquista de autodomínio, de renúncia aos bens mundanos, às convenções sociais, a tudo o que seja anti naturalmente supérfluo.


Eis como Diógenes de Sínope (413 – 327 a. C.), um homem contemporâneo de Sócrates, Platão e Aristóteles, tentou responder ao problema.
De Diógenes pouco recordamos para além do seu anedotário e do seu traje para todas as estações: uma manta, um bordão, sandálias, uma mochila para os seus pertences mais pequenos como pedra-pomes para os cuidados corporais e um vaso de madeira para beber. Um autêntico ateniense do futuro.
Relembremos algumas das pequenas histórias que lhe são atribuídas: Conta-se que estando deitado de costas a apanhar banhos de sol, Alexandre da Macedónia (depois Magno) abeirou-se dele, e para lhe demonstrar a sua admiração e generosidade pediu-lhe que formulasse um desejo, que ele prontamente satisfaria. E Diógenes pediu-lhe: “ Tira-te do sol, que me estás a fazer sombra.” Também por vezes durante os dias de sol, perto do meio-dia, percorria a cidade com uma lanterna acesa, e quando lhe perguntavam o que estava a fazer, respondia: “Procuro um homem.” Diz-se que um dia gritou: “Ei! Homens!” e quando muitos acorreram ao chamamento, expulsou-os a todos à bordoada, dizendo: “Chamei homens, não chamei lixo.” Tendo Platão definido o homem como sendo um ‘animal de dois pés sem penas’, Diógenes agarrou um galo, depenou-o e entrou na escola de Platão dizendo: “Este é o homem de Platão”. Quando lhe perguntaram a que horas se deveria comer, respondeu: “Se és rico, quando quiseres. Se és pobre, quando puderes.” E então que proveito é que tirava da filosofia? “Quanto mais não fosse, o de estar pronto para todas as reviravoltas do destino.”


É também sabido que vivia num tonel, fazia as suas necessidades à vista de todos, incluindo a masturbação, considerava-se apátrida “Sou cidadão do mundo” (sendo assim o primeiro a utilizar a palavra ‘cosmopolita’) invocando que “o único verdadeiro ordenamento do estado é o que rege o universo”, e que ele próprio se via como aqueles cães que “acariciam a quem me dá presentes, ladro a quem não me dá nada e mordo os canalhas”. Daí a sua ‘escola’ ser dita ‘cínica’ (kynikos, que em grego significa o que é próprio de cão, que diz respeito ao cão): é toda uma atitude mordaz – de morder – com o propósito de sensibilizar as pessoas para a sua mensagem de inconformismo social, político, científico, pedagógico, religioso.
A sua pobreza era o preço que pagava pela sua liberdade. Mas não era tolo: quando lhe perguntam então porque comia bolos, dizia que “o sábio também come bolos, ainda que possa passar sem eles.” Ou seja, a pobreza não surge como dogma pois para ele a tortura autoinfligida era uma imbecilidade. Ele persegue os gozos elementares: estar deitado ao sol, observar como anda o mundo, cuidar do próprio corpo e não ter nada por que esperar. O mundo não é nem trágico nem absurdo. De certa forma, Diógenes conseguia aliar felicidade, ausência de necessidades e inteligência.
Procurava na aventura da existência “um conhecimento para homens livres.” Para ele, viver era mais importante do que escrever: é anti teórico, antidogmático, anti escolástico. A sua resposta a Alexandre Magno significa a indiferença, o voltar costas ao princípio subjetivo do poder, ao desejo do poder. Sabia que se se conseguir implantar no ser humano desejos, projetos, ambições, a sua liberdade vai-se perdendo.
A procura de um homem com a lanterna acesa ao meio-dia, é a procura do homem real que não aparece no meio de tantos cidadãos vestidos de coisas superficiais e supérfluas, é lembrar ao homem que, “depois da festa hedonista há o vómito do supérfluo que deixa o homem vazio, pois nada mais havia nele para além do vomitável”.
A exposição que fazia do seu corpo ia contra a asfixia que a vergonha social ia impondo. Sabia que a vergonha era o principal fator dos conformismos sociais, correspondendo à interiorização de um mandamento exterior. Além de ser um ataque contra a política familiar, a masturbação pública (que ele praticava como progresso cultural e não como regresso à animalidade) era uma das formas para alcançar a independência sexual, evitando assim ficar sujeito a contrair casamento devido às necessidades sexuais.


Aparentemente, estas suas atitudes conseguiam desarmar e incomodar Sócrates e Platão. Sócrates entendia-se muito bem com os sofistas e com os materialistas teóricos, pois sabia que a partir da altura em que os fizesse entrar em diálogo, a sua mestria na contradição os levaria de vencida. “Mas com Diógenes, nem Sócrates nem Platão fazem farinha.” Não havia diálogo possível com quem respondia só pela ação. A única solução que Platão tinha era a de difamar o seu adversário, chamando-lhe “Sócrates enlouquecido.” Aliás, que mais fazer contra quem, apoiando-se sobre o poder que vem de baixo, se peida, defeca, urina e se masturba ante o olhar de todos no mercado de Atenas; contra quem despreza a glória, zomba da arquitetura, não respeita nada nem ninguém, parodia as histórias dos deuses e dos heróis, come carne e legumes crus, dorme ao sol, brinca com prostitutas e diz a Alexandre para não lhe fazer sombra?


Algum ‘intelectual’ hoje defenderia tal comportamento nas escadarias da assembleia da república? Ou mesmo a possibilidade? Os ‘intelectuais’ são todos ‘bem comportados’, mesmo quanto baste. Somos todos pelo diálogo, somos todos do “establishment”, somos todos conservadores, somos todos de direita, mesmo quando nos dizemos da esquerda teórica. Somos todos cabecinhas pensadoras com o “canudo” como símbolo.


Mas também nada disto tem hoje qualquer importância, pois os ditos ‘intelectuais’ têm já os seus sucedâneos: comentadores de televisão, artistas da canção, treinadores de futebol, jogadores de futebol ou equivalente, locutores dos mercados bolsistas que diariamente nos explicam porque sim, deputados, chefes de partidos (que nome bem posto), etc., o que não faltam são intelectuais. Bem hajam. Sigam as suas indicações. Votem e ganhem. A felicidade ao vosso alcance.

 

 

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