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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

O problema não são os Turcos

"Quem só faz meia revolução, cava a sua própria sepultura", Saint-Just.

 

A Base Aérea de Incirlik contém no seu inventário cerca de cinquenta bombas de hidrogénio B-61, o que constitui mais de vinte e cinco por cento do arsenal nuclear da NATO.

 

Há alguns meses atrás, o Pentágono deu “ordem de partida” para todos os familiares das tropas americanas estacionadas em Incirlik, com a indicação que deveriam sair imediatamente.

 

Vivemos num mundo, como muito bem notou Hobbes, “de guerra de todos contra todos”, pelo que se torna difícil discernir entre as várias razões e nomear conjuntos coerentes.

 

Nada melhor para mascarar a realidade do que atribuir-lhe uma ideologia. A ideologia não nos deixa ver o real da realidade.

 

 

 

Durante o dia do golpe de estado de 15 de julho, o governo turco cortou a energia à Base Aérea de Incirlik, situada no sudeste da Turquia, tendo ainda proibido as descolagens de quaisquer aviões da Força Aérea americana. No dia seguinte, o comandante da Base, General Bekir Ercan Van e outros nove oficiais turcos foram detidos por, alegadamente, terem apoiado o golpe.

 

A Base Aérea de Incirlik foi construída pelos americanos logo após o fim da Segunda Guerra, e ‘entregue’ à Turquia em 1952 após esta ter aderido à NATO, constituindo um dos pontos fortes no seu esquema tático com vista a contrariar a União Soviética. Encontrando-se a uma hora de voo da URSS, abrigava imensos aviões de caça e interseção, bombardeiros, aviões tanques de reabastecimento, e aviões de espionagem como os U-2. E, como em muitas das bases da NATO, possuía armas nucleares.

Ainda hoje, a Base de Incirlik contém no seu inventário cerca de cinquenta bombas de hidrogénio B-61 (segundo Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos), o que constitui mais de vinte e cinco por cento do arsenal nuclear da NATO.

Estas bombas B-61 têm a particularidade de a sua força explosiva poder ser ‘regulada’ de 0,3 quilotoneladas a cento e setenta quilotoneladas (a bomba que destruiu Hiroxima tinha o equivalente a 15 quilotoneladas de TNT).

Sabe-se que a partir de 1965 existiam mais de sete mil armas nucleares americanas nas várias bases da Europa Ocidental, incluindo Itália, Grécia e Turquia. De ogivas nucleares, a bombas, minas terrestes, cargas de profundidade e projéteis de artilharia, havia de tudo.

 

Teoricamente, estas armas estão sob a custódia de oficiais dos EUA, prontas a serem entregues em caso de conflito aos oficiais dos outros países. Na prática, não é bem assim.

Durante a Crise dos Misseis de Cuba, o Governo americano, com receio que os oficiais turcos pudessem tentar disparar alguns dos mísseis nucleares da NATO contra a União Soviética, deu ordens aos seus representantes para sabotarem os mísseis, impedindo assim que pudessem ser lançados.

A partir daí foram introduzidos códigos de lançamento (PALS- Permissive Action Links) para todos os mísseis nucleares em bases NATO. Só que estes códigos podiam ser desativados se se tivessem os conhecimentos técnicos necessários. Assim, durante os confrontos que estavam a opor a Grécia e a Turquia em 1974, os EUA retiraram secretamente da Grécia todas as armas nucleares das bases NATO e cortaram os iniciadores de todas as armas nucleares guardadas na Turquia, tornando-as inoperativas.

Atualmente, os EUA dispõem de cerca de cento e oitenta armas nucleares nas bases NATO, sendo todas elas bombas B-61. A maior parte delas está em Incirlik, e nas bases da Alemanha, Holanda, Bélgica e Itália.

 

Há alguns meses atrás, o Pentágono deu “ordem de partida” para todos os familiares das tropas americanas estacionadas em Incirlik, com a indicação que deveriam sair imediatamente. A guarnição americana de Incirlik manteve-se com cerca de dois mil e setecentos militares.

 

Vivemos num mundo, como muito bem notou Hobbes, “de guerra de todos contra todos”, pelo que se torna difícil discernir entre as várias razões de cada um e mesmo nomear conjuntos coerentes.

Por exemplo, ao dizermos “americanos”, estamos a referirmo-nos a quê? A todos os americanos? Ao governo americano? A instituições americanas? Quais? A grandes empresas? Quais?

É que os EUA são um enorme país, com grande diversidade de pontos de vista, com grandes e díspares interesses no mundo. Não é possível, a não ser em raras e muito específicas ocasiões, que os interesses de toda esta diversidade de poderes e interesses americanos coincidam.

Complexo militar-industrial, gigantescas empresas de data, Pentágono, CIA, enormes empresas financeiras, têm quase todas interesses  divergentes, muitas vezes até dentro delas, tentando todas ultrapassarem-se umas às outras, seja de que maneira for. Têm todass planos alternativos e têm capacidades para os desenvolver e por em prática. É bom lembrar que as três maiores economias do mundo são os EUA, a China e depois a Califórnia!

 

Se a NATO apareceu inicialmente como contraponto às forças do Pacto de Varsóvia, rapidamente passou a ser uma força ao serviço da dominação económica dos EUA sobre a Europa.

Mas, sendo atualmente a Rússia um país capitalista também governado por uma plutocracia, como entender que seja considerada como o inimigo a abater, utilizando-se apara isso de todos os meios disponíveis, como se ainda fosse a União Soviética?

Como entender o porquê do provável envolvimento na preparação de um golpe de estado na Turquia, país NATO? Isto porque não é possível conceber que toda a preparação de um golpe de estado, com as suas conversações telefónicas, mensagens trocadas, reuniões, lhes tenham passado despercebidas. Tudo indica que a cartada estava para ser jogada.

Todo o programa radiofundido do Conselho da Paz vai nesse sentido: restabelecer as liberdades democráticas. Como se só agora se soubesse que o estado turco não era democrático!

A utilização da deriva empreendida pelo governo turco no sentido da islamização é o subterfúgio para que alguns órgãos de comunicação enfeudados a uma certa orientação de algumas forças americanas se apressassem a dizer que se tratava da última hipótese para evitar uma radicalização islâmica da Turquia.

 

Tal como para com a Rússia se agita o papão do restabelecimento do império da União Soviética, aqui agita-se o papão do estado islâmico. Aliás, o mesmo já fora também feito com a Alemanha nazi, considerada  má por ser nazi. Nada melhor para mascarar a realidade do que atribuir-lhe uma ideologia. A ideologia não nos deixa ver o real da realidade.

 

Querem-nos fazer esquecer que quer a Rússia, a Turquia e a Alemanha Nazi, todas elas fazem parte do mesmo sistema capitalista. Todos estes países são, eram, capitalistas. Os mesmos métodos, as mesmas finalidades. Com maior ou menor brutalidade.

Porquê então guerreá-los? Em qualquer destes três casos, o capitalismo americano interessado (ou parte dele) não conseguiu dominar, penetrar, no capitalismo nacionalista instituído. Este capitalismo nacionalista entendia que a exploração e lucro teriam de ficar para eles, e, por outro lado, também porque a população ‘preferia ser explorada pelos seus próprios capitalistas’. Aquilo que para uns é um empecilho (religião, mafia, desígnio, ‘cultura’) para outros é uma defesa, um travão.

 

Séculos atrás dizia Saint-Just: “Quem só faz meia revolução, cava a sua própria sepultura”. A repressão que se lhe segue era totalmente previsível. O aparecimento de listas de inimigos faz parte do processo: até a PIDE prendia por listagem e até por antecipação. Os Minority Reports não apareceram com o Tom Cruise!

 

Deram-lhes a linha, ensinaram a pescar e agora dizem que os peixes que pescaram não são os bons!

 

A impaciência da arrogância conduz a situações destas. Nada de novo. Nada que não tenha remédio. Não há problema: afinal a Turquia está na NATO, portanto é um país democrático.

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