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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

O petróleo do pequeno-almoço

A sedução do sonho da maneira de viver americana (american way of life)
As forças armadas como serviço de proteção global de petróleo
Há água em Marte”, agências noticiosas.

 

Pode dizer-se que a sedução do sonho da maneira de viver americana (american way of life) se tem vindo a estender e a conquistar o mundo. Quem não ambiciona, mesmo a troco de um emprego, ter uma casa, comida (nem que seja “pão e vinho sobre a mesa” como no caso português), carro, espetáculos para ver, poder expressar-se sem ninguém se importar com isso, consumir sem qualquer preocupação de futuro, eleger os seus representantes que lhe venham garantir a sustentabilidade desse mesmo modo de viver?


A Universidade de Michigan tem um Centro de Estudos para Sistemas Sustentáveis que se dedica a investigar, como o próprio nome o diz, as várias possibilidades de sustentabilidade da “nossa civilização”, partindo dos padrões de consumo atuais. Foi assim que por exemplo, no campo do sistema alimentar, concluíram que por cada caloria de energia que obtemos com a nossa alimentação, queimamos em média sete calorias (mais exatamente 7,3) de combustível fóssil (petróleo, gás natural, carvão). O que quer isto dizer?


Um pequeno-almoço de flocos de aveia (aquecidos juntamente com manteiga, leite e um pouco de sal para os transformar em porridge), framboesas congelados e uma chávena de café, fornecem-me 400 calorias. Aplicando o tal fator 7, significará que para obtermos essas 400 calorias “consumimos” 2.800 calorias de energia de combustível fóssil, ou seja, o equivalente a 115 gramas de petróleo.
Desse consumo de energia, 20% é atribuído ao utilizado pela produção agrícola, incluindo a produção de fertilizantes químicos e pesticidas. Os 40% seguintes têm que ver com o transporte dos campos até ao vendedor na mercearia, e com os processos de feitura, embalagem, etiquetagem. Os processos de feitura absorvem 16.5%: o simples floco de aveia envolve a limpeza, vaporização, corte e enrolamento até se tornar comestível. Depois, meter dentro de sacos plásticos (feitos de petróleo), por sua vez metidos em caixas mais fortes cartonadas ou de lata. Os restantes 40% do consumo de combustível fóssil do meu pequeno-almoço têm origem no que gasto para manter a comida fresca e para depois a preparar. As cozinhas das nossas casas ou dos restaurantes, o arrefecimento ou congelamento dos produtos nos frigoríficos e a sua, quer usando fogões elétricos ou a gás, consomem muito mais energia do que supomos.


Imaginem agora este pequeno-almoço a ser tomado por mais 600 milhões de pessoas das emergentes novas classes médias chinesas e indianas: para terem o seu cafezinho, flocos de aveia e framboesas vão certamente ter de perfurar mais petróleo nos poços comunais da Terra. Haja petróleo.

 

Complementares e mais interessantes são os números relativos aos gastos reais em petróleo feitos pelos soldados americanos no Iraque e Afeganistão. Apenas tendo em conta a utilização de transportes, Humvees, carros de combate, camiões, helicópteros e ataques aéreos, o consumo médio diário por soldado é de 16 galões (61 litros) de petróleo. Considerando 162.000 soldados no Iraque, 24.000 no Afeganistão, e mais 30.000 nas regiões próximas (incluindo marinheiros nos navios de guerra no Golfo Pérsico), vamos já nos 3.5 milhões de galões (13 milhões de litros) de petróleo por dia necessários para as operações americanas de combate no Médio Oriente, o que dará 1.246 milhões de galões por ano (4.600 milhões de litros).
Mas estes números não traduzem a realidade toda, na medida em que por cada soldado estacionado no teatro de operações há que contabilizar mais dois em trânsito, em treino ou prontos a serem transportados para a zona de guerra, que também consomem enormes quantidades de petróleo.

Mais: o Departamento de Defesa Americano (DoD) para manter operacionais todas as suas unidades estacionadas ao redor do mundo tem de movimentar milhões de toneladas de armas, munições, comida, combustível e outro equipamento. Possuindo a maior frota do mundo de aviões ultra modernos, helicópteros, carros de assalto, navios, veículos de combate, e sistemas de suporte, todos eles movidos a petróleo, o DoD tornou-se no maior consumidor de petróleo do mundo. Muito embora não se consiga saber com exatidão esse número, um relatório de 2007 de uma empresa de consultadoria da defesa, LMI Government Consulting, estimava que o Pentágono poderia consumir 340.000 barris (14 milhões de galões, 52 milhões de litros) por dia, mais do que o consumo total da Suécia ou da Suíça.


O estudo de 2007 (Transforming the Way the DoD Looks at Energy) que a LMI produziu a pedido do Office of Force Transformation do Office of the Under Secretary of Defense for Policy, conclui que o modo como o Pentágono encara a estratégia de um envolvimento militar global é incompatível com a diminuição mundial da extração de petróleo que se tem vindo a verificar (“o planeamento atual propõe uma situação na qual a capacidade operacional conjunta das forças possa vir a ser insustentável a longo prazo” […] “é possível que não possam ser executados os conceitos e capacidades operacionais que visem a nossa estratégia de segurança se não se considerarem as implicações energéticas”).


A reação do DoD a estas conclusões poderia ser de dois tipos. Uma reação em que se verificasse a aproximação a uma sociedade mais “verde”, onde se potenciasse o desenvolvimento e aquisição de sistemas de armamentos mais eficientes sob o ponto de vista do consumo energético, o que poderia permitir ao Pentágono assumir uma fachada mais amiga do ambiente ao mesmo tempo que manteria uma força de intervenção importante.
Vão nesse sentido todas as recomendações “verdes” que se têm propalado: comer menos carne, comer orgânico, comer produtos locais, usar menos refrigeração, reduzir o desperdício, casas mais pequenas, ar condicionado a temperaturas médias, etc., etc.. A estas preocupações maternais somam-se os conselhos paternais sobre a inevitabilidade do precariato no emprego, dos baixos salários, da perca de regalias sociais, etc., etc.. Tudo isto é possível, leva tempo e os resultados obtidos são relativamente escassos, a não ser que se alterassem radicalmente os usos e costumes da sociedade, que no fim acabaria por já não corresponder à da ambicionada maneira de viver americana.
A outra reação seria a de tentar conseguir uma fonte segura de petróleo para todo o sempre, através do controle sobre as fontes de fornecimento estrangeiras, nomeadamente dos campos petrolíferos e refinarias da região do Golfo Pérsico, no Iraque, Qatar, Arábia Saudita e Emiratos Árabes Unidos. Nitidamente foi esta a aproximação seguida. As Forças Armadas Americanas vêem-se assim transformadas num “serviço de proteção global de petróleo” para benefício das empresas americanas e dos consumidores, combatendo onde o têm de fazer e estabelecendo bases de forma a garantirem que tenhamos a nossa quantidade fixa diária de petróleo ao pequeno-almoço.


Esta aproximação tem vários perigos, o maior dos quais decorre do facto das forças armadas poderem acabar por entrar em guerras apenas para conseguirem garantir o combustível necessário para a sua própria sustentação, para os seus próprios foguetões, satélites, aviões, barcos, carros de combate.


Mas até lá tivemos sorte: felizmente parece que descobriram que há água em Marte.

 

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