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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

O nada que somos

 

Quando duas pessoas se encontram não há duas, mas sim seis pessoas: uma é como o próprio acredita que é, outra como o outro se apercebe que ele é e outra como realmente ele é; multiplicando por dois, dá seis, Miguel de Unamuno.

 

A maior parte do nosso corpo nem sequer é “nosso”, mas de um universo de biliões de bactérias que vivem em cada centímetro dele. Somos mais bactéria que ser humano.

 

Se nos formos deitar e dormirmos oito horas, quando acordarmos no dia seguinte, teremos percorrido 800.000 quilómetros, B. Cox e J. Forshaw.

 

Se pronunciássemos os nomes das centenas de milhões de estrelas que formam a Via Láctea, à razão de um por segundo, levaríamos 4000 anos até chegarmos ao fim.

 

 

 

Saber quem somos é uma das questões que mais vulgarmente nos pomos. Na arrogância cheia de nós que nos levou a autocolocarmo-nos no centro do universo, nem sequer equacionamos a verdadeira questão essencial que devia ser posta e que lhe tem precedência, e que é a de tentarmos saber o que somos.

 

Nesta linha de raciocínio lógico que julgamos independente das suas próprias condições de aparecimento, aceitamos, por exemplo, que o corpo humano é assim porque é, olhando para ele apenas como o elemento que nos permite diferenciar de tudo o resto que nos rodeia, e, portanto, como elemento que nos dá identidade como seres humanos.

Quando muito, do corpo humano basta-nos saber que fisicamente somos maioritariamente compostos por água (60%), oxigénio, hidrogénio e carbono. Mas, não nos ocorre pensar que poderíamos ser um cubo de oxigénio do tamanho de um televisor pequeno, um ladrilho de carvão, um quilo de cálcio e uma colher pequena de ferro.

E, que também somos formados por outros pequenos elementos marginais em quantidades ínfimas: fósforo, potássio, enxofre, sódio, cloro, magnésio, fluor, zinco, sílica, rubídio, estrôncio, bromo, chumbo, cobre, alumínio, cádmio, bário, iodo, estanho, titânio, boro, níquel, selénio, cromo, magnésio, arsénico, lítio, césio, mercúrio, germânio, molibdeno, cobalto, antimónio, prata, nióbio, zircónio, lantânio, gálio, telúrio, ítrio, bismuto, tálio, ouro, escândio, tantálio, tório, uranio, berílio e volfrâmio. Alguns destes elementos são tóxicos ou radioativos, e de outros nem sequer conhecemos a função que desempenham, como é o caso do rubídio.

O que faz com que sejamos praticamente iguais a tudo o que nos rodeia. No máximo, o que nos diferencia talvez seja a quantidade e a proporção que temos de cada um destes componentes.

 

Sabemos também que somos constituídos por células, e que tal nos deveria dar uma garantia de permanência e estabilidade. Ignoramos é que quase todas elas são substituídas mensalmente, com exceção das hepáticas (que subsistem mais tempo) e as dos neurónios (que são para a vida), sendo ainda pouco provável que alguma célula do nosso corpo adulto tenha mais de nove anos de idade.

Se ainda juntarmos o conhecimento de que todas as células da camada superior da nossa pele estão mortas, dando-nos como que um invólucro protetor de dois quilos feito de células cutâneas mortas e das quais diariamente se desprendem milhares de milhões de células, então dificilmente conseguiremos determinar a nossa identidade pela constituição das nossas células.

 

Mas, se descermos  ao nível dos átomos, não vamos obter uma resposta muito diferente. Basta referir que o corpo de um bebé que nasça com quatro quilos tem 400.000.000.000.000.000.000.000.000 átomos, que, no máximo de 650.000 horas se dispersarão, dedicando-se a serem outras coisas no mundo.

Além disso, os átomos comportam-se como que imanes energéticos que captam coisas que se encontrem ao seu redor, ou seja, ao nosso redor, integrando-as no nosso corpo, pelo que se torna difícil estabelecer uma separação entre o nosso corpo e essas coisas. Pelo que se põe o problema de saber onde começa e onde acaba o nosso corpo?

 

Mas, mesmo assim, isso não nos impede de nos definirmos e de assumimo-nos como seres vivos, muito embora não haja um acordo entre a comunidade científica do que é um ser vivo. Ao fim de muitos séculos, lá acabámos por conceder que os animais também o são. E, contudo, apesar de nos termos separado dos chimpanzés há 6 milhões de anos, ainda hoje compartimos com eles 99% da sequência do ADN, com os ratos (100 mil milhões de anos) 90% e com a levedura (1500 milhões de anos) 31%.

 

Mais: o número de bactérias que vivem no nosso corpo, num total de 1000 milhões na boca, 10 milhões nas axilas, 10 milhões na zona inguinal e 750 biliões nos intestinos, é dez vezes superior às nossas próprias células constituintes.

Só o intestino delgado aloja 100 milhões de células bacterianas por mililitro, o intestino grosso 100 mil milhões, entre seis a sete mil espécies diferentes. O peso estimado de todas estas bactérias intestinais ultrapassa um quilo.

A comunidade bacteriana da boca tem também cerca de 600 espécies diferentes. Cada vez que damos um beijo apaixonado trocamos cinco milhões de bactérias. Abençoadas.

 

Dos 25.000 genes contidos nas nossas células, temos mais de 20 vezes genes provenientes das bactérias. Podemos, assim, considerar que a maior parte do nosso corpo nem sequer é “nosso”, mas de um universo de bactérias que vive em cada centímetro dele. Somos mais uma bactéria que um ser humano.

 Há mais organismos diversos que compõem o nosso corpo do que pessoas no mundo. Há mesmo mais organismos no nosso corpo que o número de estrelas que compõe a Via Láctea.

 

Regressemos, brevemente, a outro problema que a constituição por átomos do nosso corpo põe: é que 99,9999999% do volume de um átomo é constituído por espaço vazio. Se tomarmos como analogia de um átomo um estádio de futebol, o núcleo do átomo estaria no centro do relvado e teria o tamanho de uma ervilha, e os eletrões estariam na extremidade da bancada superior, com o tamanho de uma cabeça de alfinete. É isto a matéria de que somos constituídos. Estádios vazios.

 

Convenhamos, portanto, que a nível individual somos pouca coisa, mas será que todos juntos teremos mais importância?

 

Como cada um de nós ocupa uma área de 0,15 metros quadrados, todos os 7.000 milhões de pessoas ocupariam uma área de 1050 quilómetros quadrados, ou seja, caberiam todos no sul de Portugal. Juntinhos, evidentemente. Portanto, também como grupo somos pouca coisa.

 

Então, e o tempo que temos vivido na Terra não conta?

 

Se pegarmos na história do Universo desde o Big Bang e a comprimirmos num só ano, de forma a que o 1 de janeiro fosse a data do Big Bang, a vida só apareceria a 30 de setembro. A 30 de dezembro apareceriam os primeiros primatas. Vinte e um segundos antes meia-noite do 31 de dezembro começaria a humanidade. A invenção da escrita só ocorreria 14 segundos antes da meia-noite e Jesus só nasceria 4 segundos antes da meia-noite.

 

Mas nós conseguimos ver e entender a realidade!

 

O problema é que vemos só 1% do espetro eletromagnético, e só ouvimos 1% do espetro acústico. Os raios X, raios gama, infravermelhos e ultravioletas são totalmente invisíveis para nós. Os nossos olhos apenas detetam o vermelho, o verde e o azul.

E, mesmo assim, grande parte do que vemos, somos nós que o inventamos. Apesar do olho conseguir captar dezenas de megapixéis de informação, não a consegue enviar para o cérebro. Embora em cada segundo o olho possa registar 70 gigabytes de informação, o cérebro é incapaz de processar tal quantidade de informação, tendo de a comprimir (como o JPG), descartando os detalhes que não considerar como relevantes.

É por isso que somos tão atreitos a ter ilusões óticas ou acústicas. Inclusivamente, quando nos observamos ao espelho, aquilo que observamos não somos nós:

 

Para começar, vejo-me com um mil milionésimo segundo de atraso, porque esse é o tempo que o feixe de luz leva em sair da minha cara, chegar ao espelho e regressar aos meus olhos. Mesmo assim, a imagem que vejo é proveniente de uma média de milhares de milhões de funções de onda. Sem dúvida que se parece comigo, mas não é exata”.

 

Mas, pelo menos estaremos conscientes do que vemos!

 

Nem isso. Muito embora os nossos sentidos recebam uns dez milhões de bits por segundo de informação, só conseguimos processar conscientemente entre sete a quarenta bits. E esta capacidade de processamento da mente consciente é inferior 200.000 vezes ao da capacidade de processamento do inconsciente. Para além disso, há que contar com o que é dito ser a divagação da nossa mente (wandering mind), medida em 46%: a maior parte de nós, enquanto estamos a fazer coisas, divagamos pensando em coisas diferentes.

 

Mas somos seres equilibrados!

 

Também não é verdade. O nosso cérebro é propenso a funcionar mal, basta ser sujeito a uma pancada ou a um aumento de temperatura. Durante o decorrer de uma vida, estima-se que quase metade da população virá a sofrer de doenças mentais, da esquizofrenia aos transtornos obsessivo-compulsivos, e ao bipolar, não esquecendo as ansiedades, o pânico, a paranoia, a tristeza, os delírios, as obsessões, a agressividade descontrolada.

Até as nossas recordações não são reflexos do que aconteceu, mas reconstruções de algo que julgamos ter acontecido. Por vezes recordamos até acontecimentos completos e traumáticos que na realidade nunca aconteceram.

 

A nossa lógica está longe de ser impecável porque o cérebro não evoluiu para resolver problemas de lógica, mas para sobreviver num contexto pré-histórico. Forjamos as nossas convicções e crenças apoiados em dados arbitrários e irrelevantes que ficaram ancorados na nossa mente.

A nossa linguagem é um caos: não sabemos falar sem travarmos de vez em quando as palavras, e as orações são muitas vezes ambíguas; os idiomas não são sistemáticos e regulares, produtos de aleatórias combinações léxicas e de tendências sociais.

 

Quanto à personalidade, ela nem sequer é fixa, coerente e individual.

 

É como se fossemos múltiplos atores a representar uma peça de teatro, em que nos vamos adaptando a novas situações. Como dizia Unamuno:

 “Quando duas pessoas se encontram não há duas, mas seis pessoas. Uma é como o próprio acredita que é, a outra como o outro se apercebe que ele é, e a outra como realmente ele é. Multiplicando por dois, teremos seis”.

 

Acresce, ainda, que se na consciência existirem os processos quânticos presentes em toda a matéria, então seremos incapazes de determinar a posição, velocidade e energia de todas as partículas que nos constituem. Ou seja, ficaremos incapazes de predizer o nosso futuro.

Só que, apesar de não sermos capazes de calcular o que iremos fazer dentro de uma hora, isso não significa que tal não esteja determinado pala física, daí que o livre arbítrio possa não ser mais do que uma ilusão cognitiva.

 Provavelmente, todo o nosso comportamento pode ser o resultado da tacada que o Big Bang deu nos nossos neurónios que ainda estão para aí a agitarem-se.

 

Há uma experiência muito interessante, feita em 1985 por Benjamin Libet. Ele pediu a duas pessoas que olhassem para um relógio e anotassem o momento em que decidiam mover um dedo. O momento exato em que a decisão era tomada aparecia no registo eletroencefalográfico. Comparando os tempos, concluía-se que o cérebro tomava a decisão aproximadamente 300 milissegundos antes que a pessoa tomasse consciência dela.

Ou seja, o cérebro tomava decisões sem a participação da consciência. “Os resultados sugeriam que o cérebro sabe o que uma pessoa irá decidir antes da pessoa”.

 

Apesar disto, continuamos convencidos que as nossas decisões são nossas, continuando a inventar toda uma classe de agentes justificativos que rompa com a física que nos circunda. Mas também não vale a pena perder muito tempo com estas questões de sabermos até que ponto é que somos conscientes ou livres, porquanto passamos grande parte da nossa vida a dormir: 122 dias por ano, um terço da nossa vida.

 

Mas, o pior de tudo, é que os átomos do nosso corpo não são nossos.

 

Têm origem numa longínqua estrela de um enorme Universo. O universo visível tem um milhão seiscentos mil milhões de milhões de milhões de quilómetros de comprimento ou 150.000 anos luz, com uma idade aproximada de 13.800 milhões de anos.

Mesmo que o quiséssemos percorrer, nunca chegaríamos ao seu limite, porque como ele se encurva, chegaríamos ao mesmo ponto de partida. Parece que também não tem limites para baixo nem para cima, até porque não há baixo nem cima.

 

 Até o tempo transcorre mais ou menos depressa, em função do lugar onde nos encontremos e da velocidade a que viajamos.

 

Estas assimetrias temporais são mais fáceis de detetar para as grandes velocidades. Os astronautas da Mir EO-3 que permaneceram um ano em órbita à velocidade de 8 km/s, quando chegaram a Terra tinham uma diferença de tempo relativamente aos que permaneceram em terra de 0,01 segundos, o que é insignificante.

Contudo, se um gémeo viajasse a uma velocidade de 0,6 da velocidade da luz até um lugar a seis anos luz de distância, quando regressasse à Terra estaria quatro anos mais novo que o seu irmão gémeo que tinha ficado na Terra. Podemos até afirmar, ainda que seja a nível infinitesimal, que a cauda que se agita de um cão contente, envelhece mais lentamente que o resto do corpo.

 

A própria altitude a que estamos, concorre para esta dessincronização temporal. A uma maior altitude corresponde uma menor gravidade, portanto ficamos sujeitos a uma menor dilatação temporal. Se vivermos 79 anos no último andar do Empire State Building, a 380 metros, perderíamos 0,000104 segundos relativamente a quem vivesse esses anos ao nível do solo, o que seria insignificante. Mas, se o fizéssemos na superfície de Marte, então o tempo perdido seria de três anos.

 

 

 A maior velocidade obtida pela nossa tecnologia é de 250.000 Km/h, da nave Helios 2. Entretanto, estamos a tentar desenvolver a chamada propulsão nuclear por pulso, que basicamente consiste em fazer explodir uma bomba atómica debaixo da nave a cada segundo, o que nos permitirá obter uma velocidade de 5% da velocidade da luz.

Ora, a velocidade da luz leva 4,22 anos a chegar à estrela que está mais próxima de nós, a Próxima Centauri. A Helios 2 levaria 18.000 anos a alcançá-la.

É tão grande a imensidão, que, se pronunciássemos os nomes das centenas de milhões de estrelas que formam a Via Láctea, à razão de um por segundo, levaríamos 4000 anos até chegarmos ao fim. E a Via Láctea faz parte de um conjunto de 140.000 milhões de galáxias, e isto só no universo visível.

 

Quando em 1929 Edwin Hubble descobriu que todas as galáxias se afastavam da Terra e das demais galáxias, tal veio significar que o universo se encontrava em expansão. Só isso, quer queiramos ou não, faz com que nós estejamos continuamente a viajar pelo espaço a velocidades incríveis. A Terra, para além de rodar sobre si mesma à velocidade de 1000 Km/h, descreve uma órbita à volta do Sol a uma velocidade de 107.000 Km/h.

 

 “Se nos formos deitar e dormirmos oito horas, quando acordarmos no dia seguinte, teremos percorrido 800.000 quilómetros”.

 

Por sua vez, o Sol, arrastando com ele a Terra, desloca-se pela Via látea em direção à constelação Virgo à velocidade de 900.000 Km/h, e, por sua vez, esta também se encontra a deslocar a uma velocidade de 1.400.000 Km/h relativamente à grande massa de Aquário.

 

Acrescentemos a tudo isto o facto de só apenas 4% da matéria do universo visível ser aquela matéria a que normalmente nos referimos e de que é formada todas as coisas que conhecemos. Temos depois 23% da chamada matéria negra (invisível) que os físicos intuem que existe, mas que não sabem o que é. O restante 73% é também de ‘outra’ matéria negra, invisível, que também ninguém sabe o que é. Ou seja, a conclusão é que ignoramos o que é 96% da massa/energia do universo.

 

 

 Como é ainda possível considerarmo-nos como o centro do universo?

 

O problema é de que o nada que somos ser tudo o que somos. Da abordagem que fizermos a este enigma dependerá a nossa (in)tranquilidade.

 

Como diz Rui Knopfli, no seu poema “carta ao poeta eugénio evtushenko a propósito de uma suposta autocrítica”:

 

A um poeta corta-se-lhe

a cabeça. E uma cabeça

cortada não dói, mas tem

uma importância danada.”

 

 

 

Adenda: para mais informações, comparações e constatações, procurar em

Brian Cox e Jeff Forshaw, Why Does E=mc2?

Steven Johnson, La Mente de Par en Par.

Robert Kane, Free Will.

David Linden, The Accidental Mind.

Gary Marcus, Kluge.

Daniel Gilbert, “A Wandering Mind Is na Unhappy Mind”.

Jennifer Ackerman, 24 Horas na Vida do seu Corpo.

Michio Kaku, O Futuro da Mente.

Carl Sagan, Os dragões do Éden.

Joel Levy, 100 Analogias Científicas.

Richard Dawkins, O Gene Egoísta.

Tim Spector, Post Darwin.

 

 

 

 

 

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