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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

O "conhecimento" como obstrução ao conhecimento

 

A obstrução provocada pela verdadeira dimensão do que não vemos (mas que julgamos ver) constitui o desconhecimento ideológico.

 

“O que é o assalto a um banco comparado com a fundação de um banco?”, B. Brecht in Ópera dos Três Vinténs.

 

A democracia tal como a entendemos, deixou de ser condição e motor do desenvolvimento económico passando antes a ser um obstáculo.

 

A China é o país capitalista ideal, em que a principal tarefa do Partido comunista é controlar os trabalhadores e impedir a sua auto-organização e mobilização contra a exploração.

 

 

 

 

 

O nosso conhecimento é sempre ideológico, conforme a sociedade em que estivermos inseridos, a época em que vivermos, o meio que frequentarmos, o estrato social a que pertencermos. Daí que ele não seja sempre todo o conhecimento, podendo inclusivamente ser desconhecimento, e até ser verdadeira obstrução ao conhecimento.

 

A essa obstrução ao conhecimento, Jean-Claude Milner, na sua obra L’Arrogance du présent. Regards sur une décennie: 1965-1975, ao criticar a falta de visão da Gauche prolétarienne (principal formação política oriunda do maio de 1968), vai chamar desconhecimento ideológico.

E explica-o do seguinte modo: imaginemos uma sala com uma janela na parede; nessa janela, existe um quadro pintado que a cobre totalmente, impedindo que se veja através dela, mas, em que essa pintura reproduz exatamente o que se veria pela janela caso ela não estivesse tapada. Esta obstrução da verdadeira dimensão do que não vemos (mas que julgamos ver) constitui o desconhecimento ideológico.

 

 

Por exemplo, o nosso “conhecimento” diz-nos que Israel aceita, oficialmente, a solução dos dois Estados para resolver o conflito com a Palestina, sendo a Palestina quem na prática a rejeita com as suas ações constantes contra o Estado israelita.

 

Contudo, quando em 2009 foi dado a conhecer que o governo israelita traçara planos para construir mais 70.000 novas habitações nos colonatos judeus da Margem Ocidental ocupada (o que elevará para mais de 300.000 o número de colonos israelitas instalados em territórios palestinianos), e que 20.000 dessas novas habitações ficarão em colonatos afastados da “linha verde” que separa Israel da Margem Ocidental (ou seja, em zonas que a haver um acordo de paz, Israel nunca as poderá esperar conservar), parece ser lógico concluir que aquilo que Israel pretende é criar no terreno uma situação de fato, que tornará inviável a solução que dizem aceitar.

 

Vejamos também o caso do Museu da Tolerância e Centro Promotor da Dignidade Humana, um velho sonho que Simon Wiesenthal (célebre ‘caçador de nazis’) tinha, para ser construído em Jerusalém, para o qual nunca havia um local disponível.

Finalmente em 2008 foi concedido ao Centro Wiesenthal um terreno para tal fim. Escolhido o arquiteto, Frank Gehry, o grande complexo teria todas aquelas facilidades inerentes, com a missão de promover a civilidade e o respeito entre os membros de todas as confissões.

Só que o terreno escolhido para a construção do museu tinha sido até 1948 o principal cemitério muçulmano de Jerusalém, onde repousavam ossadas que remontavam às cruzadas dos séculos XII e XIII. Apesar do recurso apresentado pela comunidade muçulmana, o Supremo Tribunal não lhe deu provimento.

Ou seja, todo aquele projeto multiconfessional que o Estado de Israel dizia apoiar, tornando Jerusalém um lugar de celebração de tolerância aberto a todos, seria construído ignorando as vítimas subterrâneas da intolerância, numa clara demonstração de que para haver tolerância terá de haver uma certa dose de intolerância.

 

Vejamos ainda aquele outro projeto de desenvolvimento para Jerusalém, também já aprovado por Israel, e que pretende fazer da zona atribuída  uma “bacia sagrada” onde os lugares religiosos de maior significação histórica se poderão apreciar inseridos num vasto conjunto de parques florestais e panoramas grandiosos.

 Trata-se de construir um novo lugar religioso privilegiado, um “espaço público” interconfessional, debaixo da autoridade e controle da proteção de Israel. Para isso, com o fim de conseguirem espaço para o reordenamento da zona, o Estado tem vindo a comprar bens imobiliários palestinos (tudo dentro da legalidade e feito por empresas privadas) que futuramente permitirão a instalação de israelitas na zona oriental de Jerusalém, demolindo também ao mesmo tempo numerosas casas palestinas, que evidentemente se encontravam “não autorizadas”.

 

            No mesmo dia em que era noticiada a construção de uma nova zona residencial em Jerusalém, Hillary Clinton comentava sobre os disparos de rockets a partir de Gaza:

 “É indiscutível que qualquer nação, incluindo Israel, não pode deixar de fazer alguma coisa quando o seu território e a sua população é alvo de ataques de rockets”.

Curiosamente, a mesma teoria não se aplica aos palestinianos pois, enquanto vão sendo diariamente espoliados dos seus territórios da Margem Ocidental, não devem fazer nada.

 

Porque o que acontece quando não há ataques, nem negociações, nem conflitos, é que continua a ser desenvolvido o processo através do qual os israelitas ocupam os territórios palestinianos, construindo novos colonatos, forçando os agricultores a abandonarem as suas terras.

Esta ocupação militar é consolidada com uma “ocupação pela burocracia” através de formulários, requerimentos, títulos de propriedade, autorizações de residência e outras: é assim que os palestinianos precisam de uma autorização formal para se deslocarem com a sua família, para cultivarem as suas próprias terras, para abrirem um poço, para irem para o trabalho, escola ou hospital.

 Vão sendo assim impedidos de viverem ou trabalharem em Jerusalém, ao mesmo tempo que lhes são sucessivamente negadas autorizações de residência.

 

Lentamente, o Estado de Israel está a esvaziar a Margem Ocidental por forma a torná-la “livre de palestinianos”, para que quando chegar a altura a apresentar como uma realidade que teremos de aceitar pois nada mais há a fazer.

 

Há ainda aquela enorme pintura, inserida no muro que Israel construiu a fim de o separar dos territórios palestinos, onde podemos ver uma imagem dos campos que ficam do outro lado, em que a povoação palestiniana existente desapareceu, substituída apenas por natureza, árvores e relvados. Um vazio virgem à espera de ser colonizado. Uma limpeza étnica indolor, colorida e pura.

 

 Por tudo isto, podemos concluir que desde a sua fundação, Israel, embora tenha sempre aceitado as condições de paz propostas pela comunidade internacional, tem também sempre apostado no não-funcionamento dos planos de paz.

Perceber isto, não significa que se mostre qualquer compreensão por quaisquer ações terroristas que se pratiquem nessa região. Todos os que as praticam devem ser condenados. Dos dois lados há corruptos e extremistas que rejeitam a paz.

 

 

 

 

Outro dos nossos “conhecimentos” é o que relaciona a explosão de cenas de violência e barbárie com o terceiro Mundo, nomeadamente com o africano.

 É o que as empresas de “informação” nos têm vindo a transmitir ao longo de decénios. Por exemplo, na revista Time de 5 de junho de 2006, Simon Robinson e Vivienne Walt, no seu artigo “A Guerra mais Mortal do Mundo” (http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,1198921,00.html) vão chamar ao Congo o “coração das trevas” africano, local onde só nos últimos dez anos teriam morrido perto de quatro milhões de pessoas devido à violência política.

 

O problema é que deste a queda de Mobutu, o Congo deixou de existir como Estado unitário, passando antes a ser uma multiplicidade de territórios governados por senhores da guerra locais.

Cada um dos senhores da guerra tem ligações de negócios com uma companhia ou uma firma estrangeira que explora as principais riquezas minerais da zona. As companhias exploram os minérios sem pagarem impostos e os senhores da guerra enriquecem. Quem perde é o povo congolês.

 

Segundo uma investigação das Nações Unidas de 2001, a exploração dos recursos naturais do Congo (os diamantes, o cobre, o cobalto, o ouro e o coltan - columbite-tantalita, de onde se extrai um material ultra resistente, que aparece ficcionado no filme O Exterminador do futuro: as crónicas de Sarah Connor) é feita de maneira “sistemática e sistémica” por senhores da guerra locais, que transformaram as suas tropas em exércitos regulares, e por exércitos estrangeiros, em particular pelos do Uganda e do Ruanda, seguidos de perto pelos do Zimbabwe e Angola.

Só com a venda de coltan, o exército do Ruanda fez 250 milhões de dólares em sete meses. Alguns dos tutsis do Ruanda muito se beneficiaram com este saque, até há uma dezena e meia de anos ter acontecido o seu imenso genocídio.

Em 2008, o governo do Ruanda apresentou documentação que implicava o Presidente Mitterrand neste genocídio por fornecer armamento aos hútus, para que conseguissem derrotar os tutsis suportados pelo Reino Unido, para assim acabar com a influência anglófona na região.

Teria sido interessante que o processo tivesse ido a tribunal para se poder comprovar a cumplicidade das potências ocidentais naquilo que os agentes informativos nos descrevem como “as explosões de barbárie do terceiro Mundo”.

 

É que as causas dessas trevas e explosões de barbárie que se verificam nas selvas congolesas, encontram-se nas luxuosas salas de reuniões dos nossos bancos e das nossas empresas de tecnologia avançada.

 É muito interessante ler a legislação contida no Dodd-Frank Act, aprovada em 2010 para evitar os riscos financeiros da crise de 2008, onde se prevê uma moratória para as empresas americanas que exploram os minérios congoleses evitarem fazê-lo através dos senhores da guerra (https://business-humanrights.org/en/conflict-peace/conflict-minerals/implementation-of-us-dodd-frank-act-rule-on-conflict-minerals-commentaries-guidance-company-actions), e sua atual intenção de revogação por Trump, como consta do Memorando do Presidente dos EUA (https://www.documentcloud.org/documents/3457048-Document-Final.html#document/p1).

 

Como escrevia Brecht na Ópera dos Três Vinténs: “O que é o assalto a um banco comparado com a fundação de um banco?”.

 

 

 

Vejamos agora a que nos conduz o nosso “conhecimento” quando abordamos o problema China.

 

            Segundo este “nosso” conhecimento, perante o desenvolvimento espantoso do capitalismo na China, interrogamo-nos frequentemente sobre quando é que a democracia política, que consideramos como companheira “natural” do capitalismo, aí acontecerá, até porque, segundo esse mesmo nosso conhecimento, o desenvolvimento da China seria muito mais rápido se fosse acompanhado com a democracia.

 

Isto significa estarmos a ver a China como uma distorção ‘despótico-oriental’ do capitalismo, esquecendo-nos, por exemplo, que no início da era moderna todos os Estados europeus não eram democráticos.

É esquecermo-nos que, sem contar com as colónias, na Europa as condições para o desenvolvimento do capitalismo assentaram sempre em brutais ditaduras do Estado, legalizando expropriações sistemáticas das populações (do “commom people”, as pessoas vulgares ou comuns como as classificam os ingleses), forçando os seus membros a serem proletários e disciplinando-os para o exercício de novas tarefas.

Mais recentemente, é esquecermo-nos que na transição do socialismo soviético para a economia de mercado capitalista, a Rússia, ao adotar uma “terapia de choque” mergulhando de cabeça na democracia e no capitalismo, em vez da “abundância” prometida entrou numa bancarrota, com consequentes percas da segurança e bem-estar limitado, e grande destruição social.

 

Ou seja, não há uma transição automática ou em curto espaço de tempo, que não provoque grandes sofrimentos ao povo. Note-se que o mesmo se tem pretendido fazer na Europa atual, onde a transição do estado social para a nova economia global de mercado livre implica renúncias dolorosas, menor segurança, menor proteção social.

 

Já a China, ao usar um poder autoritário do Estado sem quaisquer entraves, controlou assim os custos da transição para o capitalismo, evitando o caos. Ou seja, a combinação de capitalismo e de comunismo foi essencial para o tão rápido desenvolvimento da China, ou, dito de outro modo, a China desenvolveu-se tão rapidamente não a despeito da dominação comunista autoritária, mas graças a ela.

 

 De certa forma, a China é mesmo o país capitalista ideal, em que a principal tarefa do Partido comunista é controlar os trabalhadores e impedir a sua auto-organização e mobilização contra a exploração.

É, pois, bem possível que o capitalismo autoritário da China não seja uma simples recordação do nosso passado, uma repetição do processo de acumulação capitalista da Europa dos séculos XVI ao XVIII, mas um sinal do futuro.

 A ser assim, então a democracia tal como a entendemos, deixou de ser condição e motor do desenvolvimento económico passando antes a ser um obstáculo. Uma “força de bloqueio”.

 

Há, contudo, um ‘pequeno’ problema muito interessante, citado por S. Zizek (Living in the End Times). Quando John Thornhill, jornalista do Financial Times visitou a China pediu para ver o lugar mais pobre e menos desenvolvido. Levaram-no a uma pequena aldeia do Norte perto da Mongólia. Verificou que só lá habitavam velhos e crianças, pois os outros tinham ido para as cidades trabalharem, enviando depois dinheiro para apoiar as suas famílias, que por isso dispunham de aparelhos de televisão, leitores de DVD, etc.

As autoridades mantinham a funcionar serviços de saúde, educação e outros, dando resposta às necessidades básicas. Perguntando a uma autoridade local a razão pela qual o governo mantinha todos aqueles serviços em vez de deixar a aldeia desaparecer obteve a seguinte resposta:

 

 “Não podemos fazer uma coisa dessas. Somos comunistas, temos de proteger o povo!”.

 

Não se trata aqui de verniz ideológico. O que acontece é que pelo simples fato de as autoridades comunistas não serem ‘democraticamente’ legitimadas (eleições ‘livres’ como as ocidentais), sabem que têm de levar em consideração as necessidades populares para compensarem os efeitos mais desastrosos do desenvolvimento capitalista, com a aplicação de um mínimo de medidas sociais.

 

Ou seja, o que as eleições democráticas fazem é dar ao governo uma legitimação que o torna muito menos permeável às pressões dos movimentos sociais.

 

É por isto que é vulgar ouvirmos os ‘nossos’ governantes desvalorizarem esses movimentos sociais, considerando-os como uma minoria “extremista” desfasada da maioria governamental. “Quem são vocês para nos criticarem? Somos um governo eleito, podemos fazer o que quisermos!”.

E vai ser exatamente neste importante campo da legitimação do comportamento dos governos para com os seus ‘súbditos’, que tudo se irá jogar.

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