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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

"Lá vamos cantando e rindo ..."

 “Quando nosso senhor e mestre Jesus Cristo disse “fazei penitência”, o que quis dizer foi que toda a vida dos fiéis fosse dedicada à penitência”, M. Lutero, 1ª das 95 teses.

Todos, salvo os idiotas, sabem que se devem manter pobres as classes baixas, caso contrário nunca trabalhariam”, Arthur Young.

“Ideais? O bem comum? Não creio que essas coisas sejam relevantes. Não saberia como trabalhar com tudo isso”, J. Buchatnan, economista de Margaret Thatcher, em The Trap, Adam Curtis no You Tube.

“Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim”, do hino da Mocidade Portuguesa.

 

 

Uma das principais teses de Freud é a refere que os estados mais arcaicos do Ego não excluem os mais recentes, podendo até coexistir com eles, o que significa que o passado nunca é completamente destruído.

Para validar esta tese apoia-se no desenvolvimento do embrião onde cada fase parece reproduzir as fases anteriores do desenvolvimento da espécie.

Teríamos assim como que um gene histórico, onde todo o desenvolvimento da humanidade tivesse ficado registado, o que certamente iria poupar muito trabalho na transmissão de conhecimentos e na educação dos seres humanos. Sem querer entrar na discussão sobre a aquisição e transmissão do conhecimento, quer ela se faça por transmissão genética, por transmissão social, ou até por computadores,  o problema mais importante é o de se saber qual é a ‘verdade’ transmitida.

Por exemplo, para a geração atual, o individualismo, o narcisismo, o emprego precário, as relações precárias, aparecem como ‘valores’ naturais que assumem como fazendo parte desta sociedade, a única que conhecem, e que julgam terem sempre existido. Esta é a ‘verdade’ transmitida. Mas será essa mesmo a ‘verdade’?

 

Vejamos, por exemplo, o que se passa com a ‘ciência’ dominadora do ‘nosso’ mundo: a economia. Ela é vista como sendo uma ciência exata, que sempre existiu nesta forma e para a qual não existem grandes escapatórias: só há uma única maneira de fazer ‘as coisas’. Como as mantas curtas, se se puxar de um lado, vai-se destapar do outro.

E isto apesar dos enormes falhanços que lhe são imputados, da sua capacidade preditiva ser irrisóri e do abuso mais que suspeito que faz da indução.

Vivemos numa civilização em que se admite a liberdade de culto, mas que não permite que não se acredite na economia. Dizem-nos que a economia é o real, é aquilo que se vê (ela é de fato o real, aquilo que não querem que se veja).

Vivemos numa civilização que considera como absurda e aleatória a observação que os romanos faziam do fígado dos animais para se inteirarem como iria decorrer esse dia, mas que, contudo, ausculta diariamente as cotações da Bolsa ou vive pendente de um sinal do presidente do BCE, tentando aí descortinar algum indício de prosperidade futura.

A atitude do homem de hoje para com a economia, perante as catástrofes e mudanças do sistema, é idêntica à de qualquer crente daqueles cultos antigos: as crises são castigos naturais, catástrofes induzidas pelos nossos pecados (nomeadamente a avareza, a preguiça, o viver acima das possibilidades, o não acreditar nos deuses).

Claro que da ira e zanga dos deuses, os sacerdotes nunca têm culpa, tal como os economistas nunca têm culpa do estado da economia.

Ciência ou crença, exata ou não, o importante é verificarmos que a economia esteve sempre ao serviço dos poderosos na sua exploração dos mais fracos. As draconianas e inflexíveis leis da economia só funcionam para serem aplicadas aos outros, especialmente para com aqueles que são mais pobres e para com aqueles que nada entendem de economia.

 

Muitas das ideias económicas que nos aparecem como sendo naturais e comuns a todas as sociedades e que nos querem fazer crer que sempre tenham existido, não o são.

 

Por exemplo, a ideia que nos é tão cara da acumulação de bens. Em muitas sociedades ela era mesmo proibida, pelo que quando morria o rei todo o seu tesouro era com ele enterrado, garantindo assim o equilíbrio social e patrimonial entre os seus descendentes.

 

Outra ideia tida como imutável é a de sempre ter havido necessidade de trabalharmos todos os dias da nossa vida. Esta é uma ideia que nos foi imposta há pouco mais de trezentos anos. Por exemplo: para as culturas clássicas antigas, todo o trabalho que houvesse para fazer seria executado por escravos. Os gregos associavam mesmo o trabalho a fadiga, angústia, batalha, dor, sofrimento, sendo, portanto, uma atividade pouco gratificante e com pouca dignidade. Para eles, energúmeno era quem trabalhava, quem produzia obra (ergon).

Este sistema em que o trabalho era feito por escravos esteve na origem dos maiores abusos e indignidades infligidas a outros seres humanos ao longo de milhares de anos, iniquidades e abusos que serviram de húmus para o aparecimento do Cristianismo, a tal ponto que muitos o chamavam depreciativamente como sendo a “religião dos escravos”.

 

Outra ideia ‘feita’: a de que em todas as sociedades foram sempre valorizados os empresários e os homens de ação, por criaram emprego e riqueza.

Sem irmos muito longe, a Idade Média cristã, tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava, o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges dedicados profissionalmente a serem pobres).

Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os demais pudessem exercer a virtude da caridade.

Esta imagem da época que era a do pobre submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades, dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em pessoas que se deslocam.

A imagem é agora a do sobrevivente que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder, descobrindo o valor dos seus braços.

A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se, pressionarem, revoltarem-se.

A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.

Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o da responsabilidade social da república para com os pobres, e o da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de Caridade.

Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único responsável por determinar como viria a ser a sua vida.

O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.

Estava esvaziado o conteúdo da ideia da caridade até então predominante.

 

Os séculos XVI a XVIII vão ainda assistir em toda a Europa ao aparecimento dos cercados (enclosures) das terras do rei e dos senhores.

À época, para além das terras senhoriais, existiam muitas terras comunais que eram utilizadas como reserva para o autoabastecimento dos aldeões nos tempos de penúria. Os cercados acabaram com quase todas estas terras, convertendo-as em pasto para as ovelhas, tendo em vista as crescentes exportações de lã inglesa.

Era muito mais importante para a coroa (mais impostos), para os comerciantes (mais divisas) e para os senhores (o império) manter vivas as ovelhas.

Como resultado, muitos dos jornaleiros que subsistiam graças às terras comunais, foram obrigados a deslocarem-se para as cidades, aumentando o número dos pobres.

Isabel I publica em 1601 a primeira das leis dos pobres, Poors Law, criando ao mesmo tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.

Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho, onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do aparecimento das grandes empresas privadas.

 

Durante este percurso vimos como a pobreza mudou de estatuto, como o Estado se tornou cada vez mais forte colocando cada um no seu local, e assistimos ainda ao aparecimento da espantosa invenção que foi o trabalho assalariado.

 

Os séculos XVII e XVIII prosseguem nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:

 

“A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.

 

“Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.

 

“Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.

 

 

“Todos, salvo os idiotas, sabem que se devem manter pobres as classes baixas, caso contrário nunca trabalhariam”, Arthur Young.

 

Até Jeremy Bentham (1748 – 1832), um dos grandes filósofos ingleses, fundador da doutrina do utilitarismo, um progressista da época, adepto da independência americana e da Revolução francesa, se preocupou com o controle da sociedade, propondo o seu célebre ‘panótico’.

Dado que as prisões existentes consistiam numa série de calabouços, em que os castigos mais vulgares eram a escuridão e a incomunicação (‘solitária’), obrigando a um sem número de guardas, Bentham submeteu ao rei Jorge III o plano de uma prisão na qual se conseguiriam vigiar todos os reclusos a partir apenas de um só ponto.

Segundo Bentham, o preso, ao saber-se permanentemente vigiado, nem sequer tentaria fugir, facilitando o trabalho do vigilante.

Previa, também, que este seu plano se pudesse vir a aplicar às workhouses e às fábricas:

 

 

‘Apenas uma única autoridade deve ser encarregue de administrar os organismos dos pobres em todo o Sul de Inglaterra, devendo apenas uma única fundação ficar encarregue dos gastos … Esta autoridade revestirá a forma de uma sociedade por ações, que poderá ser denominada de Companhia Nacional de Caridade’.

 

Nasce assim, das boas intenções de que o inferno está cheio, a ´fábrica-prisão’ onde se reúne repressão e exploração. Ou seja, o trabalho, como os modernos o entendem, nasce como castigo, e o lugar de trabalho, como prisão. Utopia ou distopia em que os acionistas e carcereiros se juntam com vista ao nascimento do trabalho como sistema de opressão económico.

 

No livro Rebels Against the Future, eis o que um trabalhador da indústria de lã já dizia em 1840:

 

‘Temos de trabalhar de catorze a dezasseis horas diárias e apesar de todo esse esforço não somos capazes de obter os meios de vida suficientes para subsistir. Quando pela noite deixamos o trabalho, a nossa capacidade sensorial encontra-se extenuada pela fadiga … Não temos tempo para sermos sensatos, nem tempo livre para sermos bons: estamos deprimidos, afundados, castrados, enervados pelo esforço, incapazes de virtude, sem forças para nada que se suponha vir a ser benéfico para nós mesmos quer no presente quer em qualquer período futuro’.

 

O filósofo contemporâneo Giorgio Agamben escreve:

 

O homem de hoje chega à noite a casa extenuado por um sem número de acontecimentos – divertidos ou aborrecidos, insólitos ou comuns, atrozes ou prazenteiros - sem que nenhum deles se tenha convertido em experiência. Essa incapacidade para se traduzir em experiência é o que hoje torna insuportável como nunca a existência quotidiana’.

 

Há questões que têm de ser muito bem explicadas. Por exemplo: para levar uma vida simples, um caçador do Paleolítico necessitava de despender três horas de atividade. Hoje, para uma mesma vida simples, necessitamos de trabalhar dez a doze horas. Porquê?

Que sentido tem, pois, o trabalho? Nenhum. O objetivo do trabalho é reproduzir-se a si mesmo. Trabalha-se para se continuar a trabalhar.

 

A RAND Corporation era uma empresa americana que nos anos cinquenta empregava os melhores cientistas existentes, especialmente matemáticos. A sua principal finalidade era a de tentar prever como seria o comportamento das pessoas numa guerra contra a URSS.

Jogos de guerra, não como divertimento, mas como modelos matemáticos que pudessem inferir quais as regras possíveis do comportamento humano, antes e depois da guerra, por forma a que a guerra comportamental fosse ganha.

O matemático John F. Nash (interpretado por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir, aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda a confiança em si depositada e a palavra dada.

Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de cada um.

A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido e famoso ‘equilíbrio de Nash’.

 

Ficou assim demonstrado que é possível, e até desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados, uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu próprio egoísmo, sem leis nem polícias. Eis de novo, o velho panótico de Bentham ressuscitado.

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