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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Há massacres e há massacres

 

 Há massacres que, por razões desconhecidas, são considerados mais importantes que outros.

“O Massacre num santuário”, Robert Fisk.

“Para provarem aquilo que nós provámos”.

 

Ao longo dos tempos sempre houve massacres. Não vale a pena estar a enumerá-los, porquanto tal poderia conduzir-nos à conclusão que a civilização humana não tem passado de uma sucessão de bem-sucedidos massacres, o que, ao que dizem, parece não ser verdade.

Há, contudo, massacres que, por razões desconhecidas, têm sido considerados mais importantes que outros. Dito de outra forma, há massacres que perduraram mais no chamado “inconsciente coletivo”, ou que impressionaram mais certos indivíduos ou conjunto de indivíduos, e que vieram a ter consequências imprevisíveis.

 

A Human Rights Watch, publicou em setembro de 1997, Vol. 9, No. 8(E), um relatório (https://www.hrw.org/reports/1997/isrleb/Isrleb.htm) sobre a Operação “Vinhas da Ira” (Operation “Grapes of Wrath”) conduzida pelas Força de Defesa de Israel (FDI) no Líbano, entre 11 e 27 de abril de 1966.

Muito embora a operação tenha sido entre as forças armadas israelitas (FDI) e as guerrilhas libaneses, e muito embora Israel não tivesse ratificado o Protocolo Adicional à da Convenção de Genebra de 12 de agosto de 1949 nem o Protocolo I de 8 de junho de 1977 referente à proteção de vítimas em conflitos armados internacionais, que contêm, dentro dos princípios legais internacionalmente aceites, as regras que permitem fazer a distinção entre combatentes e civis, há, para além de tudo isso,  leis humanitárias que são usualmente aceites e aplicadas a todas as partes em conflito.

É assim, que mesmo não respeitando grande parte das leis do Protocolo I que conferem imunidade e proteção para com os civis, o Exército de Israel avisava, nem que fosse com uma antecedência mínima, sobre ações que iria desenvolver, de forma a permitir que os residentes do território a bombardear pudessem retirar-se dele. Exemplo:

 

 “Face às continuadas ações terroristas do Hezbollah, o Exército Israelita irá intensificar a atividade contra os terroristas a partir de amanhã, 14 de abril 1996. Quem permanecer nas 45 vilas a seguir indicadas (…) será considerado como sendo terrorista, bem como todo os que com eles estiverem”.

 

Contudo, a 18 de abril, o Exército de Israel lançou, sem qualquer prévio aviso, uma barragem de artilharia com bombas de fragmentação sobre um campo de refugiados sob proteção das forças das Nações Unidas, que se traduziu em mais de uma centena de mortos e de inúmeros feridos.

Robert Fisk, debaixo do título “Massacre num santuário”, (http://www.independent.co.uk/news/massacre-in-sanctuary-1305571.html) descreveu-o assim no jornal diário inglês Independent:

 

 “Qana, sul do Líbano – Foi um massacre. Desde Sabra e Chatila que não via tantos inocentes serem massacrados assim. Os refugiados libaneses, mulheres, crianças e homens jaziam em pedaços, mãos e braços amputados, sem cabeças ou desventrados. Mais de uma centena deles. Um bebé jazia sem cabeça. As bombas israelitas caíram sobre eles que se julgavam a salvo por estarem num campo de refugiados sobre a proteção das Nações Unidas e de todo o mundo. Tal como os muçulmanos de Srebrenica, os muçulmanos de Qana estavam enganados.

Frente ao edifício em chamas do comando do batalhão de Fiji das NU, uma rapariga abraçada a um corpo de um homem de cabelos grisalhos, balançando-o para a frente e para trás, ajoelhada, chorava e gritava ajoelhada vezes sem fim: “Meu pai, meu pai”. Um soldado das NU de Fiji, de pé no meio daquele mar de corpos, segurava, sem dizer qualquer palavra, o corpo de uma criança sem cabeça.

“Os israelitas sabiam que estávamos aqui. Este tem sido há 18 anos o local do comando do batalhão das NU. Eles sabiam que nós tínhamos aqui 600 refugiados.”

Os edifícios das NU constavam dos mapas militares israelitas. Estavam assinalados com grandes placas indicativas e mantinham-se iluminados durante a noite.”

 

A Human Rights Watch considerou este ataque uma violação das leis humanitárias internacionalmente aceites. Segundo o seu relatório:

 

 “Israel não cumpriu as suas obrigações na conduta das suas operações militares, ao não tomar as devidas precauções para poupar a população civil nem para evitar ou minimizar fatalidades civis. Em primeiro lugar porque a barragem de artilharia foi feita sem os usuais avisos prévios que as FDI costumavam dar sempre que os ataques se viessem a verificar em locais perto das posições ocupadas pelos soldados das NU (neste caso das United Nations Interim Force in Lebanon – UNIFIL). Em segundo lugar, porque o ataque continuou mesmo depois da UNIFIL ter contactado e notificado as forças israelitas de que a base das NU estava a ser atingida. Em terceiro lugar, e mais surpreendente, porque Israel assegurou que não tinha conhecimento que estavam centenas de civis na base, e, no entanto, utilizou um tipo de munição (bombas de fragmentação) com vista a maximizar os ferimentos em pessoas.”

 

Uma investigação da Amnistia Internacional concluiu que “as FDI atacaram intencionalmente o aquartelamento das NU, apesar de não serem claros os motivos de tal ação”.

As NU também concluíram que “é difícil de acreditar que o bombardeamento do quartel das NU tenha sido resultante de uma grande falha técnica e/ou de erros de procedimento.”

 

Os EUA não gostaram que Boutros Boutros-Ghali, então Secretário Geral das Nações Unidas, tivesse decidido mandar publicar esta investigação das NU. Na votação no Conselho de Segurança das NU para a eleição para o segundo mandato, os EUA votaram contra a recondução de Boutros-Ghali, que foi reconduzido por 14-1.  O único voto contra foi dos EUA.

Julgo que muitos poucos no Ocidente se lembrarão deste massacre de Qana. Mais um a acrescentar à tal longa lista, e rapidamente esquecido.

 

Quem o não esqueceu, sabe-se lá porquê, foi um tal de Osama bin Laden, que em 1996, na declaração de guerra aos EUA (que podemos consultar em Compilation of Usama bin Ladin Statements 1994 – Janeiro 2004 no site http://fas.org/irp/world/para/ubl-fbis.pdf) vai citar especificamente Qana como constituindo parte da sua motivação:

 

Não deve ser escondido de vocês o que o povo do Islão sofreu pela agressão, iniquidade e injustiça que lhes foi imposta pela aliança de Sionistas e Cruzados […] Os horríveis retratos do massacre de Qana, no Líbano, ainda se conservam frescos na nossa memória.”

 

Bin Laden vai ainda citar Qana, pelo menos mais umas quatro vezes. Para ele, o seu objetivo era levar os americanos a “provarem aquilo que nós provámos”.

 

Há, portanto, massacres e massacres. Este “pequeno” massacre teve, no entanto, consequências totalmente imprevisíveis, tendo contribuído para alterar radicalmente, ou clarificar, o mundo em que vivemos, presente e futuro.

 

 

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