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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Documentos dum tempo ausente (1)

Jura, perjura, mas não reveles o segredo!”, Prisciliano.

"Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica", do Credo.

 

A Razão não nos impede de sonhar, diz-nos apenas que o sonho não é parte que a razão possa conhecer. Pela razão podemos concluir que não há movimento sem tempo. Assim, da mesma forma que Heraclito concebeu o movimento imóvel, o movimento absoluto, também lhe poderemos fazer corresponder um tempo imóvel, um tempo absoluto. Mas poderemos também pensar num tempo em que não haja tempo, em que o tempo se ausente, um tempo sem tempo onde esteja inscrito todo o tempo para todo o tempo. Nesse ‘local’ onde o tempo está ausente, encontraremos certamente inscritos alguns escritos para sempre do tempo ausente. Três deles serão aqueles que aqui vos proponho reproduzir.


1. O Credo


Desde cedo, o Cristianismo fez a sua entrada na península, talvez ainda no tempo dos apóstolos. O que sabemos pelo certo é que o primeiro concílio ibérico teve lugar entre 300 e 304 em Elvira, onde se reuniram mais de trinta e seis episcopais, o que atesta bem já da expansão e estruturação do cristianismo na península, especialmente tendo em conta que ele se realizou entre 303 a 311, que foram os anos das maiores perseguições aos cristãos, ordenadas pelo Imperador Diocleciano.
Os concílios, feitos a vários níveis hierárquicos, serviam essencialmente para resolver questões relacionadas com a pureza ortodoxa da religião e da fé, “para evitar que cada um dos presentes trabalhe de forma distinta nas suas igrejas”, onde se debatiam os dogmas religiosos e as correntes heterodoxas (as heresias), onde se julgavam os bispos e o clero em geral, por ações e queixas apresentadas mesmo por paroquianos. Não existindo carreiras de transporte, hotéis, serviço de correios, telefone, etc., a única forma para se decidir algo em conjunto exigia a presença conjunta num mesmo local, o que implicava quase sempre uma deslocação demorada, difícil e perigosa. É correto afirmar que a principal missão dos concílios era preparar o combate às heresias, que para além de preconizarem desvios ao dogma instituído, podiam provocar cismas graves no interior da Igreja. Com fins idênticos, embora com outros meios, temos hoje a versão económica dos ‘concílios’ de Davos.


A propagação das heresias fazia-se normalmente pelos caminhos das peregrinações (a internet da altura). Os peregrinos que partiam em busca da Terra Santa regressavam com relíquias sagradas, obras literárias, filosóficas, teológicas, nem sempre ortodoxas, influências de contactos com personagens e culturas greco-orientais, algumas nitidamente heréticas.


Uma das heresias mais expandida era o Arianismo, doutrina de Ário de Alexandria (c. 250 – c. 336). Embora compartilhasse uma teologia trinitária, negava a identidade substancial das três Pessoas, considerando apenas que eram semelhantes. Para Ario, quer o Filho quer o Espírito Santo tinham substâncias diferentes do Pai: o Filho fora criado por Deus antes do tempo e da criação do mundo a partir do nada, por um ato de vontade divina. Assim, ao criá-lo, o Pai não lhe dava a sua natureza, visto que se o fizesse diminuir-se-ia pela perda de algo. E da mesma forma como Deus cria o Filho/ o Verbo, cria também o Espírito Santo, o mundo e os entes. Daqui conclui que se o Filho não tem a mesma natureza do Pai, então não é verdadeiro Deus, mas uma criatura entre as outras, sendo apenas um exemplo moral; e ao encarnar num corpo, sem o intermédio da alma, tem apenas uma natureza divina. Cristo encontra-se portanto, perfeitamente subordinado ao Pai, sendo Filho por adoção. Logicamente também não crê na virgindade de Maria, nem na linhagem divina de Jesus.

 

Outra das heresias, o Origenismo, foi trazida para a Península por dois irmãos de Braga, os Avitos, após as peregrinações que efetuaram a Roma e à Terra Santa. Doutrina preconizada por Orígenes (c. 185 – c. 254), um dos primeiros teólogos cristãos, nascido em Alexandria em 185 e falecido em Tiro em 254, e segundo a qual Deus criou toda a eternidade, sendo Cristo ou o Verbo eternamente gerado do Pai, mantendo com ele uma relação de subordinação. O mundo inicialmente criado por Deus era um mundo espiritual, habitado por espíritos, incluindo as almas humanas. Como esses espíritos eram livres, usando dessa liberdade, uns permaneceram bons e outros pecaram. Os primeiros são os anjos, os segundos foram castigados e encerrados em corpos invisíveis (os demónios) e em corpos visíveis (almas humanas). Como Deus é bom, pretende que todos regressem ao estado inicial, o que só será possível após um longo período de purificação. A redenção dos espíritos caídos em pecado é feita por Cristo que se une a uma alma virgem de pecado e, por ela, a um corpo humano.


Outra heresia importante, e esta oriunda da Galiza ou da Lusitânia, foi o Priscilianismo. A doutrina de Prisciliano (345 – 385) negava a Trindade divina, negava a criação do mundo, negava o nascimento de Cristo, negava a sua carnalidade, negava a ressurreição, condenava o matrimónio, abstinham-se de comer carnes das aves e outros animais, e acreditavam na astrologia e matemáticas como algo que se encontrava para além da Divina Trindade. Afirmava ainda que fora o Pai e não o Filho que sofrera na cruz e que a alma humana era uma parcela da divindade que fora possuída pelos espíritos do mal e metida à força no corpo.
O Priscilianismo na sua explicação do mundo reconhecia a existência de dois princípios únicos e iguais em luta constante, o princípio do Mal ou das Trevas, e o princípio do Bem ou da Luz. Embora considerasse Deus como força perfeita, princípio dos princípios, vai colocar ao seu lado a força do Mal. Considerava que o mundo e a matéria tivessem sido  criados pelo princípio do Mal, como criação de Satã, sendo habitados pelo Mal, e que o mundo espiritual, o mundo do Bem, fora criado por Deus. Assim sendo, toda a matériaseria oriunda de uma criação maléfica, não podendo ser reconduzida ao princípio do Bem: a matéria e o Bem são substâncias que se rejeitavam mutuamente.


Segundo estes princípios, o Mal tem, tal como o Bem, capacidade de criar a partir do nada, havendo portanto uma equiparação do Mal ao Bem. O princípio do Mal é também o de um ser espiritual com poder criador, mas que não fora criado por Deus, tendo sua origem sido o caos e as trevas. Assim, é autossuficiente, basta-se a si mesmo. Sendo ele que cria a matéria, esta será essencialmente má. O corpo sendo matéria, será também mau: é o cárcere da alma. E explicam: as almas habitavam um lugar celestial, mas porque pecaram, foram conquistadas pelo império do Mal, metidas por castigo nos corpos materiais. Cabe a Cristo resgatar as almas, por isso desce à terra. Mas Cristo não pode ter natureza humana, o seu corpo não passa de ilusão, de aparência ou fantasma, pois não poderia ter nada a ver com a matéria criação do Mal.
Esta negação da materialidade de Cristo vem contrariar a doutrina católica da Encarnação, da Ressurreição de Cristo, e da ressurreição final da carne.
O ascetismo dos Priscilianos é o processo que utilizam para se libertarem da matéria e da ascensão para Deus. Pelas mesmas razões (a carne é má), condenam o matrimónio, aconselham a total abstinência sexual, são contra a geração de crianças (as crianças no ventre materno são obra demoníaca), e contra a ingestão de carne por ser alimento impuro.


Mas, porque era considerado o Priscilianismo assim tão perigoso para a Igreja? Fundamentalmente porque se pretendia constituir como um conhecimento que tinha como finalidade fornecer uma explicação total do mundo, do homem e de Deus, por processos racionais ou extrarracionais. Ou seja, o Priscilianismo era um gnosticismo ao considerar que o homem era capaz de atingir, por si só, pela racionalidade, a divindade.
Curiosamente, na obra escrita por Prisciliano, nada se encontra de heterodoxia, sendo até profundamente ortodoxa. Há quem diga que tal não passava de uma máscara para as atividades que desenvolvia. É dele o lema “Jura, perjura, mas não reveles o segredo!”. Outros dizem que como ele se dirigia a um público rude, gente sem instrução, era preciso recorrer à alegoria e à parábola, num certo desvio das palavras das Escrituras, para que a pudessem entender.
Seja como for, as suas pregações chamaram a atenção da Igreja, tendo Prisciliano e dois bispos seus seguidores sido condenados no concílio de Saragoça em 380. O que de nada serviu pois estes bispos, logo de seguida, elegeram Prisciliano, que era leigo, para bispo de Ávila!
Apresentada queixa ao Imperador, este decreta a expulsão de Prisciliano da cátedra episcopal. Prisciliano resolve ir a Roma para se defender da acusação. Durante o longo trajeto, vai convertendo grande número de crentes. A fama de práticas dionisíacas e bacanais durante os seus ensinamentos precederam a sua chegada a Roma. O Papa recusa recebê-lo, mas Prisciliano suborna um chanceler imperial que lhe dá a confirmação do bispado de Ávila. O Papado reage e consegue que o Imperador Máximo o leve a tribunal, onde é acusado, não de heresia, mas de práticas mágicas e atentados ao pudor: é condenado à morte por decapitação juntamente com alguns dos seus companheiros. Contrariamente à expectativa da Igreja, essa morte vai convertê-lo num mártir para a Península, impulsionando o desenvolvimento e enraizamento do Priscilianismo.

 

Em 325 é realizado o primeiro grande Concílio da Igreja, o Concílio de Niceia, que é presidido pelo Imperador Constantino, recém-convertido ao cristianismo e que via no monoteísmo cristão uma indicação divina justificativa do seu cargo imperial, pelo que havia que acabar com a dissidência ariana dentro da Igreja para que a Igreja pudesse ser forte e una. Era nessa altura Papa Silvestre I, tendo sido Hossius, bispo de Córdova, o principal organizador do concílio.
Para os conciliares, assoberbados pelas heresias que cada vez surgiam em maior número, tratava-se de conseguir produzir um documento normativo que acabasse de vez com quaisquer dúvidas sobre o presente e futuro do que era ser cristão, assentes no conceito teológico fundamental de se considerar a identidade das três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) como sendo a “mesma substância”. Assim, o Filho não estaria subordinado ao Pai, sendo da mesma substância. O Verbo não seria criado, mas gerado e consubstancial ao Pai. Cristo teria natureza humana, não sendo um mero exemplo moral, pois tal comprometeria o plano divino da salvação.
Do Concílio de Niceia vão sair o que se considera serem a partir daí, as verdades dogmáticas da Igreja, expressando-as através de um credo, ainda hoje recitado pelos católicos, e que resume toda a doutrina:

 

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai.
E de novo há-de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho e com o Pai é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas.
Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica.
Professo um só batismo para a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir. Ámen.”

 

Independentemente do seu valor de crença e expressão religiosa que cada um lhe queira atribuir, trata-se de um documento excecional de síntese, onde se reúne de uma forma sucinta e clara toda uma doutrina. É neste sentido um manifesto único e sem igual, que figurará para sempre no tempo ausente.

 

 

 

 

 

 

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