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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Documentos de um tempo ausente (2)

Demorar tempo demais a fazer justiça, é recusá-la
Papá, porque é que os brancos tratam tão mal as pessoas de cor?”, M. Luther King.
Quem se esquecerá que éramos tratados por “tu”, não por sermos considerados como amigos, mas porque o “vós” estava reservado apenas para os Brancos?”, Patrice Lumumba.


2. “Carta da Prisão de Birmingham” de Martin Luther King.

 

Embora o discurso de Martin Luther King sobre o sonho que teve (“I have a dream”) seja a sua peça mais conhecida, não é contudo, o seu e pronunciamento mais importante sob o ponto de vista da perceção social do momento oportuno. É esta “Carta da Prisão de Birmingham” que ele escreve em 1963 que vai, meses depois, desencadear a célebre Marcha sobre Washington:

Aprendemos pela nossa dolorosa experiência que o opressor nunca concede voluntariamente a liberdade àqueles que oprime. Os oprimidos são obrigados a reclamá-la. Francamente, nunca estive envolvido numa campanha de ação direta que parecesse “oportuna” aos que nunca sofreram do excesso de segregação. Há anos que ouço dizer: “Esperem!”, e esta palavra soa aos ouvidos de um negro com uma familiaridade lancinante. Este famoso “esperem” foi quase sempre sinónimo de “nunca”. Tem sido como que um tranquilizante para a gestação, que nos liberta momentaneamente do stress emocional, para engendrar depois uma criança doente, enformada de frustração. Assim chegamos à conclusão, como diz um dos nossos distintos juristas, que “demorar tempo demais a fazer justiça, é recusá-la”.
Há mais de trezentos e quarenta anos que esperamos para poder usufruir dos nossos direitos constitucionais e dos simples direitos humanos que Deus nos deu. Nações da África e da Ásia caminham a velocidade estonteante para a sua independência política, enquanto nós ainda caminhamos a passo de tartaruga para a conquista do direito de beber uma chávena de café ao balcão de um snack-bar da esquina. Para os que nunca sentiram os dardos acerados da segregação, talvez seja fácil dizer: “Esperem”. Mas quando a populaça cheia de ódio enforca o vosso pai e a vossa mãe e afoga os vossos irmãos e irmãs ao sabor da sua fantasia; quando polícias medonhos, com a injúria na boca, brutalizam e por vezes até matam os vossos semelhantes com toda a impunidade; quando a imensa maioria dos vossos vinte milhões de irmãos negros vive esmagada pela miséria no meio de uma sociedade opulenta; quando as palavras vos faltam subitamente e começais a gaguejar ao procurardes explicar à vossa filha de seis anos porque não pode ir ao novo parque de atrações sobre o qual acabou de ver uma reportagem na televisão e quando os seus pequeninos olhos se marejam de lágrimas quando lhe explicais que esse parque (Funtown) é proibido às crianças de cor; quando as nuvens sombrias de um complexo de inferioridade tomam forma no seu espírito infantil e a sua pequena personalidade se altera ao desenvolver um rancor inconsciente em relação aos brancos; quando tende de encontrar uma resposta para o vosso filho de cinco anos que vos pergunta num sofrimento agonizante: “Papá, porque é que os brancos tratam tão mal as pessoas de cor?”; quando, durante uma viagem fora da cidade, tendes de dormir noite após noite nos assentos desconfortáveis do vosso carro porque nenhum motel vos aceitará; quando sois humilhados dia e noite pela visão de painéis com as inscrições: “brancos” e “pessoas de cor”; quando sois invariavelmente chamados de “negro” seja qual for o vosso nome, quando sois tratados por “meu velho” mesmo se fordes jovem e quando o vosso apelido é sempre “John” e os nomes da vossa mulher e da vossa mãe nunca são antecedidos pela elementar forma de cortesia “senhora”, e quando sois assediados e assombrados toda a noite pelo fato de serdes um negro, vivendo constantemente sobressaltado e sem saber aquilo que vos espera; quando o medo e o rancor se instalam dentro de vós e tendes de lutar continuamente contra o sentimento degradante de “não ser alguém”; nesse caso, sim, compreenderíeis porque não podemos esperar mais. Chega um tempo em que a taça da paciência transborda e o homem recusa que o mergulhem num abismo de injustiça onde vive a frialdade do desespero corrosivo. Espero, Senhores, que compreendereis o que há de legítimo e inevitável na nossa impaciência.”

 

3. “Discurso da Proclamação da Independência do Congo”, por Patrice Emery Lumumba.

 

Outro documento notável como expressão de coragem individual é o discurso proferido a 30 de Junho de 1960 pelo então Primeiro-ministro Patrice Emery Lumumba, a quando da proclamação da independência do Congo em Léopoldville (agora Kinshasa) frente ao Rei Balduíno Primeiro e demais altos representantes das nações creditadas para o acontecimento.

 

Congoleses e Congolesas. Combatentes da Independência hoje vitoriosa. Saúdo-vos em nome do governo congolês.
A todos vós, meus amigos, que lutaram connosco sem desfalecimento, peço-vos para que façam deste 30 de junho de 1960 uma data ilustre que fique indelevelmente gravada nos vossos corações, uma data cuja significação ensinarão com orgulho aos vossos filhos, para que estes por sua vez a deem a conhecer aos seus filhos e aos seus netos, a da história da nossa luta gloriosa pela conquista da liberdade.
Porque se esta Independência do Congo é hoje proclamada em acordo com a Bélgica, país amigo que tratamos de igual para igual, nenhum Congolês digno desse nome poderá jamais esquecer que foi pela luta que ela foi conquistada, numa luta de todos os dias, numa luta ardente e idealista, numa luta onde não escamoteámos as nossas forças, nem os sofrimentos, nem o nosso sangue.
Foi uma luta de lágrimas, de fogo e de sangue à qual nos mantivemos fiéis até ao mais profundo dos nossos seres, porque foi uma luta nobre e justa, uma luta indispensável para pôr fim à humilhante escravidão que nos foi imposta pela força.
Aquilo que nos aconteceu durante 80 anos de regime colonialista, as nossas feridas estão ainda tão frescas e são tão dolorosas que não as podemos afastar da nossa memória. Nós sofremos o trabalho impiedoso e exaustivo em troca de salários miseráveis que não nos permitia dar de comer à nossa fome, nem de nos vestir ou de nos alojar decentemente, nem de educar os nossos filhos como entes queridos.
Nós sofremos ironias, insultos, agressões e pancadas infligidas de manhã, à tarde e à noite, apenas porque éramos negros. Quem se esquecerá que éramos tratados por “tu”, não por sermos considerados como amigos, mas porque o “vós” estava reservado apenas para os Brancos?
Sofremos a espoliação das nossas terras em nome de textos pretensamente legais que o único que faziam era reconhecer o direito do mais forte.
Sofremos a desigualdade de tratamento perante a lei que não era nunca a mesma conforme se tratasse de um Branco ou de um Negro: flexível e acomodatícia para uns, cruel e desumana para os outros.
Sofremos atrozmente pelas nossas opiniões políticas ou religiosas; exilados dentro da nossa própria pátria, num destino mais cruel que a própria morte.
Sofremos o vexame de vermos a existência nas nossas cidades de casas magníficas para os Brancos e de palhotas decrépitas para os negros; que um Negro não podia entrar nem nos cinemas, nem nos restaurantes, nem nas grandes lojas; que um Negro viajava sempre na parte de trás, ficando reservada a cabine de luxo para os Brancos.
Quem se esquecerá dos disparos das espingardas com que muitos dos nossos irmãos foram mortos, das jaulas para onde foram brutalmente metidos todos aqueles que não se queriam submeter à justiça de um regime de opressão e exploração?
Tudo isto, meus irmãos, nós sofremos profundamente.
Mas também vos dizemos, que tudo isso que sofremos no nosso corpo e no nosso coração durante a opressão colonialista, nós que o voto dos vossos representantes elegeu para dirigir o nosso querido país, tudo isso acabou.
A República do Congo foi proclamada e o nosso querido país está agora na mão dos seus próprios filhos.
Juntos, meus irmãos, minhas irmãs, iremos começar uma nova luta, uma luta sublime que conduzirá o nosso país à paz, à prosperidade à grandeza.
Juntos, iremos estabelecer a Justiça social e assegurar que cada um receba a justa remuneração pelo seu trabalho.
Juntos iremos mostrar ao mundo aquilo que o homem negro pode fazer quando ele trabalhar pela liberdade, fazendo do Congo o centro de irradiação para toda a África inteira. Juntos iremos assegurar que as terras da nossa pátria sejam utilizadas a favor dos seus filhos. Juntos iremos rever todas as leis do passado e fazer novas leis que sejam justas e nobres.
Juntos iremos pôr fim à opressão do pensamento livre e tudo faremos para que os cidadãos possam gozar plenamente das liberdades fundamentais previstas na declaração dos Direitos do Homem.
Juntos iremos suprimir eficazmente todo o resquício de discriminação seja ela qual for e dar a cada um o seu justo lugar que lhe assegure a sua dignidade humana, o seu trabalho e a sua devoção ao país.
Juntos iremos fazer reinar, não a paz das armas e das baionetas, mas a paz dos corações e das boas vontades.
E para que tudo isto se cumpra, caros compatriotas, estejam certos que iremos poder contar, não somente com as nossas enormes forças e com as nossas imensas riquezas, mas também com a assistência de numerosos países estrangeiros que connosco querem colaborar lealmente sem nos quererem impor uma política, seja ela qual for.
Neste domínio, a Bélgica que, compreendendo enfim o sentido da história, não tentou opor-se à nossa independência, está pronta a conceder-nos a sua ajuda e a sua amizade, pelo que já assinámos um tratado entre os nossos dois países iguais e independentes. Esta cooperação, estou seguro, será vantajosa para os dois países. Pela nossa parte, embora nos mantenhamos vigilantes, saberemos respeitar os compromissos livremente assumidos.
Assim, tanto internamente como exteriormente, o Congo novo, a nossa querida República que o meu governo vai criar, será um país rico, livre e próspero. Mas para conseguirmos alcançar sem demora estes objetivos, peço-vos a todos vocês legisladores e cidadãos congoleses, que me ajudem com todas as vossas forças.
Peço-vos a todos que esqueçam as querelas tribais que só nos esgotam e que nos fazem parecer não respeitáveis aos olhos estrangeiros. Peço à minoria parlamentar que ajude o meu governo através de uma oposição construtiva, mantendo-se estritamente dentro das vias legais e democráticas.
Peço-vos a todos que não enjeitem qualquer sacrifício por forma a garantir este empreendimento grandioso.
Peço-vos por fim que respeitem incondicionalmente a vida e os bens dos vossos concidadãos e dos estrangeiros estabelecidos no nosso país. Se a conduta desses estrangeiros não se conformar com as nossas leis, a nossa justiça prontamente os expulsará do território da República; se pelo contrário a sua conduta for boa, devem ser deixados em paz, porque eles também trabalham para a prosperidade do nosso país.
A Independência do Congo marca um passo decisivo na libertação de todo o continente africano.
Eis pois, Excelências, Senhoras e Senhores, caros compatriotas, meus irmãos de raça, meus irmãos de luta, o que eu vos quis dizer em nome do meu governo neste dia magnífico da nossa Independência completa e soberana.
O nosso governo, forte, nacional, popular será o orgulho deste povo.
Honra aos combatentes da liberdade nacional!
Viva a Independência e a Unidade Africana!
Viva o Congo independente e soberano.”


Martin Luther King foi assassinado a 4 de Abril de 1968 em Memphis, Tennessee.
Patrice Lumumba foi preso e assassinado por mercenários catangueses a soldo de Moisés Tshombe (e outros) a 17 de Janeiro de 1961, seis meses e meio depois de ter proferido este discurso. O seu corpo foi desmembrado, regado com ácido e os pedaços espalhados por vários locais.
O costume.


Perguntas que os miúdos fazem para os mais crescidos responderem: Porque é que tiveram estas três pessoas de serem assassinadas? Para que o mundo pudesse ficar melhor? Porque é que se pergunta “porque é “? Porque é que se pergunta? Para que serve perguntar? O que é ser assassinado? O que é o mundo ficar melhor? O que é mundo? O que é melhor?

 

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