Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

As Santas Perversões ingénuas

Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode […] Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males?”, Epicuro.
O mundo quer ser enganado, que seja pois enganado”, Sebastian Brant (1494-1533).
Quanto mais inteligência possuímos, tanto mais tendemos a naufragar no mar dos absurdos”, Charles Richet.
A palavra poderia ser de Hitler, se este tivesse aprendido latim”, Ernst Weiss.

 

Perante a perplexidade de pensarmos um Deus criador e infinitamente bom com a existência do mal, da dor, do sofrimento e da injustiça, Leibnitz (1646 – 1716) denominou de Teodiceia o seu tratado “sobre a liberdade do homem e a origem do mal”, numa tentativa de por de acordo a existência de Deus com o aparecimento do mal e do resultante sofrimento. Em todos os casos, trata-se sempre de um sofrimento sentido muito para além da dor física. Tal como a dor anunciadora da morte, estamos aqui perante a necessidade de uma interpretação metafísica da dor.


Mas nem sempre as variadíssimas vias de aproximação a Deus pelo sofrimento e dor seguiram este caminho de interpretação intelectual. Muitas delas estiveram mesmo na origem de variadas perversões.

Foi o caso da monja Margarita Maria Alacoque (1647 – 1690) do convento de Pary-le-Monial na Borgonha, tida sempre como uma fiel seguidora muito asseada a quem repugnava qualquer resquício de sujidade, e que de um dia para o outro, começou a comer o vomitado de uma doente arrependida, e os excrementos de uma doente com disenteria. Afirmava ela que Jesus lhe tinha aparecido e confrontado com a sua exagerada preocupação com a limpeza que a impedia de alcançar a comunhão com o outro. Com esta sua nova atitude pretendia mostrar que boca e ânus, limpo e sujo, tudo era o mesmo, tudo era obra de Deus.
Na sua biografia escreve que “tinha um caráter tão delicado que a menor sujidade lhe alterava o coração […] Jesus admoestou-me vigorosamente por esta minha debilidade o que me levou a encher-me de coragem e um dia comecei a limpar com a língua o chão sujo pelo vómito de um doente. Deu-me tanto prazer que quereria fazê-lo todos os dias […] Uma vez senti uma certa repugnância quando servia um doente que estava com disenteria. Jesus admoestou-me tão severamente, que para corrigir o meu erro, enchi a boca com os excrementos, e tê-los-ia engolido se a Norma não me impedisse de comer fora das refeições”.
Em 1920, a Irmã Margarita foi santificada pelo papa Bento XV.


Também Catarina de Siena (1347 – 1380) após ter bebido o pus que brotava dos peitos de uma mulher cancerosa ouviu Cristo dizer-lhe “Minha bem-amada, suportaste por mim duros combates e com a minha ajuda saíste vitoriosa. […] Não só depreciaste os prazeres sensuais, mas também conseguiste vencer a natureza ao beber com alegria, por amor a Mim, uma beberragem horrível. Pois bem, uma vez que realizaste um ato que excede a natureza, quero dar-te um licor que excede a natureza”. Então, Cristo abre a ferida no seu peito e dá-lhe a beber do seu sangue.
A Irmã Catalina foi santificada em 1461 por Pio II. Juntamente com São Francisco de Assis, é declarada patrona principal de Itália em 1939 por Pio XII, sendo elevada a Doutora da Igreja em 1970 por Paulo VI. Em 1999 João Paulo II faz dela Santa Patrona da Europa.

 

A peste negra que apareceu durante a Idade Média era considerada como castigo divino devido aos pecados cometidos pelas gentes. Para aplacarem a ira divina, espalhou-se o hábito da flagelação, onde grupos inteiros se impunham regras como o de se absterem de sexo, de comerem qualquer alimento supérfluo e de se autoflagelarem açoitando-se nas costas, a fim de “manifestarem e sentirem em si mesmos que a carne era desprezível, que o corpo era de deficiente composição, e pedirem assim que lhes fosse concedido outra corporalidade”. Na prática, as dores provocadas pelos açoites repetidos acabavam por fazê-los entrar em transe, deixando assim de sentirem o próprio corpo.
Só que aos poucos, quer porque os açoites começassem a baixar das costas para regiões mais abaixo o que acabou em afagos mútuos e orgias, quer porque essa libertação do corpo acabasse por deixar espaço para o aparecimento de um pensamento ‘verdadeiro’ que preconizava o anúncio da vinda do Anticristo, esses “transes” levaram a Igreja a substituir esta “idolatria do corpo”, esta “punição exuberante da carne”, por um autocontrole espiritual baseado no amor e na confissão. A flagelação como obra boa para merecer a Cristo rapidamente passou a ser considerada como perversa.

 

Mas se não se acreditar na existência de Deus, ou se Deus não existir, e se portanto não houver um sentido de desígnio superior, como fazer para se suportar essa dor?


Durante a Primeira Grande Guerra a resposta veio com as políticas nacionalistas, rápidas e concludentes na ocupação do espaço deixado vago: os enormes sofrimentos da guerra só fariam sentido se fossem considerados como sacrifícios pela pátria.


Para a direita, este problema foi agravado por ter perdido a guerra. Como explicar essa dor agora sem sentido? Rapidamente se difunde a teoria da punhalada pelas costas atribuída aos políticos que abandonaram os militares. A pregação de Hitler vai nesse sentido. A sua solução: forjar um homem novo através do endurecimento heroico, da afirmação e orgulho, que se tornasse num bloco dotado de razão. Só assim, através da sua frieza, é que poderá manter-se vigilante no meio dos horrores. A superação viria do abandono da compaixão em proveito de uma frieza contemplativa.
Para a esquerda, o fim da guerra imperialista, permitiria o avanço para uma sociedade em que os sacrifícios pela pátria nunca seriam em vão, na construção de um homem novo empenhado num futuro de bem-estar e liberdade.


Fora destes nacionalismos políticos, muitos intelectuais se manifestaram de variadas formas, numa amálgama muito característica da época.

No seu pequeno livro L’Homme stupide escrito em 1921, Charles Richet, professor de Fisiologia na Faculdade de Medicina de Paris, prémio Nobel (1913), refere-se desta forma à Grande Guerra:
Não são os mortos e as ruínas que me levam a dizer que a guerra é a grande infame. É que os recém-nascidos substituem os mortos; as ruínas restauram-se; as árvores crescem; as colheitas renascem. Mas há uma realidade sinistra que nada na eternidade dos tempos poderá apagar: é a dor.”
Fervoroso pacifista vê a guerra como uma loucura humana que o leva a duvidar da classificação antropológica do homem como homo sapiens, propondo em sua substituição a de homem estúpido, homo stultus.
Dedica alguns capítulos à enumeração e explicação das imbecilidades humanas: mutilação, circuncisão, castração, drogas, tabaco, álcool, modas, joalharia, guerra, armamento, superstição, culto dos mortos, tauromaquia, destruição de espécies animais e vegetais, celibato, monarquia, servilismo, sociedade de classes, doenças causadas por negligência, e outros.
À boa maneira estoica, clássica, discorre sobre o culto dos mortos, erigindo como exemplo a morte nobre e serena de Sócrates. Preconiza uma indiferença do ser humano perante a morte, caracteriza todo o culto dos mortos como estupidez e alienação supersticiosa, muito embora admita o luto dos familiares. Para ele, o nosso corpo morto, “os nossos trapos terrestres”, não merece qualquer veneração.
E no entanto, os dois primeiros capítulos do seu livro são expressamente dedicados à demonstração da estupidez dos negros e à nulidade das culturas das raças amarelas e vermelhas. É pouco dizer que “no melhor pano cai a nódoa” porque tal nada explica, limitando-se apenas a confirmar um facto. Uma das características daquela época tão iluminada residia no facto de aparecerem simultaneamente com um pensamento inteligente e avançado formas de verdadeira “estupidez”. Já Nietzsche notara o aparecimento de uma “vontade de noite”, de uma tendência “para apagar a luz, para se deitar no chão, para ser estúpido”. É como um não se querer avançar, uma recusa.


Da mesma época, 1916, é também o livro do advogado americano Madison Grant (1865-1937) intitulado The Passing of the Great Race (A Queda da Grande Raça), que Hitler dizia ser “a sua bíblia”. O livro era sobre a decadência da Grande Raça branca. Devido à imigração indiscriminada as raças inferiores estavam a destruir a América. Segundo ele, dividia os “caucásicos” (já de si muito superiores aos “negroides” e “mongoloides”) em três classes. Os melhores eram os “nórdicos”, logo seguidos dos “alpinos”. Por último os “mediterrânicos” preguiçosos e apalermados, como os gregos, italianos e espanhóis.
A sua solução: “um rígido sistema de seleção através da eliminação dos mais débeis ou incapacitados”. Nem seria necessário matá-los, bastava esterilizá-los. Em cem anos o problema estaria resolvido. Esta corrente eugénica tinha tanta aceitação pública que poucos anos depois o Supremo Tribunal americano declarou constitucional a esterilização dos “débeis mantais”. Na década seguinte perto de 60.000 mulheres foram esterilizadas.
Como consequência desta “tendência”, em 1924 o governo americano publica o Inmigration Act onde estabelece um sistema de quotas que impunha limites à chegada de italianos, polacos, chineses, japoneses e outros.

Mas havia quem estivesse atento. Ernst Weiss escreve em 1938:


Aos olhos dos estúpidos, Deus é estúpido. O povo quer um Deus estúpido. Um Deus que compreendesse a química e a física da relatividade não seria do seu gosto. Lutero dizia: Deus stultissimus. A palavra poderia ser de Hitler, se este tivesse aprendido latim”.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub