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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Antecedentes consequentes

Matem os a todos, o Senhor saberá quais são os seus”, Amaury, Abade de Citeaux, 1209.
Somos todos Charlie”!?
Em Portugal, todos somos judeus”, Marquês de Pombal.
Agora somos um império, e quando agimos, criamos a nossa própria realidade”, Administração Bush.

 

Lisboa, 19 de Abril de 1506.

 

Há três anos que se fazia sentir uma forte seca em todo o reino. A fome e a peste estavam no seu auge: desde Janeiro morriam mais de cem pessoas por dia. Os suspeitos eram os do costume: os cem mil judeus vindos de Espanha, após os Reis Católicos os terem expulsado em 1492.
D. Manuel, desejando casar-se com a infanta D. Isabel, filha dos Reis Católicos D. Isabel e D. Fernando, e viúva do seu primo príncipe D.Afonso, filho do defunto rei D. João II, vai de certa forma ser forçado a aceitar idêntica política de expulsão. A 24 de Dezembro de 1496 publica a lei com ordem de expulsão do reino para todos os judeus sob pena de morte natural e perca dos bens. Só então o casamento real se poderá vir a concretizar, o que aconteceu em Outubro de 1497 (um ano depois, em 1498, a Rainha D. Isabel morre de parto, mas D. Manuel não desiste e volta a casar-se de novo com uma outra filha dos Reis Católicos, D. Maria, irmã da defunta: hábitos, crença, política, ambições, provincianismo).


Como sabia da importância dos judeus para a economia e bom funcionamento do reino, D. Manuel vai utilizar um subterfúgio que lhe permitiria manter os judeus em Portugal, o que só poderia ser feito através da conversão. Para os obrigar a converterem-se vai ameaçá-los (e não só, evidentemente) com a retirada (rapto) dos filhos menores de 14 anos e posterior entrega a famílias cristãs para serem educados, o que levou a que grande parte dos judeus se vissem forçados a permanecerem em Portugal, agora convertidos em “cristãos-novos”. O facto é que em 1506 oficialmente já não existiam judeus em Portugal.


Esta fixação na atribuição de culpas aos judeus, para além do antagonismo religioso, tinha a ver com alguns fatores práticos, nomeadamente o de serem o grupo menos afetado pela seca e peste. Tal tinha que ver com ritos mais higiénicos, com o facto de os seus ofícios serem quase todos no comércio e artesanais, portanto menos vulneráveis à seca, e pelos altos cargos que ocupavam na Coroa, especialmente nas finanças.


Voltemos a 1506. Para fugirem à peste, o rei e a corte foram para Abrantes. Ficara também decidido que todos os dias 15 de cada mês se faria uma procissão de penitência pelas ruas de Lisboa em direção à igreja de S. Domingos, onde se celebraria missa solene pelo fim da seca, clamando pela divina misericórdia. E assim sucedeu naquele dia 15 de Abril da Semana Santa. E eis que aparece o que se julgou ser um reflexo num cruxifixo de Cristo. A crença de que se estava em presença de um milagre começou a propagar-se, levando cada vez maior número de pessoas à procissão e à igreja. No dia 19 de Abril alguém alvitrou que poderia tratar-se de um reflexo de uma vela ou de um raio de sol. Alguém o identificou como sendo cristão-novo, e de imediato foi levado para fora da igreja aos gritos de traidor e judeu, onde foi brutalmente assassinado juntamente com um seu companheiro. Outros decidiram queimá-los ali mesmo, o que só incitou ainda mais a turba que julgou chegado o momento para acabarem de vez com os causadores de todo aquele mal, pelo que se precipitaram para os bairros judeus. Depois dos assassinatos, seguia-se o roubo e a pilhagem. Só naquele dia foram queimadas e mortas quinhentas pessoas.
No dia seguinte, ainda fumegavam as fogueiras, quando apareceram dois frades dominicanos, que erguendo alto os crucifixos, percorreram as ruas gritando “Heresia! Heresia!”, prometendo a absolvição dos pecados mortais dos últimos cem dias a quem denunciasse ou matasse hereges.


Eis o relato de Damião de Gois (1502 – 1574) na Crónica d’El-Rei D. Manuel:

[…] juntos mais de quinhentos começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos e meios vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio, ao qual negócio lhe serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. No qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. […] Segunda- feira continuaram nesta maldade com maior crueza. E por já nas ruas não acharem nenhuns cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas a arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres e filhas os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas, fendendo-os em pedaços e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueciam de lhes meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata e enxovais que nelas achavam, e logo foram às igrejas, onde alguns se tinham refugiado, e dali tiravam os homens, mulheres e crianças inocentes escondidos nas capelas e abraçados às imagens, tudo queimando sem temor a Deus. Neste dia mais de mil almas pereceram nas fogueiras da cidade e ninguém se atreveu a resistir, os poucos afortunados que se salvaram estavam fora dela, por causa da peste.”

Estima-se que perderam a vida neste massacre da Semana Santa cerca de quatro mil pessoas.

 

Cairo, Outubro de 1798.

 

No dia 1 de Julho de 1798, os exércitos de Napoleão desembarcaram no porto de Alexandria. Ao todo 36.000 soldados, milhares de marinheiros, centenas de cientistas (lembram-se da descoberta da Pedra de Roseta que veio permitir a descodificação dos hieróglifos?), que ouviram Napoleão dizer-lhes, para além do famoso e populista “Do alto destas pirâmides quarenta séculos nos contemplam”, das razões que faziam daquela invasão o início de uma nova época histórica: “ Soldados de França! Vão agora iniciar uma conquista com efeitos incalculáveis para a civilização e para o comércio […] em breve deixarão de existir os Mamelucos, que favorecem exclusivamente o comércio dos Ingleses, cuja extorsão oprime os nossos mercadores, e que tiranizam os infelizes habitantes do Nilo.


Curiosamente, a importância desta arenga de Napoleão reside muito mais nas justificações dadas para uma invasão imperialista a outro Estado, do que para marcar o advento de uma nova época. A culpabilidade do outro estado por colaborar com um inimigo da república, por ter posto em causa os interesses positivos da nação, e pela sua falta de legitimidade resultante da atuação despótica para com o seu povo. A trindade das justificações que continuam a serem usadas. Outro antecedente consequente.


Duas semanas e meio após o desembarque, o exército Francês avançava para o Cairo, seguindo o Nilo. Encontrou uma pequena resistência oferecida por 1.800 camponeses armados com mosquetes. Depois de alcançarem os muros da vila, dispararam contra a multidão, tendo morto cerca de 900 homens. Depois de confiscarem todos os camelos, burros, cavalos, ovos, vacas, carneiros, pegaram fogo às palhotas que restavam, com a finalidade de “dar uma lição a esse povo meio selvagem e bárbaro.”
O Exército de Bonaparte entra no Cairo a 24 de Julho. E começa logo a reorganizar a sociedade: um Instituto Egípcio para o avanço da ciência, reforma da polícia, dos tribunais, e novas leis. Mas o fundo de terror mantinha-se. Envia para o General Jacques Menou, comandante da guarnição do porto de Roseta, a seguinte missiva: “Só é possível lidar com os Turcos (Egípcios) com grande severidade. Todos os dias mando cortar cinco ou seis cabeças nas ruas do Cairo […] porque eles, só obedecem se tiverem medo.” Para as regiões fora do Cairo a ordem de Napoleão para os seus generais era “Queimem as vilas! Façam disso um exemplo de terror.”


Mas o confronto principal era o que se iria produzir no Cairo. Em Outubro, a maior parte da cidade estava mobilizada para atacar os mais de 20.000 Franceses que a ocupavam. O centro da revolta estava localizado em al-Husayn, onde se concentravam 14.000 estudantes da madraça (seminário) de al-Azhar e os mercadores mais ricos. Ao mesmo tempo estalava uma rebelião de camponeses e Beduínos contra pequenas guarnições francesas que se encontravam à volta do Cairo.
Napoleão não hesita, e vira a sua artilharia para dentro da cidade, e arrasa qualquer núcleo de resistência, por mais pequeno que fosse. Depois da batalha, mandou executar todos os rebeldes que sobraram. Dos arredores, os seus oficiais trouxeram em sacos novecentas cabeças decepadas de revoltosos e despejaram-nas ostensivamente frente a uma multidão de Cairotas, numa das maiores praças da cidade. Julgo que nem ainda o EI conseguiu igualar de uma só vez o número, mas lá que têm um antecedente, têm.

 

Europa, Setembro 2015.

Felizmente nestes últimos séculos muito progredimos. Perante algumas mortes simultâneas de jornalistas, em defesa da liberdade de qualquer coisa que já não nos lembramos ou que já não sabemos o que é, sucederam-se grandes manifestações irmanadas pelo conceito de que “Eu sou Carlinhos”. Na realidade, tem-se visto, todos nós somos Carlinhos, se não formos refugiados, se não formos pretos, se não formos ciganos, se não formos comunistas, se não formos sindicalistas, se não formos desempregados, se não formos reformados e velhos, se não formos saudáveis, se não formos, se não formos, se não formos. É isso o que somos: não somos. Se ao menos fôssemos o que não somos já seríamos alguma coisa.


Mas até nisto de sermos Carlinhos existem antecedentes. A onda de antissemitismo surgida após o terramoto de 1755 levou a que muitos dos influentes pedissem ao rei D. José que, perante uma legislação que iria eliminar a distinção entre cristãos-novos e velhos, houvesse uma forma para os distinguir, um emblema, umas palavras. D. José deu instruções ao Marquês de Pombal para lhe apresentar os vários emblemas ou dizeres. Dias depois Pombal levou ao Rei não três dizeres mas apenas um igual para todos: “Para o judeu, para mim e para Vós mesmo. Em Portugal, todos somos judeus.


Claro que sabemos que o altruísmo de Pombal estava ligado à defesa dos convertidos que financiavam a reconstrução de Lisboa. Já o do Carlinhos temos dificuldade em ver, é o tal problema do cego que não quer ver.

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