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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

A violência do amor

 

 “Amor é dar-se alguma coisa que não se tem a alguém que não a quer”, Lacan.

 

O ser amado constitui sempre para nós uma grande violência, na medida em que vai fazer-nos sentir o fosso entre aquilo que nós somos e aquilo que nos é desconhecido em nós, e que é a causa do amor.

 

Vivemos não só numa ética assente numa negação da realidade, como também numa ética universalista em que somos obrigados a traçar uma linha de exclusão e ignorar certos sofrimentos.

 

Pôr de lado as “paixões tristes” que nos intoxicam e causam cuidado”, Espinosa.

 

 

 

Há um texto de Neil Gaiman, autor do romance em banda desenhada The Sandman, em que ele escreve sobre a vulnerabilidade de se estar apaixonado:

 

Estiveste alguma vez apaixonado? É horrível, não é? Fica-se tão vulnerável? Ficas com o peito e o coração abertos e outra pessoa pode entrar dentro de ti e revolver-te por dentro. Constróis todas essas defesas, constróis uma armadura que te cobre de alto a baixo para que ninguém te possa ferir, e depois uma pessoa estúpida, igual a qualquer outra pessoa estúpida, atravessa-se na tua estúpida vida…. Dás-lhes um bocado de ti. Não to pediram. Fizeram um dia uma estupidez qualquer, como beijar-te ou sorrir-te, e a tua vida deixou daí em diante de ser tua. O amor faz reféns. Entra dentro de ti. Come-te e deixa-te a chorar no escuro, e é assim que uma simples frase do tipo ‘talvez devêssemos ser só amigos’ se transforma num estilhaço de vidro que te vai direito ao coração. Dói. Não é só na imaginação. Não é só mental. É uma dor da alma, uma dor real que te invade e te rasga e te parte. Odeio o amor.

 

Independentemente da beleza emocional da escrita e das sensações expressas que a todos nos percorreram, uma ou outra vez, ao longo da nossa vida, importa debruçarmo-nos sobre aquilo que efetivamente é o problema principal subjacente ao texto: o do nosso relacionamento com o Outro, seja ele o outro ou nós próprios.

 

 

A ideia de que há uma ‘ética da bondade’ que, perto do fim (ou do que se julga ser), acaba sempre por se impor, assenta na verificação que fazemos de o ser humano, nos momentos de maior desespero, ter uma tendência para a confissão, seja ela de amor ou de conversão religiosa (ou de que for).

É assim que são interpretadas as declarações de amor (os I love you) das mensagens enviadas por quase todos os que iam morrer no 11 de Setembro de 2001 para as pessoas com quem mantinham laços mais estreitos.

É assim que beatificamente concordamos e recordamos S. Paulo quando dizia que, em última instância, o que importava era o amor:

 Quando tudo se desmorona, o amor é a única parte de nós que permanece sólida.

É assim que quando se enfrenta o perigo ou a proximidade da morte, se sucedem nesses momentos, tidos como finais da vida, os pedidos de absolvição e de entrega a Deus, negando muitas vezes toda uma vida feita fora da religião.

E, como acreditamos (ou queremos acreditar) na existência da ética da bondade, esses momentos finais são por nós vistos como sendo os mais verdadeiros e os que melhor nos definem como seres humanos.

 

Mas, porque é que não admitimos que confissões de amor e conversões no leito de morte são antes sacrifícios desesperados do desejo de viver? Porque não admitimos que podemos estar antes perante um instinto de sobrevivência, que nos momentos finais nos leva a trair o nosso verdadeiro desejo de viver?

 

Esta crença na ética da bondade leva-nos ainda a todo o tipo de contradições.

 Por exemplo, ao escrever sobre a Revolução Francesa, já Kant observara a contradição existente entre a realidade da simpatia e da esperança que se estendia por toda a Europa para com a revolução, e a realidade dos acontecimentos horrorosos e violentos que se passavam em Paris.

 O mesmo aconteceu com a Revolução soviética, que apesar das atrocidades cometidas, suscitou uma enorme onda de entusiasmo e esperança.

A um nível menos ‘visível’ mas mais alargado e disseminado, podemos citar idênticas contradições entre as condições horrorosas em que, por exemplo, os porcos e as galinhas são criados para abate (cegos e imobilizados para a engorda), as torturas, abusos e maus tratos a que sistematicamente milhões de pessoas são sujeitas, e o muito mais que escolhemos ignorar enquanto saboreamos uma boa costeleta de vaca, leitão assado, cochas de galinha, ou quando compramos tapetes tecidos por crianças escravas, ou quando vemos um documentário sobre os povos miseravelmente ‘felizes’ de terras longínquas que iremos visitar nas nossas próximas férias.

 

Tudo isto são casos reais que nos põem perante a ‘negação’ da realidade: esquecemos para a não ver.

 “Sei, mas não quero saber o que sei, e por isso não sei”. Sei, mas recuso-me a assumir inteiramente as consequências desse saber, o que me permite continuar a agir como se o não soubesse.

 

 

Vivemos assim numa ética assente na negação da realidade. Mas vivemos simultaneamente também numa outra ética universalista que pretensamente entendemos ser a todos comum.

 

Só que esta ética, que acreditamos ser universalista, esconde sempre (e quanto mais universal e explícita for, mais esconde) a exclusão que lhe está subjacente. Por exemplo:

 Quando S. Paulo proclama que não há homens nem mulheres, nem judeus nem gregos, esta proclamação universal tem por base a exclusão total de todos os que não aceitam ser incluídos na comunidade cristã. Ela só se aplica se todos forem cristãos.

 De igual forma, quando proclama que todos os homens são irmãos, tal significa que todos aqueles que não aceitem esta fraternidade não são homens.

Também Khomeini dizia que a revolução iraniana fora a mais humana da história da humanidade porque nenhum homem tinha sido morto. Isto porque, segundo ele, os que tinham sido executados “não eram homens, mas cães criminosos”.

Ou seja, para seguirmos esta ética universalista, somos obrigados a traçar uma linha de exclusão e ignorar certos sofrimentos.

 

 

Mas há ainda uma outra ética que se baseia antes na consideração do Próximo como Outro merecedor do nosso respeito incondicional, ou seja, que se baseia no preceito “ama o teu próximo”.

Infelizmente, tal ética, ao pressupor um encontro autêntico com o Outro, torna-se impossível de se realizar na sua totalidade, uma vez que o Outro é sempre alguém cujo próprio modo de raciocínio nos é estranho. O Outro aparece-nos sempre fora da nossa humanidade.

 

Por isto é que o ser amado constitui sempre uma grande violência, na medida em que vai fazer-nos sentir o fosso entre aquilo que nós somos e aquilo que nos é desconhecido em nós e que é a causa do amor.

 

 Freud explicava que o Próximo era originariamente uma coisa, um intruso, alguém com modo de vida diferente que nos perturba, podendo inclusive originar uma reação agressiva.

É por isso, que contrariamente aos adeptos da globalização que veem na comunicação um espaço de reunião de toda a humanidade, Peter Sloterdijk afirma que “Mais comunicação significa à partida mais conflito”.

Um exemplo evidente foi o acontecido com as caricaturas do Profeta Maomé publicadas na Dinamarca que, devido à globalização da informação, chegaram rapidamente a todos os países muçulmanos, com as repercussões que sabemos.

 

Como resolver este medo que temos provocado pela proximidade do Outro?

 

A nível social, através do distanciamento que mantemos na vida quotidiana para com os outros, o que nos permite ignorá-los ainda que vivamos ao seu lado. Movimentamo-nos assim num espaço social em que interagimos com os outros obedecendo a certas regras de discrição, sem partilhar o seu mundo interior. Por incrível que pareça, talvez resida nesta forma de proceder a tão propalada tolerância europeia.

A nível individual, podemos sempre procurar o auxílio de Espinosa quando dizia que a liberdade é qualquer coisa que só pode ser alcançada quando conseguirmos apreender as verdadeiras causas das nossas ações, quando conseguirmos pôr de lado as “paixões tristes” que nos intoxicam e causam cuidado.

 

 

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