(565) Uma canção é mais que uma história
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Uma canção enche o presente enquanto espera alcançar um ouvido atento em algum futuro distante, John Berger.
“Don’t wait too long,” cantava Frank Sinatra há sessenta anos, quando lutava contra o envelhecimento e a ideia de estar no fim da linha, de que o seu fim estava próximo, Edward Curtin.
Serão as canções a expressão sonora da natureza dual dos nossos anseios de Ano Novo por novidades no meio do Velho?
“Uma canção, ao contrário das formas que toma, não está fixada no tempo e no espaço. Uma canção narra uma experiência passada. Enquanto é cantada, enche o presente. As histórias fazem o mesmo. Mas as canções têm uma outra dimensão, que lhes é exclusivamente própria. Uma canção enche o presente enquanto espera alcançar um ouvido atento em algum futuro distante. Ela inclina-se para a frente, cada vez para mais longe. Sem a persistência dessa esperança, as canções não existiriam. As canções inclinam-se para a frente.”
É a partir desta citação do saudoso John Berger, que Edward Curtin vai escrever um nostálgico artigo (“Listening to Frank Sinatra on New Year’s Eve”) que aqui reproduzo parcialmente:
O Ano Novo traz ao de cima o que todos sabemos: os anos vêm e vão, transformam-se, vamos ficando mais velhos; procuramos, em cada fase da vida, transformar-nos em novas pessoas – libertar-nos de alguma forma de algo, de algum fardo solitário inexprimível, daquela sensação de culpa de que o tempo nos devorará antes de nos podermos redimir. O desejo de transformação é universal. Assim como a consciência, muitas vezes ignorada, de que, tal como os anos que passam, também nós “passaremos” – para usar este eufemismo evasivo. Será que mais ninguém fracassa ou morre? Ou será que isto só acontece aos pobres e aos que não vemos, às vítimas desaparecidas da injustiça e da violência opressivas? Será que os conquistadores passam e os outros não?
“Don’t wait too long,” (Não esperes muito tempo) cantava Frank Sinatra há sessenta anos, quando lutava contra o envelhecimento e a ideia de estar no fim da linha, de que o seu fim estava próximo. “Porque é que os momentos têm de passar com tanta pressa? Não esperes muito tempo” (Why must the moments go by with such haste? Don’t wait too long).
[…] Diria que Frank Sinatra, e em particular o seu magnífico álbum "September of My Years", é audição obrigatória para todos os interessados em mudanças reais para o Ano Novo. Por entre a festa e o fogo de artifício, o ano velho e o novo, as resoluções e hesitações, o olhar para trás e para a frente – eis Sinatra a cantar sobre a essência mais profunda da passagem de ano: a solidão humana. E como, apesar dela, amar e conectar-se. Como abraçar a aparente contradição. Como mudar.
Nunca conheci Sinatra pessoalmente, mas ele foi o meu mentor neste processo, um processo que não tem fim. É um trabalho transformador. Efémero, porém, mais real do que a própria realidade. Especialmente numa época em que os meios digitais e a inteligência artificial baralharam a perceção da realidade do público.
Quando eu era jovem, ele ensinou-me a ser velho. Agora que sou velho, ensinou-me a ser jovem. Como? Ao ouvi-lo cantar, as palavras que brotam da sua boca provêm dos desejos do coração, da fome da alma. Penetram no âmago de todos os nossos anseios de mudança dentro da permanência. Não escreveu os versos, mas tinha um talento genial para os articular. Como disse Bob Dylan sobre Sinatra: "Desde o início que ele estava lá com a verdade das coisas na voz."
[…] Escutai, vós, mais velhos. “Quando o vento soprava forte no início da primavera…” (When the wind was green at the star of the spring) “Quando tinha dezassete anos…” (When I was seventeen) “Eu sei o que é ter asas nos pés…” (I know how it feels to have wings on your heels).
Jovens, escutai. “Quando se está sozinho, todos os filhos crescidos e, como estorninhos, a voar para longe, a solidão chega cedo, não é? A cada dia interminável” (When you’re all alone, all the children grown, and like starlings flown away, it gets lonely early, doesn’t it, every single endless day).
“Era uma vez…” [Once upon a time). Todos, ouçam. Liguem-se.
Talvez só as canções nos possam transformar. Os argumentos parecem cair em saco roto com frequência. Serão as canções a expressão sonora da natureza dual dos nossos anseios de Ano Novo por novidades no meio do Velho?
[…] Depois, incline-se para a frente e ouça. É um novo ano. Há esperança. Se mudarmos.
Adenda:
- YouTube, Frank Sinatra, September of my years
https://www.youtube.com/watch?v=oD87obuUgUk
- Talvez seja esta a melhor definição de hegemonia: se é chinês e está na China e sentiu qualquer vibração com esta canção do Sinatra, então as 800 bases militares americanas ultramarinas serviram para alguma coisa.