(564) Nós e o centro do mundo
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Quando os invasores marcianos foram derrotados pelas bactérias, segundo H G Wells.
Muitos dos agentes patogénicos que mais tememos não passam de meros turistas no corpo humano.
Os antibióticos são, na verdade, armas que as bactérias usam umas contra as outras há eras.
As partes mais importantes do mundo de um micróbio são os outros micróbios.
Conta-se que em 2008, Bruce Levin, o microbiólogo da Emory University, para explicar o conceito da hipótese da evolução por coincidência segundo a qual as bactérias, fungos e outros patogénicos causadores de doenças em humanos, são adaptações que evoluíram dos seus nichos ecológicos muitas das vezes sem ser para provocarem infeções, utilizou a expressão popular “Shit happens”, querendo com isso dizer que coisas más (segundo a perspetiva humana) podem acontecer devido a acontecimentos naturais aleatórios ou não relacionáveis, e não devido a ataques intencionais de um micróbio.
Ed Yong, num muito interessante artigo intitulado “Coincidental killers”, começa por nos lembrar A Guerra dos Mundos (1898) de H G Wells, em que os invasores marcianos depois de nos dominarem acabam por serem mortos, não pelas nossas armas, mas pelas “nossas” humildes bactérias que temos vindo a estar expostos desde o início, mas a que os marcianos, apesar da sua superioridade tecnológica, não puderam resistir:
“There are no bacteria in Mars […] and directly these invaders arrived, directly they drank and fed, our microscopic allies began to work their overthrow”.
No livro, as bactérias não evoluíram para incapacitar os alienígenas. Evoluíram para atacar humanos e outros animais. Os invasores, inesperadamente, entraram em contacto com elas e sucumbiram. O mesmo pode acontecer connosco.
Muitas das bactérias e fungos que nos afligem com doenças graves não nos estão a atacar diretamente. Em vez disso, evoluíram para prosperar em ambientes hostis ou para se defenderem de outros micróbios (da mesma forma que nós tememos e lutamos contra ursos, leões, tigres, elas têm de lutar contra vermes nemátodos, amibas predatórias e outros vírus). Acontece que essas mesmas adaptações por elas utilizadas, permitem-lhes prosperar no nosso corpo ou resistir ao nosso sistema imunitário.
Na realidade, muitos dos agentes patogénicos que mais tememos não passam de meros turistas no corpo humano. As suas verdadeiras “casas” são os oceanos, cavernas ou solos. E é aí que eles competem contra outros micróbios e outros predadores esfomeados.
A sua virulência – a sua capacidade para provocar doença – não é uma adaptação contra o hospedeiro. É um efeito colateral, como que um reflexo. O provocar a morte é uma coincidência.
Até ao século XIX os micróbios foram praticamente desconhecidos, e só com Louis Pasteur e Robert Koch é que se passou a admitir que afinal eles até podiam estar por detrás de doenças importantes.
Tomamos particularmente consciência da sua existência apenas quando ameaçam as nossas vidas e, durante grande parte da nossa história, essa ameaça foi substancial. Epidemias de varíola, cólera, tuberculose e peste traumatizaram a humanidade, e o medo destas doenças contaminou toda a nossa cultura, desde os nossos ritos religiosos até aos filmes de Hollywood como Contágio (2012) ou O Surto (1995).
Acontece que quando os micróbios não nos estão a matar, não damos por eles: estamos em grande parte alheados. Assim, como bons humanos que somos, construímos narrativas à volta de hospedeiros e patógenos, heróis e vilões, nós e eles.
Os que causam doenças existem para se reproduzirem às nossas custas e precisamos de novas formas de lhes resistir. E assim estudamos como eles evoluem para superar o nosso sistema imunológico ou para se espalharem mais facilmente de uma pessoa para outra. Identificamos genes que lhes permitem causar doenças e rotulamos esses genes como “fatores de virulência”. E vamo-nos colocar no centro do mundo deles. Tudo é sobre nós.
Mas um número crescente de estudos mostra que a nossa visão antropocêntrica é, por vezes, injustificada. É que as adaptações que permitem que bactérias, fungos e outros agentes patogénicos nos causem danos podem facilmente evoluir para fora do contexto de doenças humanas. Fazem parte de uma narrativa microbiana que nos afeta e pode até matar-nos, mas que não nos diz respeito. Este conceito é conhecido como a hipótese da evolução coincidente, segundo a qual pelo menos algumas doenças humanas não têm nada a ver connosco.
A hipótese da evolução coincidente explica algumas outras descobertas recentes sobre os micróbios. Cientistas encontraram genes de resistência a antibióticos em bactérias congeladas há 30 mil anos ou isoladas em grutas com milhões de anos (não esquecer que as bactérias habitam o planeta há milhares de milhões de ano). Podemos pensar nos antibióticos como invenções modernas, mas são, na verdade, armas que as bactérias usam umas contra as outras há eras, ou pelo menos muito antes de Alexander Fleming reparar num estranho fungo numa placa de Petri em 1928. Os genes de resistência aos antibióticos evoluíram como parte desta guerra ancestral, mas também ajudam os micróbios atuais a lidar com os medicamentos que produzimos em massa.
Daí que uma das cientistas, Casadevall, tenha inclusivamente afirmado que a virulência pode surgir por acaso, “num processo que não tem explicação, a não ser pelo facto de ter acontecido”. De acordo com esta perspetiva, não somos atores centrais nos dramas que afetam as nossas vidas. Não somos sequer figurantes. Somos apenas transeuntes, a caminhar à porta do teatro e a ser atingidos por adereços voadores.
Afinal, as partes mais importantes do mundo de um micróbio são os outros micróbios. Têm interagido entre si há milhares de milhões de anos antes de surgirmos. Quando entramos no fogo cruzado desta guerra ancestral, corremos o risco de nos tornarmos danos colaterais. Tal como os marcianos de Wells, também nós podemos ser abatidos apenas por coincidência.