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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(563) O que nos trazem as ondas?

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

As bruscas e drásticas alterações que vemos, cada uma delas trazendo novas formas de vida mais avançadas, resultantes de algo que se passou no mesmo local num futuro passado anterior.

 

Por volta do ano 5.000 a. C., uma onda de brutalidade em massa acompanhou o colapso da primeira cultura pan-europeia.

 

O que levou ao desaparecimento integral de uma cultura?

 

 

 

É num filme de ficção científica de 2005, “A Sound of Thunder”, que a visualização do conceito de “ondas de tempo” é mais bem conseguida, através das bruscas e drásticas alterações que vemos a cidade de Chicago passar, cada uma delas trazendo novas formas de vida mais avançadas, resultantes de algo que se passou naquele local num futuro passado anterior.

Apesar de não ter tido grande êxito, o filme tem por base o conto do mesmo nome do notável Ray Bradbury (1920-2012), que escreveu três grandes novelas e trezentas grandes histórias, entre elas Fahrenheit 451 (1953), The Martian Chronicles (1950), The Illustrated Man (1951).

É dele a frase: “As pessoas pedem-me para predizer o Futuro, quando tudo o que quero é preveni-lo”.

E a definição de ficção científica como sendo “a arte do possível”:

 

Em primeiro lugar, não escrevo ficção científica. Só escrevi um livro de ficção científica, Fahrenheit 451, baseado em factos verídicos. A ficção científica é uma representação do real. A fantasia é uma representação do irreal […]

 

E ainda este olhar sobre a realidade:

 

Ao escrever a pequena novela Fahrenheit 451, pensei que estava a descrever um mundo que poderia evoluir em quatro ou cinco décadas. Mas, há apenas algumas semanas, em Beverly Hills, numa certa noite, um casal passou por mim a passear o cão. Fiquei a olhar para eles, absolutamente estupefacto. A mulher segurava numa das mãos um pequeno rádio do tamanho de um maço de cigarros, cuja antena tremia. Dele saíam minúsculos fios de cobre que terminavam num delicado cone ligado à sua orelha direita. Ali estava ela, alheia ao homem e ao cão, ouvindo ventos distantes, sussurros e gritos de novela, sonâmbula, a ser ajudada a subir e descer calçadas por um marido que podia muito bem não estar ali. Isto não era ficção.”

 

Mas voltemos às “ondas de tempo”:

 

 

Na revista Science de 20 de novembro de 2025, aparece um muito interessante artigo de Andrew Curry, “A Headless Mystery […]” (Um Mistério Sem-Cabeça, Os arqueólogos encontram evidências de que uma onda de brutalidade em massa acompanhou o colapso da primeira cultura pan-europeia), que põe uma pergunta crucial que se prende com o desaparecimento integral de uma cultura.

 

Numa vala escavada à beira de uma povoação com mais de 7000 anos, arqueólogos trabalhando num campo de trigo eslovaco descobriram em 2017 quatro esqueletos sem cabeça. Os enterrados pertenciam a uma das primeiras comunidades agrícolas da Europa. Enterrar pessoas dentro ou perto de assentamentos não era incomum na época – mas enterrá-las sem cabeça era.

 

Ano após ano, os investigadores voltaram a encontrar cada vez mais esqueletos sem cabeça nos arredores de Vráble, uma pequena aldeia 100 quilómetros a leste de Bratislava. "Onde quer que começássemos a cavar, encontrávamos ossos. Onde quer que estivéssemos, sentados ou em pé, havia ossos", diz Katharina Fuchs, antropóloga biológica da Universidade de Kiel (KU) que escava em Vráble todos os verões desde 2021.

No verão de 2022, ela e colegas da KU e da Universidade Constantine, o Filósofo, em Nitra, recuperaram os restos mortais de 34 pessoas, empilhados uns sobre os outros, por cima de dois ou três mais fundos, num espaço do tamanho de um local de estacionamento auto. Com exceção de uma criança, nenhum deles tinha cabeça.

Todos os anos esperam encontrar o limite da sepultura, mas estão sempre a encontrar novos corpos. A camada dos esqueletos estende-se já por 45 metros de comprimento.

 

Conhecidos como pertencentes à Cultura da Cerâmica Linear (ou LBK, devido ao seu nome alemão, Linearbandkeramik), esses primeiros agricultores eram descendentes diretos dos povos que começaram a domesticar plantas e animais nas colinas da Anatólia por volta de 9.000 a.C. Pelos 5.500 a.C., tinham chegado à atual Hungria. Depois espalharam-se para oeste, mais para dentro da Europa. Os agricultores do LBK floresceram durante mais de 400 anos, acabando por ocuparem uma faixa de 1.500 quilómetros de terras férteis que se estendia até ao oeste da Bacia de Paris.

 

Então, algo correu terrivelmente mal. As valas comuns de Vráble e outras espalhadas pela Europa, mostram-nos uma onda de brutalidade por volta de 5000 a.C., quase na mesma altura em que centenas de povoações da Cultura da Cerâmica Linear (LBK) desapareceram abruptamente por todo o continente.

 Após este período, partes do continente permaneceram desertas durante séculos. Outros povoados transformaram-se pacificamente em algo diferente, com pessoas a viverem no mesmo local e a continuarem a cultivar a terra, mas a construírem casas e a decorarem as suas cerâmicas de uma forma diferente.

 "Os LBK foram os primeiros agricultores, a primeira grande cultura pan-europeia e a primeira vez que vimos estes repetidos achados de violência", afirma Christian Meyer, um osteoarqueólogo que estudou restos humanos de diversas valas comuns da LBK.

 

Estes achados em Vráble e noutros locais da LBK vêm contrariar aquela noção estabelecida que a pré-história fora mais ou menos pacífica, apenas quebrada com casos esporádicos de violência interpessoal, sem outros conflitos em grande escala ou guerras. Para além de tudo, vêm levantar uma das mais interessantes perguntas da história: “O que levou ao desaparecimento integral de uma cultura?

 

Não há forma de interpretar o que os nossos semelhantes da Cultura da Cerâmica Linear estavam a pensar quando enchiam valas com cadáveres decapitados, mas isto faz-nos pensar que possivelmente o ser humano teve desde sempre a capacidade para brutalizar outros. Inexplicável ou difícil de explicar, sim.  Mas não tão invulgar, mesmo para os "padrões" modernos.

 

 

 

 

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