(556) A eclosão dos ovos e a deslocação do Ocidente para a direita
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Explicação de Hitler sobre a sua posição geral relativamente à condução da guerra no Leste, como consta da Ata de 16 de julho de 1941.
Nunca mais deverá ser possível criar um poder militar a oeste dos Urais, A. Hitler.
Em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi.
A política de ocupação alemã-nazi foi determinada por considerações raciais-ideológicas e económicas. Ao mesmo tempo que vários gabinetes do partido e do Estado elaboravam planos para uma reorganização milenar da Europa sob a hegemonia alemã, a maioria dos territórios estava a ser administrada por regimes de ocupação mais ou menos provisórios, que apoiavam os esforços de guerra da Alemanha através da exploração económica das suas respetivas regiões. O método de subjugação escolhido e a severidade com que era aplicado dependiam diretamente da valorização racial que os nazis atribuíam à população residente – facto que explica a política de ocupação especialmente brutal na Europa de Leste.
Há uma importante ata (1) de Martin Bormann de uma reunião no Quartel-General do Führer em 16 de julho de 1941 que inclui a explicação de Hitler sobre a sua posição geral em relação à condução da guerra no Leste, que ajuda a entender o que se passava na altura e também muito do que se passa hoje:
Top Secret
Quartel-General do Führer, 16 de julho de 1941
Uma conferência com a presença do Reichsleiter Rosenberg, do Ministro do Reich Lammers, do Marechal de Campo Keitel, do Reichsmarschall [Göring] e de mim foi realizada hoje por ordem do Führer às 15h nos seus aposentos. A conferência começou às 15h00 e, incluindo uma pausa para café, durou até aproximadamente às 20h.
A título de introdução, o Führer sublinhou que desejava, antes de mais, fazer algumas declarações básicas. Diversas medidas eram agora necessárias; isto foi confirmado, entre outros acontecimentos, por uma afirmação feita num insolente jornal de Vichy de que a guerra contra a União Soviética era a guerra da Europa e que, por isso, deveria ser conduzida para o bem da Europa no seu todo. Aparentemente, o jornal de Vichy pretendia com estas insinuações dizer que não deveriam ser apenas os alemães que beneficiariam desta guerra, mas que todos os estados europeus deveriam beneficiar dela.
Era essencial que não proclamássemos os nossos objetivos perante o mundo inteiro; além de que isso não era necessário, porque o principal era que nós próprios soubéssemos o que queríamos. Em nenhum caso o nosso próprio caminho deveria ser dificultado por afirmações supérfluas. Tais declarações eram supérfluas porque podíamos fazer tudo onde tivéssemos o poder, e o que estivesse para além do nosso poder de qualquer forma não seríamos capazes de o fazer.
O que dissemos ao mundo sobre os motivos das nossas medidas deve ser condicionado, por isso, por razões táticas. Devemos proceder aqui exatamente da mesma forma que procedemos nos casos da Noruega, Dinamarca, Holanda e Bélgica. Nestes casos também não dissemos nada sobre os nossos objetivos, e se fôssemos inteligentes, continuaríamos da mesma maneira.
Enfatizaremos, então, novamente, que fomos obrigados a ocupar, administrar e assegurar uma determinada área; era do interesse dos habitantes que providenciássemos ordem, alimentos, tráfego, etc., daí as nossas medidas. Não se deve perceber que, com isto, um acordo final esteja a ser iniciado! Podemos, no entanto, tomar todas as medidas necessárias — fuzilamentos, realojamentos, etc. — e tomá-las-emos.
Mas não queremos transformar nenhum povo num inimigo prematura e desnecessariamente. Portanto, agiremos como se apenas quiséssemos exercer um mandato. Deve ficar-nos claro, porém, que nunca nos retiraremos destas áreas.
Assim, devemos agir:
1.º Não fazer nada que possa obstruir a resolução final, mas prepararmo-nos para ela apenas em segredo;
2.º Enfatizar que somos libertadores.
Em particular:
A Crimeia deve ser evacuada por todos os estrangeiros e povoada apenas por alemães.
Da mesma forma, a antiga parte austríaca da Galícia tornar-se-á território do Reich.
As nossas relações com a Roménia são boas atualmente, mas não se sabe como serão no futuro. Devemos considerar isto e traçar as nossas fronteiras de acordo com isso. Não devemos depender da boa vontade dos outros povos; devemos organizar as nossas relações com a Roménia de acordo com este princípio.
Em princípio, temos agora de enfrentar a tarefa de dividir o bolo gigante de acordo com as nossas necessidades, para sermos capazes de: primeiro, dominá-lo; segundo, administrá-lo; e terceiro, explorá-lo.
Os russos deram agora ordem para a guerra de guerrilha atrás da nossa frente. Esta guerra de guerrilha novamente traz-nos alguma vantagem; permite-nos exterminar todos os que se opõem a nós.
Princípios:
Nunca mais deverá ser possível criar um poder militar a oeste dos Urais, mesmo que tenhamos de travar uma guerra durante cem anos para atingir esse objetivo. Todos os sucessores do Führer devem saber: a segurança do Reich só existe se não existirem forças militares estrangeiras a oeste dos Urais; é a Alemanha que assume a proteção desta zona contra todos os perigos possíveis. O nosso princípio inabalável deve ser e permanecer:
Nunca devemos permitir que ninguém, além dos alemães, possa andar armado!
Isto é especialmente importante; mesmo quando parece mais fácil, a princípio, obter o apoio armado de nações estrangeiras subjugadas, é errado fazê-lo. Isso revelar-se-á, algum dia, absoluta e inevitavelmente, em nosso desfavor. Só o alemão pode andar armado, não o eslavo, nem o checo, nem o cossaco, nem o ucraniano!
Em caso algum devemos aplicar uma política vacilante como a que foi adotada na Alsácia antes de 1918. O que distingue o inglês é a sua constante e consistente adesão a uma linha e a um objetivo. Nesse aspeto, devemos aprender absolutamente com ele. Por isso, nunca devemos basear as nossas ações em personalidades contemporâneas individuais; aqui, mais uma vez, a conduta dos britânicos na Índia em relação aos príncipes indianos, etc., deve servir de exemplo: É sempre o soldado que tem de consolidar o regime!
Temos de criar um Jardim do Éden nos territórios orientais recém-conquistados; são de vital importância para nós; em comparação com eles, as colónias desempenham um papel totalmente subordinado.
Mesmo que dividamos determinadas áreas de uma só vez, procederemos sempre no papel de protetores da lei e da população. Os termos necessários neste momento devem ser escolhidos de conformidade com este princípio: Não falaremos de novo território do Reich, mas da tarefa que se tornou necessária por causa da guerra.
[ . . . ] O Führer sublinha que toda a área do Báltico deve tornar-se território do Reich.
Da mesma forma, a Crimeia, incluindo um hinterland considerável (a área a norte da Crimeia), deve tornar-se território do Reich; o hinterland deve ser o maior possível.
[. . .] O Führer sublinha ainda que a colónia do Volga terá também de se tornar território do Reich, assim como o distrito em redor de Baku; este último terá de se tornar uma concessão alemã (colónia militar).
[…] A anexação da Finlândia como Estado federado deve ser preparada com muita cautela. A área em redor de Leninegrado é desejada pelos finlandeses; o Führer mandará arrasar Leninegrado para a entregar aos finlandeses.
[. . . ] O Reichsmarschall, contudo, enfatizou os critérios mais importantes que, por ora, deveriam ser exclusivamente decisivos para nós: garantir o abastecimento de alimentos e, na medida do necessário, da economia; garantir a segurança das estradas, etc.
[ . . . ] O Reichsleiter Rosenberg abordou, de seguida, a questão de garantir a segurança da administração.
[ . . . ] O Marechal de Campo Keitel enfatizou que os próprios habitantes deveriam ser responsabilizados pelos seus assuntos, pois era, obviamente, impossível colocar uma sentinela em frente de cada barracão ou estação ferroviária. Os habitantes precisavam de compreender que qualquer pessoa que não cumprisse os seus deveres adequadamente seria fuzilada e que seria responsabilizada por cada delito.
[…] Após o intervalo, o Führer enfatizou que precisávamos de compreender que a Europa de hoje não passava de um termo geográfico; na realidade, a Ásia estendia-se até às nossas fronteiras.
No blog de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, além de explicar esse conceito, recordei outros elementos, como o facto de em 1939 os nazis contarem com mais de duzentos mil seguidores e simpatizantes nos EUA, que a revista Time escolheu Hitler para figurar na sua capa, como “homem do ano 1938” entendendo que devia ser o candidato ao Prémio Nobel da Paz, e que entre os seus admiradores se encontravam o magnate automobilístico Henry Ford e o aviador Charles Lindbergh.
E que na Grã-Bretanha, a abdicação em 1936 do rei Eduardo VIII, Duque de Windsor, ficara certamente mais a dever-se às suas simpatias para com Hitler e o regime nazi do que com o facto de pretender casar-se com uma divorciada americana. Eram notórias as simpatias da classe alta e dos aristocratas britânicos para com o regime nazi, o que talvez tenha levado Hitler a cometer o erro estratégico de acreditar que a implantação do seu regime na Grã-Bretanha seria relativamente fácil, não se preocupando muito em dificultar a retirada do exército britânico de Dunquerque.
E que, na destruição e na confusão que se seguiu após o fim da II Guerra, a necessidade de se manter a funcionar um mínimo de administração pública nos países derrotados, e até a dificuldade de separar nazis de não nazis fez com que, intencionalmente ou não, muitos deles passassem despercebidos, pelo que apenas 6650 ex-nazis foram condenados, o que só por si era uma pequena parte do total dos membros do partido.
Mais: Um recente estudo denominado “Projeto Rosemburg” apresentado publicamente por Heiko Maas, atual ministro da Justiça alemão, veio confirmar que em 1957, 77% dos funcionários com cargos de responsabilidade no Ministério da Justiça alemão (ou seja, três em cada quatro) eram antigos membros do partido nazi. O que não deixa de ser até curioso, porquanto essa percentagem em 1957 era mais alta do que durante o Terceiro Reich (http://www.dn.pt/mundo/interior/sistema-de-justica-alemao-do-pos-guerra-estava-dominado-por-ex-nazis-5434041.html).
Aliás, ainda hoje, passados mais de 75 anos da Segunda Guerra, a Alemanha continua a pagar pensões mensais aos colaboradores do regime nazi em países como o Reino Unido e a Bélgica, conforme um decreto de Adolf Hitler que estipulava a garantia de cidadania germânica aos estrangeiros que tivessem jurado “fidelidade, lealdade e obediência” ao Führer.
E a Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca, mesmo depois da derrota do nazismo, continuaram a praticar a eugenia durante várias décadas. Entre 1935 e 1976, 63.000 suecas, 57.000 finlandesas, 40.000 norueguesas e 6.000 dinamarquesas foram esterilizadas, primeiro em nome da preservação da “pureza nórdica” face aos ciganos tatera, e mais tarde em obediência a critérios económicos do trabalhismo.
Recentemente, o esperado/enaltecido e não seguido relatório Draghi destacou os elevados custos energéticos como uma das principais razões para a perda de competitividade da UE. Em comparação com as suas congéneres americanas, os preços da energia continuam "2 a 3 vezes mais elevados" para a eletricidade e "4 a 5 vezes mais elevados" para o gás natural.
Como resultado, grandes partes da Europa Ocidental foram empurradas para a recessão e até para uma desindustrialização. Dir-se-á por exemplo que a Alemanha, tal como outros países, estava a lutar contra desafios preexistentes, em parte enraizados na arquitetura estrutural da UE e em parte autoimpostos como o investimento insuficiente em infraestruturas, a excessiva dependência dos setores transformadores tradicionais em detrimento das indústrias de alta tecnologia e uma estratégia de transição energética falhada. É, no entanto, evidente que a subida dos preços da energia se tornou o principal fator que prejudica a competitividade das empresas alemãs, levando muitas a transferir a produção para o exterior.
Contudo, o que Draghi não referiu é que tal foi uma consequência direta da decisão política da UE, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, de se desvincular do gás russo, que antes da guerra representava quase metade da procura do bloco, e de recorrer ao gás natural liquefeito (GNL) muito mais caro do Qatar e, especialmente, dos Estados Unidos.
Notas:
(1) Fonte da tradução para inglês: Unsigned Memorandum (16 de julho de 1941), in United States Department of State, Documents on German Foreign Policy, 1918-1945: From the Archives of the German Foreign Ministry. Washington, DC: United States Government Printing Office, 1964. Série D (1937-1945), The War Years, Volume 13: 23 de junho a 11 de dezembro de 1941. Documento Número 114 (Nuremberg Document 221-L), pp. 149-56.
Fonte do texto original em alemão: Aktenvermerk vom 16. Juli 1941, no Der Prozess gegen die Hauptkriegsverbrecher vor dem Internationalen Militärgerichtshof. Nuremberga, 14 de novembro de 1945 – 1 de outubro de 1946. Volume XXXVIII, Amtlicher Text – Deutsche Ausgabe, Urkunden undanderes Beweismaterial. Nuremberga 1949. Reimpressão: Munique, Delphin Verlag, 1989. Documento 221-L, pp. 86-94.