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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(521) Hegemonias

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

O problema básico […] não é como os revolucionários chegam ao poder, mas como é que eles passam a ser aceites, não apenas como os novos dirigentes políticos, mas como exemplos e leaders, Gramsci.

 

A burguesia desenvolve uma cultura hegemónica utilizando a ideologia em vez da violência, da força económica ou da coerção, Gramsci.

 

O Ocidente dominou o mundo não por causa da superioridade das suas ideias ou valores ou religião […] mas antes pela sua superioridade na utilização da violência organizada. Os ocidentais muitas vezes esquecem este facto; mas os não-ocidentais nunca o esquecem, Samuel Huntington.

 

 

 

 

No Largo de Santo António da Sé, em Lisboa, há um café/pastelaria que tem à porta uma tabuleta apenas em inglês que adverte para a necessidade de esperar para ser sentado (“Please wait to be seated”), conforme nos relata Fernanda Câncio (DN, 3 de Nov 2024), num interessante artigo intitulado “Please wait to be seated, a Lisboa que só fala inglês e está a violar a lei”:

 

“Há na capital cada vez mais estabelecimentos que ostentam comunicação exclusivamente em inglês. Dir-se-ia o Algarve dos anos 1980. Se alguém questiona, sai um atónito “qual o problema?”. A ideia, garantem, não é ofender ou afastar os portugueses, até porque “vocês são muito bons em línguas”. Quem diria que é ilegal?”

 

O nome desse café é “Dear Breakfast”. Tão vulgar em português como “McDonald”, “Starbucks”, “Oracle”, “Netflix”…

 

Socialismo” não significa, por muito fundamental que isso seja, apenas a socialização da produção, mas acima de tudo socialização no sentido sociológico do termo, no estabelecimento de novas relações humanas e de estruturas genuinamente populares, com vista à dissolução das barreiras entre o estado e a sociedade civil.

É por ter este entendimento daquilo que socialismo é, que para Gramsci (1891-1937) “a luta para derrotar o capitalismo e construir o socialismo era vista essencialmente como um continuum no qual a transferência atual do poder era apenas um momento”. E mais tarde, isso leva-o a acrescentar:

 

O problema básico […] não é como os revolucionários chegam ao poder, muito embora esta questão seja muito importante. É como é que eles passam a ser aceites, não apenas como os novos dirigentes políticos, mas como exemplos e leaders”.

 

Antonio Gramsci esteve preso de 1926 a 1937, durante os quais escreveu mais de 30 cadernos de apontamentos, os famosos Cadernos do cárcere  (PDF 500 pp) que continuam a constituir uma das contribuições mais importantes para a teoria política.

É neles que vai desenvolver a sua teoria da hegemonia cultural, que descreve a forma como o Estado e a classe dominante utilizam as instituições culturais para manter a riqueza e o poder.

Segundo Gramsci, a burguesia desenvolve uma cultura hegemónica utilizando a ideologia em vez da violência, da força económica ou da coerção.

Ou seja, o problema básico que se punha seria o da hegemonia, que tinha de ser conquistada não apenas antes e durante, mas depois da revolução, e que só poderia ser alcançada através da participação das massas e da sua educação consensual, “a escola de uma nova consciência, uma humanidade mais completa para o futuro socialista”.

Para Gramsci, a política era mais do que o exercício do poder, porque as sociedades não eram apenas estruturas de domínio económico ou de força política, pois possuíam uma certa coesão social mesmo quando envolvidas em antagonismos de classe.

 

Recordemos que após a vitória da revolução Russa e o colapso dos impérios dos Ausburgo e Hohenzollern na Europa central, os teóricos comunistas passaram a acreditar que após o rescaldo da Primeira Guerra Mundial, a tomada do poder pelo proletariado fazia parte da agenda imediata em cada um dos estados dos países imperialistas, porque pensavam que o mundo tinha definitivamente entrado na época histórica da revolução socialista.

Lukács escrevia que se vivia numa “atualidade universal da revolução proletária” determinada pelo estado geral do desenvolvimento do capitalismo, que tinha entrado na sua crise mortal.

Ou seja, confundiam as precondições concretas necessárias para uma situação revolucionária com a afirmação abstrata do caráter revolucionário do tempo, da época em si. Daí preconizarem como tática a seguir a ação armada parcial contra o estado capitalista.

Era a teoria da “ofensiva revolucionária”: uma vez que a época era revolucionária, a única estratégia era a da ofensiva, através de uma série de repetidos golpes contra o estado capitalista, que deveriam de ser realizados mesmo se a classe trabalhadora não se encontrasse numa disposição imediatamente revolucionária, servindo nestes casos para “acordarem” o proletariado do seu torpor reformista.

 

Sabemos o que aconteceu a essa ofensiva revolucionária.

 

E temos Samuel Huntington a escrever (The Clash of Civilizations and the Remaking of Worls Order) que:

 

 “O Ocidente dominou o mundo não por causa da superioridade das suas ideias ou valores ou religião […] mas antes pela sua superioridade na utilização da violência organizada. Os ocidentais muitas vezes esquecem este facto; mas os não-ocidentais nunca o esquecem”.

 

A ser assim, o facto de o domínio ocidental estar historicamente enraizado na violência organizada e não na superioridade cultural ou ideológica, mina as alegações de que valores universais como a democracia ou os direitos humanos são os principais impulsionadores da sua influência global.

A afirmação de Huntington explica porque é que as alianças militares globais como a NATO, a aliança "Cinco Olhos", o diálogo de segurança quadrilateral (o Quad) entre os EUA, o Japão, a Índia e a Austrália e as bases militares mundiais, as intervenções armadas na crise da Ucrânia, no Médio Oriente e no Afeganistão, bem como a contenção da China, são parte integrante da estratégia geopolítica dos Estados Unidos no nexo entre as "dimensões internas e externas da sua confiança na violência expansionista organizada como a sua ferramenta de política externa".

 

Eis George Kennan, um diplomata dos EUA, explanar:

 

"Temos 50 por cento da riqueza do mundo, mas apenas 6,3 por cento da sua população... Nesta situação, não podemos deixar de ser objeto de inveja e ressentimento. A nossa verdadeira tarefa no próximo período é conceber um padrão de relações que nos permita manter esta posição de disparidade. Deveríamos deixar de falar sobre objetivos vagos e... irreais, como os direitos humanos, a elevação dos padrões de vida e democratização. Não está longe o dia em que teremos que lidar com conceitos diretos de poder. Quanto menos formos prejudicados por slogans idealistas, melhor.”

 

Qual o pensamento da esquerda social democrata sobre isso? Como atuar?

 

Como parte do princípio que o sistema é mantido por consentimento e não por coerção, conclui que a principal tarefa dos militantes socialistas não é o combate contra um estado armado mas antes o intentar a conversão ideológica da classe trabalhadora para a libertar da submissão das mistificações capitalistas.

Acredita que apesar da classe trabalhadora ter acesso ao estado (através das eleições), o socialismo só não é alcançado devido à doutrinação a que é submetida pelos meios de comunicação social. E assim vamos votando.

 

 

 

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