(505) A “Bíblia da Mulher” (revisitada)
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“Os homens nascem ignorantes, mas não estúpidos. É a educação que os torna estúpidos”, Bertrand Russel.
“Como todas as religiões à face da terra degradam a mulher, sempre que a mulher aceitar ficar nessa posição em que a colocam, a sua emancipação torna-se impossível”, Elizabeth Cady Stanton, 1895.
“O casamento para ela não passa de uma condição de servidão, a maternidade de um período de sofrimento e angústia, e tem ainda de desempenhar em silêncio e sujeição o papel de dependente dos desejos do homem para todas as suas necessidades materiais”, E. C. Stanton.
“A principal distinção na potência intelectual entre os dois sexos é o homem poder alcançar uma mais alta eminência, seja no que se proponha, do que se fosse mulher”, C. Darwin.
“Tem-nos sido dito pela gestão de topo que aquilo que temos feito é o que é, económica e moralmente, o mais correto, mas isso não passa de uma ideologia velada de esquerda que tem irreparavelmente prejudicado a Google”, James Damore.
Na Introdução que a ativista e escritora americana Elizabeth Cady Stanton (1815-1902) fez em 1895 para A Bíblia da Mulher, obra em dois volumes publicada em 1895 e 1898 (com a colaboração de mais 26 escritores), como desafio à ortodoxia religiosa e à Versão Revista da Bíblia empreendida pela Igreja da Inglaterra em 1881, 1885 e 1894, sem a participação de qualquer mulher, e que continuava a colocar a mulher como subserviente do homem, pode ler-se:
“A Bíblia tem sido usada para manter a mulher na ‘esfera divinamente ordenada’ que lhe foi atribuída, de acordo com o prescrito no Antigo e no Novo Testamento.
O cânone e a lei civil; a igreja e o estado; os padres e os legisladores; todos os partidos políticos e as variadas congregações religiosas concordam em que a mulher foi feita depois do homem, a partir do homem, e para o homem, um ser inferior, sujeito ao homem. Credos, códigos, Escrituras e estatutos, todos tomam por base esta ideia. As modas, formas, cerimónias e costumes da sociedade, ordenações da igreja e disciplina, todas emanam desta ideia. […]
A Bíblia ensina que foi a mulher que trouxe o pecado e a morte ao mundo, que foi ela que precipitou a decadência da raça, tendo sido arrastada perante o julgamento do Céu, julgada, condenada e sentenciada. O casamento para ela não passa de uma condição de servidão, a maternidade de um período de sofrimento e angústia, e em que ela tem ainda em silêncio e sujeição de desempenhar o papel de dependente dos desejos do homem para todas as suas necessidades materiais, bem como para todas as informações sobre as questões do dia a dia que ela possa julgar pertinentes e que, obrigatoriamente, terá primeiro de perguntar ao marido. Em resumo, esta é a posição da mulher segundo a Bíblia […]
A lei canónica, os ensinamentos da igreja e Escrituras, são homogéneas, e todas elas refletem o mesmo espírito e sentimentos. Todos estes textos familiares são referidos pelos padres nos seus púlpitos, pelos políticos nas suas assembleias, pelos advogados nos tribunais, reproduzidos pela imprensa de todas as nações civilizadas, e aceites pelas próprias mulheres como sendo “A Palavra de Deus”.
A natureza do elemento religioso está tão pervertida, que com a fé e orações as mulheres acabam por ser o principal suporte da igreja e do clero; exatamente os mesmos poderes que tornam a sua emancipação impossível. Quando no início do século XIX as mulheres começaram a protestar contra a sua degradação civil e política, foram aconselhadas a encontrarem uma resposta na Bíblia. Quando protestaram contra o seu tratamento desigual pela igreja, foram aconselhadas e encontrarem resposta na Bíblia.
Isto conduziu a um estudo geral e crítico das Escrituras. Alguns, acreditando que elas eram mesmo a verdadeira “Palavra de Deus”, fizeram traduções liberais, interpretações, alegorias e símbolos, branqueando as características mais objetáveis das várias Escrituras, editando-as como sendo inspiradas divinamente. Outros, vendo as semelhanças familiares entre a Lei Mosaica (a lei Mosaica começa com os Dez Mandamentos dados por Deus aos Israelitas através de Moisés, e inclui ainda preceitos de conduta religiosa incluídos nos primeiros cinco livros do Velho Testamento; no Judaísmo, livros conhecidos como Tora, ou “a Lei”), a lei canónica, e a antiga lei civil Inglesa, concluíram que todos eles eram semelhantes e emanavam da mesma fonte […].
Outros ainda, baralhados entre as suas dúvidas e medos, não chegaram a qualquer conclusão. Enquanto os seus clérigos lhes dissessem por um lado que elas deviam todas as suas bênçãos e liberdades à Bíblia, e por outro lado lhes diziam que era exatamente por isso que as suas esferas de ação estavam circunscritas: que os pedidos respeitantes a direitos civis e políticos eram irreligiosos, perigosos para a estabilidade do lar, do estado e da igreja.
Eram frequentes os apelos do clero para que os fiéis das suas igrejas não participassem em movimentos contra a escravatura ou em movimentos sufragistas femininos, fazendo notar que nesses casos estariam a serem infiéis para com as suas tendências, minando o próprio fundamento da sociedade. Não é de admirar que a maioria das mulheres se mantivesse quieta, de cabeça baixa, aceitando a situação.
Após ouvir as opiniões de mulheres, comecei a pensar que seria interessante e proveitoso trazê-las a conhecimento público através da sua publicação em livro. Foi assim, que há seis anos propus a uma comissão de mulheres o projeto da ‘Bíblia para a Mulher’, onde seriam vertidos os nossos comentários sobre a posição das mulheres no Antigo e no Novo Testamento […]
Contudo, várias distintas professoras versadas em estudos bíblicos e em hebreu e grego, embora interessadas, não participaram com receio que as suas reputações académicas pudessem vir a ser afetadas dado o que consideraram ser um projeto impopular.
Outras receiam que possam comprometer a sua fé evangélica se acolherem visões mais liberais que não olham para a Bíblia como “Palavra de Deus”, mas como um qualquer outro livro, que deva ser julgado pelos seus méritos próprios. Se a Bíblia prega a igualdade da Mulher, porque é que a igreja recusa a ordenação de mulheres para poderem pregar, preencher os cargos de diácono, administrar os sacramentos, ou não as admite nem que seja como delegada aos Sínodos, Assembleias Gerais e outras Conferências? Porque nunca convidaram uma mulher para participar nas Comissões de Revisão […]
Recebemos um grande número de cartas muito apreciativas sobre a obra e a intenção que presidiu ao seu aparecimento. Recebemos também as usuais objeções esperadas. Uma delas convidava-nos a suspender a obra, uma vez que era “ridículo” que as “mulheres se atrevessem a rever as Escrituras”. Pergunto-me se algum homem escreveu à última comissão da revisão dos Divinos para que a suspendessem por serem homens a reverem a Bíblia […]
Outras referem que não é “político” demonstrar oposição religiosa. Este tipo e política não passa de “cobardia”. Como é que se pode alterar a posição de subordinação da mulher para uma de igualdade, sem oposição, sem a discussão o mais alargada possível de todas as questões que dão origem a essa degradação? […]
Outras dizem-nos que o nosso trabalho é um dispêndio inútil de força num livro que já tem pouco a ver com o espírito humano. Dizem que a maior parte das mulheres inteligentes o veem como uma história de um povo rude de uma época de barbárie, e que têm tanta reverência para com a Bíblia como para um outro qualquer livro. Só que, enquanto dezenas de milhar de Bíblias forem impressas todos os anos, e postas a circular por todo o mundo, e enquanto os povos de todas as nações de fala inglesa o reverenciarem como a palavra de Deus, não vale a pena diminuir-lhe a sua importância. […]
Os únicos pontos em que me diferencio relativamente aos ensinamentos eclesiásticos é que não acredito que algum homem tenha alguma vez visto ou falado com Deus, não acredito que Deus tenha inspirado o código Mosaico, ou tenha dito aos historiadores da Bíblia o que eles dizem sobre as mulheres. Como todas as religiões à face da terra degradam a mulher, e desde que a mulher aceite esta posição em que a colocam, a sua emancipação torna-se impossível.
[…]. Há alguns princípios gerais nos livros sagrados de todas as religiões que ensinam amor, caridade, liberdade, justiça e igualdade para todos os seres humanos, há muitas e belas passagens, cuja regra de ouro têm ecoado à volta do mundo. Há muitos exemplos de homens e mulheres verdadeiros e bons, todos eles dignos da nossa aceitação e imitação, cujo brilho não pode ser diminuído por sentimentos falsos e indignos exibidos por outros no mesmo volume. A Bíblia não pode ser aceite ou rejeitada como um todo, os seus ensinamentos são variados e as suas lições diferem bastante umas das outras […]. Ao criticarmos a lei Mosaica não questionamos a sabedoria da regra de ouro e do quinto Mandamento. Mais uma vez a igreja reserva consagração especial para as suas catedrais e clérigos, partes dessas igrejas aristocráticas são demasiado sagradas para permitirem a entrada de mulheres, uma das razões invocadas para a introdução de rapazes nos coros, e em que as mulheres cantavam num canto obscuro obrigatoriamente velado.
[…] A lei canónica, as Escrituras, os credos e os códigos e a disciplina da igreja das principais religiões, todas eles têm a impressão falível do homem, e não da nossa primeira causa ideal, “o Espírito de Todo o Bem”, que deu movimento ao universo da matéria e do espírito […].”
Mas Cady Stanton foi também a fundadora (1869) e presidente da National Woman Suffrage Association (NWSA) que se batia pela concessão do direito de voto às mulheres, o que só veio a acontecer em 1920 (51 anos depois) quando foi finalmente ratificada a Décima Nona Emenda à Constituição dos E.U.A., onde se dizia que “O direito de voto dos cidadãos dos Estados Unidos não pode ser negado ou limitado pelos Estados Unidos ou por qualquer Estado mediante a invocação de género (sexo).”
Muitas e variadas são as Associações de mulheres que têm existido nos EUA. Aliás, os vários tipos de associações e grupos que aí pululam, têm sido cruciais para o desenvolvimento desse país desde a época da colonização: não foi por acaso que ao primeiro governo das treze colónias se chamou “A Associação”.
Ainda hoje nos EUA, as Igrejas continuam a ser associações voluntárias privadas e podemos constatar que, desde que o vínculo entre a Igreja e o Estado se rompeu com a Revolução Americana, a maioria das reformas mais importantes, como a abolição da escravatura, a instituição dos direitos das mulheres, a reforma penal e penitenciária, a educação, a proteção dos nativos americanos e dos direitos civis, têm sido ‘conseguidas’ através da defesa e combatividade dessas associações de pessoas.
É sabido que só após muitas lutas e muitos anos é que os direitos políticos vieram a ser reconhecidos. O direito ao voto não foi exceção. Mesmo quando na maior parte dos países europeus ele foi ‘concedido’, foi só para os homens que possuíssem uma determinada quantidade de bens, o que fazia, por exemplo, que em 1830, na França, onde existiam cerca de trinta milhões de habitantes, o eleitorado fosse apenas de noventa mil votantes.
Mas não só a falta de riqueza era limitativa do direito ao voto. A confissão religiosa também o era: na Grã-Bretanha, os católicos só puderam votar após 1829, e os judeus após 1858.
Quanto às mulheres, o seu direito de voto foi vindo a ser sempre protelado: quando após a guerra civil americana julgavam conquistar, juntamente com os escravos negros, o direito de votar, foram preteridas, elas que não os escravos negros.
Anteriormente, já Kant, ao pressupor a independência do sujeito como critério para a capacidade de votar, concluía que “qualquer um que não pudesse conservar a sua existência (o seu sustento e proteção) por si mesmo, dependendo dos demais” seria excluído de votar. Assim, os serventes, as crianças e as mulheres ficam excluídas por não terem “personalidade civil e a sua existência é, digamos, só de inerência”.
Em França, no Código Civil de Napoleão, as mulheres, juntamente com os menores, os delinquentes e os deficientes mentais, viram-se excluídos dos direitos jurídicos; as mulheres casadas estavam impedidas de vender, doar, hipotecar ou comprar propriedades, e até 1965 necessitavam de autorização expressa dos maridos para trabalharem.
Em Inglaterra, talvez devido ao papel que desempenharam durante a Primeira Guerra, começaram a poder votar a partir de 1918. Na Bélgica, França, Itália e Japão, só após a Segunda Guerra é que foi concedido o voto às mulheres. Na avançada Suíça, só a partir de 1971 é que as mulheres puderam participar nas eleições federais.
Mais: não se julgue que uma vez ‘conquistados’ esses direitos, eles viessem a permanecer para sempre. Exemplo claro foi o que aconteceu em Espanha em 1931 e 1932, quando se concedeu o voto às mulheres e se despenalizou o aborto. Em 1939, com a chegada de Franco ao poder, tudo isso acabou e apenas as mulheres que fossem casadas e mães de família podiam votar nos referendos. Só a partir de 1976 é que as espanholas voltaram a ter direito a exercer o voto em liberdade e o direito de acesso a cargos públicos.
Hoje em dia, com o regresso a um novo autoritarismo, parece que a ênfase do século XX na liberdade associada à proliferação dos movimentos sociais e revoluções, como o feminismo, os movimentos a favor dos direitos civis nos EUA, a Primavera de Praga, o Maio de 68 em Paris, se tem vindo a eclipsar.
Em julho de 2017, o engenheiro James Damore da Google americana, enviou um memorando, “A Câmara de Eco Ideológica da Google” (Google’s Ideological Echo Chamber), como resposta a um programa sobre diversidade que a empresa estava a implementar para ver se aproximava o desnível funcional e salarial existente entre os sexos.
Segundo o engenheiro, a Google deveria acabar com esse programa de diversidade, sugerindo que a desigualdade entre géneros na indústria tecnológica era em parte devido às diferenças biológicas existentes entre homens e mulheres, sendo, portanto, um problema do posicionamento da própria empresa que, com a sua conceção liberal de administração de pessoal criara.
Socorrendo-se de gráficos e tabelas, doutas opiniões de estudos científicos, James Damore demonstrava que a biologia estava por trás das razões da existência de tão poucas mulheres nas ciências tecnológicas. Razão tinha afinal aquele meu colega de liceu, respondendo á pergunta sobre quem era mais inteligente, se o homem ou a mulher, disse na ingenuidade dos seus quinze anos: “O homem, porque todos os grandes homens foram homens”.
O próprio Darwin escrevera em 1871 no Descent of Man:
“A principal distinção na potência intelectual entre os dois sexos é o homem poder alcançar uma mais alta eminência, seja no que se proponha, do que se fosse mulher”,
assumindo assim a inferioridade biológica da mulher, atribuindo a essa razão o pequeno número de mulheres cientistas, arquitetas e políticas, sem pensar que vivia numa sociedade que não permitia que as mulheres votassem, que as mulheres casadas pudessem ter propriedades ou que as mulheres fossem para as universidades.
Fácil de imaginar a celeuma e os artigos, contra e a favor, que apareceram na comunicação americana, esgrimindo argumentos e contra-argumentos, socorrendo-se da notoriedade (como a de Darwin) ou de artigos científicos publicados.
Contudo, nenhum abordou aquilo que parece ser o fundo do problema, que é o tipo de raciocínio falacioso de James Damore, que se entende melhor quando ele explicita as razões porque a Google tem falhado nas suas tentativas de diminuir a descriminação entre os sexos. Diz ele:
“[…]. Tem-nos sido dito pela gestão de topo que aquilo que temos feito é o que é o mais económica e moralmente correto, mas isto não passa de uma ideologia velada de esquerda que tem irreparavelmente prejudicado a Google.”
E, passa a explicar:
“O comunismo prometeu ser simultaneamente superior moral e economicamente ao capitalismo, mas todas as suas tentativas deram em corrupção moral e falhanço económico. Quando se tornou claro que a classe trabalhadora das democracias liberais não iria “correr com os seus opressores capitalistas”, os intelectuais marxistas passaram da luta de classes para as políticas raciais e de género. A dinâmica opressor-oprimido manteve-se, só que agora o opressor é o “patriarcado branco, hétero e cisgénero.”
(cisgénero: termo utilizado para se referir às pessoas cujo género é o mesmo que o designado no seu nascimento, por oposição a transgénero.)
Se aplicássemos este tipo de raciocínio como base para compreensão da existência e do desenvolvimento, certamente a possibilidade de progressão do capitalismo não teria passado do século XIV. Foram muitas, ao nível de centenas ou milhares, as tentativas que o capitalismo foi fazendo ao largo de vários séculos (a começar no século XIV com as revoltas da burguesia e o seu papel nas tomadas de poder, ou na contribuição monetária para as revoluções, como por exemplo aqui em Portugal aconteceu com o apoio concedido a D. João I), até que finalmente se conseguiu impor.
Ou seja, o falhanço do comunismo e do nazismo neste último século, não constitui razão suficiente para os considerar arredados da história, da mesma forma que os sucessivos e variados falhanços do capitalismo não foram razão suficiente para o considerar como desqualificado.
Este tipo de raciocínio baseia-se na consideração de que a sociedade é o que os dados do momento nos transmitem, extrapolando-os depois para o futuro. Sobre esses dados não se exerce qualquer mediação crítica do seu valor, na medida em que eles são aceites como parte do sistema que se impõe na altura.
É como se por exemplo cortássemos uma fatia da história onde verificássemos que as mulheres não trabalhavam fora de casa, só trabalhando em casa, aí desempenhando todas as funções domésticas, e onde existisse a escravatura de negros, pudéssemos concluir que, independentemente do que antes pudesse ter acontecido, essa era a realidade existente, e a partir dessa realidade elaborássemos para o futuro como se ela fosse a real.
É como se concluíssemos ao analisar o que se passou no campeonato de futebol de 2016-2017 em que o Benfica foi tetracampeão, que, mantendo-se as mesmas condições, passaria a ser o campeão no futuro. Ou, ao analisarmos os casamentos pelo estado de satisfação e amor que existem em ambas as partes a quando da sua realização, daí concluir-se que no futuro permanecerão casados para sempre.
É um raciocínio falacioso que, ao extrapolar as suas conclusões para o futuro, poderá vir a ser perigoso, na medida em que para escamotear a sua falta de critica, vai pretender substitui-la (depreciando-a até) pelo enorme aumento de dados obtidos (dados que são os próprios que decidem que esses é que são os dados válidos), com o argumento de quanto mais dados se tiver mais correto será o sistema, o que irá fazer com que no limite não exista qualquer causalidade, qualquer tipo de raciocínio: só existem dados.
Tudo não serão mais do que conjuntos de dados, ‘coisas’ que aí estão prontas a serem controladas, conduzidas, inalteráveis a partir do momento em que são decididas por serem o que se diz serem, e introduzidas no sistema.
Trata-se de uma visão da história muito restrita que, virada para o futuro construído a partir dela, virá a alterar radical e nefastamente a humanidade, conduzindo-a a uma nova submissão nunca vista, uma nova escravatura, que pelo menos esperamos que seja divertida dados os meios de entretenimento de que virá a dispor e que nos porá à disposição. Como humanos docilmente refugiados e ignorantes de humanidade, estaremos por tudo.
Curiosamente, um mês depois, o engenheiro Damore foi despedido pela Google. Ele, que julgava que a Google era uma empresa com valores de esquerda, não entendeu nada: é que a Google é mesmo uma empresa defensora avançada dum sistema capitalista, mesmo que pareça defender outros valores. Só aparenta defender outros valores enquanto tal lhe for mais rentável. Acima de tudo não quer nada que lhe transtorne as vendas, que lhe crie problemas. Tal como a maior parte dos americanos não percebeu que o O. J. Simpson foi absolvido não por ser negro, mas por ser rico: o sistema a funcionar para os seus!
Agora que a sentiu no pelo, espero que o engenheiro Damore interprete a frase predileta do seu mais alto representante “You’re fired!”, não como um ataque pessoal, mas como algo necessário para o progresso e evolução da sociedade.
Nota:
Este artigo é a revisitação com pequenas correções ortográficas do blog de 23 de agosto de 2017.