(504) O que é ser americano?
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A procriação seletiva e a restrição da imigração proveniente da Ásia e do sul da Europa como forma para purificar a população americana, Madison Grant.
Se a tendência atual não mudar, nós, brancos, estaremos todos condenados, Lothrop Stoddard, 1920.
O Terceiro Reich usou o livro que Harry Laughlin escreveu em 1922, Eugenical Sterilization in the United States, que incluía um capítulo sobre as leis-tipo da esterilização a serem aplicadas, como modelo para a implementação das suas leis.
A América deve permanecer americana, presidente Calvin Coolidge quando sancionou a Lei da Imigração de 1924.
Tive um tio que estudou no MIT e é um excelente professor. O Dr. John Trump. Um génio. Está-me no sangue. Eu sou inteligente, Trump, 2020.
Em 1963, o cantor e ativista dos direitos civis americano Oscar Brown, escreveu, “The Snake” (A Cobra):
‘Eu salvei-te’, gritou aquela mulher.
'E até me mordeste, porquê'
‘Sabes que a tua picada é venenosa e agora vou morrer.’
'Oh, cala-te, mulher tola', disse o réptil com um sorriso,
‘Sabias muito bem que eu era uma cobra antes de me acolheres.’
Ao arrepio da intenção de Brown, este poema tem vindo a ser repetidamente utilizado por Trump nos seus comícios, querendo com ele chamar a atenção para os perigos da imigração, na medida em que os imigrantes depois de serem bem acolhidos acabam por se voltarem contra os americanos.
Passam pouco mais de cento e cinquenta anos, desde que em 1860, o cientista britânico Francis Galton, primo de Charles Darwin, desenvolveu a teoria da eugenia (teoria de que algumas pessoas, e até mesmo algumas raças, são geneticamente superiores a outras), que de imediato ganhou grande aceitação nos EUA e na Grã-Bretanha.
Ela define a identidade racial, e especialmente a identidade branca, como sendo a mais desejável e digna.
Não é de assim estranhar que no início de 1900, grande parte dos estudos americanos sobre a eugenia menosprezasse os imigrantes vindos de qualquer outro lugar que não fosse da Escandinávia (“Nordicism”).
No final do século XIX e início do século XX, a imigração para os EUA atingia o seu auge. Em 1890, 14,8% das pessoas que viviam nos EUA eram imigrantes., o que levou a que muitas pessoas se preocupassem com isso. A solução parecia-lhes ser o eugenismo, defendido por dois dos mais famosos teóricos da época: Madison Grant (The Passing of the Great Race) e Lothrop Stoddard.
Grant advogava a restrição da imigração proveniente da Ásia e do sul da Europa. Ao mesmo tempo que preconizava esforços para purificar a população americana através de procriação seletiva.
Foi vice-presidente da Liga de Restrição de Imigração de 1922 até à sua morte em 1937. Atuando como especialista em dados raciais mundiais, Grant também forneceu estatísticas para a Lei de Imigração de 1924 para estabelecer quotas para imigrantes oriundos de certos países europeus. Ajudou também na aprovação e no processamento de várias leis anti miscigenação, nomeadamente a Lei de Integridade Racial de 1924 no estado da Virgínia, onde procurou codificar a sua versão particular da "regra de uma gota" em lei.
Stoddard atacou as políticas de imigração dos Estados Unidos no seu livro de 1920, “The Rising Tide of Color: The Threat Against White World-Supremacy”, onde escreveu:
“Se a tendência atual não mudar, nós, brancos, estaremos todos condenados. (…) Sabemos agora que os homens não são nem nunca serão iguais. Sabemos agora que o ambiente e a educação só podem desenvolver aquilo que a hereditariedade traz.”
O The New York Times recomendou o livro:
"Lothrop Stoddard evoca um novo perigo, o de uma eventual submersão sob vastas vagas de homens amarelos, homens castanhos, homens negros e homens vermelhos, que os nórdicos têm dominado até agora […] com o bolchevismo a ameaçar-nos, por um lado, e a extinção da raça através da guerra, por outro, não é improvável que muitas pessoas deem uma consideração respeitosa [ao livro de Stoddard]."
Grant e Stoddard eram ambos assumidos supremacistas brancos que defendiam o racismo científico. Escreveram livros amplamente lidos que ajudaram a moldar a legislação americana e alemã nas décadas de 1920 e 1930. Hitler chegou mesmo a enviar uma missiva particular a Grant, considerando o livro como a (sua) “minha Bíblia”.
Juntamente com outros teóricos americanos abraçaram a eugenia como forma de justificar a segregação racial, restringir a imigração, impor a esterilização e defender outras desigualdades sistémicas.
Veja-se o caso de outro importante eugenista, Harry H. Laughlin, educador e superintendente do Eugenics Record Office, um grupo de investigação que reunia informações biológicas e sociais sobre a população americana.
Em 1922, Laughlin escreveu o influente livro, “Eugenical Sterilization in the United States”, que incluía um capítulo sobre as leis-tipo da esterilização a serem aplicadas. O Terceiro Reich usou o seu livro e as suas leis como modelo ao implementá-los na Alemanha durante o auge do período nazi.
Laughlin também foi chamado a testemunhar regularmente perante o Congresso dos EUA. O seu testemunho de 1922 é representativo da mensagem que enviava aos legisladores:
“A imigração é essencial e fundamentalmente um problema racial e biológico. Há muitos fatores a considerar, mas, do ponto de vista do futuro, a imigração é principalmente um investimento nacional de longa data nas reservas familiares humanas.”
Os eugenistas, há muito que se preocupavam especificamente com a genética norueguesa – acreditando que a América ficava sob ataque quando a imigração ocorria a partir de países não nórdicos.
É de Laughlin esta declaração de novembro de 1922: “Alguns dos nossos melhores e mais desejáveis imigrantes são da Noruega”.
Em 1924, o Congresso aprovou a Lei da Imigração (Immigration Act), que limitou severamente a imigração para os EUA, estabeleceu quotas para imigrantes com base na nacionalidade e proibiu os imigrantes da Ásia.
Foi o presidente Calvin Coolidge que sancionou essa fortemente restritiva Lei da Imigração de 1924, declarando: “A América deve permanecer americana”.
Recorde-se que foi Calvin Coolidge que concorreu às eleições com a plataforma “America First” em 1924, slogan que caiu em desuso depois de grupos como o Ku Klux Klan o terem adotado na mesma altura.
A ideia de America First, na altura, expressava o nacionalismo e o excecionalismo americanos – mas estava também ligada a movimentos anti-imigração e fascistas.
Portanto, estes receios de que os imigrantes estrangeiros enfraquecessem os EUA e o da ‘América para os americanos’ eram já populares há um século e Trump e muitos dos seus seguidores não fazem mais do que os seguir:
Trump prometeu realizar deportações em massa de imigrantes que vivem ilegalmente nos EUA, detendo à força imigrantes em campos e removendo 1 milhão de pessoas por ano.
Em abril de 2024, Trump usou uma linguagem desumanizante para expressar a sua aparente crença de que os imigrantes não são dignos de empatia:
“Os democratas dizem: ‘Por favor, não lhes chamem animais. São humanos.’ Eu disse: ‘Não, não são humanos, não são humanos, são animais.’”
Promoveu também a obsessão dos eugenistas pela Escandinávia e pela superioridade dos brancos.
Em 2018, falando sobre os imigrantes do Haiti, El Salvador e África, disse: “Porque é que todas estas pessoas de países de merda vêm para cá?”
Na mesma reunião, Trump terá também sugerido que os EUA deveriam, em vez disso, atrair mais pessoas de países como a Noruega.
Em abril de 2024, Trump voltou a abraçar esta ideia de superioridade escandinava, dizendo querer imigrantes de “bons países. Sabe, como a Dinamarca, a Suíça? Temos alguém a vir da Dinamarca? Que tal a Suíça? Que tal a Noruega?”
No início de outubro de 2024, Trump vai mais longe nos seus comentários quando questionou os genes defeituosos dos imigrantes, dizendo que “muitos deles assassinaram muito mais do que uma pessoa e agora vivem felizes nos Estados Unidos. Sabe, agora um assassino, acredito nisso, está nos seus genes. E temos muitos genes maus no nosso país agora.”
Não foi a primeira vez que Trump invocou a eugenia. Em 1988, por exemplo, Trump disse a Oprah Winfrey durante uma entrevista: “É preciso nascer com sorte no sentido em que é preciso ter os genes certos”.
Em 2016, Trump disse que as suas raízes alemãs são a razão da sua grandeza:
“Sempre disse que ganhar é algo, talvez, inato. Talvez seja apenas algo que tem; tem o gene vencedor. Francamente, seria maravilhoso se o pudesse desenvolver, mas não tenho a certeza se o conseguirá. Sabe, tenho orgulho em ter este sangue alemão, não há dúvida sobre isso. Ótima coisa.”
E em 2020, Trump voltou a aludir à sua crença de que as linhagens transmitem excelência:
“Tive um tio que estudou no MIT e é um excelente professor. O Dr. John Trump. Um génio. Está-me no sangue. Eu sou inteligente.”
Os repetidos e inúmeros comentários de Trump sobre a superioridade racial dos brancos em relação às pessoas de cor suscitaram algumas comparações com os nazis e a sua ideologia de superioridade racial.
Os nazis são, de facto, os maiores crentes da ideia de que as pessoas brancas, de olhos azuis e de cabelo loiro eram superiores às outras – e que a população humana deveria ser seletivamente gerida para originar pessoas brancas.
Mas não foram os nazis que originaram estas ideias. Na verdade, os nazis ficaram tão impressionados com muitas das ideias eugénicas americanas que as incorporaram nas suas leis racistas e antissemitas.
Parece, pois, que não adianta definir Trump como fascista ou nazi. O que está em causa é a definição do que é ser americano. E europeu. E …