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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(472) Os vícios dos pobres, as virtudes dos ricos

Tempo estimado de leitura: 7+2 minutos.

 

O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre, Arquidiácono W. Paley.

 

Neste feliz país onde a lei coloca o menor súbdito em igualdade com a maior personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não pode haver necessidade de se associarem.

 

“Amazon Spent $3.1 Million On Anti-Union Consultants In 2023”.

 

Por que é que a riqueza e o estatuto social diminuem os nossos sentimentos de compaixão para com os outros?

 

 

 

O desenvolvimento do sistema económico em que vivemos foi inicialmente lento, mas foi tal lentidão, a par de uma certa dose de violência, que possibilitou a transformação progressiva dos conceitos lógico-morais de vida, a ponto de ainda hoje acreditarmos em muitos deles como sendo “verdades naturais” e “incontestáveis”.

Recorde-se, por exemplo, a cobrança de juros pelo uso do dinheiro, hoje plenamente aceite como uma dessas verdades naturais e incontestáveis, e que ainda no início da Idade Média era considerada como crime. Para a Igreja, emprestar a juros era usura, e a usura era pecado. Naquela época, quem emprestava fazia-o para ajudar, para tirar de uma má situação, não devendo lucrar com a desventura do outro.

O justo era receber só o que se tinha emprestado. Se se emprestava um saco de farinha, devia receber-se só um saco de farinha (costume que ainda hoje se mantém quando se empresta à vizinha ovos ou leite). Quem cobrasse juros pelo uso do dinheiro estaria a vender tempo, e o tempo não pertencia a ninguém para poder ser vendido. O tempo só a Deus pertencia.

Além do mais, emprestar dinheiro e receber depois ainda um acréscimo de juro fixo, significava a possibilidade de se viver sem trabalhar, o que era considerado errado.

É claro que uma coisa era o que a Igreja dizia, outra o que fazia à medida que se ia enredando e controlando a sociedade, pelo que aos poucos a doutrina foi cedendo. Lentamente, novas leis foram surgindo: “A usura é um pecado – mas, sob certas circunstâncias …”, “Embora seja pecado exercer a usura, não obstante, em casos especiais …”.

O próprio sistema económico (mais corretamente, os que o controlavam) à medida que se foi desenvolvendo, foi também encontrando respostas para tudo aquilo que pudesse impedir ou atacar esse desenvolvimento. Alguns exemplos dessas “respostas” encontradas na época da industrialização, ainda hoje muito presentes:

 

  1. A. Lee, dono de uma tecelagem de algodão onde as crianças trabalhavam das 6 da manhã às 8 da noite, explicava porque as crianças deveriam ir trabalhar para as oficinas em vez de irem à escola: “nada era mais favorável para estimular a moral [dos pobres] do que o hábito, desde cedo, da subordinação, da indústria e da regularidade”.

Também Giddy, o presidente da Royal Society, era contra a proposta de se criarem escolas primárias para as crianças, porque “dar educação às classes trabalhadoras pobres seria na realidade prejudicial à sua moral e felicidade; aprenderiam a desprezar a sua sorte na vida ao invés de fazer deles bons servos na agricultura e outros empregos laboriosos, a que a sua posição na sociedade os destina […] Permitir-lhes-ia ler folhetos sediciosos e torná-los-ia insolentes para com os seus superiores.”

Já o Arquidiácono W. Paley, dava consolo e ajuda aos pobres miseráveis através do otimismo:

 “Algumas das necessidades que a pobreza impõe não constituem durezas, mas prazeres. A frugalidade em si é um prazer. É um exercício de atenção e controle que produz contentamento. Este contentamento perde-se no meio da abundância. Não há prazer quando se vive rodeado de imensos recursos. Uma outra vantagem ainda maior que possuem as pessoas em situação inferior é a da facilidade com que sustentam os filhos (tão entranhada ficou esta ideia que ainda hoje a “sabedoria” popular diz que “tudo se cria” a propósito da vinda de mais um filho). Tudo o que um filho de um pobre precisa está encerrado em duas palavras, ‘indústria e inocência’”.

Os pobres não devem invejar aos ricos a sua ociosidade. Os ricos é que devem de estar invejosos. Porque a ociosidade é a cessação do trabalho, e, portanto, só pode ser gozada, ou mesmo provada, pelos que conhecem a fadiga. O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre”.

 Estas considerações de Paley datam de 1793, altura da Revolução Francesa, pelo que, com receio que a revolução atravessasse a Mancha, aconselha ainda os pobres dizendo que “Ambicionar a situação ou a fortuna dos ricos, e a tal ponto desejar tomá-las pela força, ou através do tumulto e confusão públicos, não só é mau como insensato.”

Há também o caso de uma petição, enviada pelos trabalhadores diretamente para o Parlamento britânico relativa à diminuição do número de horas de trabalho diário, para se passar das 14 ou 16 horas para as 10, e que o Parlamento considerou que tal seria uma interferência à liberdade dos súbditos “que nenhuma outra legislatura da Cristandade teria tolerado por um momento”. Os industriais de Gloucester caracterizaram mesmo esta proposta como digna da pior Idade Média, por interferir na liberdade que tinha o operário de poder trabalhar tanto quanto o patrão desejasse.

Este argumento de que a limitação das horas de trabalho interferia na liberdade natural do homem foi repetidamente usado na América e na Inglaterra.

Quando em 1819 foi aprovada nova legislação para regulamentar o trabalho de menores nas Fábricas de Algodão (e apenas nelas, por aí o trabalho ser considerado muito perigoso), proibindo o emprego de menores de 9 anos, ficando o trabalho dos 10 aos 16 anos limitado a 12 horas por dia, muitos dos membros da Câmara dos Lordes votaram contra por considerarem que “o trabalho tem de ser livre”: se as crianças querem trabalhar e os donos das fábricas os querem empregar, qual era o problema? O que se estava a fazer era atentar contra o sagrado direito da liberdade contratual, destruindo assim os fundamentos do mercado livre.

 

Numa célebre sentença proferida em 1816 pelo juiz Sir William Garrow, em que condenou a dois anos de prisão nove chapeleiros por se terem reunido num sindicato para a proteção dos seus interesses (o que era considerado ilegal) pode ler-se:

 “Neste feliz país onde a lei coloca o menor súbdito em igualdade com a maior personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não pode haver necessidade de se associar. A gratidão devia-nos ensinar a considerar um homem como o Sr. Jackson, que emprega de 100 a 130 pessoas, como um benfeitor da comunidade”.

 

Não é de admirar que ainda hoje se considere que os pobres são pobres porque não querem trabalhar, são sujos e porcos porque não querem tomar banho, são feios e vestem-se mal porque não se querem esforçar, vivem em tugúrios desarrumados porque não gostam de viver em casas, amontoam-se em famílias numerosas porque não têm qualquer moral, e que sempre que puderem, mentem, aldrabam e roubam, sem qualquer consideração para com os outros, como exemplarmente nos mostrou Ettore Scola no seu filme, “Feios, porcos e maus”.

Esta considerações sobre os pobres, a classe baixa, são sempre feitas tendo como padrão o modelo alternativo representado pela classe alta, os ricos.

 

A 27 de fevereiro de 2012, os psicólogos da University of California, Berkeley, Paul Piff e Dacher Keltner, publicaram sete estudos (“Higher social class predicts increased unethical behavior”) que acabaram por comprovar que os indivíduos da classe social alta (medida pela riqueza, prestígio ocupacional e educação) se comportavam de forma mais antiética que os indivíduos da classe baixa.

Na sua abstrata pode ler-se:

 

Nos estudos 1 e 2, os indivíduos da classe alta eram mais propensos a infringir a lei enquanto conduziam, relativamente aos indivíduos da classe baixa. Nos estudos laboratoriais de acompanhamento, os indivíduos da classe alta foram mais propensos a exibirem tendências antiéticas quanto à tomada de decisão (estudo 3), a apropriarem-se de bens valiosos de outros (estudo 4), a mentirem numa negociação (estudo 5), a aldrabarem para aumentar as hipóteses de ganharem um prémio (estudo 6) e a aplaudirem um comportamento antiético no trabalho (estudo 7) do que os indivíduos de classe baixa.”

 

Para o estudo 1, observaram discretamente o comportamento dos condutores de automóveis num cruzamento movimentado. Verificaram que os condutores de carros de luxo, em vez de esperarem pela sua vez, eram mais propensos a ultrapassarem os outros motoristas. Tal acontecia com os condutores da classe alta, quer fossem homens ou mulheres, independentemente da hora do dia e da intensidade do tráfego.

Num estudo complementar, verificaram ainda que os condutores de automóveis de luxo eram também mais propensos a ultrapassar a alta velocidade os peões que tentavam utilizar a passadeira, mesmo depois de com eles terem estabelecido contacto visual.

 

Para descobrir se o egoísmo levava à riqueza (e não o contrário), os investigadores, realizaram um estudo em que começavam por pedir aos participantes que passassem alguns minutos a compararem-se a pessoas com melhor situação financeira ou, se assim o quisessem, com pior situação financeira. No fim da sessão, ofereciam aos participantes uma taça com doces, informando-os que se quisessem também os poderiam levar para casa. Simultaneamente eram também informados que os doces que sobrassem seriam dados às crianças de um laboratório próximo. Os participantes que tinham feito o exercício a pensar que estavam em melhor situação financeira em comparação com outros, acabavam por levar significativamente mais doces para si - deixando menos para as crianças.

 

Num outro conjunto de estudos, Keltner tentou analisar se a classe social influenciava os sentimentos de compaixão. Verificou que os indivíduos menos abastados eram mais propensos a demonstrarem sentimentos de compaixão para com os outros. Por exemplo, era mais provável que concordassem com afirmações como: “Muitas vezes noto pessoas que precisam de ajuda” e “É importante cuidar de pessoas vulneráveis”. Mesmo depois de controlar outros fatores que afetam os sentimentos de compaixão, tais como género, etnia e crenças espirituais, verificava-se o mesmo comportamento.

 

Noutro estudo, os participantes foram convidados a assistir a dois vídeos enquanto eram monitorizadas as respetivas frequências cardíacas. Um primeiro vídeo mostrava alguém a explicar como se construía um pátio. O segundo vídeo mostrava crianças que padeciam de cancro. Depois de assistirem aos vídeos, os participantes deviam quantificar a compaixão que sentiram.

A classe social foi medida fazendo perguntas aos participantes sobre o nível de renda e educação da sua família. Os resultados do estudo mostraram que os participantes com menos renda e educação, eram mais propensos a relatar sentirem mais compaixão quando assistiam ao vídeo das crianças com cancro. Além disso, os seus batimentos cardíacos diminuíram enquanto assistiam ao vídeo sobre o cancro – uma resposta que está associada a prestar maior atenção aos sentimentos e motivações dos outros.

 

Estas descobertas vieram confirmar pesquisas anteriores que mostravam como os indivíduos da classe alta eram piores no reconhecimento das emoções dos outros e menos propensos a prestarem atenção às pessoas com quem estão a interagir.

A pergunta que se impõe: por que é que a riqueza e o estatuto social diminuem os nossos sentimentos de compaixão para com os outros? Até porque teoricamente o mais provável seria que quem tivesse poucos recursos teria mais razões para ser egoísta.

 

Para os investigadores, a resposta pode ter algo a ver com a forma como a riqueza e a abundância nos dão uma sensação de liberdade e independência em relação aos outros. Quanto menos dependermos dos outros, menos nos importaremos com os seus sentimentos.

Outra razão possível tem a ver com as nossas atitudes em relação à ganância. Tal como Gordon Gekko, as pessoas da classe alta podem ser mais propensas a propalar a ideia de que “a ganância é boa”. Os investigadores descobriram que as pessoas mais ricas são mais propensas a concordar com afirmações de que a ganância é justificada, benéfica e moralmente defensável. Atitudes como estas permitem prever a probabilidade destes participantes se envolverem em comportamentos antiéticos.

 

Dada a crescente desigualdade de rendimentos existente, a relação entre riqueza e compaixão tem implicações importantes. E isto porque aqueles que detêm a maior parte do poder, político ou não, vêm normalmente já de meios privilegiados. E, se a classe social influência o quanto nos preocupamos com os outros, então os mais poderosos poderão ser os menos propensos a tomarem decisões que ajudem os necessitados e os pobres.

E, além disso, podem também ser os mais propensos a envolverem-se em comportamentos antiéticos. Embora a ganância possa ser uma emoção humana universal, ela pode exercer uma influência mais forte sobre aqueles que já a possuem.

Eis como os autores destes estudos, Keltner e Piff, especularam no New York Times sobre como a sua investigação poderia ajudar a explicar por que razão a Goldman Sachs e outras corporações financeiras de alto poder seriam terrenos férteis para comportamentos gananciosos.

 

 

Notas

 

Chamo a atenção para um artigo de Dave Jamieson saído no Huffpost de 31 de março de 2024, “Amazon Spent $3.1 Million On Anti-Union Consultants In 2023”.

 

Para o blog de 28 de junho de 2015, “Cristianismo como barreira à barbárie”.

 

Para o blog de 2 de novembro de 2016, “Lá vamos, cantando e rindo”.

 

E para um recente artigo de Cátia Moreira de Carvalho, no Diário de Notícias, 28 de março de 2024, “O terrorismo, a barbárie e a crueldade como se explicam?”, onde se pode ler:

“[…]  A desumanização é um mecanismo que reduz a regulação moral e consiste no ato mais extremo de tratamento imoral contra outras pessoas. Os seres humanos tendem a tratar outros membros do seu grupo com mais preocupação moral do que membros de um grupo externo. Esse processo é mais forte quanto mais uma pessoa se identifica com o seu grupo. Perceber outra pessoa como tendo a mesma humanidade faz com que os indivíduos ajam com empatia e com um sentido de obrigação social. Por esse motivo, é difícil cometer violência contra pessoas “humanizadas”, ou seja, com quem se sente empatia. Assim, a desumanização é o ato de tratar outras pessoas como menos do que humanas, sem emoções, sem sentimentos e sem alguma característica humana que lhes configure empatia.

A atribuição de culpa é outro mecanismo usado para reduzir a preocupação moral e infligir mais facilmente violência. Este processo ocorre quando as pessoas se percebem obrigadas a cometer violência porque a vítima “provocou” esse tipo de conduta. Dessa forma, ao atribuir a culpa às vítimas pelo sofrimento infligido nelas, o comportamento prejudicial é visto como uma reação defensiva e moralmente justificada. Evita-se a autocondenação não apenas culpando as vítimas, mas também percebendo o comportamento violento como uma necessidade derivada da alegada provocação, em vez de uma decisão pessoal.

Uma maneira de atribuir culpa às vítimas pela violência contra elas é através de um processo de demonização. Esse processo ocorre quando membros do grupo externo são vistos como malignos, o que implica que os indivíduos são despidos de sua consideração moral. Isso facilita o cometimento de violência contra eles, justificando qualquer meio violento adotado com base na perceção de que esse indivíduo é visto como malévolo e culpado por isso, portanto, não merece qualquer consideração moral. A demonização é, assim, uma violência moralizada, que vai além da desumanização, porque as vítimas são vistas como incapazes de mudar sendo, desta forma, culpadas pela violência infligidos contra elas.

Para compreender melhor esses mecanismos, deixo como exemplo a propaganda jihadista, que frequentemente retrata as pessoas ocidentais como desprovidas das suas características humanas, desumanizando-as ao nível de animais. Por exemplo, é comum que as vítimas do terrorismo sejam rotuladas como “porcos”, justificando a violência contra elas com base nisso. Além disso, a narrativa jihadista frequentemente retrata as pessoas ocidentais como “apóstatas” ou “infiéis”, enquadrando-as como perpetradoras de atos irreconciliáveis com a ideologia promovida pelas organizações terroristas de inspiração islamista. Consequentemente, a culpa é atribuída às vítimas, racionalizando e facilitando a violência terrorista infligida a elas. 

Todas as formas de terrorismo e de extremismo utilizam estes mecanismos na sua propaganda para radicalizar, recrutar e instruir a violência. E são estes mecanismos que permitem que pessoas, de forma deliberada e intencional, cometam violência contra outras, que são vistas como inferiores ou merecedoras de tal brutalidade. […]”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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