(456) Raposas no galinheiro
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Sem o envolvimento das empresas de combustíveis fósseis não se poderá resolver a crise do clima, Sultão Al Jaber, presidente da Cop28 e chefe executivo da ADNOC, Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi.
Os combustíveis fósseis podem continuar a ser queimados até quase ao fim do século XXI, potenciando com isso o crescimento económico, os empregos e a inovação, W. Nordhaus, Nobel de Economia.
Os fundos de pensões informaram os seus membros que o aquecimento global de 2 a 4,3ºC terá apenas um impacto mínimo nas suas carteiras, conselho de consultores de investimento.
O IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), é uma organização intergovernamental das Nações Unidas que tem por missão promover o avanço do conhecimento científico relacionado com as alterações climáticas causadas pelas atividades humanas. Constituído em 1988, é a autoridade internacionalmente aceite no que se refere à alteração climática.
O Painel é constituído por membros de 195 governos, que se reúnem em Sessões Plenárias pelo menos uma vez por ano, para aprovarem, entre outros, o Relatório Anual (Assessment Report), com as principais conclusões a que chegaram e que servem de base para as negociações anuais da United Nations Framewrk Convention on Climate Change (UNFCCC). Por exemplo, o Quinto Relatório Anual teve enorme influência para se conseguir chegar ao consenso do Acordo de Paris em 2015, no qual se aprovou a limitação da subida de temperatura global para 2ºC acima dos níveis pré-industriais.
Este ano, a 28ª Conferência (COP28) realizou-se no Dubai, Emiratos Unidos Árabes (UAE), debaixo da presidência do Sultão Al Jaber, chefe executivo da Adnoc, a Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, que recentemente disse que a ciência não justificava que a eliminação dos combustíveis fósseis fizesse diminuir, só por si, o limite do aquecimento global, e que tal eliminação conduziria antes o mundo para uma nova era das cavernas. Note-se que é a primeira vez que um homem de negócios é presidente da Conferência (COP), acrescendo ainda neste caso ser também presidente de uma empresa petrolífera.
O que para Al Jaber é perfeitamente aceitável e correto porquanto “sem o envolvimento das empresas de combustíveis fósseis não se poderá resolver a crise do clima”. Para ele e certamente para os 2.500 lobistas dessas empresas de combustíveis fósseis presentes na conferência.
No mesmo sentido se pronunciou o Secretário Geral da OPEC, Haithman Al Ghais, quando incentivou os estados membros da aliança a rejeitarem quaisquer tentativas para que no documento final desta 28ª Conferência fossem inseridas menções sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis.
Em assuntos de tal complexidade e de enormes interesses económicos, industriais, políticos e militares, com a participação de cientistas e ativistas, os documentos finais refletem exatamente isso: o ponto de equilíbrio, o que não significa o mais certo nem o mais correto, apenas o que garantiu a aprovação. Daí as variadas controvérsias, interpretações, confrontações, avanços e atrasos para todos os gostos.
É em 1977 que William Nordhaus vai publicar dois estudos sobre as estratégias para o controle do dióxido de carbono e sobre a influência do dióxido de carbono no crescimento económico e no clima. Em 1991 começa a desenvolver um modelo para aplicação simultânea à economia e ao clima, aproximando-se do célebre modelo DICE (Dynamic Integrated Climate-Economy), que permite pesar e quantificar os benefícios das medidas a tomar para atrasar a alteração climática.
Segundo os modelos de Nordhaus (Nobel de Economia em 2018, e principal influenciador da política adotada pela Environmental Protection Agency dos EUA, do IPCC, dos principais gestores de risco globais, de serviços financeiros da indústria, e das principais universidades que ensinam economia do clima), um aumento de temperatura entre os 2,7 e 3,5 graus Celsius conduzirá até a uma adaptação “ótima” da economia global, ou seja, os combustíveis fósseis podem continuar a ser queimados até quase ao fim do século XXI, potenciando com isso o crescimento económico, os empregos e a inovação.
A humanidade não terá dificuldade em adaptar-se a tal grau de aquecimento, e investimentos modestos na infraestrutura poderão resultar em pequenas e graduais alterações sociais e em poucos sacrifícios nos países desenvolvidos.
Vários cientistas têm criticado a opção por este modelo (DICE) em que o efeito do aquecimento do clima é medido apenas como uma perda (ou ganho) percentual no PIB. Presume-se que o crescimento do PIB seja “determinado exogenamente”, na linguagem da teoria económica, o que significa que persistirá a uma taxa de crescimento definida ao longo do tempo, independentemente dos choques climáticos.
Esta presunção de crescimento constante num futuro afetado pelo clima é, segundo Stern e Stiglitz, um dos erros de Nordhaus:
“O modelo de Nordhaus não toma em conta o facto de que se não fizermos mais para evitar as alterações climáticas, as alterações climáticas afetarão as taxas de crescimento […] Teremos de gastar cada vez mais na reparação de danos, o que nos deixará cada vez menos para gastar em investimentos que promovam o crescimento.”
Por exemplo, calor extremo, submersão, desertificação, furacões, etc. bem como grandes mudanças climáticas, poderão tornar improdutivas ou inabitáveis grandes áreas do mundo de baixa produtividade.
Já os economistas climáticos da escola Nordhaus estimam que, à medida que a atividade económica devido ao aquecimento se dirige para o Pólo, a redução maciça do PIB verificada nos trópicos será compensada por uma adaptação ótima no Norte. Essa redução maciça do PIB não é explicitamente entendida como o colapso do sistema alimentar ao longo do equador, do colapso social que se segue, mortes em massa, guerras e êxodos bíblicos que produzem efeitos não lineares em cascata.
Isso não é preocupante, assegura Nordhaus: A extinção violenta de nações com baixo PIB dificilmente afetará as perspetivas de crescimento económico global porque as coisas irão melhorar no Norte.
Não é de admirar que o sector financeiro se basei neste otimismo. Seguindo o “conselho de consultores de investimento, os fundos de pensões informaram os seus membros que o aquecimento global de 2-4,3ºC terá apenas um impacto mínimo nas suas carteiras”.
Segundo outros especialistas críticos, estamos antes perante “uma enorme desconexão entre o que os cientistas esperam do aquecimento global e aquilo para que os reformados/investidores/sistemas financeiros estão preparados.”
Eis o que Andrew Glikson, que leciona na Universidade Nacional Australiana em Canberra e aconselha o IPCC, escreveu sobre o que considera vir a ser uma próxima era de morte humana em massa, a que chama de Plutoceno, o sucessor natural do Antropoceno, e que acusa os governos globais de serem “criminosos” por inaugurarem o Plutoceno na busca de ganhos políticos e económicos de curto prazo:
“As classes governantes desistiram da sobrevivência de numerosas espécies e das gerações futuras” […] “e a sua inação constitui o crime final contra a vida na Terra”.
Fizeram galinheiros. E autorizaram a entrada de raposas com coleira.