(416) Ciclos da outra matéria negra
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O ciclo da fome devora os homens e os caranguejos todos atolados na lama, Josué de Castro.
O ciclo da merda de Saló ou os 120 dias de Sodoma, P. Pasolini.
Cada ser humano expele em média meio quilo por dia.
Como não voltamos a enviar os nossos excrementos para os sítios de onde vem a nossa comida, vamos perpetuando a incorreta redistribuição de nutrientes no planeta.
A quem pertencem os excrementos de uma família que vive numa casa alugada: aos inquilinos ou aos donos da casa?
Empreendedores e unicórnios: a merda espera por vós.
Começo por relembrar o que Josué de Castro disse no seu transversal e irredutível livro O Ciclo do Caranguejo, acerca da circularidade nos mangais do Recife entre vida, morte, fome, comida, homem e animal:
“Se a terra foi feita para o homem com tudo para bem servi-lo, o mangue foi feito essencialmente para o caranguejo. Tudo aí é, ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela, cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fabricando com a lama a carninha branca de suas patas e a geleia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado, o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo de seus filhos. São duzentos mil indivíduos, duzentos mil cidadãos feitos de carne de caranguejos. O que o organismo rejeita volta como detrito para a lama do mangue para virar caranguejo outra vez.
Nesta aparente placidez do charco desenrola-se trágico e silencioso o ciclo do caranguejo. O ciclo da fome devorando os homens e os caranguejos todos atolados na lama”.
Em 1975, Pier Paolo Pasolini, realiza o filme “Saló ou os 120 dias de Sodoma”, baseado no romance de Sade mas tendo como pano de fundo a última república fascista de Mussolini em Saló (1943-45) com as suas quatro figuras importantes: um Duque, representando o poder da nobreza, um Monsenhor, representando o poder da Igreja, um Magistrado, representando o poder judicial, e o Presidente do Banco Central, representando o poder económico. Aprisionam no castelo oito rapazes e oito raparigas durante 120 dias, com a intenção de abusar deles de todas as formas: violam-nos, torturam-nos, obrigam-nos a comer fezes.
O filme divide-se em quatro ciclos: o ante inferno, o ciclo das manias, o ciclo da merda (em que o jantar é constituído por excrementos dos próprios prisioneiros) e o ciclo do sangue. A não perder.
Por dia, em média, cada humano adulto produz meio quilo de outra matéria negra (caca, cocó, fezes, merda) que não aquela que os físicos investigam. Com 8 milhões de habitantes, a cidade de Nova Iorque produz mais de 4 milhões de quilos, 4 toneladas de merda por dia. Pequim, a capital da China, com os seus 21,3 milhões de habitantes, produz 10,6 milhões de quilos, 10,6 toneladas, por dia. Se multiplicarmos por 365 dias, é de espantar como não nos afundamos em merda.
E o que fazemos com esta merda toda? De imediato, tentamos fugir dela o mais possível, dependendo do sítio onde vivemos. Se vivermos num apartamento na cidade, expulsamo-la pela sanita abaixo. Se vivermos noutros locais, deixamo-la decompor em latrinas abertas ou à superfície debaixo de árvores. Ou seja, fazemos sempre o possível para que ela seja deixada, ou vá para o mais longe possível da nossa vista e cheiro. É coisa de que se não gosta.
Se vivêssemos no campo como os nossos antepassados nómadas, o problema estava resolvido: a quando das suas curtas paragens, depositavam a carga e seguiam viagem. Mas assim que começamos a sedentarizar e a cultivar, já não podíamos aliviar a carga onde quer que fosse: fazíamo-lo em covas ou no rio. Lá se foi a liberdade.
Na não muito distante e civilizada Roma apareceram os assentos nas cagadeiras comunais onde a água corrente empurrava continuamente os dejetos para fora dos muros da cidade. Na Idade Média, os detritos das latrinas eram posteriormente acumulados em depósitos e barris que depois eram selados e enterrados.
Mas com o aumento do número de cidades, o vazar dos dejetos para os cursos de água revelou-se desastroso: os poluidores a montante inquinavam as águas a jusante, originando surtos de doenças. Foi assim que se originaram as grandes pandemias de cólera na Europa do século XIX e início do século XX.
Ainda hoje no chamado mundo desenvolvido, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, adoecem e morrem cerca de 827.000 pessoas por ano com infeções provenientes de doenças ligadas à diarreia, mais de 494 milhões ainda defecam ao ar livre, por exemplo, nas sarjetas das ruas, atrás de arbustos ou em cursos de água abertos, e mais de 1,7 bilião de pessoas não contam com serviços de saneamento básico, como banheiros ou latrinas.
Neste nosso mundo civilizado, para nos vermos livres dessa enorme quantidade de excrementos, contruímos sanitas, canalizações subterrâneas e gigantescas estações de tratamento de dejetos. E quando julgávamos que tínhamos o problema resolvido, verificamos que essas maravilhas da engenharia moderna estão a estragar a ecologia da Terra.
E isto simplesmente porque não resolve aquilo que é o principal problema: o da redistribuição de nutrientes no planeta. Explicando resumidamente: sempre que comemos bananas, maçãs, alface, milho, arroz, etc., tudo isso cresceu noutra parte do planeta, de onde foram retirados os nutrientes para que se criassem esses cultivos.
Ou seja, quando excretamos aquilo que comemos, não o fazemos no mesmo local de onde vieram esses produtos, pelo que não repomos os nutrientes no local de onde os tiramos: mandamo-los pela sanita abaixo.
Mais: as nossas estações de tratamento retiram os patogénicos da água, mas deixam o fósforo, o potássio e o azoto, fertilizantes potentes que irão escorrer para os cursos de água vizinhos, lagos e oceanos. Daí resultarão algas tóxicas, peixes mortos e águas impróprias que não foram feitas para absorver tanto fertilizante químico.
Como nós não voltamos a enviar os nossos excrementos para os sítios de onde vem a nossa comida (via marítima, aérea ou terrestre), vamos assim perpetuando a incorreta redistribuição de nutrientes no planeta.
Substituindo a nossa caca por fertilizantes sintéticos que nunca são tão bons, estamos ainda por cima a poluir mais o planeta devido aos componentes tóxicos associados à sua produção. Ou seja, ao retirarmos a nossa caca da equação alteramos não apenas a nossa agricultura, mas a ecologia total do planeta.
Em algumas sociedades e em certos períodos, esta reposição chegou até a ser decretada, como em 1737 pelo imperador da dinastia Qing na China, obrigando todos os súbditos a colocarem à porta das casas um bacio com os seus excrementos que seriam recolhidos diariamente pela madrugada, como explica Donald Worster no seu estudo “The Good Muck: Toward an Excremental History of China”. Excrementos que eram depois vendidos, após serem secos e separados. Ouro malcheiroso, mas ouro.
Os japoneses foram ainda mais longe, como por exemplo quando regulamentam sobre a decisão de saber a quem pertenciam os excrementos no caso de uma família viver numa casa alugada: aos inquilinos ou aos donos da casa? Nesse Japão pré-industrial de 1724, a merda pertencia aos proprietários. Época em que o roubo da merda dava direito a prisão.
Sabendo tudo isto, não parece viável na sociedade atual que se passe a por o penico à porta para que os serviços camarários procedam à sua recolha e distribuição, mesmo que tal seja feito por uma firma privada. E mesmo se for possível, serão depois as estações de recolha e tratamento quem vai reencaminhar para a sua origem os excrementos tratados para assim se estabelecer a desejada “agricultura circular”? O corrupio que aí iria por esse país acima e abaixo.
Mas já há algumas propostas comerciais em utilização, como a da Loowatt, empresa com centro em Londres e operando em Madagáscar: o interior da sanita é revestido por uma película que captura a matéria humana desejada, fecha-a hermeticamente e recolhe-a por baixo da sanita. Enviada depois para estações de bio gestão, transforma-se em composto e em biogás. A SOIL Haiti segue o mesmo processo no Haiti.
A empresa canadiana Lystek que opera já em 50 regiões (Washington, DC, Boston) encarrega-se de transformar, em gigantescas misturadoras e cilindros de pressão, todas as recolhas numa massa que originará metano e uma pasta que será seca e armazenada em pacotes a serem vendidos nas lojas.
A israelita HomeBiogas dedicou-se a famílias que vivam fora das redes e onde o custo da energia é elevado: são pequenos biodigestores de plástico durável que convertem qualquer excremento orgânico em biogás e fertilizante líquido. A Epiccleantec de S. Francisco regenera todos os líquidos, tornando-os aptos para a lavagem de roupa, água da sanita e rega de plantas.
Com tantas opções e outra mais que se lhe seguirão, parece que o problema é agora apenas psicológico: contrariamente ás sociedades antigas que lidavam com a porcaria, o sujo e com os excrementos de maneira natural, e que inclusivamente reconheciam neles um valor de uso até muito versátil, nós gastamos dinheiro esforçando-nos a remover para o mais longe possível esse superproduto do nosso próprio metabolismo. Ora aqui está uma meta a alcançar por cada um de nós neste século XXI:
Ponha a caca no Merdalhão Verde. Não contribua para o aumento das doenças mentais.
Atenção empreendedores e unicórnios: a merda espera por vós.
Notas:
Blog escrito com base no livro de Lina Zeldovich, The Other Dark Matter, the Science and business of Turning Waste into Wealth and Health.
De assunto relacionado, sugiro o blog de 4 de novembro de 2015 “Da merda e seus companheiros”, o de 23 de setembro de 2015 “Os Corn flakes e a masturbação” e o de 14 de novembro de 2018 “O ato cultural de limpar o rabo”.