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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(385)Ética acorrentada

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Pode a doação que uma pessoa faça das células da sua pele para a investigação acabar por ser usada sem seu conhecimento ou consentimento para produzir embriões sintéticos? Novo tipo de adultério?

 

A ética vai sendo manipulada de congresso em congresso, de definição em definição, por forma a garantir que se segue na senda do bem (de quem?).

 

O único sistema de valor que temos para o comportamento humano é o dinheiro. Mas que valor humano produz dinheiro?

 

Todos os “avanços tecnológicos” serão limitados não por qualquer ´moral ou ética ou congresso de sumidades, mas porque os sistemas são controlados por pessoas viciadas no poder.

 

 

 

 

Investigadores do Weizmann Institute of Science de Israel, publicaram recentemente um estudo no qual dão a conhecer o processo que seguiram para, sem se socorrerem de ovos fertilizados, de embriões ou de um rato, terem conseguido originar e desenvolver em laboratório, modelos de embriões de rato usando apenas células estaminais (que até aqui permaneciam indiferenciadas) e uma incubadora especial.

Por imposições legais viram-se forçados a interromper o desenvolvimento dos modelos para além dos oito dias (já há um coração a bater e um sistema nervoso básico), apesar da gravidez normal nos ratos ser de 20 dias.

Em 2021, a mesma equipa usara a mesma incubadora artificial para fazer crescer naturalmente embriões de rato (provenientes de ovos fertilizados por esperma) durante 11 dias.

Há aqui dois avanços extraordinários com enormes implicações no campo da ética: o da vida obtida através de células indiferenciadas e o do utilização de um útero externo artificial (atenção, não se trata apenas de um saco de silicone, mas de um mecanismo rotativo cheio de pequenas garrafas de vidro com nutrientes, em que a rotação simula o deslocamento do sangue e dos nutrientes na placenta, para além de reproduzirem a pressão atmosférica do útero).

 

Se a “sociedade” estiver interessada em evitar as cerca de 300.000 mortes anuais de mulheres em trabalho de parto, então a possibilidade entreaberta da gestação artificial de bebés poderá ser a solução. Evidentemente, tal implicaria tornar mais acessíveis os cuidados de saúde em todo o planeta e, inclusivamente, conduzir a um imperativo moral de toda a gestação ser feita em úteros artificiais. Aí chegados, continuaríamos a confrontar-nos com problemas como o das mulheres que não abdicassem do seu direito de terminarem com a gravidez.

 

Apesar de tudo, há uma grande diferença entre a manutenção da vida e a criação (mesmo que ainda hipotética) da vida. Na tentativa de criação de vida há ainda que distinguir entre ser feita através da utilização de células embrionadas, ou ser feita através de células indiferenciadas que podem ser produtos laboratoriais de pele, ou de células de sangue, ou até obtidas a partir de amostras congeladas.

Eis o que se pode verificar na prática: uma pessoa faça a doação das células da sua pele para a investigação e produção de órgãos para a cura de uma doença, pode acabar por vê-la usada sem seu conhecimento ou consentimento para produzir embriões sintéticos. Estamos perante um novo tipo de adultério? Não se trata de ficção: alguns casos como este encontram-se já em tribunal.

 

Foi A. Turing, o cientista por trás do desenvolvimento da ciência computacional, que escreveu: “Podem as máquinas pensar? Devia-se começar antes por definir o significado de ‘máquina’ e pensar’ “. (Turing AM. Computing machinery and intelligence. Mind. 1950; 59:433–460.)

E o mesmo tipo de pensamento se deve continuar a aplicar a todos estes estudos que se afadigam a escrever sobre a vida sem, contudo, a definir. Parece até não existir nenhuma definição consensualmente aceite sobre o que é vida, ao ponto de alguns cientistas e filósofos sugerirem mesmo que não é possível defini-la.

Características como replicação, metabolismo, evolução, energia, autopoieses, etc., aproximações pela termodinâmica, química, filosofia, evolucionária, etc., têm originado um sem número de definições de acordo com as suas linhas de estudo, que ficam sempre curtas. Os exemplos escapam-se.

Por exemplo: ainda hoje não se sabe onde inserir os vírus (não são células, não metabolizam substâncias, não são capazes de se reproduzirem por eles próprios, de crescerem ou respirarem; podem, contudo, interagir com outros organismos vivos e podem adaptar-se a novas circunstâncias). Seres vivos, não vivos, intermédios ou adormecidos?

E os xenobots? São robôs puros ou, por serem uma interface entre seres vivos e robôs artificiais, são vivos? No futuro poderão até serem tão perfeitos que os consideremos quase como seres vivos provenientes de um criador (o seu engenheiro), o que já é mais do que podemos dizer dos seres vivos das nossas sociedades a não ser que sejamos criacionistas.

 

Pelo meio destas ambiguidades, a ética (se entendida como aquilo que mais vai sendo conveniente para quem controla o progresso tecnológico) vai sendo manipulada de congresso em congresso, de definição em definição, por forma a garantir que se segue na senda do bem (de quem?).

Na procura da exploração dos próximos e distantes planetas e exoplanetas não será de admirar o aparecimento de novas definições de vida, talvez como única forma de incentivar e justificar o custo da gesta. É que as definições correntes de vida são limitativas …

Curiosamente, o filósofo católico Américo Pereira introduz um outro conceito de alargamento do que é vida, na sua excelente interpretação do filme “AI, Artificial Intelligence”, 2001, de Steven Spielberg. Recomendo vivamente a leitura do seu artigo “Da Essência do Humano. (Considerações sobre o que é ser essencialmente humano, a partir do filme Artificial Intelligence)”. Reproduzo parte da conclusão:

 

Neste filme, vemos surgir uma nova modalidade de a essência humana se manifestar na matéria […] O espírito humano é o que é, na sua mesma essência, independentemente do modo material como se manifesta. A ancilar matéria suporta o espírito, mas não o explica e muito menos o esgota […] Desaparecidos os homens como materialmente os conhecemos, a nossa humana inteligência continua agora suportada por uma materialidade diferente […] É essencial à inteligência a necessidade de um horizonte infinito.”

 

 

É no filme “Os Suspeitos do Costume” (The Usual Suspects) que Kevin Spacey descreve como um gangue de húngaros açambarcou o negócio da droga da sua família (os Soze) quase sem necessidade de usar armas ou dinheiro. “Para se ter o poder […] necessita-se apenas de ter a vontade de fazer o que os outros não têm vontade de fazer”.

Foi isso que ele (Keyser Soze) aprendeu. “Depois, mostrou a esses homens de poder o que o poder verdadeiramente era”, quando matou a sua própria família e limpou as outras famílias e amigos de todo o bando de húngaros. Foi assim que se tornou no dono do crime.

E, se bem observarmos como o poder se movimenta no mundo, veremos que anda muito perto do mundo de Soze. Os mais viciados são os que ascendem ao topo, porque os sistemas estão construídos para premiarem o vício.

 

Nenhum dos leaders que dirigem as estruturas de poder imperial chegaram lá por bondade ou sabedoria. Os oligarcas chegaram ao topo das suas corporações e financeiras trepando e pisando quem quer que fosse preciso para chegarem à frente de todos. Os estrategas militares chegaram às suas posições demonstrando uma aptidão para o domínio militar. Os oficiais das secretas chegaram às suas posições porque perceberam como facilitar os interesses do império oligárquico. Os políticos chegaram ao topo por demonstrarem uma vontade em servirem o poder imperial.”

 

Este princípio estende-se de alto a baixo na nossa sociedade. O único sistema de valor que temos para o comportamento humano é o dinheiro. Mas que valor humano produz dinheiro?

A competitividade faz dinheiro. A guerra e o militarismo fazem dinheiro. O ecocídio faz dinheiro. A doença faz dinheiro. As matérias primas finitas fazem dinheiro. O entrelaçar dos poderes do estado e das corporações faz dinheiro. A propaganda que leve as pessoas a acreditarem que se precisa mais disso, faz dinheiro.

 

E é exatamente por isto que não se produzem computadores e similares capazes (porque seriam mesmo capazes) de dirigir e controlar o sistema económico financeiro militar. Todos os “avanços tecnológicos” serão limitados não por qualquer ´moral ou ética ou congresso de sumidades, mas porque os sistemas são controlados por pessoas viciadas no poder, que não querem de maneira nenhuma que o tirem delas ou de quem representam.

 

 

 

Recomendo:

Artigo fundamental de 7 de novembro de 2018, “Éticas”.

Artigo de 20 de junho de 2018, “O que é ser mexilhão”.

Artigo de 26 de junho de 2018, “A saga do mexilhão virtual”.

Artigo de 30 de janeiro de 2019, “Ética não é conhecimento”.

Artigo de 18 de setembro de 2019, “Beam me up!

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