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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(384) Bosch é bom!

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Há ressentimentos que têm motivos reais e assentam em factos verificáveis, e há outros que foram induzidos por uma bem montada propaganda para criar uma visão alternativa adaptada às suas políticas, não se apoiando em factos reais.

 

Quando a 7 de maio de 1919 os alemães souberam das condições do tratado de paz de Versalhes, ficaram escandalizados.

 

O Tratado de Versalhes era, portanto, menos injusto que muitos outros, e os Alemães poderiam até tê-lo achado benévolo se não acalentassem a ilusão de que não tinham sido vencidos, Jean Duché.

 

O Havai foi invadido militarmente pelos EUA em 1898, e anexado em 1900 passando a fazer parte do território americano.

 

 

 

Há sentimentos, manifestações de estares que podem acometer vidas, quer a nível individual quer a nível coletivo, que por perdurarem por tempo indeterminado, influenciarão por isso mesmo a vida que se vai vivendo.

O ressentimento foi uma dessas manifestações, tendo já sido aflorado no artigo “Sobre o ressentimento na História” onde glosei a obra do historiador Marc Ferro, que nos chamou a atenção do seu contributo para a inteligibilidade da História. Segundo ele, “na origem do ressentimento está sempre uma ferida, uma violência sofrida, uma afronta, um traumatismo. Quem se sente vítima não pode reagir por impotência. Rumina a sua vingança que não pode pôr em marcha e que constantemente o atormenta”.

 Conhecia-se já o ressentimento e o desejo de vingança a nível individual: os ressentimentos que aparecem após se sofrer uma injustiça ou uma humilhação podem durar anos, dando lugar a vinganças que podem durar várias gerações ou conduzir a atos de violência individual qualificados como atos de loucura, como lemos regularmente na imprensa.

Ferro, vai demonstrar que tudo isto existe também a nível de Estados, fornecendo vários exemplos que se verificaram relacionados com a escravatura, colonização e religião.  Não deixa, contudo, de lembrar outro exemplo mais frequentemente conhecido, o da causa da segunda guerra mundial que é muitas vezes atribuída como sendo resultante da humilhação que a Alemanha sofreu após o fim da primeira guerra.

E é importante reter que, embora esses ressentimentos se tenham verificado, uns têm motivos reais e assentam em factos verificáveis, e outros são ressentimentos que foram induzidos por uma bem montada propaganda para criar uma visão alternativa adaptada às suas políticas, não se apoiando em factos reais.

 

A 11 de novembro de 1918 é assinado, na floresta de Compiègne, o armistício de paz da Primeira Guerra Mundial. A 18 de janeiro de 1919 inicia-se em Versalhes a Conferência da Paz, na qual estão representados trinta e dois países, dos quais apenas quatro tomam decisões, França (Georges Clemenceau), Inglaterra (David Lloyd George), Itália (Vittorio Orlando) e EUA (Woodrow Wilson), sendo o presidente Wilson o grande árbitro.

Quando a 7 de maio de 1919 os alemães souberam das condições do tratado de paz, ficaram escandalizados. Eles que até se tinham tornado numa república socialista burguesa e salvo o Ocidente do bolchevismo, afinal eram assim tratados?

O tratado consignava que a Alemanha devia aceitar todas as responsabilidades por ser a causadora da guerra e sujeitar-se a um certo número de reparações: a perca de uma parte do seu território para nações fronteiriças (a maior parte dos seus territórios provinha de anexações feitas pela Alemanha, como no caso das grandes faixas de terras e recursos cedidos pela Rússia através do Tratado de Brest-Litovsk), a perca de todas as colónias (mas os Aliados não se apropriaram delas, confiou-as à Sociedade das Nações sob mandato, que por sua vez as confiou legalmente às potências mais qualificadas para as administrar – a Inglaterra e a França), uma restrição ao tamanho do exército (não podia dispor de um exército de mais de cem mil homens, e de entregar à Inglaterra a sua frota de guerra que os ingleses afundaram em Scapa Flow) e ao pagamento de uma indeminização pelos prejuízos causados durante a guerra (inicialmente calculados por uma Comissão de Reparação em 269 biliões de marcos, mais tarde reduzida para 132 biliões, e posteriormente Wilson sugere uma muito maior redução e pagável em trinta anos).

Teriam assim tantas razões de queixa os alemães?

Da parte do Tratado apresentado, a sua implementação foi sendo sucessivamente deslocada no tempo, sucessivamente alterada, renegado por alguns dos membros contratantes, substituído por acordos de paz separados, etc. Os EUA acabam mesmo por não o ratificar: nunca aderem à Sociedade das Nações (uma Sociedade das Nações era contrária aos princípios de Monroe), e acabam por negociar em separado uma paz com a Alemanha. A Inglaterra acaba também por declará-lo sem efeito. No fim, apenas ficou a França sozinha a clamar pelas compensações e obcecada com a fronteira com o Reno.

Quanto às percas humanas: sem contar com as vítimas das epidemias ou de carências alimentares, com os gaseados e os estropiados, só no campo de batalha morreram nove milhões de europeus. Relativamente à população masculina, 10% dos franceses morreram (27% entre os 18 e os 27 anos, 36.000 oficiais, metade dos professores primários mobilizados, 833 licenciados, 560 escritores, 31.00 de profissões liberais), 9% dos alemães, 9,5% dos austro-húngaros, 6% dos italianos, 5% dos ingleses, 4% dos russos, 2% dos belgas e cerca de 1% dos americanos.

Quanto às devastações materiais: como as ações se desenrolaram quase exclusivamente em França, a Inglaterra e a Alemanha são poupadas. Para a França temos 3 milhões de hectares – apenas 7% do território, mas que produziam 66% dos têxteis, 60% da hulha e 55% da metalurgia – foram totalmente arrasados, incluindo 222 mil edifícios construídos nessa área. Foram parcialmente destruídos 342 mil hectares, e terra queimada a perder de vista.

Até à Linha Siegfried, as aldeias foram reduzidas a montões de escombros, as árvores abatidas, as estradas minadas, os poços envenenados, os cursos de água obstruídos, as adegas esventradas …”, Ernst Jünger.

A que se somam 53.970 quilómetros de estradas, 7.980 quilómetros de vias férreas, 4.87 pontes. Grandes cidades como Reims, Arras, Verdun, Ypres e Louvain, com a sua preciosa biblioteca, não passam de um amontoado de destroços. Acrescente-se ainda 830.000 bovinos que foram levados pelos alemães, 377.000 cavalos, 890.000 carneiros e 330.000 suínos.

Quanto a dinheiros gastos e a dívidas: todos eles (salvo os EUA) estavam na bancarrota: todos eles ficavam devedores perante os americanos.

Há ainda um outro fator a considerar quando os alemães reclamam das condições injustas e exorbitantes do Tratado: é que as condições impostas pelos próprios alemães nos tratados que anteriormente negociaram com outros países que dominaram, eram muito mais exigentes. Recordemos o Tratado de Brest-Litovsk com a Rússia, o Tratado de Bucareste com a Roménia e o Tratado de Frankfurt com a França em 1871 (retira-lhe a Alsácia-Lorena e exige uma indeminização de cinco biliões de francos-ouro, não se sabe porquê).

Mais, e se por acaso o Império Alemão tivesse ganho a guerra, o que se propunha fazer? Da correspondência entre Erzberger e Falkenhayn, em setembro de 1914, pode ler-se: “Não temos de ficar apreensivos por atentarmos contra os direitos dos povos, nem por violarmos as leis da humanidade”.

Como conclui Jean Duché:

O Tratado de Versalhes era, portanto, menos injusto que muitos outros, e os Alemães poderiam até tê-lo achado benévolo se não acalentassem a ilusão de que não tinham sido vencidos”.

 

Uma nota que pode ser recuperável para os tempos que correm, sobre o Tratado de Brest-Litovsk, o acordo de paz em separado realizado a 3 de março de 1918 (que tinha já sido precedido de um armistício assinado em 15 de dezembro de 1917), entre o recém-instalado governo bolchevique da Rússia e as Potências Centrais (Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Reino da Bulgária e Império Otomano).

Face às condições económicas, políticas e sociais (cerca de 4 milhões de mortos) existentes então na Rússia, onde as forças armadas se esboroavam, os soldados negavam-se a combater, o primeiro ato do novo poder bolchevique, foi, na noite de 8 de novembro, promulgar o Decreto da Paz, em que convida todos os governos dos países beligerantes a assinarem imediatamente um armistício de três dias a fim de serem efetuadas negociações de paz.

Em Brest-Litovski (então sob a ocupação alemã) a Rússia retirava-se da Primeira Guerra Mundial, e concordava em ceder o controle sobre a Finlândia, Países Bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia), Polónia, Bielorrússia e Ucrânia. Estes territórios continham um terço da população da Rússia, 50% da sua indústria e 90% das suas minas de carvão. A juntar a isto, uma indeminização de seis biliões de marcos.

Para os bolcheviques, o fundamental era a paz, o regresso dos soldados, salvarem a revolução.

Sempre que aqui se chega não se pode deixar de referir o golpe de génio das Secretas do Império Alemão ao autorizarem que o exilado (Lenine) a viver na Suíça pudesse atravessar os seus territórios num comboio blindado direto a São Petersburgo. Chegado a 16 de abril, eis as sua primeiras palavras de ordem: “Poder aos sovietes, terras aos camponeses, paz ao povo e pão aos esfomeados!

Entretanto, Trotsky, que ganhava a vida nos EUA como figurante de cinema, também chega. O palco estava montado, os atores chegaram e atuaram.

 

Variados são os exemplos criados por forma a nos conduzirem para uma visão do mundo adaptada às políticas e economias dominantes.

Eis um deles: num dado momento, o Havai foi militarmente invadido e anexado pelos EUA, passando desde então a fazer parte do território americano. Imaginemos que o Havai em vez de estar no meio do Pacífico estivesse mais perto da Califórnia, ali mesmo em frente. E que quando da Guerra Civil Americana, tivesse sido ocupado por um general sulista. Alguém nos EUA consideraria que o Havai não era americano?

 

 

 

 

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