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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(383) A vida é sempre exemplar: a teoria de Gaia.

Tempo estimado de leitura:  6 minutos.

 

O que me era dito era que eu era uma adulta, e que, portanto, podia atuar como adulta, Mena Suvari sobre os seus 12 anos.

 

A Terra como um sistema autorregulado que conseguia manter o seu próprio equilíbrio. Por pior que lhe façam, ela recupera sempre.

 

A prova da existência de Gaia pode nunca se aproximar da certeza, mas evidência posterior poderá possivelmente vir do estudo contemporâneo da Terra, James Lovelock.

 

Ao contrário dos homens, cyborgs com inteligência artificial compreenderiam a importância de todos os seres vivos para a manutenção de um planeta habitável.

 

 

 

 

Vidas

 

The Great Peace: A Memoir, (A Grande Paz: Uma Memória), é o livro de Mena Suvari recentemente publicado. Suvari é a atriz dos filmes American Beauty (Beleza Americana), American Pie, Six Feet Under, e American Horros Story.

Nestas suas memórias, ela vai-nos contar os vários pesadelos porque passou ao longo da sua ainda curta vida. Branca da classe média alta, filha de um psiquiatra, cresceu numa grande casa em Rhode Island, e posteriormente na Carolina Sul. Aos 12 anos é violada por um amigo dos seus irmãos, o que veio a acontecer mais vezes, acabando por se gabar na escola dizendo que ela era uma “puta”.

Quando vai ao médico, este trata-a apenas para a infeção da bexiga que tinha devido às violações, não se importando em conhecer as causas. Os pais também não se preocuparam. Foi tratada como se fosse uma adulta.

Entretanto é escolhida por uma das boas agências de modelos para a sua divisão de crianças. Parte para Nova Iorque e de seguida Los Angeles. E rapidamente aprende que o que importava era que a sua aparência fosse “sexy”.  Todos estavam entusiasmados por ela aparentar 18 anos, quando na realidade tinha 12. “O que me era comunicado era que eu era uma adulta, e que, portanto, podia atuar como adulta”. Grande era a atração que despertava nos homens adultos.

Foi assim com o fotógrafo que a fotografava nua sozinha na casa dele aos 15 anos. Com um dos seus agentes do negócio com quem começou a ter sexo aos 16 anos. Ninguém lhe dizia que isso não devia ser feito. Entretanto os pais separaram-se, e ela ficou sozinha.

Começou a tomar imensas drogas, o que a conduziu a um estado de desespero e sem qualquer vontade. Conhece um técnico de iluminação, com quem se liga. A relação tornou-se sórdida e abusiva: ele chamava-lhe todos os nomes, abusava dela sexualmente, obrigava-a a usar sex toys que a aleijavam, sendo repetidamente tratada por ruturas anais. Compartilhava-a também com outras mulheres, a quem dizia que era ela que lhe pedia.

Refugiou-se no trabalho, em vários espetáculos de televisão, e finalmente no American Pie e American Beauty. Apesar do reconhecimento que este último lhe deu, nomeações para prémios e outros, Suvari continuava a não ter grande poder sobre a sua vida. Num trabalho para uma revista, foi encorajada a despir-se, ficando com apenas um medalhão a cobrir-lhe a zona púbica. A fotógrafa pediu-lhe para pôr o cabelo para o lado para se lhe ver o mamilo.

Contratada para uma pequena comédia juvenil (Sugar & Spice), tem de mudar de Estado para as filmagens, o que lhe deu força para conseguir escapar à relação abusiva que continuava a ter. Infelizmente, entrou noutra relação com o diretor de fotografia, com quem rapidamente casou e rapidamente se divorciou, a que se seguiu um segundo casamento que também rapidamente acabou. Finalmente em 2018 casou-se com o atual marido, com quem vive e de quem tem um filho.

Continuou a trabalhar. Aliás, atualmente, trabalho não lhe falta. Compensações.

Pode ver aqui a entrevista de Mena Suvari sobre a sua vida.

Suvari, artista, nascida a 1979 em Newport, Rhode Island, EUA.    

 

 

Gaia

 

Falecido em julho de 2022 no dia em que completava 103 anos, James Lovelock foi o cientista que em 1960 propôs uma nova teoria para a evolução, publicada posteriormente em 1974 como artigo científico escrito conjuntamente  com a bióloga americana Lynn Margulis, intitulado “Atmospheric homeostasis by and for the biosphere: the gaia hypothesis”.

Na Sinopse (Abstract) do artigo pode ler-se:

 

Durante o tempo de 3,2 x 10 elevado a 9 anos, em que a vida esteve presente na Terra, os aspetos físicos e as condições químicas da maior parte da superfície planetária nunca variaram para além das mais favoráveis para a vida. O registro geológico diz que a água líquida sempre esteve presente e que o pH nunca esteve longe de ser neutro. Nesse mesmo período, porém, o ambiente de radiação da Terra passou por grandes mudanças. Enquanto o sol se movia ao longo do curso definido pela sequência principal de estrelas, a sua potência terá aumentado pelo menos 30% e possivelmente 100%. Também o seu brilho pode ter flutuado durante períodos de alguns milhões de anos. Ao mesmo tempo, o hidrogénio escapava da Terra para o espaço, causando assim mudanças progressivas no ambiente químico. Isto, por sua vez, através de mudanças na composição atmosférica, podem ter afetado o balanço da radiação da Terra. Pode ter sido, sempre por acaso cego, que essas mudanças físicas e químicas tenham seguido o caminho cujos limites foram as condições que favoreceram a continuidade da existência da vida. Este artigo oferece uma explicação alternativa de que, logo após o início da vida, ela adquiriu o controle do ambiente planetário e que esta homeostase por e para a biosfera persistiu desde então. Serão apresentadas evidências e argumentos históricos e contemporâneos para a verificação desta hipótese.”

 

Segundo esta teoria, a Terra, até aí encarada como mero recetáculo passivo de milhões de espécies de plantas e animais que se foram adaptando ao meio ambiente, passava a ser vista não só como o lugar onde esses milhões de organismos competiam entre si (Darwinismo), mas também como o lugar em que cooperavam para manterem o ambiente para que a vida se pudesse sustentar (coevolução).

Ou seja, a Terra comportava-se como um único sistema autorregulável compreendendo os componentes físicos, químicos e biológicos. Como chegou Lovelock a esta intuição?

Ao trabalhar para a NASA na exploração interplanetária (no Jet Propulsion Laboratory, Pasadena, Califórnia), relativamente à possibilidade de vida extraterrestre, o foco dos estudos incidia sobre os planetas mais próximos, Vénus e Marte. Lovelock, através de análises atmosféricas, rapidamente predisse que esses planetas não teriam vida. Mas então, porque é que a Terra tinha?

As atmosferas de Marte e Vénus eram compostas de mais de 95% de dióxido de carbono, com poucas quantidades de azoto, oxigénio e outros gases. Mas a Terra tinha 77% de azoto e 21% de oxigénio, com traços de dióxido de carbono e outros gases, o que fazia da atmosfera da Terra um caso único no sistema solar.

Por outro lado, a energia do sol durante os três e meio biliões de anos que a vida existira no planeta aumentara 30% e, contudo, a temperatura da superfície da Terra tinha-se mantido constante. Ou seja, de acordo com a física, a superfície do planeta deveria já ter fervido com o aumento do aquecimento, mas, contudo, mantinha-se arrefecida.

Para Lovelock, a única explicação era a Terra ser um sistema autorregulado que conseguia manter o seu próprio equilíbrio, tendo conseguindo os seus organismos manter o seu ambiente estável. Pelo que concluiu que era o viver e respirar dos seus habitantes que mantinham em equilíbrio as contínuas alterações da atmosfera, ao contrário do que se passava em Marte em que a atmosfera era estática.

Esta autorregulação começara quando as primeiras formas de vida nos antigos oceanos extraiam dióxido de carbono da atmosfera e libertavam oxigénio. Ao longo dos tempos geológicos, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera baixou para os níveis atuais favorecendo os organismos dependentes de oxigénio.

Para explicar melhor esta teoria, Lovelock inventou um modelo para a coevolução, a que chamou Daisyworld (mundo da Margarida), um mundo onde só existiam margaridas pretas e brancas. Se a temperatura aumentasse, as flores pretas absorviam mais calor que as brancas, e murchavam. As margaridas brancas acabavam por proliferar. Eventualmente, as margaridas brancas refletiam mais calor para o espaço, arrefecendo de novo o planeta, o que permitiria que as margaridas pretas voltassem a erguer-se.

O nome dado à teoria, Gaia, foi-lhe sugerido por um novelista amigo, William Golding, quando Lovelock lhe pediu uma sugestão para o nome. Gaia, era a deusa grega que dera origem ao mundo (ao céu, ao mar e às montanhas) a partir do Caos.

A partir do seu livro de divulgação da teoria, Gaia: A New Look at Life on Earth (1979), muitos começaram a interpretar a Terra como um ser vivo, com “estados de alma”, que se curava a si própria, concluindo inclusivamente que por mais males que se lhe fizessem, ela recuperaria sempre.

Assim, se por um lado havia os “defensores” da Terra como sistema autorregulado em que todos os seres eram igualmente importantes, por outro alinhavam todos os que exatamente por isso se lhe podiam fazer os piores males (sobre exploração, aumento de carbono, petróleo, etc.) que ela recuperaria sempre respondendo às alterações do ambiente para sobreviver.

Desiludido com o andamento do mundo e o ser humano, mas sempre otimista, Lovelock vai escrever em 2019 (com 99 anos) aquele que viria a ser o seu último livro: Novacene: The Coming Age of Hyperintelligence. Agradado com o desenvolvimento do conhecimento humano, tinha para ele que a salvação da humanidade residia numa nova geração de cyborgs dotados de inteligência artificial, que, ao contrário dos homens, compreenderiam a importância dos seres vivos para a manutenção de um planeta habitável.

Daí o Novaceno como o novo período geológico que se seguirá ao Antropoceno (período de 300.000 anos em que o homem dominou), onde os poucos homens que restarem serão conservados pelas inteligências superiores dos ciborgues (que pensarão 10.000 vezes mais rápido que os humanos) apenas para manterem as temperaturas necessárias para o funcionamento dos computadores.

 

Na conclusão do seu artigo científico inicial, Lovelock vai escrever:

 

A prova da existência de Gaia pode nunca se aproximar da certeza, mas evidência posterior poderá possivelmente vir do estudo contemporâneo da Terra”.

 

James Lovelock, cientista, nascido a 26 de julho de 1919 em Hertfordshire, Grã-Bretanha, falecido a 26 de julho de 2022.

 

Estamos face ao que parece ser uma alternativa à evolução darwinista. Acontece que ela não é uma alternativa, mas sim complemento para um tempo diferente. Ao passo que para grandes tempos geológicos a evolução darwinista se continua a verificar, em períodos mais curtos talvez a coevolução possa ser considerada.

Da mesma forma que a teoria quântica (das muito pequenas partículas) não cabe aparentemente na física relativista einsteiniana (da regulação do Universo), não significa que ambas estão erradas ou que uma vá substituir a outra, razão porque se procura com afã uma teoria geral que as compatibilize.

Esta é uma ambiguidade que vem desde sempre quando a sobrevivência de um ser vivo implica sempre a destruição de outro ser vivo. O nosso “egoísmo” à frente. Torturarem o nosso vizinho faz-nos sempre muito mais impressão que a torta ou morte de outros seres humanos no outro lado do globo. O marisco português é o melhor marisco do mundo.

Talvez isto derive da forma como temos abordado a compreensão de tudo, na busca de uma verdade única sempre mais fácil de explicar. Ou talvez o velho Hegel tenha razão: tese, antítese, síntese, e por diante.

 

 

Adenda:

Recomendo o blog de 28 de novembro de 2018, “A pornografia como cultura civilizacional”.

E o de 26 de março de 2017, “A ilusão ética”.

E ainda o de 31 de Julho de 2019, “O futuro da civilização humana”, explicação lógica sobre os possíveis futuros dos seres humanos.

 

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