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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(379) Os que acreditam morrer pela pátria

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

A guerra mundial foi essencialmente obra de homens de dinheiro, que foram os grandes industriais dos vários Estados da Europa.

 

Aqueles que morreram nesta guerra não sabiam por que morreriam. E é o mesmo em todas as guerras.

 

Acreditamos que morremos pela pátria; morremos pelos industriais, Anatole France.

 

O espírito de vingança e ódio é mantido pelos jornais, Michel Corday

 

 

 

 

No dia 18 de julho de 1922, o jornal l'Humanité, publicou uma carta de Anatole France dirigida ao diretor, Marcel Cachin:

 

“Caro cidadão Cachin,

 

Pela sua importância, agradecia o favor de recomendar aos seus leitores o recente livro de Michel Corday, Les Hauts Fourneaux (Os Altos Fornos). É aí que iremos encontrar as ideias que certamente também compartilhará sobre as origens da condução da guerra, de que em França ainda sabemos muito pouco.

 

Em particular, veremos aí (algo que ambos já tínhamos suspeitado) que a guerra mundial foi essencialmente obra de homens de dinheiro, que foram os grandes industriais dos vários Estados da Europa que, antes de mais nada, a quiseram, a tornaram necessária, a fizeram e a prolongaram. Fizeram dela o seu negócio, puseram em jogo as suas fortunas, obtiveram com ela imensos lucros e dedicaram-se a ela com tal ardor que arruinaram a Europa, arruinaram-se a si próprios e deslocaram o mundo.

 

Ouça o que Corday escreve sobre o assunto, que ele trata com toda a força da sua convicção e com todo o poder do seu talento:

 

 «Esses homens, assemelham-se aos seus altos-fornos, aquelas torres feudais erguidas frente a frente ao longo das fronteiras, e cujas entranhas devoradoras devem ser constantemente alimentadas, dia e noite, de minério e carvão, para que desça o fluxo de metal. Também eles, que com o seu insaciável apetite exige que lancemos ao fogo, sem descanso, na paz, na guerra, e todas as riquezas do solo, e todos os frutos do trabalho, e os homens, sim, os próprios homens, por rebanhos, por exércitos, todos precipitados desordenadamente na fornalha escancarada, para que os lingotes se empilhassem aos seus pés, ainda mais lingotes, sempre mais lingotes.... Sim, eis o seu emblema, as suas armas falantes, à sua imagem. Eles são os verdadeiros altos-fornos.»

 

Portanto, aqueles que morreram nesta guerra não sabiam por que morriam. E é o mesmo em todas as guerras. Mas não no mesmo grau. Aqueles que caíram em Jemmapes não estavam tão enganados sobre a causa a que se dedicavam. Desta vez, a ignorância das vítimas é trágica. Acreditamos que morremos pela pátria; morremos pelos industriais.

 

Esses donos do tempo possuíam as três coisas necessárias para o grande negócio moderno: fábricas, bancos, jornais. Michel Corday mostra-nos como eles usaram essas três máquinas para esmagar o mundo. Ele deu-me, em particular, a explicação de um fenómeno que me surpreendeu não por si mesmo, mas pela sua enorme intensidade, e do qual a história não me deu semelhante exemplo: como o ódio de um povo, de um povo inteiro, espalhado na França com uma violência sem precedentes e desproporcional aos ódios despertados neste mesmo país pelas guerras da Revolução e do Império. Não estou a falar das guerras do antigo regime que não fizeram os franceses odiarem os povos inimigos. Foi desta vez, entre nós, um ódio que não se extinguiu com a paz, que nos fez esquecer os nossos próprios interesses e perder todo o sentido da realidade, sem que sequer sentíssemos esta paixão que nos possuía, a não ser por vezes achá-la demasiado fraca.

 

Michel Corday mostra muito bem que esse ódio foi forjado pelos grandes jornais, que continuam culpados, mesmo neste momento, de um estado de espírito que está a levar a França, juntamente com toda a Europa, à sua ruína total. «O espírito de vingança e ódio, diz Michel Corday, é mantido pelos jornais. E essa ortodoxia feroz não tolera a dissidência ou mesmo a tibieza. Fora dela, inocentes sofreram morte e paixão. Odiar um povo é odiar os opostos, o bem e o mal, a beleza e a feiura».

 

Que mania estranha! Não tenho certeza se nos estamos a começar a curar dela. Espero que sim. É necessário. O livro de Michel Corday chega a tempo para nos inspirar com ideias saudáveis. Que ele seja ouvido! A Europa não é composta por Estados isolados, independentes uns dos outros. Forma um todo harmonioso. Destruir uma parte dela é ofender as outras.

 

A nossa salvação é sermos bons europeus. Além disso, tudo é ruína e miséria.

 

Saudações e Fraternidade Anatole FRANCE”

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