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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(375) Prometeu realizado

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

Guns don’t kill people – people kill people, mote da NRA (National Rifle Association).

 

A teoria aparece como uma construção, um meio auxiliar para compensar a falta de dados, Chris Anderson.

 

Qualquer tentativa para nos pôr a atuar racionalmente tem de ter em consideração todos os preconceitos porque somos constituídos, Daniel Kahneman.

 

Nós somos Utópicos Invertidos: ao passo que os Utópicos normais são incapazes de produzir o que não conseguem visualizar, nós já não conseguimos visualizar o que estamos a produzir, Günther Anders.

 

 

 

 

Já aqui falámos várias vezes sobre “mito”, nomeadamente no artigo de 24 de fevereiro de 2019, “As razões que a razão desconhece”, que iniciámos tentando explicar que perante uma realidade difícil de perceber e dominar, os primeiros homens viram-se na necessidade de “construírem um racional” que lhes permitisse simultaneamente entendê-la e protegerem-se a si próprios e às suas comunidades. Surgiu assim uma das estruturas compreensivas face-a-face com a realidade, uma primeira forma do humano se confrontar com a realidade, a que posteriormente se veio chamar de “mito”.

Independentemente das várias explicações e compreensão que possam acompanhar o mito, é importante perceber que ele funciona sempre através daquilo que chamamos ser pensamento por correlação.

Exemplificando: Se durante a noite em que uma mulher grávida está para dar à luz, um lobo uivar e logo de seguida ela tiver uma criança saudável, então forma-se o mito de que sempre que um lobo uivar na noite em que uma mulher grávida estiver para dar à luz, tal é bom para a criança. Ou seja, apesar de não haver qualquer ligação entre as duas ocorrências, conclui-se pela sua relação.

A partir do momento em que a humanidade encontrou um método (a escrita) para transmitir, de geração em geração, séries de observações feitas, passando a ser possível classificá-las e coordená-las para daí tirar conclusões e induções, então a chamada “filosofia natural” (ciência) vai começar a substituir a mitologia. O mito é substituído pela hipótese, pela teoria científica. Causas e consequências, lógica. Um pensamento racional, com que temos vivido os últimos 2.700 anos, e que começa a ser atacado por desnecessário e por obstruir o “progresso”.

 

 Em 2008, Chris Anderson, escreveu um artigo muito interessante, “The end of theory: the data deluge makes the scientific method obsolete” (O fim da teoria: o dilúvio dos ‘data’ torna obsoleto o método científico), que começa com uma citação do matemático George E. P. Box: “Todos os modelos estão errados, há é alguns que são úteis”.

 Para Anderson, a teoria aparece como uma construção, um meio auxiliar para compensar a falta de dados. Se dispusermos de dados suficientes, a teoria passa a ser supérflua. Em vez da criação de modelos de teorias hipotéticas, podemos passar diretamente à análise matemática sem o estabelecimento de hipóteses sobre o que poderão significar, deixando para depois o estabelecimento do contexto.

 Podemos lançar números para as maiores constelações de computadores existentes e deixar que sejam os algoritmos estatísticos a encontrar os padrões que a ciência não consegue. A correlação passa a substituir a causalidade. O “é assim” substitui o “porque”.

Transcrevendo Anderson:


Empresas como a Google, que cresceram numa época de massas de dados enormemente grandes, hoje em dia não têm que decidir-se por modelos errados. Aliás, não têm mesmo que decidir-se em geral por nenhum modelo […] Quem pode dizer porque é que os homens fazem o que fazem? Fazem-no simplesmente, e podemos constatá-lo e medi-lo com uma exatidão sem precedentes. Se dispusermos de suficiente data, os números falam por si mesmos.”

A Google não sabe porque é que uma página é melhor do que outra: é suficiente que as estatísticas que lhe chegam dos enlaces, lhe digam que é melhor. Não é necessária qualquer análise semântica ou causal. É por isto que a Google pode traduzir linguagens sem as ‘conhecer’, e é por isso que pode adicionar anúncios a conteúdos sem conhecer nem os anúncios nem os conteúdos.

Daniel Kahneman, um notável psicólogo e economista, Prémio Nobel de Economia em 2002, apresentava nas suas masterclasses que deu entre 2007 e 2008, “A  short course of thinking about thinking”, uma enorme quantidade de dados de exemplos da vida, desde influências nas decisões judiciais até às dos negócios, para nos levar a concluir que não sabemos quem somos ou como somos, não sabemos o que na realidade estamos a fazer e porque o estamos a fazer.

 Kahneman queria com isto demonstrar que nós não somos criaturas racionais, sendo antes instintivas, pelo que nos avisava que qualquer tentativa para nos pôr a atuar racionalmente tinha de ter em consideração todos os preconceitos porque somos constituídos, caso contrário, o falhanço seria inevitável.

Parece que ao fim de milhares de anos, o pensamento de correlação base do mito, menosprezado e menorizado, tenha conseguido permanecer, acabando mesmo por ressuscitar. Ou seja, o mito pode encerrar verdades escondidas, não reveladas.

 

 

Prometeu, que etimologicamente parece querer significar “aquele que vê antes”, que é “clarividente”, e o seu irmão Epimeteu, que ao contrário era “aquele que vê depois”, foram os titãs encarregados de criarem os mortais, os seres vivos, quer animais quer humanos.

Prometeu ficaria encarregue de supervisionar as criações do irmão. Este fez os animais e concedeu-lhes dons como força, coragem, velocidade, presas, garras, asas e agilidade. Quando chegou a vez dos humanos, criados a partir do barro, encontrou-se sem mais qualidades para distribuir.

Tinham olhos para ver, mas não tiravam proveito do que viam; tinham ouvidos, mas não compreendiam os sons; como vultos em um sonho, ao longo dos dias, andavam sem propósito em total confusão. E viviam no fundo do solo, em cavernas escuras, como bandos de formigas”, Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, século V a. C.

Assim que Prometeu viu o que o irmão tinha feito, apiedou-se dos humanos, pelo que resolveu roubar o fogo aos deuses dando-o aos homens para assim estes ficarem em vantagem face aos animais.

Quando Zeus, o deus dos deuses, descobriu o que Prometeu fizera, jurou vingar-se:

 

Filho de Jápeto, que ultrapassou a todos em astúcia, está feliz por me ter enganado. Mas o seu presente será uma grande praga para a humanidade. Em troca do fogo, darei aos homens um mal que vai seduzi-los, e que eles acolherão com alegria, sem saber que abraçam a sua própria destruição”, Hesíodo, Trabalhos e Dias, século VIII a. C.

 

Resolve ainda castigá-lo: mandou Hefesto, deus da metalurgia, acorrentá-lo no cimo do Monte Cáucaso. Onde todos os dias pela manhã aparecia uma águia para lhe comer o fígado, que regenerava durante a noite para voltar a ser comido no dia seguinte.

Mas antes de ser castigado, Prometeu avisou o irmão para que tivesse cuidado e não aceitasse nenhum presente de Zeus. Mas Zeus encarrega a lindíssima Pandora (“um mal belo”, Hesíodo, Teogonia) de o seduzir, dando-lhe como presente de casamento uma caixa, a ainda hoje conhecida como “caixa de Pandora”, que continha todas as desgraças que assolariam a humanidade.

 

Na sua interpretação clássica, o fogo significa a possibilidade de

transformação da natureza e o conhecimento. O fogo como tecnologia, um marco na história da humanidade que permitiu a possibilidade de criar e habitar estruturas artificiais, um salto na evolução e adaptação humana. E o fogo como conhecimento que podia ser usado tanto para o bem como para o mal.

Neste sentido, Prometeu representa um salvador da humanidade, mas que, contudo, devido ao seu temperamento transgressor foi cruelmente punido, “o castigo da hybris por ultrapassar os limites da justa medida”, uma advertência para se ser obediente aos poderosos.

Se o associarmos ao irmão, pode representar o símbolo da ambiguidade ou da dualidade entre aquele que prevê ou que age com sensatez e discernimento, e aquele que não reflete antes de tomar atitudes.

 

Não admira que perante a importância de tal mito a grande maioria dos pensadores, escritores e artistas tenham deixado a sua interpretação. De Sócrates e Platão, de Bacon a Nietzsche, Goethe, Kafka e Mary Shelley (que no seu Frankenstein colocou como subtítulo O Prometeu Moderno), de Ibsen a Sartre (As moscas), na música erudita, ópera, ballet e ainda no cinema, com o Prometheus (2012) de Ridley Scott, a que se lhe seguiu a continuação Alien: Covenant (2017), todos tentam comunicar-nos a sua visão.

 

 

GüntherAnders (nascido Günther Stern,1902-1992), filósofo judeu alemão, primeiro marido de Hannah Arendt, aluno de Edmund Husserl e de Martin Heidegger, primo de Walter Benjamin, publicou em 1956 o ensaio “Da Vergonha Prometeica” como parte da sua obra A Obsolescência dos Seres humanos 1: Sobre a Alma na Idade da Segunda Revolução Industrial.

A ideia para esse ensaio já o vinha acompanhando desde 1930, quando na “The Pathology of Freedom: An Essay on Non-Identification” expressava que os seres humanos tinham nascido inacabados, como seres que para se sentirem à vontade no mundo necessitavam de se refazerem com a ajuda de artifícios.

É que, contrariamente aos outros animais, os humanos foram deixados nus, sem defesas e sem abrigo, o que fez com que eles só se pudessem desenvolver no mundo se, com a ajuda de artifícios, se transformassem noutros seres. Tinham de se “retirar”, de se afastar dessa sua falta de poder inicial e dessa sua exposição às contingências do mundo. Retiraram-se para abrigos, para a utilização de vestuário, para o endurecimento das mãos ou para a utilização de ferramentas e de instrumentos, ou para o ludibriar a natureza através de plantações. Só pela utilização desses artifícios puderam encontrar o espaço que lhes permitisse emergir neste mundo e conseguir moldá-lo.

É o mito de Prometeu que permite estabelecer a ligação entre a humanidade e a tecnologia, ao tornar visível a “invisibilidade” do seu efeito formativo, apresentando o humano não como um utilizador de artefactos, mas como um ser tecnológico, um ser que existe não só devido à sua relação com a tecnologia, mas que também tem sido continuadamente reformado por essa relação.

Qualquer inovação tecnológica tem consequências e efeitos imprevisíveis, indo ao mesmo tempo reconfigurando os parâmetros da existência humana.

Acontece que, quanto mais a tecnologia avança, mais impressionados e embaraçados vamos ficando por termos nascido como nascemos, obsoletos, sem utilização. Sentimos que não estamos à altura da perfeição dos nossos produtos.

Por comparação com a alta qualidade dos objetos feitos pelo homem e pela sua infinitude (o aparecimento de produtos fabricados em série constituem uma reincarnação industrial), o homem surge como uma falha que nos envergonha:

 

“[…] Os humanos sentem-se indignados não por terem sido feitos por outros (Deus, deuses ou natureza), mas por não terem mesmo sido feitos e por isso serem inferiores a todas as coisas por eles fabricadas.”

 

É “a vergonha de termos nascido em vez de termos sido feitos”.

 

Esta vergonha, este mal-estar, resulta da artificialidade da natureza dos seres humanos que tem vindo a aumentar ao longo da história, na medida em que os humanos se vão tornando em produtos dos seus próprios produtos. E o que acontece atualmente é que os humanos já não conseguem acompanhar as necessidades que os seus próprios produtos lhes impõe.

Algo que já Anders notara nas “Teses para a Idade Atómica”, quando diz que “nós somos Utópicos Invertidos: ao passo que os Utópicos normais são incapazes de produzir o que não conseguem visualizar, nós não conseguimos agora visualizar o que estamos a produzir”.

 

Como humanos nascemos estranhos a um mundo que apenas conseguimos habitar por nos termos retirado para estruturas artificiais. Estamos assim obrigados a viver dentro de um mundo que não é o nosso, dentro de um mundo que, apesar de estar produzido e ser mantido em movimento por nós com o nosso trabalho cotidiano, não está construído para nós. Dentro de um mundo para o qual nós fomos pensados, utilizados, mas cujas normas, aspirações, linguagem e gosto não são os nossos, não nos são permitidos.

 

Num mundo em que a tecnologia se tem vindo a impor como neutral, uma vez que podendo tanto ser usada para o bem como para o mal dependendo de quem a usa (recordemos o mote da NRA, Associação Nacional de Espingardas, “Guns don’t kill people – people kill people”), se tende a esquecer o que Hesíodo pôs na boca de Zeus:

 

“Em troca do fogo, darei aos homens um mal que vai seduzi-los, e que eles acolherão com alegria, sem saber que abraçam a sua própria destruição”

 

Prometeu evoluiu. Já não é apenas “o que vê antes”, mas “o que vê de longe”. Passou a Palantir. Cumpriu-se a profecia de Zeus.

                       

 

Adenda: Consultar artigo de 30 de agosto de 2017, “Aquele que vê de longe”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/2017/08/

 

 

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