Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

348) Nunca mais chega 2050

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Os seres humanos criam problemas que não conseguem compreender e/ou resolver.

 

A vida começa aos cinquenta, é verdade, desde que ela acabe aos quarenta, M. Houellebecq.

 

“Precário” é aquele que é mantido por favor e à medida dos gostos de outro, ou seja, incerto, Z. Bauman.

 

Em 2050 teremos uma nova classe de pessoas, as que não têm qualquer utilidade. Pessoas que não são apenas desempregadas, são mesmo não empregáveis, Yuval Harari.

 

 

 

 

 

 

Um sistema não pode ser simultaneamente consistente e completo. Se ele for consistente com os seus próprios princípios, aparecem problemas que ele não conseguir resolver. E se os tentar resolver, só o poderá fazer através da inconsistência das suas assunções de base.

Este é em síntese o célebre Teorema de Gödel. Ou seja, o que Gödel demonstrou matematicamente foi que os seres humanos criam problemas que não conseguem compreender e/ou resolver. Confrontado com esses problemas, a lógica humana arrisca-se a naufragar.

 

 

Esquematicamente, a tentativa de compreensão e resolução desses problemas poderá conduzir a um confronto entre duas posições impossíveis de reconciliar, a uma ‘dissonância cognitiva’, doença que normalmente conduz ao fundamentalismo religioso ou ao fundamentalismo científico.

Pelo fundamentalismo religioso faz-se com que o código moral fique imune à interferência humana, blindando as fontes alternativas de moralidade. Ou seja, incapazes de resolvermos os problemas que criámos que não conseguimos compreender, retiramo-los do quadro da razão e transportamo-los para uma região do conhecimento inacessível ao homem.

Pelo fundamentalismo científico introduz-se o medo através da incerteza permanente (há sempre mais perguntas a fazer, mais problemas para resolver). No entanto, é bom notar que o potencial criativo da ciência repousa no seu poder de crítica e refutação, e não no poder das suas provas.

 

Com o problema do desemprego sempre presente, nomeadamente agravado para as pessoas com mais de quarenta anos, há quem sugira que talvez o melhor fosse começar a receber a reforma mais cedo, aos quarenta anos.

Recordei-me de uma ideia básica, parva e utópica da minha juventude para alterar o esquema habitual em que se começa a trabalhar aos vinte anos, trabalha-se depois quarenta anos seguidos e reforma-se aos sessenta.

Em vez disso, apresentávamo-nos para trabalhar aos vinte anos, no dia seguinte entrávamos na reforma que receberíamos até aos cinquenta, e só depois começaríamos a trabalhar até morrermos. As contas bateriam certas na mesma e todos seríamos igualmente mais ou menos felizes.

 

É o sociólogo Z. Bauman que vai considerar a sociedade atual, quando comparada com a sociedade industrial que a precedeu, como sendo uma sociedade “líquida”, conforme nos explica no seu livro Tempos Líquidos, Vivendo numa Idade de Incerteza: vivemos numa sociedade em que as formações sociais e as instituições não dispõem de tempo suficiente para solidificarem por forma a poderem servir de referenciais para as ações humanas e para um planeamento a longo prazo, o que nos força a encontrar outras formas de organizarmos as nossas vidas.

Vamo-nos dividindo por um sem número de projetos de curta duração sem qualquer plano coerente, deixando de lado qualquer tipo de ambição como, por exemplo, a de “carreira” ou “progressão”.

Vidas fragmentadas que vão obrigar os indivíduos a serem flexíveis, adaptáveis, constantemente prontos e a quererem a mudança sem aviso prévio, abandonando compromissos e lealdades sem qualquer remorso, na procura de uma oportunidade.

Em substituição do proletariado e da classe média, estes tempos líquidos conduzem ao aparecimento de uma nova formação social, mais desintegrada, pulverizada e atomizada que o proletariado, vivendo numa incerteza existencial, numa mistura de ignorância, impotência e humilhação: o “precariato”.

“Precário”, é aquele que é mantido por favor e à medida do gosto de outro, ou seja, incerto.

E, contudo, este sofrimento não os une, pelo contrário, divide-os. Têm inveja ou medo uns dos outros. Poucos são os que respeitam os outros que são como eles.

O progresso, que era uma manifestação radical de otimismo, uma promessa de felicidade duradoura universal, passou a ser o oposto. Hoje, o progresso é sinónimo de um caminho ao qual não podemos escapar, sempre a atravessar uma crise contínua, onde não se pode ter qualquer momento de descanso.

 

E quando parecia que tudo isto já estava tranquilo (submisso) e integrado, que até já se aceitava este estado das coisas como fazendo parte do progresso, eis que aparece o filósofo Yuval Noah Harari a apontar-nos para o aparecimento futuro de uma nova classe, “não já a dos desempregados, mas a dos não empregáveis”.

Segundo Harari, a inteligência artificial ao ir substituindo cada vez mais os humanos no desempenho dos seus empregos, fará também aparecer um certo número de novas profissões que requerem maior criatividade e flexibilidade, pelo que se tornará muito difícil a adaptação dos desempregados substituídos a estas novas profissões.

Ou seja, o problema não será o de criar novos empregos, mas o de criar novos empregos que os humanos consigam desempenhar melhor que os algoritmos.

O que vai fazer que lá para 2050 irá surgir uma nova classe de pessoas, as que não têm qualquer utilidade: “Pessoas que não são apenas desempregadas, mas que são não empregáveis”.

 

Pode até acontecer que a tecnologia que venha a colocar os humanos como dispensáveis seja a mesma que venha a contribuir para os sustentar através do chamado rendimento básico universal.

Resolvido o problema do sustento, resta o outro: como manter essas multidões ocupadas e contentes ao longo dos dias em que nada fazem?

 Nada melhor que dar-lhes jogos, “pão e circo”, realidade virtual total, e é já para aí que aponta o Facebook, agora Meta, com o seu metaverso.

 

Para Harari, esta é a solução que vem sendo seguida desde sempre. Ao longo de milhares de anos, biliões de pessoas encontraram significado em jogos de realidade virtual: nas “religiões”.

As religiões inventaram leis que existem apenas na imaginação dos homens. Nenhuma lei natural exige a repetição de fórmulas mágicas (“repetir as mesmas orações um certo número de vezes ao dia”) ou proíbe comer-se porco ou vaca.

Muçulmanos e Cristãos passam a vida a tentarem ganhar pontos no seu jogo de realidade virtual favorito. Se orar todos os dias, ganham-se pontos. Se se esquecer de orar, perdem-se pontos. Se no fim da vida tiver obtido pontos suficientes, então depois de morrer passa para o próximo nível”.

 

Atualmente, com os smartphones é possível procurarem-se Pokémones por todo o lado, e encontrá-los. Basta que tenham um smartphone, e o jogo é exatamente o mesmo.

Mas atenção, não é só através dos smartbooks, os livros inteligentes tais como a Bíblia e o Corão, que se veem lugares santos e anjos. O consumismo é também um jogo de realidade virtual. Ganham-se pontos comprando carros novos, comprando marcas particularmente caras, fazendo viagens para o estrangeiro: se conseguir mais pontos que todos os outros, convence-se a si próprio que ganhou o jogo.

 

O curioso é que as pessoas gostam mesmo dos seus carros e das suas férias. E que os religiosos têm mesmo prazer em orar e nas suas cerimónias. E os miúdos em apanharem os Pokémon. Na realidade, tudo se passa no cérebro humano. Que interessa se os neurónios são estimulados pela observação dos pixéis de um computador, por olhar para fora através de uma janela nas Caraíbas, ou por ver o céu no seu espírito? O significado que atribuímos ao que vemos está na nossa mente. Não está “lá fora”.

Pelo que sabemos, a vida humana não tem significado. O significado da vida é sempre uma história ficcionada criada pelos próprios humanos.

 

Que em 2050 a maior parte das pessoas vivam mais imersas em complexos jogos de realidade virtual, nos seus mundos, perseguindo objetivos em que acreditam, obedecendo a leis imaginárias, preocupa-nos? Qual será a verdade? Qual é a realidade?

Harari responde pragmaticamente:

 

Bem, gostando-se ou não, é num mundo como esse que temos estado a viver durante milhares de anos”.

 

Mas a definição mais abrangente e sintética do que são os tempos em que vivemos e dos que se lhes seguem, continua a pertencer ao escritor M. Houellebecq, que, com o seu pensamento convenientemente classificado como sendo distópico, nos faz notar que:

 

A vida começa aos cinquenta, é verdade, desde que ela acabe aos quarenta.”

 

 

 

Leitura recomendada:

“A distopia do presente”, 04 de julho de 2015 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-distopia-do-presente-2547).

“A vida é o preço que pagamos pela sobrevivência”, 19 de agosto de 2015 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-vida-e-o-preco-que-pagamos-pela-4663).

“O perigo dos equívocos da técnica moderna”, 13 de julho de 2016, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-perigo-dos-equivocos-da-tecnica-18131).

“Os últimos dos homens”, 07 de dezembro de 2016 (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/os-ultimos-dos-homens-24283)

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub