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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(345) O jogo escondido

 

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem […] mas logo a perde quem por audácia incorre no erro, Sófocles.

 

Andam a convencer-nos a gastar triliões de dólares numa transição para uma Quarta Revolução Industrial que não se sabe bem o que vai dar, mas a que todos seriamos obrigados.

 

Encanam a perna à rã quando nos vendem que passando a não bebermos por palhinhas, aumentando a produção de carros elétricos, ou plantando biliões de árvores, vamos conseguir deter o aquecimento global.

 

Sem ignorar, naturalmente, as exigências científicas e profissionais específicas de cada contexto, peço-vos que zelem para que a humanidade seja servida pela riqueza e não governada por ela, Papa Francisco.

 

 

 

 

 

É na Antígona que Sófocles vai por o Coro a “exaltar a capacidade do homem, um ser suscetível de pôr a Natureza ao seu serviço, de organizar a vida em sociedade – mas que precisa de saber observar simultaneamente as leis divinas e humanas” (Maria Helena da Rocha Pereira, na introdução à edição da Fundação Calouste Gulbenkian). Ouçamos:

 

“Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.

Esse, co’o sopro invernoso do Noto, passando entre as vagas fundas como abismos, o cinzento mar ultrapassou.

E a terra imortal, dos deuses a mais sublime, trabalha a sem fim, volvendo o arado, ano após ano, com a raça dos cavalos laborando.

 

E das aves as tribos descuidadas, a raça das feras, em côncavas redes a fauna marinha, apanha-as e prende-as o engenho do homem.

Dos animais do monte, que no mato habitam, com arte se apodera; domina

o cavalo de longas crinas, o jugo lhe põe, vence o touro indomável das alturas.

 

A fala e o alado pensamento, as normas que regulam as cidades sozinho aprendeu; da geada do céu, da chuva inclemente e sem refúgio, os dardos evita, de tudo capaz.

Ao Hades somente não pode escapar. De doenças invencíveis os meios de escapar já com outros meditou

 

Da sua arte o engenho subtil p’ra além do que se espera, ora o leva ao bem, ora ao mal; se da terra preza as leis e dos deuses na justiça faz fé, grande é a cidade; mas logo a perde quem por audácia incorre no erro.”

 

 

 

 

Quando em 1991 a União Soviética deu lugar à Rússia, e o planeamento estatal foi substituído pelos mercados livres, todos os próceres (políticos e economistas) eram unânimes em augurar o aparecimento de uma nova Suécia do Leste. Boris Yeltsin inundou o aparelho do estado (e não só) com quadros de especialistas ocidentais nas “terapias de choque” económicas que conduziriam o país na transição esperada. Um salto em frente que serviria de modelo (e exemplo) para todos os outros países em situação idêntica.

Resultado: nesses anos de 90, 20 a 25 biliões de dólares saíram do país todos os anos e o PIB caiu 40%. E só graças às exportações de combustíveis fósseis e armamentos, é que a que era a segunda maior economia do mundo ocupa hoje o décimo lugar atrás da Itália e da Índia. Um terço dos russos ficou abaixo do limiar de pobreza, deu-se um declínio na esperança de vida (de 63 anos em 1990 passou para 58 anos em 2000), ao ponto de só 27% da população pensar que a sua situação económica é hoje melhor que a que tinham nos tempos da União Soviética (o que não significa que apoiem o sistema em que viviam).

 

Dir-se-á que tais falhas foram devidas ao total colapso do império soviético, a décadas de decadência económica, ao triunfalismo do Ocidente, à venalidade dos oportunistas locais (Russos, evidentemente). Mas então não estava tudo isso previsto nos cálculos dos especialistas?

A resposta a esta pergunta tem tanto mais importância quanto os mesmos especialistas nos virem agora convencer a gastar triliões de dólares numa transição de uma economia baseada em combustíveis fósseis para uma economia baseada numa Quarta Revolução Industrial que não se sabe bem o que vai dar, mas a que todos seriamos evidentemente obrigados!

 

Juntos, os computadores, a Inteligência Artificial, a robótica, a Internet das Coisas, os veículos autónomos, a nanotecnologia, a impressão 3-D, a biotecnologia, a ciência dos materiais, a computação quântica, o armazenamento de energia, a energia limpa, os painéis solares, as turbinas de vento, a energia barata, a diminuição da crise ambiental, o trabalho à distância, não mais empregos pesados e sujos, o Norte Global a ajudar o Sul Global a alcançar a meta do futuro Verde e, acima de tudo a governança universal por empresas privadas éticas (ou na sua impossibilidade, por forças pró-militarizadas, como disse o príncipe Carlos),  consumarão por fim a Quarta Revolução Industrial preconizada pelo Fórum Económico Mundial (e ajudada pela pandemia, seus confinamentos e certificados de vacina), enfim, um capitalismo ético onde as grandes empresas seriam responsabilizadas enquanto as elites e os sistemas já existentes continuariam convenientemente como estão.

 

Exemplo bem à vista do que são o cumprimento dos grandes compromissos internacionais é o que passa com os planos e as metas para a descarbonização, acordados há seis anos na conferência de Paris. Todos os países falharam por muito (a única exceção: a Gambia!), e pior, só dois países se preparam para uma dramática transformação.

Os outros encanam a perna à rã ao nos venderem que passando a não bebermos por palhinhas, aumentando a produção de carros elétricos, ou plantando biliões de árvores, vamos conseguir deter o aquecimento global.

Nem mesmo a proposta “fair-share” que propõe a transferência de triliões de dólares para o Sul Global resolverá o problema. Basta ver o que se passa com as transferências acordadas para a distribuição das vacinas do Covid-19, e com as dotações contidas nos respetivos orçamentos nacionais. A única transferência de triliões que se mantém constante, sempre a correr, sem precisar de proposta, é a que segue para os paraísos fiscais (sempre legal e legítima, e que evidentemente não precisa de compromisso orçamental).

É o tal problema da mulher de César: como acreditar que se tomam estes problemas a sério e depois, quando se visita o Papa no Vaticano antes de se seguir para a conferência sobre o clima, se se faz acompanhar de um cortejo de oitenta e cinco carrões? Ou os que saem dos seus iates para voarem até à conferência que visa reduzir as emissões de carbono? Ou que na última Conferência em Glasgow a maior delegação (503 Oil and Gas lobbyist at the UN Climate Conference) fosse das empresas petrolíferas? Tudo legal, tudo dentro dos seus direitos, só que não é esse o problema da mulher de César.

 

Entretanto, os países ricos que prometem diminuir a sua pegada de carbono, continuam a manter o seu estilo de vida de grande consumo de energia: são computadores, ares-condicionados, SUV elétricos, etc., tudo isso à custa do Sul Global. O Norte Global arrecada um benefício anual de 2,2 triliões de dólares pelo trabalho mal pago e mercadorias originárias do Sul Global, valor idêntico ao que se “arrecadava” na era colonial.

Acrescente-se agora o cobalto e o lítio necessários para as baterias dos carros elétricos, o gálio e o telúrio para os painéis solares, os elementos raros para as turbinas de vento que vêm todos predominantemente do Sul onde ficam todos os custos ambientais associados.

 

Tal como na transição da União Soviética para a Rússia apareceram os “capitalistas vermelhos”, agora aparecem os “capitalistas verdes” para se aproveitarem dos enormes lucros da chamada economia pós-carvão: Musk no mundo dos carros elétricos, Robin Zeng e Huang Shilin com as baterias de ião-lítio, Aloys Wobben (recentemente falecido) com as turbinas de vento. E já na calha com os projetos do “hidrogénio azul” e da” mineração do fundo do mar”.

 

Do que não se fala nesta transição tão aguardada, desejada e imposta, é das habitações, dos empregos, dos salários dos empregos, da assistência médica, da educação, dos transportes, etc. Bem sei, os carros do Musk virão com espaço para que uma família lá possa viver, o porta bagagem virá com compras do mercado renováveis automaticamente, os banhos não serão tidos em consideração pois fazem mal, as sanitas vêm incorporadas nos assentos, como no SpaceX. Como o carro é elétrico, não gasta nada: basta ter um certificado de vacinação atualizado. E são sorteados entre os que pagarem a entrada para irem aos vários encontros da rede (Web Summits). Além disso, como último recurso, tal como no carro do Bond, vêm com um botão para ejetar as pessoas para o espaço, onde parece que a vida é boa, barata e saudável. E quando chegarem (se) cá abaixo, o Bezos recebe-os com um espumante e televisão.

 

A transformação necessária para se conseguir lidar com o desafio da alteração climática é enorme; será pelo menos comparável com a da revolução agrária e da industrial.  Só que neste caso, as perdas humanas que se verificarão serão muitíssimo maiores.

Aliás, o receio de que se não consiga lá chegar utilizando os meios utilizados para a exploração normal (“business as usual”) está bem explícito pela inquietação revelada pelos “teóricos e especialistas envolvidos” que clamam já por uma alteração das regras da democracia (“pode ser necessário pôr a democracia em espera por algum tempo”), quer através de uma governança mundial feita por empresas, quer por uma obviamente necessária militarização da sociedade.

Claro que também não dizem como escolhem essas empresas, ou os empresários, ou os cientistas, ou os militares que vão tomar as decisões, com que autoridade, legitimidade, etc.

Não sei se têm notado, mas vivemos já num mundo em que as empresas levam os estados a tribunal por meros conflitos comerciais, argumentando que devido às políticas ambientais e climáticas que os governos e seus parlamentos democraticamente eleitos impõem, os seus lucros são afetados, o que consideram ser ilegal e atentatório das suas liberdades.

 

Já estamos habituados, melhor, já nos habituaram a isso: quando apertados, sem solução, lá vem a justificada e democrática ditadura civil ou militar, ou ambas. E alguns aplaudem: finalmente os comboios vão andar ao horário!

 

 

Nota:

Reler o blog de 24 de fevereiro de 2021 sobre “O Grande Recomeço” (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/308-o-grande-recomeco-88658).

 

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