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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(343) A primeira globalização

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

Fazemos sempre como aquele treinador de futebol ao explanar a tática a seguir: “Pontapé para a frente e fé em Deus”. Como escreveram os anarquistas: “O último a sair que feche a porta”. Ou como do alto dos seus galões dizia aquele oficial: “Cagando e andando, e não se olha para trás para tapar”.

 

As Descobertas, lucidamente vistas por Peter Sloterdijk como a Primeira Globalização, estão intimamente ligadas à escravatura do Atlântico, a sua face negra, e à procura de ouro.

 

Para lá do equador não há pecado, Gaspar Baelus.

 

 

 

 

Desde que Parménides enunciou que não nos podíamos banhar duas vezes na água do mesmo rio, qualquer pensamento que implique a possibilidade de regresso ao passado não tem qualquer exequibilidade.

Quando se demonstra que os nossos distantes antepassados tinham um tipo de vida mais saudável que o nosso, não se pretende com isso concluir que a solução dos nossos problemas hoje, esteja num regresso ao passado. Pretende-se apenas chamar a atenção para as alternativas perdidas, para erros cometidos, melhor, para as suas consequências e irreversibilidades, sabendo também que muitos deles teriam sido inevitáveis, cometidos de boa fé e fruto de total desconhecimento.

Exemplo conhecido e recente foi, e é, o da exploração do petróleo feito pela indústria petrolífera. Ninguém na altura tinha a noção do que ela acabaria por provocar ao planeta. Só que a partir de certa altura os industriais, seus políticos e cientistas, sabiam perfeitamente quais estavam a ser, e seriam, as consequências daquele tipo de exploração e, no entanto, continuaram a fazê-lo em nome do “progresso” e “crescimento”.

O mesmo se passa atualmente com a chamada segunda globalização, a quarta revolução industrial: de novo em nome do “progresso” e “crescimento”, lá  vem a lengalenga idêntica às que a precederam, invocando a grande melhoria das novas (no futuro, evidentemente, sempre no futuro) condições de vida (de todos, evidentemente), tentando introduzir alterações no viver da humanidade só porque tal lhes confere mais poder (já não a todos), mais dinheiro, sem saberem onde o processo irá parar, apenas com a certeza que os seus bolsos sairiam reforçados.

Independentemente de terem sido realizadas de boa ou má fé, intencionalmente ou não, qualquer destas grandes revoluções têm, contudo, dois pontos em comum: partem sempre do princípio que o que está na Terra é para ser apropriado e usado a seu bel prazer, e iniciam sempre o processo sem terem pleno conhecimento de quais as suas implicações futuras e de como as controlar (1).

Fazem sempre como aquele treinador de futebol ao explanar a tática a seguir: “Pontapé para a frente e fé em Deus”. Como escreveram os anarquistas: “O último a sair que feche a porta”. Ou como do alto dos seus galões dizia aquele oficial: “Cagando e andando, e não se olha para trás para tapar”.

 

As Descobertas, lucidamente vistas por Peter Sloterdijk como a Primeira Globalização, estão intimamente ligadas à escravatura do Atlântico, a sua face negra (curiosa a cor que se atribui a essa face, e a que se atribui à fome) e à procura de ouro.

Para quem ainda acredite que foram feitas para cristianizar os povos, basta notar que aquelas expedições ficavam então mais caras que qualquer ida à Lua hoje, e que o seu financiamento tinha de ser pago sem ser por rezas.

Nada melhor que socorrermo-nos de descrições do diário de bordo da Primeira Viagem às Índias, compendiada por Frei Bartolomeu de las Casas, realizada por Cristóvão Colombo (2). Eis a sua descrição do desembarque nas Bahamas, na primeira ida a terra, juntamente com os seus marinheiros armados de espadas, em que os índios correram para os saudar, levando-lhes comida, água e presentes:

 

Eles […] trouxeram-nos papagaios e bolas de algodão e posteiras e muitas outras coisas, que trocavam por bolas de vidro. De boa vontade trocavam o que possuíam por outras coisas […] Eram bem constituídos, com bons corpos e feições agradáveis […] Não traziam armas, e não as conheciam, por isso mostrei-lhes uma espada e eles pegaram-lhe pelo fio pelo que na sua ignorância acabaram por se cortarem. Não possuíam ferro. As ponteiras eram feitas de cana […] Dariam bons criados […] Com cinquenta homens poderíamos subjugá-los a todos e fazer o que quiséssemos com eles.”

 

Mais à frente, Colombo escreve:

 

Assim que cheguei às Índias, na primeira ilha que encontrei, aprisionei à força alguns nativos, para que eles me fornecessem informações sobre o que havia naquelas regiões.”

 

A informação que ele mais queria saber era onde encontrar ouro, como diz no relatório para o Rei, em que pede a Suas Majestades uma pequena ajuda (para equipar uma segunda viagem), e que como retribuição lhes trará na próxima viagem “todo o ouro que necessitarem […] e tantos escravos quantos pedirem”.  Finalizando com a religiosidade habitual: “Assim o Deus eterno, nosso Senhor, conceda a vitória a todos aqueles que seguem o Seu caminho ultrapassando impossibilidades aparentes.”

Conseguida a segunda expedição (17 barcos e duzentos homens), percorreu as ilhas das Caraíbas uma a uma, capturando índios. Estabelecendo base no Haiti, Colombo enviou expedições para o interior, uma vez que os índios começaram a fugir despovoando as costas. Em 1495 embarcaram para Espanha 500 índios, homens, mulheres e crianças, todos presos. Desses, duzentos morreram na viagem. À chagada a Espanha foram vendidos como escravos. Colombo concluiu: “Que nós em nome da Santa Trindade continuemos a mandar todos os escravos que possam ser vendidos”.

Mas só os escravos não davam para pagar a dívida aos armadores, pelo que a procura do ouro que julgava existir alargou-se. Obrigou cada índio com mais de 14 anos a entregar uma certa quantia em ouro todos os três meses. Aos índios que cumpriam a entrega, eram-lhe dados colares com peças de cobre. A todos os que fossem apanhados sem esses colares eram-lhes cortadas as mãos. Aos que fugiam, eram perseguidos com cães, e mortos.

Estima-se que no início existiam cerca de 250.000 índios no Haiti. Em 1550, existiam 500. Um relatório de 1650, mostra que dos índios originais ou dos seus descendentes, não restava nenhum.

 

A fonte para o conhecimento do que aconteceu aos índios sob controle espanhol, é essencialmente a descrita por Frei Bartolomeu de las Casas:

 

O controle total conduz à crueldade total. Os espanhóis não tinham qualquer pejo em esfaquear os índios às dezenas ou vintenas, e em cortar-lhes pedaços apenas para se certificarem sobre o fio da lâmina das suas espadas. […] dois desses chamados cristãos encontraram dois rapazes índios, cada um deles com um papagaio; tiraram-lhes os papagaios e apenas por gozo cortaram a cabeça aos miúdos.”

 

Após cada seis ou oito meses de trabalharem nas minas, que era o tempo necessário para que cada turno escavasse para encontrar ouro suficiente para derreter, um terço dos índios tinha morrido. Enquanto os homens eram mandados para longe para as minas, as mulheres eram mantidas para trabalharem a terra, escavando e fazendo elevações para as plantações.

Assim, os homens e as mulheres apenas se encontravam cada oito ou dez meses, e quando isso acontecia, estavam tão exaustos e depressivos […] que deixavam de procriar. Os recém-nascidos morriam logo de seguida porque as mães, famintas e exaustas, não tinham leite para as amamentar, e por isso, enquanto estive em Cuba, 7.000 crianças morreram em três meses. Algumas mães desesperadas afogavam os filhos […] Desta forma, os maridos morriam nas minas, as mulheres morriam no trabalho, e as crianças morriam por falta de leite […] e em breve esta terra que era tão grande e poderosa e fértil […] ficou despovoada.”

 

Quando chegou à Hispaniola em 1508, escreveu:

 

Na ilha viviam 60.000 pessoas, incluindo os índios; ou seja, de 1494 até 1508, mais de três milhões de pessoas morreram da guerra, da escravatura e das minas. Quem das futuras gerações acreditará nisto? Eu próprio que estou a escrever isto como testemunha tenho dificuldade em acreditá-lo […]”

 

Foi assim que começou a invasão e conquista europeia das povoações índias das Américas. Mesmo que o número avançado por Las Casas possa ser considerado exagerado (uns historiadores dirão 1 milhão, outros 8 milhões), a realidade é que se tratou de conquista, selvajaria e morte.

Conquista, selvajaria e morte que tem sido escamoteada pela história contada pelos conquistadores, governos, diplomatas e chefes das nações. Que continua a não ser refletida, por exemplo, nos livros escolares.

 

A colonização portuguesa do Brasil não foi aqui focada, na medida em que já tinha sido tratada no artigo de 8 de agosto de 2018, “Para lá do equador não há pecado”.

Relembro, contudo, alguns excertos:

                                                                                                                         

“Para perseguirem os franceses de S. Luís do Maranhão, os portugueses fundam Belém em 1616. Mas só em 1637 é que o português Pedro Teixeira sobe o mar doce (do Amazonas) até Quito com 70 barcos e 1200 homens matando os índios que avistava – “descer índios”, mencionavam as suas instruções – cuja lenda persistente dizia que escondiam o ouro e as pedras pediosas. […] Iniciou-se o genocídio; as margens estavam antão densamente habitadas. O piloto-chefe da expedição escrevia:

“Os índios são tão numerosos que se se lançasse uma flecha para o ar, ela não cairia no chão, mas sobre a cabeça de algum”.

 

[…] “Tudo o que se pudesse escrever sobre a barbárie dos primeiros colonos, ficaria abaixo da verdade”. Em poucos anos as margens do Amazonas ficaram desertas: em fuga, escravos ou mortos, os índios tinham desaparecido. Fora os cativos, os soldados e os padres, Belém só tinha, em 1650, 80 habitantes: praça forte na entrada doo Amazonas, porta real do inferno verde, base da pirataria, ela impede a vinda de estrangeiros aos lugares de caça dos portugueses e permite a estes, expedições intermitentes ao interior.

Por exemplo, em 1664, o capitão Pedro da Costa Favela, só ao longo do rio Urubu, incendiou 300 aldeias, matou 800 índios e trouxe 400 como escravos

[…] em 1729, Belchior Mendes de Morais, passava pelas armas 20.800 índios, segundo a sua própria comunicação ao governador de Belém. Os índios retiravam-se cada vez para mais longe e as flotilhas seguiam-nos: entre 1725 e 1750 o governo de Belém trouxe do alto do Rio Negro, para os seus trabalhos, tribos inteiras que não regressaram mais. […] Belém crescia lentamente… até à aventura da borracha.” […]

 

 […] Com o aparecimento do automóvel no fim do século, o mundo tem fome de borracha e só a Amazónia pode fornecê-la […] Inicia-se a corrida ao ouro líquido.

 

[…] Mas, os índios sobreviventes … acostumados a cuidar da seringueira, a defumar o látex e a transportá-lo em pirogas até ao lugar de trocas …não percebem que o mundo precisa de borracha … com regularidade, montanhas de borracha em datas fixas.

[…] Então os revendedores de Manaus expedem aventureiros pesquisadores para a floresta; uma espécie de polícia da borracha invade e controla os caminhos da Amazónia. Um armazém de víveres, alguns pistoleiros e um livro de contas. Distribuem-se bugigangas a troco de borracha. Mas o que eles (os índios) apanham jamais liquida a dívida do livro. O homem da floresta, aprisionado pelos números, perdia fôlego a tentar saldar as contas falsificadas.

 

Os que protestavam eram chicoteados ou obrigados a sentar-se sobre formigueiros, ou amputados de uma orelha. Os que fugiam eram perseguidos e apanhados e, como exemplo, atirados aos cães, esquartejados, torturados até à morte. Ou então, no meio desta vida monótona entre a água e o látex, era pretexto de distrações: amarrado, o indígena servia de alvo, e, a revólver ou a carabina, o divertimento consistia em arrancar-lhe sucessivamente uma orelha, um dedo, o nariz ou o sexo, ou regá-lo de petróleo antes de lhe deitar o fogo, ou violar, na sua frente, a mulher dele.

 

[…] ‘Para lá do Equador não há pecado’, resumiu em Recife o capelão (Gaspar Baelus) de Maurício de Nassau […] Tudo estava corrompido pelo açúcar e pela escravatura. As mulheres brancas dos senhores dos engenhos de açúcar, reclusas, submissas, tremendo ao falar ao seu marido e senhor, fumando cachimbo como as camponesas, casadas aos 12, 13 ou 14 anos, empanturradas de doces e de aborrecimentos, desdentadas aos 25 anos … são a outra face desta fornicação animal. Ainda hoje, os fazendeiros do Nordeste que permanecem nas suas terras, quando se procura por eles ou estão em sua casa ou na casa da amante. E hoje como ontem, eles praticam o provérbio brasileiro:

Para o casamento a branca, para o prazer a mulata, para o trabalho a negra”. […] Quanto mais a sociedade está próxima da escravatura, menos invejável é a sorte das mulheres.

 

[…] A cana-de-açúcar veio e chamou o Negro. O açúcar e o Negro fizeram o Nordeste brasileiro e os latifundiários. Isto é de todos os tempos, a agricultura esclavagista gera o latifúndio, como o arquiteto o betão armado. […] Portugal ditava os preços […] E (os latifundiários) proibiram qualquer outra cultura que não fosse a cana nas suas terras. A monocultura da cana expulsou os rebanhos para o sertão, como se se tratasse de bestas malditas. Expulsou os rebanhos, como expulsou as florestas, os pássaros e as plantas. Daí, quatro séculos de fome.

[…] Esta fúria da cana sem outra preocupação além do lucro imediato, devastou e desequilibrou. A desmatação pelo fogo, a cultura repetida da mesma planta, a supressão de toda a vida animal, a desaparição de qualquer vegetação que não fosse a açucareira, arrastaram o esgotamento rápido da terra, uma erosão intensa; daí novas áreas sujeitas a corte, a novas desmatações, um alargamento da pilhagem, ao ponto de alterar-se o clima, a temperatura e o regime hidrológico. Que resta disso hoje em dia? A fome.

 

Esta compulsão na procura de riquezas, espaço, e terras, que aparecem debaixo da entendida como natural necessidade humana, tem vindo a resultar na matança de populações inteiras, e não só. E, pelos vistos, vai continuar.

 

  • Ler blog de 21 de março de 2018 sobre “Biodiversidade …” onde constam as dez ações para a sua conservação propostas por Holmes Rolston III.
  • Howard Zinn, escreveu A People History of the United States, onde no primeiro capítulo trata “Columbus, the Indians, and Human Progress”, com versão falada no YouTube.

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