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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(342) No Paraíso não havia agricultores

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Na nossa civilização, os mitos de “progresso” e “crescimento”, independentemente dos sistemas económicos em que se verifiquem, conduzem sempre a uma enorme mortandade.

 

Forçados a escolher entre o limitar a população ou tentar aumentar a produção de comida, escolhemos a última e acabámos com fome, guerra e tirania.

 

A introdução da agricultura foi em muitos aspetos uma catástrofe da qual ainda não recuperámos.

 

Se resumirmos toda a nossa história num dia de 24 horas, em que, portanto, cada hora represente 100.000 anos, então a agricultura só aparece às 23:54! Até aí, fomos sempre caçadores/coletores.

 

 

 

 

O sociólogo americano Peter Berger expôs, no seu livro de 1974 Pirâmides de Sacrifício (Pyramids of Sacrifice: Political Ethics and Social Change), dedicado ao estudo do significado das pirâmides aztecas nas quais os sacerdotes procediam à morte ritual das vítimas para assim apaziguarem os deuses e salvarem a civilização, a teoria segundo a qual esses sacrifícios impostos aconteciam e acontecem em todas as civilizações em nome do desenvolvimento.

E notou que na nossa civilização, os mitos de “progresso” e “crescimento”, independentemente dos sistemas económicos em que se verifiquem, têm também conduzido sempre a enormes mortandades.

Ou seja, para Berger, a crença sagrada de que nos últimos milhões de anos a história da humanidade tem sido uma longa história de progressos contínuos, deve ser reequacionada.

E, pelo menos a arqueologia moderna, parece dar-lhe razão quando nos vem sugerir que possivelmente a maior das grandes revoluções, a da introdução da agricultura, que supostamente deveria ser o passo mais decisivo para uma vida melhor, foi em muitos aspetos uma catástrofe da qual ainda não recuperámos.

 

O que até agora nos têm dito é que quando eramos caçadores/coletores, caçando animais selvagens e colhendo e guardando plantas silvestres, tínhamos uma vida curta, penosa e cruel, em que todos os dias tínhamos de lutar para encontrar comida a fim de evitarmos passar fome.

Até que há cerca de 10.000 anos se começou, em diferentes partes do mundo, a domesticar plantas e animais. Foi o início da grande revolução agrícola.

 

Esta passagem da fase de caçadores/coletores para a de agricultores, tem sido apresentada como um processo natural e pacífico, dado a agricultura ser uma forma mais eficiente de se conseguir mais comida com menos trabalho.

E como as colheitas podiam ser guardadas, e se levava menos tempo a ir buscar comida ao quintal do que a procurá-la no mato, a agricultura ainda nos dava tempo de sobra para não se fazer nada, ou para se fazer arte.

 

Mas como se consegue demonstrar que a vida das pessoas que viviam há 10.000 anos melhorou com a introdução da agricultura?

 

Ao estudar a questão, o antropólogo Jared Diamond, publicou a 1 de maio de 1999, “The Worst Mistake in the History of the Human Race” (O pior erro na história da raça humana), onde concluiu o contrário ao demonstrar que a introdução da agricultura foi um erro. Vejamos os seus argumentos:

Até agora, os únicos vestígios humanos que tínhamos para estudar o passado eram os esqueletos, que, apesar de tudo, permitiam retirar um certo número de informações: o sexo, peso, altura e idade aproximada. Nos casos onde aparecessem muitos esqueletos, podiam-se construir tabelas de mortalidade (idênticas às que as companhias de seguro utilizam para calcularem o tempo possível de vida e o risco de morte para uma determinada idade).

Mas para além disso, agora “os paleontologistas podem calcular os índices de crescimento medindo os ossos das pessoas de diferentes idades, examinar os dentes para deficiências de esmalte (sinais de malnutrição na juventude), e reconhecer deformações deixadas nos ossos provenientes de anemia, tuberculose, lepra, e outras doenças.”

 

Por exemplo: em esqueletos recolhidos na Grécia e Turquia, verificou-se que a altura dos caçadores/coletores perto do fim das idades do gelo era de 5’ 9’’ para os homens e 5’ 5’’para as mulheres. Com a adoção da agricultura, a altura diminui, e no ano 3.000 a.C. os homens mediam 5’ 3’’ e as mulheres 5’. A partir da idade clássica, as alturas começaram lentamente a crescer, mas mesmo assim os gregos e turcos ainda não atingiram a altura média dos seus antepassados.

Outro exemplo: um estudo de 800 esqueletos de índios caçadores/coletores descobertos nos vales dos rios Illinois e Ohio, quando comparados com esqueletos de índios cultivadores de milho provenientes do mesmo local, mas do ano 1150 d.C., mostram que os índios agricultores tinham  um aumento de 50% de deficiência de esmalte indicativo de malnutrição, de quatro vezes mais deficiência de ferro evidenciando anemia, três vezes mais lesões nos ossos indicando doenças infeciosas na generalidade, e um aumento de degenerescências na coluna, indicador provável de excessivo labor físico.

Mais, como notou George Armelagos, da University of Massachusetts, “o tempo médio de vida à nascença na comunidade pré-agricultura era cerca de 26 anos, mas na comunidade pós-agricultura era de 19 anos”.

 

São vários os estudos que indicam que o regime da agricultura era pior para a saúde da população, e que tal acontecia basicamente por três ordens de razões:

A primeira, porque os caçadores/coletores tinham uma dieta mais variada, ao passo que os agricultores obtinham a sua dieta a partir de um ou dois alimentos, cada um deles (arroz, milho e trigo, ou similares) deficiente em certas vitaminas ou em aminoácidos essenciais para a vida.

A segunda, porque devido à dependência de um número limitado de colheitas, os agricultores corriam o risco de fome sempre que uma colheita falhasse.

A terceira prende-se com o facto de a agricultura encorajar à concentração de pessoas em locais que vão ser pontes para o comércio com outras sociedades, tendendo a espalhar parasitas e outras doenças infeciosas.

Para além da malnutrição, fome e das doenças epidémicas, a agricultura contribuiu em muito para o aparecimento das divisões de classe. Como os caçadores/coletores não usavam, ou raramente usavam, comida armazenada (um quintal ou manada de vacas), vivendo antes de plantas selvagens ou de animais que obtinham dia a dia, não tinham outros (reis ou similares) que se apoderassem das suas posses. Só com o aparecimento da agricultura é que surgiram aqueles que se apropriavam do que outros produziam: esqueletos de túmulos micénicos de 1500 a.C. mostram que a realeza disfrutava de melhor alimentação que os outros (os seus esqueletos eram duas a três polegadas maiores e tinham melhores dentes – em média uma em cada seis cavidades ou com dentes em falta).

Também a agricultura encorajou o aparecimento da desigualdade entre os sexos. Libertas da necessidade de transportarem os filhos a quando da sua existência nómada, e sob a pressão de produzir mais mãos para os campos, as mulheres da agricultura tinham mais gravidezes, com as consequentes percas de saúde (verificam-se mais lesões de ossos provocadas por doenças infeciosas).

 

Isto põe o problema de tentar saber porque havendo tantos inconvenientes na agricultura, como (porquê) fomos sendo convencidos que a agricultura era melhor?

 Possíveis respostas: a densidade populacional dos caçadores/coletores era muito baixa, raramente atingindo uma pessoa por dez milhas quadradas, ao passo que a densidade dos agricultores era 100 vezes superior. Apesar da qualidade de vida ser menor, a agricultura permitia suportar mais pessoas que a caça; um campo plantado permitia alimentar mais bocas que uma floresta com plantas comestíveis.

Por outro lado, como os caçadores/coletores eram nómadas, e as mulheres tinham de transportar os filhos ao colo até serem mais crescidos, os filhos apareciam espaçados com um intervalo de quatro anos (recorriam ao infanticídio, e outros métodos). O mesmo já não acontecia com as mulheres da agricultura.

Ou seja, à medida que a densidade populacional dos caçadores/coletores foi crescendo (até ao fim das idades do gelo), para alimentar mais bocas os grupos tiveram de escolher entre a conversão à agricultura ou encontrar uma forma para limitar o crescimento.

Os grupos que escolheram a conversão à agricultura (não tendo qualquer forma de prever os malefícios resultantes), passada a sedução pela abundância imediata, depararam-se depois com o problema do grande crescimento populacional.

 Isso levou-os a expulsarem e a matarem os outros grupos que se mantiveram como caçadores/coletores, na medida em que uma centena mesmo de malnutridos agricultores sobrepõe-se a um caçador/coletor. Todos os caçadores/coletores que não quiseram abandonar o seu estilo de vida, tiveram de procurar outros locais que os agricultores não quisessem.

 

Breve:

forçados a escolher entre o limitar a população ou tentar aumentar a produção de comida, escolhemos esta última e acabámos com fome, guerra e tirania”.

 

Para pensar:

Vivem hoje em dia pior os poucos caçadores/coletores existentes que os agricultores?

Os bosquímanos do Calaári continuam a sustentar-se da mesma forma que o faziam. Continuam a ter muito tempo livre, a dormir bastante, e a trabalharem menos que os seus vizinhos agricultores.

O tempo médio dedicado à procura de comida é de apenas 12 a 19 horas para um grupo de bosquímanos. O seu consumo diário de alimentos é de 2140 calorias e 93 gramas de proteína, consideravelmente mais do que o necessário. Alimentando-se de 75 ou mais plantas silvestres, é pouco concebível que possam morrer de fome da mesma forma que morreram milhares de agricultores irlandeses e as suas famílias durante a fome da batata de 1840.

 

Que sentido é que faz hoje para os americanos e europeus falar-lhes nas virtudes dos caçadores/coletores?

Para uma população que vive dependente do petróleo e de minerais, uma população de elite, quase não tem sentido a comparação. Mas talvez faça sentido para a população daqueles países de onde são importados esses produtos, e que vivam em condições de falta de saúde e nutrição. “Se eles pudessem escolher entre serem agricultores na Etiópia ou caçadores/coletores no Calaári, o que deveriam escolher?

Isto, evidentemente, se eles não forem já “artistas de TikTok”.

 

Quão recente é a adoção da agricultura?

Se resumirmos toda a nossa história num dia de 24 horas, em que, portanto, cada hora represente 100.000 anos, então a agricultura só aparece às 23:54! Até aí, fomos sempre caçadores/coletores. No Paraíso, não existiam agricultores.

 

 

Nota: no próximo blog serão abordadas as outras revoluções importantes, os descobrimentos/escravatura/primeira globalização, a revolução industrial e a segunda globalização.

 

 

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