(329) Águas turvas
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Saberes acumulados ao longo de séculos, têm permitido a essas empresas e seus responsáveis utilizarem-se desses conhecimentos como um manual de operações provado e aprovado com a conivência do poder por eles instituído, ao qual recorrem sempre que se veem descobertos.
Lucro. Lucro. Lucro, Chris Hedges.
Nos regimes totalitários, os cidadãos são mantidos na pobreza, enquanto os governantes vivem luxuosamente com mais do que poderiam gastar. Nas democracias livres, os cidadãos são mantidos na pobreza, enquanto os governantes vivem luxuosamente com mais do que poderiam gastar, Caitlin Johnstone.
Nos regimes totalitários, você não é livre e sabe disso. Nas democracias livres, você não é livre e não sabe disso, Caitlin Johnstone.
Versão mais sóbria e real do que o do aclamado Erin Brockovich, o filme Dark Waters, realizado por Todd Haynes em 2019, com Mark Ruffalo e Anne Hathaway nos principais papéis, conta a história da luta de um advogado, Robert Bilott, contra a omnipotente corporação DuPont pela utilização de um produto (ácido perfluoroctanoico, PFOA) inicialmente usado como camada impermeabilizadora para carros de combate, e posteriormente adaptado para o fabrico do conhecido Teflon que recobre as panelas e tachos existentes nas nossas cozinhas, carpetes, tecidos resistentes às manchas e repelentes de água, cosméticos, impermeabilização de caixas de pizas e outras embalagens, lubrificantes, tintas, e outros produtos de uso diário.
Acontece que a DuPont há décadas que sabia, através de experiências que fez, que o produto causava vários tipos de cancro, defeitos de nascença que nunca mais desaparecem (provocados por químicos que não deixam a corrente sanguínea, aí ficam para sempre) e não os tornou públicos, optando por esconder e despejar milhares de toneladas de produto em alguns terrenos.
Finalmente a DuPont aceitou um acordo, comprometendo-se a pagar os custos com a saúde de todos que oficialmente fosse provado estarem doentes por causa do produto. Quando ao fim de sete anos a entidade pública encarregue dos testes confirma a relação entre o produto e a doença, a DuPont recusa o acordo, expondo-se antes a ações em tribunal, caso a caso.
Saberes acumulados ao longo de séculos, têm permitido a essas empresas e seus responsáveis utilizarem-se desses conhecimentos como um manual de operações provado e aprovado com a conivência do poder por eles instituído, ao qual recorrem sempre que se veem descobertos: encontra-se algo que dá dinheiro, chuta-se para a frente com força e com fé na tecnologia; mais tarde, se der para o torto, logo se verá; em último caso, se forem descobertos, concordam em aceitar uma comissão independente de avaliação; saídos os resultados, se forem favoráveis, obrigam a outra parte a cumprir; se lhes for desfavorável, não aceitam os resultados e volta tudo à estaca zero para ser resolvido individualmente em tribunal.
Como os tribunais são democráticos (ou seja, as leis são gerais e a todos aplicáveis), quem não tiver o muito dinheiro exigido para movimentar a ação, fica a ver os comboios passarem. É como, por exemplo, o que acontece a quem não tem dinheiro para comprar ações; se tivesse, podia beneficiar da lei que é geral e para todos, e ter descontos nos impostos sobre o rendimento; como não tem dinheiro não pode ter essa regalia; resta-lhe a consolação de ficar a saber que, pelo menos, a lei é democrática. Culpa dele por não ter dinheiro. Mas não há problema: não têm descontos nos impostos, mas assim vai poder sem problemas poder passar pelo buraco da agulha sem necessitar de ser camelo.
A única preocupação que essas empresas têm de ter é não se deixarem ficar na cauda ou perto, porque aí sabem, devem saber, que serão comidas pelos próprios pares. Tudo bons rapazes e bons amigos. Em qualquer dos casos, serão só negócios, nunca será pessoal, dizem os que se estão já a banquetear.
Anteriormente, podia-se atribuir à economia, à política dita ocidental, e ao capitalismo, esta forma desumana (digo eu) de atuar. Acontece que desde que o sistema capitalista foi considerado como um método meramente económico para desenvolver as nações, o que fez com que fosse possível existir um sistema político socialista ou comunista a utilizar uma economia capitalista, as “coisas” baralharam-se.
Para quem queira viver num mundo ordenado, onde se reconheçam os valores essenciais e bem determinados do bem e do mal, com uma certa rigidez e permanência, sem grandes ambiguidades (sem grandes manchas de cinzento), aquelas diferenças antigas que nos serviam de guia entre “as coisas” começaram-se a diluir.
É o mundo em que vivemos. Estavelmente instável, sem pontos definidos de amarração, em aparente mudança constante: o tal mundo sem Deus que Montaigne entrevira intensamente. Quatro séculos depois, já era tempo para o percebermos.
Caitlin Johnstone, é uma jornalista australiana com percurso internacional firmado, que a 13 de junho de 2021, escreveu o artigo intitulado “The Difference Between Totalitarian Regimes And Free Democracies” (A diferença entre regimes totalitários e as democracias livres), que aqui reproduza na sua quase totalidade:
“Nos regimes totalitários, há massacres e guerras. Nas democracias livres, há intervenções humanitárias.
Nos regimes totalitários, usa-se a tortura. Nas democracias livres, usam-se técnicas aprimoradas de interrogatório.
Nos regimes totalitários, financiam-se grupos terroristas para criarem instabilidade. Nas democracias livres, financiam-se grupos terroristas para criarem estabilidade.
Nos regimes totalitários, ditadores execráveis bombardeiam o seu próprio povo. Nas democracias livres, fazemos isso por eles.
Nos regimes totalitários, um único partido defende e aplica o status quo. Nas democracias livres, dois partidos defendem e fazem cumprir o status quo.
Nos regimes totalitários, o governo controla a imprensa e determina quais as informações a que o público pode ter acesso. Nas democracias livres, são os bilionários que fazem isso.
[…] Nos regimes totalitários, você sabe exatamente quem o governa. Nas democracias livres, os verdadeiros governantes escondem-se atrás de falsos governos fantoches.
Nos regimes totalitários, todas as eleições são fraudulentas e os adversários são escolhidos a dedo pelos governantes que mandam. Nas democracias livres, os governantes vigarizam as eleições e escolhem os candidatos a dedo, e o mesmo também fazem noutros países.
Nos regimes totalitários, prendem-se jornalistas por revelarem verdades inconvenientes sobre os poderosos. Nas democracias livres, prendem-se jornalistas por revelarem verdades inconvenientes sobre os poderosos, e todos os outros jornalistas aparecem nas redes sociais a dizer que eles mereceram.
Nos regimes totalitários, não permitem que os dissidentes políticos falem. Nas democracias livres, simplesmente recusam aos dissidentes quaisquer plataformas influentes e usam algoritmos para impedir que ideias revolucionárias sejam ouvidas por um número significativo de pessoas.
Nos regimes totalitários, cercam o planeta com bases militares, travam guerras sem fim que matam milhões e trabalham para destruir qualquer nação que desobedeça ao seu governo. Opa! Desculpem-me, estava a referir-me às democracias livres.
Nos regimes totalitários, o discurso político é fortemente regulado pelo governo. Nas democracias livres, o discurso político é fortemente regulamentado pelo governo através do Silicon Valley.
Nos regimes totalitários, os cidadãos são mantidos na pobreza, enquanto os governantes vivem luxuosamente com mais do que poderiam gastar. Nas democracias livres, os cidadãos são mantidos na pobreza, enquanto os governantes vivem luxuosamente com mais do que poderiam gastar.
Nos regimes totalitários, a agência de espionagem do governo diz aos meios de comunicação social quais as histórias a veicular, que eles publicam sem questionar. Nas democracias livres, a agência de espionagem do governo diz: "Amigo, tenho um furo para você!" e os meios de comunicação social publicam sem questionar.
Nos regimes totalitários, grupos de bandidos armados patrulham as ruas para imporem obediência à autoridade. Nas democracias livres, grupos de bandidos armados patrulham as ruas para imporem obediência à autoridade e Hollywood faz filmes sobre como heroicos eles são.
Nos regimes totalitários, os alunos são ensinados a adorar sem pensar a imagem de um ditador malvado. Nas democracias livres, os alunos são ensinados a adorar a bandeira sem pensar.
Nos regimes totalitários, os alunos são ensinados a nunca questionarem a autoridade. Nas democracias livres, os alunos são ensinados a nunca questionarem os repórteres.
Nos regimes totalitários, cometem-se atos malvados que as democracias livres jamais poderiam fazer. Nas democracias livres, os regimes totalitários cometem essas más ações por eles.
Nos regimes totalitários, o povo é mantido brutalizado e intimidado para não se possa rebelar contra os seus governantes. Nas democracias livres, o povo é mantido submetido à propaganda e a uma lavagem de cérebro para que se não possa rebelar contra os seus governantes.
Nos regimes totalitários, os poderosos determinam o que acontece independentemente do desejo do povo. Nas democracias livres, os poderosos determinam o que o povo deseja que aconteça.
Nos regimes totalitários, todos são escravos dos poderosos. Nas democracias livres, todos são escravos “do Poder”.
Nos regimes totalitários, é-se forçado a obedecer. Nas democracias livres, é-se treinado para pensar que a sua obediência foi ideia sua.
Nos regimes totalitários, você não é livre e sabe disso. Nas democracias livres, você não é livre e não sabe disso.”
George Orwell (1903-1950), quando em 1949 escreveu o 1984, já tinha percebido quase tudo sobre o Estado que nos esperava. Eis um extrato que se encontra no capítulo III da Terceira Parte:
[…] Não nos interessa o bem dos outros: somente o poder. Nem riqueza, nem luxo, nem longevidade, nem felicidade: só o poder, o poder puro. Já vais perceber o que significa «poder puro». Nós somos diferentes de todas as oligarquias do passado, porque sabemos o que estamos a fazer. Todas as outras, mesmo as mais parecidas com a nossa, provaram ser cobardes e hipócritas. Os nazis alemães e os comunistas russos aproximaram-se muito de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de admitir os seus próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, terem tomado o poder a contragosto e por um período de tempo limitado, e que logo ao virar da esquina havia um paraíso onde os seres humanos poderiam ser livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o intuito de o deixar. O poder não é um meio, é um fim. Não se instaura uma ditadura para se salvaguardar uma revolução; faz-se uma revolução para se instaurar uma ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição; o da tortura é a tortura; o do poder, o poder. Começas agora a entender-me?”
Mais recentemente, no seu livro Days of Destruction, Days of Revolt, Chris Hedges, ministro da Igreja Presbiteriana e vencedor do Pulitzer de Reportagem, numa análise às causas do movimento ‘Occupy Wall Street’ de 17 de setembro de 2011, escreve no capítulo 5, “Days of Revolt, Liberty Square, New York City”, o seguinte:
“No século dezassete, a especulação era crime. Os especuladores eram enforcados. Hoje, eles dirigem o estado e os mercados financeiros. Eles escrevem as leis. Eles disseminam as mentiras que poluem as nossas ondas comunicacionais. Eles sabem, muito melhor do que você, quão persuasivos se tornaram a corrupção e o roubo, e quão minado está o sistema contra si. As corporações conseguiram entronizar uma muito diminuta classe oligárquica e um quadro servil de políticos, juízes, e jornalistas que vivem na sua pequena e murada Versailles enquanto 3,6 milhões de americanos são desalojados das suas casas, número que se espera aumentar para dez milhões. Um milhão de pessoas por ano vai para a falência por não poderem pagar as suas despesas de saúde, e quarenta e cinco mil morrem por falta de assistência. Neste sistema, o desemprego real é de pelo menos 15,6%, e os cidadãos, incluindo estudantes, passam a vida endividados, trabalhando em empregos sem saída, isto quando têm emprego, num mundo sem esperança.
[…] As corporações têm sugado todos os programas de serviços sociais pagos pelos nossos impostos, da educação à Segurança Social, porque querem o dinheiro para elas. Deixem os doentes morrer. Deixem os pobres passarem fome. Deixem as famílias serem despejadas para a rua. Deixem os desempregados apodrecer. Deixem as crianças de locais desfavorecidos sem aprenderem nada e a viver na miséria e medo. Deixem os estudantes acabarem a escola sem emprego ou sem qualquer perspetiva de emprego. Deixem o sistema prisional, o maior no mundo industrializado, expandir-se para assim poder absorver todos os potenciais dissidentes. Deixem a tortura continuar. Deixem os professores, polícias, bombeiros, carteiros, e trabalhadores dos serviços sociais aumentarem a lista dos desempregados. Deixem as estradas, pontes, barragens, redes de eletricidade, vias férreas, metropolitanos, autocarros, escolas, e bibliotecas desmoronarem-se ou fecharem. Deixem o aumento das temperaturas do planeta, os furacões, as secas, as inundações, os tornados, as camadas polares derreterem, os sistemas de água envenenados, e a poluição degradar-se até que as espécies morram.
Mas quem na realidade se importa com isso? Se as ações da ExxonMobil ou da indústria de carvão ou da Goldman Sachs estiverem a subir, a vida é boa. Lucro. Lucro. Lucro.”