(327) Pascal vacinou-se
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Pascal argumentou que, se houvesse apenas uma pequena probabilidade de que Deus realmente existisse, faria todo o sentido comportar-se como se Ele existisse, porque as recompensas poderiam ser infinitas, ao passo que a falta de fé acarretava o risco de miséria eterna, Warren Buffet.
O silêncio destes espaços infinitos assusta-me, Pascal.
Quando se pensa apenas como acionista de uma grande seguradora, as mudanças climáticas não fazem parte da lista de preocupações, Warren Buffet.
A 27 de fevereiro de 2016, Warren Buffet, o principal acionista, presidente do conselho e diretor executivo da Berkshire Hathaway, enviou aos acionistas da sua empresa o relatório das atividades de 2015 (“To the Shareholders of Berkshire Hathaway, Inc.”). Eis o que disse sobre a ameaça das alterações climáticas:
“Escrevo esta seção porque temos uma proposta de procuração relativa à alteração climática para ser apreciada na reunião anual deste ano. O patrocinador deseja que forneçamos um relatório sobre os perigos que essa alteração pode representar para nossa operação de seguros e que expliquemos como estamos a responder a essas ameaças.
Parece-me altamente provável que as mudanças climáticas representem um grande problema para o planeta. Digo “altamente provável” em vez de “certo” porque não possuo qualificações científicas e porque me recordo bem das terríveis previsões da maioria dos “especialistas” sobre o Y2K (o bug do milénio). Seria, no entanto, tolice para mim ou para qualquer pessoa, exigir 100% de certeza sobre os enormes danos previstos para o mundo no futuro se esse resultado parecesse possível e se a ação imediata tivesse uma pequena hipótese de obviar o perigo.
Esta questão tem uma semelhança com a Aposta de Pascal sobre a existência de Deus. Pascal, recordemos, argumentou que, se houvesse apenas uma pequena probabilidade de que Deus realmente existisse, faria todo o sentido comportar-se como se Ele existisse, porque as recompensas poderiam ser infinitas, ao passo que a falta de fé acarretava o risco de miséria eterna. Da mesma forma, se houver apenas 1% de hipótese de o planeta estar a encaminhar-se para um desastre realmente grande e se o atrasar da intervenção significasse o ultrapassar um ponto sem retorno, o não se fazer nada agora seria tolo. Chamemos a isso, Lei de Noé: se a arca for essencial para a sobrevivência, comece-se já hoje a construí-la, mesmo que nem apareçam nuvens no céu.”
Blaise Pascal (1623-1662), que fora proibido pelo pai de aprender matemática, aos 12 anos já descobrira sozinho as 32 proposições de Euclides, tendo aos 16 anos inventado a máquina de calcular, iniciando a partir daí a publicação de obras puramente matemáticas e físicas, das quais se destacam o Ensaio das Cónicas (1640) que contém o que ainda hoje é conhecido como o Teorema de Pascal, Prefácio do Tratado do Vácuo (1647), Tratado sobre a Geração das Secções Cónicas (1648), Descrição da grande experiência do Equilíbrio dos licores (1648), Comunicação à Academia de Matemática de Paris (1653).
Essencialmente, Pascal era um matemático, físico e inventor, iniciador do desenvolvimento da teoria da probabilidade e do método de análise infinitesimal que acabaria por conduzir ao cálculo infinitesimal de Leibniz. Concomitantemente, o problema da roleta e da tomada de decisões, faziam também parte das suas preocupações e da correspondência que mantinha com os considerados grandes sábios da época.
Em 1656 entra no campo literário e religioso com uma série de Cartas Provinciais, sabendo-se que nesse mesmo ano começou a trabalhar na Apologia da Religião Cristã, obra que apesar de inacabada originou os Pensamentos.
Convém notar dois factos: o primeiro é a sua conversão a 23 de novembro de 1654, data em que Pascal tem uma Epifania, passando a valorizar uma atitude de participação em Cristo como uma união mística.
O segundo, é que os Pensamentos, a sua obra filosófica mais importante, apesar de ter começado a ser escrita lateralmente com a Apologia da Religião Cristã, à sua morte (1662) não passava de uma coleção de papéis diversos em que Pascal esboçara, muitas vezes sem nexo aparente como se de notas pessoais se tratassem, outras vezes em composição perfeitamente acabadas, fragmentos esses que foram depois cortados e colados num álbum de 253 fólios, que só foram impressos postumamente em 1670.
É na segunda parte dos Pensamentos, “O Homem Com Deus, secção II, 3, Infinito-nada: A aposta”, que vai aparecer o tão conhecido tema da aposta:
“[…] «Deus é ou não é». Mas para que lado cairemos? A razão não pode determinar nada: há um caos infinito que nos separa. Joga-se um jogo, na extremidade desta distância infinita, em que acontecerá cara ou coroa. Qua apostais? Pela razão não podereis fazer nem uma coisa nem outra; pela razão não podeis desfazer nenhuma das duas. Não acuseis, pois, de falsidade os que escolheram; pois vós não sabeis nada.
[…] Visto que é preciso escolher, vejamos o que vos interessa menos. Vós tendes duas coisas para perder: o verdadeiro e o bem, e duas coisas a comprometer: a vossa razão e a vossa vontade, o vosso conhecimento e a vossa e a vossa santidade; e a vossa natureza tem de fugir a duas coisas: o erro e a miséria. A vossa razão não fica mais ferida escolhendo um ou outro, visto que é preciso escolher necessariamente. Eis um ponto concluído. Mas a vossa bem-aventurança? Pesemos o ganho e a perda, escolhendo coroa que é Deus. Estimemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que ele existe sem hesitar.”
Esquematicamente, eis como de um modo puramente racional equaciona as possibilidades de salvação do ser humano:
Se tudo for vão e eu apostar no sentido positivo, nada perco (porque já estava perdido à partida e a aposta nem sequer é uma forma de ilusão, é antes uma forma de lucidez).
Se houver sentido positivo e apostar nesse mesmo sentido, ganho tudo. (assim, nunca perco).
Se apostar no não-sentido, e houver sentido positivo, perco a aposta (mas ganho, de uma outra forma muito mais compensadora).
Se apostar no não-sentido, e não houver sentido, tecnicamente acertei (mas perco, rebaixei-me, perdi em dignidade).
Simplificadamente, para os que visualizem melhor com uma matriz:
Deus existe Deus não existe
Apostar por Deus Ganha-se tudo Tudo na mesma
Apostar contra Deus Miséria Tudo na mesma
Muitas dezenas de artigos e obras foram escritas focando apenas esta parte da obra, corrigindo-a, expandindo-a, matematizando-a com quantificações diferentes entre zero e infinito, transformando-a em teorias do jogo e da decisão.
Independentemente da validade de algumas dessas objeções, é preciso não esquecer que os propósitos de Pascal eram o de provar para além de qualquer dúvida o poder do cristianismo. Conforme começa logo por explicar na sua tese primeira sobre a Ordem e o Plano da Obra:
“Os homens menosprezam a religião; detestam-na e temem que seja verdadeira. Para evitar isto é preciso começar por mostrar que a religião não é contrária à razão; que é venerável; dá-la ao respeito e depois torna-la amável para fazer desejar aos bons que seja verdadeira; e, por fim, mostrar que é verdadeira.
Venerável, porque conheceu bem o homem; amável, porque promete o verdadeiro bem.”
É também o homem que estabelece a diferença entre o espírito geométrico (‘esprit de géometrie’) que apenas nos dá os factos, ou seja, o saber já sabido e de algum modo já morto) e o espírito de finura (‘esprit de finesse’) que faz avançar o conhecimento, mostrando que todo o avanço cognitivo é intuitivo), e que sobre o infinito e o finito nos diz:
“Que é o homem na natureza? Um nada em vista do infinito, um todo em vista do nada, um meio entre nada e tudo.”
[…] “Nós vogamos num vasto meio-termo, sempre incertos e flutuantes, empurrados de um lado para o outro. Qualquer termo onde pensássemos aderir e afirmar-nos vacila e abandona-nos; e se o seguimos escapa-nos, escorrega-nos das mãos e foge numa fuga eterna. Nada se detém para nós […] nós ardemos de desejo de encontrar uma posição firme e uma última base constante para nela edificar uma torre que se eleve até ao infinito, mas todo o nosso alicerce range, e a terra abre-se até aos abismos.”
E sobre a imaginação:
“A justiça e verdade são duas pontas tão subtis, que os nossos instrumentos são demasiado embotados para lhes tocarem exatamente. Se o conseguem, esborracham a ponta e apoiam-se à volta, mais sobre o falso que sobre o verdadeiro”.
Sobre a vaidade e presunção:
“Somos tão presunçosos que queríamos ser conhecidos em toda a terra, e até por aqueles que vierem quando á não existirmos, e somos tão vãos que a estima de cinco ou seis pessoas que nos rodeiam nos diverte e nos contenta.”
Sobre as contrariedades:
“O homem é naturalmente crédulo, incrédulo, tímido, temerário […] O presente nunca é o nosso fim: o passado e o presente são os nossos meios; só o futuro é nosso fim. Assim nunca vivemos, mas esperamos viver; e dispondo-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.”
E a famosa consideração sobre o coração, com vista a concluir que “é o coração que sente Deus, e não a razão”:
“O coração tem as suas razões, que a razão não conhece; sabe-se isto por mil coisas […] será pela razão que vos amais a vós próprios?”
E ainda aquela espantosa constatação:
“O silêncio destes espaços infinitos assusta-me”.
Mas continuemos a acompanhar Warren Buffet na sua missiva aos acionistas da Berkshire:
“É compreensível que o patrocinador da proposta acredite que a Berkshire, porque somos uma grande seguradora, cobrindo todos tipos de riscos, se veja especialmente ameaçada pelas mudanças climáticas. O patrocinador pode temer que os prejuízos nas propriedades disparem devido às mudanças climáticas. E tais preocupações poderiam, de facto, serem justificadas se subscrevêssemos apólices de dez ou vinte anos a preços fixos. Mas as apólices de seguro são normalmente emitidas por um ano e reajustadas anualmente para refletirem as alterações nas exposições. Maiores possibilidades de percas traduzem-se imediatamente em maiores prémios.
Até agora, as alterações climáticas não produziram furacões mais frequentes nem mais caros, nem outros acontecimentos relacionados com o clima e cobertos por seguros. Como consequência, nos EUA as taxas das super-catástrofes têm caído constantemente nos últimos anos, razão pela qual desistimos desse negócio. Se as super-catástrofes se tornarem mais caras e frequentes, o provável - embora longe de ser certo - efeito sobre o negócio de seguros da Berkshire seria torná-lo maior e mais lucrativo. Como cidadão, pode-se compreender que as mudanças climáticas o deixem acordado durante as noites. Como proprietário de uma casa numa área assinalada, pode-se querer mudar. Mas quando se pensa apenas como acionista de uma grande seguradora, as mudanças climáticas não deveriam fazer parte da sua lista de preocupações.”