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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(325) Do bom comportamento

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

A nossa vontade só deseja as coisas que o entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, Descartes.

 

Cada macaco no seu galho, almirante Pinheiro de Azevedo.

 

O homem é o ser que possui a ideia de Deus, para Descartes.

 

A estrutura de pensamento do homem necessita de certeza religiosa e de certeza científica.

 

 

 

 

 

Tem surgido ultimamente nos principais meios de comunicação social escrita um anúncio em português internacional a prometer a felicidade à distância de um clique:

     

An essential daily guide to achieving the good life”.

 

É na terceira parte do Discurso do Método (1637) que Descartes nos vai expor as três ou quatro máximas que ele próprio utilizava para “não deixar de viver o mais felizmente possível” e que constituem como que uma “moral provisória”. Para o caso, interessa particularmente a terceira máxima, onde nos confessa ser “necessário um longo exercício e uma meditação muitas vezes repetida para nos habituarmos a encarar assim todas as coisas”.

Cliquemos para ler o que ele escreveu:

 

A minha terceira máxima era procurar sempre antes vencer-me a mim próprio do que vencer a Fortuna e modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo; e, geralmente, habituar-me a acreditar que, afora os nossos pensamentos, nada há que esteja inteiramente em nosso poder, de maneira que depois de ter procedido o melhor possível, em relação ás coisas que nos são exteriores, tudo o que impede que sejamos bem-sucedidos é, em relação a nós, absolutamente impossível. E isto, por si só, parecia-me ser suficiente para me impedir, futuramente, de desejar algo que não pudesse adquirir e, assim, tornar-me contente.

Pois como a nossa vontade naturalmente só deseja as coisas que o entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens que estão fora de nós como igualmente afastados do nosso poder, não lastimaremos mais a falta dos que parecem dever-se ao nascimento, quando deles privados sem nossa culpa, do que lastimamos por não possuirmos os reinos da China ou do México; e que, como se costuma dizer, da necessidade virtude, não desejaremos mais ter saúde, quando doentes, ou ser livres, quando prisioneiros do que desejamos agora ter corpos de matéria tão pouco corruptível como os diamantes , ou asas para voar como as aves. Mas confesso que é necessário um longo exercício e uma meditação muitas vezes repetida para nos habituarmos a encarar assim todas as coisas; e creio que é sobretudo nisto que consistia o segredo desses filósofos, que outrora puderam-se subtrair-se ao domínio da fortuna e, apesar dos sofrimentos e da pobreza, disputar a felicidade aos deuses. Porque, ocupando-se constantemente em considerar os limites que lhes eram prescritos pela natureza, persuadiram-se tão perfeitamente de que nada estava em seu poder além dos próprios pensamentos, que só isso bastava para os impedir de terem alguma afeição por outras coisas; e dispunham deles tão absolutamente que, de certo modo, tinham razão em considerar-se mais ricos e poderosos, mais livres e felizes do que quaisquer outros homens que, não tendo essa filosofia, por muito favorecidos  que fossem pela natureza e pela fortuna, nunca dispõem assim  de tudo o que querem.”

 

 

Se só interpretássemos Descartes por este texto, claramente poderíamos dizer que nada acrescentava ao que os antigos filósofos estoicos já tinham dito sobre o assunto, nomeadamente Epicteto (“quando só se quer o que se pode adquirir, pode adquirir-se tudo o que se quer; e quando se quer que as coisas exteriores aconteçam como acontecem, acontecem sempre como queremos”), lembrando que o sábio é tão feliz como o próprio Deus, ou que só o sábio é rico, poderoso, livre e feliz, ou mesmo quando comparado às Consolações de Boécio.

Se só o interpretássemos segundo a moda contemporânea de ignorar totalmente tudo o que se passou para trás, uma vez que o que interessa é “resolver” o problema para a frente, e que para tal possa acontecer torna-se necessário que cada um de nós se restrinja à posição que desempenha na sociedade (única forma de previsibilidade, para as famosas contas darem certas),  como aliás há já quase cinquenta anos sugerira à população o então  primeiro-ministro de Portugal, almirante Pinheiro de Azevedo (“Cada macaco no seu galho”), em conformidade com a ideia de que a política não passava de diferenças de opinião sobre como governar e sobre os interesses particulares envolvidos, e que devia ser um exclusivo da classe dominante.

Pelo que para os governados, entre os governados, não havia política, nem era conveniente que houvesse. Deviam limitar-se a gostar ou não gostar dos superiores, sem questionar a sua posição, ou muito menos aspirar a ela. Era o “Quem pode manda, quem deve obedece” e o seu complementar “A minha política é o trabalho”.

 

 

Contudo, Descartes é também conhecido por pertencer aquele grupo de pensadores que coloca a razão como a verdadeira fonte do conhecimento, “inventor” do famoso “Penso; logo, existo”.

É na quarta parte do Discurso do Método que Descartes refere, pela primeira vez, como chegou a essa sua conclusão:

 

“[…] Desde há muito notara eu que, no tocante aos costumes, é necessário às vezes seguir como se fossem indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas […] Mas, porque agora desejava dedicar-me apenas à procura da verdade, pensei que era forçoso que eu fizesse exatamente o contrário e rejeitasse, como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, depois disso, não ficaria alguma coisa na minha crença, que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, quis supor que não existe coisa alguma que seja tal como eles a fazem imaginar. E porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo a propósito dos mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, ao considerar que eu estava sujeito a enganar-me, como qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões de que anteriormente me servira nas demonstrações. Finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos no estado de vigília nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que, neste caso, algum seja verdadeiro, resolvi supor que todas as coisas que até então tinham entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo a seguir, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, era de todo necessário que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade: penso; logo, existo, era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos céticos não eram capazes de a abalar, julguei que podia aceitar, sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.”

 

 

A utilização da “dúvida metódica” para conseguir chegar ao cogito e superar o ceticismo (os céticos fazem da dúvida um fim, enquanto que a dúvida cartesiana aparece como um caminho para se encontrar uma verdade indubitável, que ao ser encontrada provaria que o ceticismo integral era impossível), a hipótese do Génio Maligno (o génio astuto e mentiroso que lhe dava uma natureza tal que o levava a enganar-se nas coisas que lhe pareciam as mais evidentes, e que o fazia pensar que tudo era falso, pelo que fez com que ele, ele que o pensava, fosse qualquer coisa), a própria passagem do pensamento à existência (parte da constatação de uma função – eu penso – para uma afirmação ontológica – existo -, ou seja do fenómeno “pensamento” para o eu “como substância pensante”), a dupla natureza humana (uma “coisa que pensa”, a alma, e uma “coisa extensa”, o corpo, fazendo do homem a única substância extensa que está unida a uma substância pensante, permitindo uma interação entre as substâncias), a complexa união da alma e do corpo, parecem tornar, por vezes, simplista e artificioso,  o pensamento de Descartes.

 

É, no entanto, importante lembrar que Descartes, embora tivesse como finalidade a alteração completa do método de ensino e da Ciência da época (depois das grandes navegações, depois de Copérnico, Kepler e Galileu, etc.), era um crente em Deus, o que leva Alexandre Koyré a afirmar que “o pensamento de Descartes segue a ordem clássica: depois da lógica, a física. Depois da física, a metafísica, que responde então a uma dupla exigência do seu pensamento: necessidade de certeza religiosa, necessidade de certeza científica”.

Para ele, conhecer a natureza é aprender as leis que regem o universo mecânico; conhecer as leis é conhecer as relações causa-efeito; pelo conhecimento dos efeitos acedemos ao conhecimento das causas, e controladas estas controlamos os fenómenos.

Isto faz com que o universo exprima ordem, regularidade e harmonia, como manifestações de um princípio perfeito, infinito, criado pela divindade. Se as leis são criadas pela divindade, e que por isso são universais, então podemos conhecê-las com segurança. Pelo que é a metafísica que fundamenta as bases da ciência, o domínio do conhecimento. O grau supremo da validade encontra-se em Deus.

 

É claro para Descartes que necessita da metafísica para fundamentar as bases da ciência. Mas para determinar os fundamentos da metafísica, vai necessitar de um método: a dúvida metódica.

A dúvida metódica vai levar à descoberta do princípio do cogito, alicerce para o edifício do saber, mas que só por si, não é suficiente para fundar o conhecimento objetivo. Para provar a verdade do cogito, e para passar do conhecimento subjetivo para o conhecimento objetivo, precisa de garantias ontológicas: Deus.

Só após a razão ter descoberto Deus e provar a sua existência (daí as suas teses sobre a existência de Deus), é que se poderá ter a certeza da existência do corpo e do mundo físico.

 

 

É este esquema da relação interior do pensamento e da alma humana com o transcendente, em que o conhecimento como fonte de poder e a exaltação da superioridade do homem remete para Deus, que faz com que ainda hoje o cartesianismo conserve uma auréola de mistério.

Note-se ainda que pela afirmação do homem enquanto sujeito do conhecimento, o cartesianismo pode também ser visto como uma versão moderna do antropocentrismo. É para nós claro que a noção do conhecimento está estreitamente ligada à noção de domínio. Conhece-se para dominar.

“Este binómio conhecimento-dominação define um determinado tipo de relação do homem com a natureza. O homem assume a natureza como uma dimensão que deve estar ao seu serviço”.

Aliás, quando o homem procura conhecer as leis do universo, esse contacto estabelece-se segundo regras que ele próprio quer impor à natureza. É já uma relação de dominação. É pelo discurso elaborado da representação humana que o homem se liga à natureza, e esta comunicação é sempre feita através das funções do conhecimento. O mundo é o mundo modelado do conhecimento.

 

O homem fixa o saber que tem acerca desse mundo num quadro geral de representações de tudo o que existe, de modo que o discurso adquire a capacidade de representar a própria representação” (Michel Foucault, As Palavras e as Coisas: Uma arqueologia das ciências humanas).

 

Breve: por qualquer razão, a estrutura expressa do nosso pensamento tem sempre exigido o reconhecimento de verdades exteriores que irão servir como âncoras para validar as ações, comportamentos, pensamentos e realizações a efetuar, ou efetuadas. Dinheiro, ideologias, regimes políticos, capitalismo, fascismo, socialismo, comunismo, ciência, religião, etc., são apresentados como verdades absolutas para que as nossas vidas possam vir a serem reguladas, entendidas.

Descartes explicava esta estrutura do nosso pensamento pela ideia inata de Deus. Dizia ele que esta ideia pertence à própria natureza do homem e foi aí colocada por Deus: “o homem é o ser que possui a ideia de Deus”.

A nossa é, portanto, uma sociedade de substitutos.

 

 

 

 

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