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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(323) A sociedade da pandemia

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

A peste marcou para a cidade o começo da corrupção […] Já ninguém estava disposto a perseverar no que antes considerava ser o bem, porque pensava que talvez pudesse morrer antes de o alcançar, Tucídides, História da guerra do Peloponeso.

 

A limitação da liberdade imposta pelos governos é aceite em nome de um desejo de segurança que foi sendo induzido pelos mesmos governos que agora intervêm para o satisfazer, Giorgio Agamben.

 

A política acomoda-se numa zona paliativa e perde toda a sua vitalidade. A ‘falta de alternativa’ é um analgésico político. O ‘centro’ difuso é um paliativo, Byung-Chul Han.

 

A pandemia está claramente a exacerbar e a acelerar as tendências geopolíticas que já eram aparentes antes do início da crise, Klaus Schwab.

 

 

1

 

Eis o que nos diz Giorgio Agamben sobre o início da pandemia, num recente artigo, “Vocábulos infames”:

 

“No que diz respeito à pandemia, investigações confiáveis mostram que ela não chegou de forma inesperada. Como documenta de forma eficaz o livro de Patrick Zylberman Tempétes microbienes (Paris, Gallimard, 2013), a Organização Mundial de Saúde já em 2005, a quando da gripe das aves, tinha sugerido um cenário como o presente, propondo-o aos governos como um modo para se assegurarem do apoio incondicional dos cidadãos. Bill Gates, que é o principal sustentáculo financeiro dessa organização, em muitas ocasiões tornou públicas as suas ideias sobre os riscos de uma pandemia, que, segundo as suas previsões, provocaria milhões de mortos e contra a qual era necessário prepararmo-nos. Deste modo, em 2019 o Resource Center da Johns Hopkins University dos Estados Unidos, numa investigação financiada pela Bill and Melinda Gates Foundation, organizou uma simulação de uma pandemia de coronavírus, chamada “Event 201. A Global Pandemic Exercice”, que reunia especialistas e epidemiologistas com o objetivo de preparem uma resposta coordenada para o caso de aparecer um novo vírus.”

 

E num artigo publicado no IL Manifesto, a 26 de fevereiro de 2020, com o título, “A invenção de uma epidemia”:

 

“[…] o estado de insegurança e medo que evidentemente se expandiu nos últimos anos nas consciências dos indivíduos e que se traduz numa verdadeira necessidade de situações de pânico coletivo, a que a epidemia volta a oferecer o pretexto ideal. É assim que, num perverso círculo vicioso, a limitação da liberdade imposta pelos governos é aceite em nome de um desejo de segurança que foi sendo induzido pelos mesmos governos que agora intervêm para o satisfazer.”

 

Numa entrevista ao Le Monde, 28 de março de 2020, acrescenta:

 

“[…] A falsa lógica é sempre a mesma: assim como frente ao terrorismo se afirmava que a liberdade devia ser suprimida para a defender, também agora nos dizem que é necessário suspender a vida com o fim de a proteger.

[…] O medo faz com que apareçam muitas coisas que se fingiam não ver. A primeira é que a nossa sociedade já não acredita em mais nada que não seja a vida desnuda […] os italianos demonstraram que estão dispostos a sacrificar praticamente tudo, as suas condições normais de vida, as suas relações sociais, o trabalho e inclusivamente as amizades, os afetos e as convicções políticas e religiosas ante o perigo de contagiarem-se.

 

Noutro artigo de 6 de abril de 2020, “Distanciamento social”, escreve:

 

“Dado que a história nos ensina que todo o fenómeno social tem ou pode ter implicações políticas, é oportuno prestar atenção a um novo conceito que entrou hoje no léxico político do Ocidente: ‘distanciamento social’. Se bem que provavelmente o termo apareça como um eufemismo devido à crueza do termo ‘confinamento’ até agora empregado, torna-se necessário perguntar-se qual seria o ordenamento político em que tal termo se poderia basear. E isto é tanto mais urgente uma vez que que não se trata de uma hipótese puramente teórica, pois como se começa a ser expresso por muitos setores, que a atual emergência sanitária pode ser tomada como o laboratório a partir do qual se preparam as novas estruturas políticas e sociais que esperam à humanidade.”

 

E numa entrevista para a Radio Pública Sueca a 19 de abril de 2020, explica:

 

“A história do século XX mostra ás claras, em particular no que diz respeito à subida ao poder do nazismo na Alemanha, que o estado de exceção constitui o mecanismo que permite a transformação das democracias em estados totalitários.”

 

Ainda do seu inédito, “O direito e a vida”:

 

Cada vez que se determina um valor, necessariamente também aparece um não-valor, e a outra face da proteção da saúde é a exclusão e a eliminação de tudo o que pode conduzir à enfermidade. Na realidade, o facto de o primeiro exemplo de uma legislação em que um Estado assume programaticamente o cuidado da saúde dos cidadãos tenha sido a eugenia nazi, deveria fazermos pensar. Após ter chegado ao poder, em julho e 1933, Hitler fez publicar imediatamente uma lei para proteger o povo alemão das doenças hereditárias, o que conduziu à criação de tribunais especiais para a saúde hereditária, que decidiam sobre a esterilização forçada de quatrocentas mil pessoas. É menos conhecido, mas muito antes do nazismo, os Estados Unidos programaram uma política eugénica, com forte financiamento do Carnegie Institute e da Rockfeller Foundation, para ser aplicada em especial na Califórnia, e que esse modelo foi o explicitamente seguido por Hitler.

[…] A medicina tem como tarefa curar as doenças segundo os princípios que desde há séculos segue e que o juramento hipocrático estabelece irrevogavelmente. Se, mediante um pacto necessariamente ambíguo e indeterminado com os governos, se coloca como legisladora, então isto não só conduzirá, com se viu em Itália com a pandemia, a resultados positivos no plano da saúde, mas que poderá conduzir a limitações inaceitáveis das liberdades individuais, respeito ás quais as razões médicas podem oferecer, como deveria ser hoje evidente para todos, o pretexto ideal para um controle sem precedentes da vida social.

 

 

2

 

Mais abrangente, numa tentativa de compreensão mais geral do que se passa na sociedade, Byung-Chul Han, publica em 2020, um pequeno ensaio, A sociedade paliativa, A dor hoje, em que estabelece uma diferenciação entre as sociedades pré-modernas que tinham uma relação próxima com a dor e a morte que enfrentavam com dignidade e resignação, e a sociedade atual onde não há lugar para o sofrimento e um medo à dor, que ao tentar evitar qualquer estado doloroso nos conduz para um estado de anestesia permanente.

Vive-se hoje numa sociedade que tem um medo generalizado à dor (algofobia) e ao sofrimento. A melhor forma para se evitar qualquer estado doloroso é viver em anestesia permanente. Esta algofobia rapidamente se estende ao campo social (cada vez mais se reduz a margem de conflitos e controvérsias que possam provocar confrontações dolorosas) e político (aumenta a pressão para acatar acordos e para estabelecer consensos).

“A política acomoda-se numa zona paliativa e perde toda a sua vitalidade. A ‘falta de alternativa’ é um analgésico político. O ‘centro’ difuso é um paliativo”.

Em vez de se discutir e lutar para se alcançar melhores argumentos, cede-se à pressão do sistema. Está-se a propagar e a assentar numa pós democracia, uma democracia paliativa.

A política paliativa é incapaz de ter visões ou de levar a cabo reformas profundas que possam ser dolorosas. Prefere socorrer-se de analgésicos, que surtem efeitos provisórios e que servem apenas para tapar as disfunções do sistema. A política paliativa não tem coragem para se enfrentar à dor. É assim que tudo acaba por ser uma mera continuação do mesmo.

 

Para Byung-Chul, esta algofobia atual deve-se a uma alteração de paradigma, e dá como exemplo a enorme crise de opioides nos Estados Unidos. Querer atribuía-la á ambição material da indústria farmacêutica, é ignorar toda aquela psicologia positiva que se instalou na sociedade com a promessa de um oásis de bem-estar permanente possível de criar à base de medicamentos.

Só uma ideologia de bem-estar permanente pode conduzir a que uns medicamentos que originalmente se empregavam na medicina paliativa passassem a serem administrados em grande escala a pessoas saudáveis e a crianças. O especialista americano sobre a dor, David B. Morris, escreveu:

 

“Os norte-americanos atuais formam provavelmente parte da primeira geração na Terra que considera a existência sem dor uma espécie de direito constitucional. As dores são um escândalo”.

 

A dor é interpretada como um sintoma de debilidade, é algo que se deve ocultar. Ela é incompatível com o rendimento: a passividade do sofrimento não tem lugar na sociedade ativa dominada pelas capacidades.  Isto faz com que a sociedade paliativa coincida com a sociedade do rendimento.

 

3

 

É no livro, Shaping the Future of the Fourth Industrial Revolution: A Guide to Building a Better World, (Moldando o futuro da Quarta Revolução Industrial: um guia para construir um mundo melhor), publicado em2018, que Klaus Schwab, fundador do World Economic Forum (WEF), vai abordar a necessidade de uma governança global para a restruturação do mundo.

A sua visão do mundo assenta nas convicções que # As empresas constituem a coluna vertebral da sociedade, dependendo delas o bem-estar da sociedade; # O progresso da sociedade está intimamente relacionado com as inovações tecnológicas; # A solução dos problemas das sociedades passa, obrigatoriamente, pela criação de uma governança global que não ponha entraves ao funcionamento das empresas privadas; e que # As alterações climáticas e a pandemia são fatores de aceleração para a mudança necessária da sociedade.

Para Schwab, todas as grandes e estupendas alterações tecnológicas que se preveem, só serão possíveis “através de um sistema efetivo de governança global” imposto em todas as partes do planeta. “A governança global é o nexus para a resolução de todos os outros problemas”.

“A ideia de reformar os modelos de governança para lidar com as novas tecnologias não é nova, mas a urgência de o fazer é muito maior à luz do poder das tecnologias emergentes de hoje ... o conceito de governança ágil busca combinar agilidade, fluidez, flexibilidade e adaptabilidade das próprias tecnologias e dos atores do setor privado que as adotam”.

 

E no seu novo livro de julho de 2020, Covid-19: The Great Reset, Schwab vai admitir a grande importância que a pandemia possa vir a ter para se alcançar essa governança. E, no entanto, começa por considerar que o Covid-19 “é uma das pandemias menos mortíferas dos últimos 2000 anos”, e que “as consequências do COVID-19 em termos de saúde e de mortalidade é pouco agressiva quando comparada com anteriores pandemias”.

Não constitui uma ameaça existencial, ou um choque que deixe marca na população mundial por décadas

A Segunda Guerra Mundial foi a guerra transformacional por excelência, desencadeando não apenas mudanças fundamentais na ordem global e na economia global, mas também envolvendo mudanças radicais nas atitudes e crenças sociais que acabaram por abrir caminho a políticas radicalmente novas e cláusulas de contratos sociais (como as mulheres poderem entrar no mercado de trabalho antes de se tornarem eleitores). Obviamente, existem diferenças fundamentais entre uma pandemia e uma guerra (que consideraremos com alguns detalhes nas páginas seguintes), mas a magnitude de seu poder transformador é comparável. Ambos têm potencial para ser uma crise transformadora de proporções até então inimagináveis”.

“[…] Alguns líderes e decisores, que já estavam na vanguarda da luta contra as alterações climáticas, podem querer aproveitar o choque infligido pela pandemia para implementar mudanças ambientais mais duradouras e mais amplas. Eles irão, certamente, fazer 'bom uso' da pandemia, não deixando que a crise vá para o lixo”.

“[…] A pandemia está claramente a exacerbar e a acelerar as tendências geopolíticas que já eram aparentes antes do início da crise”.

“[…] Durante os confinamentos, um relaxamento quase global das regulamentações que antes prejudicavam o progresso em domínios onde a tecnologia estava há anos disponível, repentinamente aconteceu porque não havia melhor solução ou outra escolha disponível. O que até recentemente era impensável de repente tornou-se possível ... Novos regulamentos que se manterão em vigor”.

“[…] (n)uma pandemia, a maioria dos cidadãos tenderá a concordar com a necessidade de impor medidas coercivas, resistirão a políticas restritivas no caso de riscos ambientais onde as evidências podem ser contestadas”.

 

 

 

Notas:

Sobre política eugénica nos EUA, ver blog de 13 de março de 2019, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/206-hitler-deu-muito-nas-vistas-54443.

Sobre as tentativas acima expostas de explicação e compreensão da sociedade, coincidentemente divergentes ou divergentemente coincidentes, deve-se ter sempre em atenção o blog de 20 de julho de 2015, “Os intelectuais são sempre de direita”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/os-intelectuais-sao-sempre-de-direita-3138.

 

 

 

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