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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(321) As decisões que julgamos serem nossas

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

É preocupante que um número de jovens inteligentes e bem-formados consiga chamar preto ao que é branco, Solomon Asch.

 

Vocês marinam-se na sabedoria convencional. Na realidade, estão a marinarem-se no conhecimento de outras pessoas: para os outros, não para vocês, William Deresiewcz.

 

As instituições universitárias só produzam seguidores em vez de leaders.

 

Serão as nossas memórias mesmo nossas e as nossas opiniões mesmo nossas? “Provavelmente, nunca poderemos saber”.

 

 

 

Na semana passada, terminei “As raças variam à vontade dos donos” com a citação de uma estrofe da letra do Hino da Mocidade Portuguesa, “Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim”, o que me levou a recordar um estudo de 1956 de Solomon Asch, “Studies of independence and conformity: I. A minority of one against a unanimous majority” (Estudos sobre independência e conformidade: A minoria de um contra a unanimidade da maioria).

Solomon Asch, (1907-1996), foi um psicólogo social americano, originariamente polaco, seguidor da escola que defendia que o todo era não só maior que a soma das partes, como também a sua natureza alterava substancialmente as partes, que se tornou especialmente conhecido pelos seus estudos sobre o comportamento dos indivíduos perante grupos maioritários.

A experiência base com que iniciou esses seus estudos, data de 1951: nela, a um grupo de oito estudantes universitários era-lhes mostrado um quadro com duas partes, uma com apenas uma linha vertical de um determinado comprimento, outra com três linhas verticais de comprimentos variados. Dando como referência base a linha do primeiro quadro, pedia-se aos estudantes que no quadro seguinte indicassem, das três linhas qual era a idêntica (mesmo comprimento) à desenhada no primeiro quadro.

Dos oito intervenientes na experiência, apenas um era mesmo estudante, porquanto os outros, sem o verdadeiro estudante saber, eram atores pagos para darem respostas previamente programadas. O aluno verdadeiro seria colocado numa posição em que fosse sempre o último a responder.

Todos os atores respondiam da mesma maneira, indicando como certa uma determinada resposta (comprimento) que estava errada. Asch acabou por verificar eu na grande maioria dos casos, a resposta dada pelo aluno coincidia com a resposta errada de todos os atores.

As experiências foram feitas vezes sem conta, alterando a idade, género e cultura do entrevistado, em várias universidades e com vários estudantes, confirmando sempre, com pequenas variações, os mesmos resultados.

Das entrevistas pós-respostas que fez aos alunos para saber porque tinham respondido daquela maneira, Asch concluiu que o faziam por três ordens de razões: por “distorção de perceção” (acreditavam que as respostas dos atores eram as corretas, não se apercebendo que as respostas que a maioria dava eram incorretas), “distorção de julgamento” (como as suas respostas nunca eram coincidentes com as da maioria, concluíam que as suas respostas estavam erradas e respondiam conforme a maioria) e “distorção de ação” (sabiam que as suas respostas eram as certas, mas respondiam de acordo com o grupo maioritário para não se sentirem fora do grupo).

Numa das primeiras opiniões sobre os resultados, Asch não deixou de se espantar:

 

É preocupante que um número de jovens inteligentes e bem-formados consiga chamar preto ao que é branco”.

 

Esta “pressão dos pares” (peer pressure) é suficientemente forte para levar à alteração de atitudes, valores e comportamentos, não só ao nível individual como ao nível do próprio grupo. A aplicação destes conhecimentos tem particular importância nos grupos sociais, sejam eles partidos políticos, sindicatos, escolas ou claques, e nas grandes organizações (recorde-se o Holocausto e seus executantes).

O seu efeito faz-se mesmo sentir fora desses grupos, ou seja, não se torna necessário pertencer a esses grupos para que este efeito de pressão social de conformidade se faça sentir. O que particularmente se verifica com as crianças (no processo de formação para a tomada independente de decisões) e adolescentes (comportamento sexual, consumo de tabaco, álcool e drogas).

Em resumo: a maior parte das pessoas está predisposta a dar uma resposta incorreta se for essa a que a maioria der.

 

 

 

Uma das preocupações do professor de literatura inglesa da Yale University, William Deresiewcz, era a de tentar entender porque é que as pessoas se tinham deixado submeter, sem oferecer resistência e sem minimamente se interrogarem, a uma época de ciclos ultrarrápidos de notícias e de opiniões que abafam, assaltam, e anulam as suas próprias opiniões.

Em 2009, numa palestra dirigida a um grupo de estudantes universitários da Academia Militar de West Point a que deu o título “Solitude and Leadership” (Solidão e Qualidade de Chefia), Deresiewcz vai defender que sem solidão (“a capacidade para se estar sozinho com os seus pensamentos”) será difícil que uma pessoa venha a ter pensamentos próprios, e que tão pouco venha a desenvolver uma bússola moral e coragem necessárias para os assumir e defender, mesmo quando não sejam populares.

 

Socorrendo-se do Coração das Trevas (Heart of Darkness) de Conrad, vai tentar explicar-nos com chegou a essas conclusões:

 

É a solidão da concentração que salva Marlow no meio da loucura da Estação Central. Quando ele lá chega, descobre que o barco a vapor com que deveria navegar rio acima, tem um enorme buraco e que ninguém iria ajudá-lo a consertar […]

 

«[…] Tinha tido bastante trabalho com ele (o barco) pelo que só podia amá-lo. Nenhum amigo influente me teria podido servir melhor. Ele deu-me a possibilidade de sair um pouco - descobrir o que poderia fazer. Não, eu não gosto de trabalhar. Preferia não fazer nada e pensar em todas as coisas boas que podiam ser feitas. Eu não gosto do trabalho - nenhum homem gosta - mas gosto do que existe no trabalho - a possibilidade que nos dá de encontrarmo-nos a nós próprio. A nossa própria realidade - para si mesmo, não para os outros - o que nenhum outro homem pode saber».

 

“A possibilidade de encontrarmo-nos.” Hoje, essa frase, “encontrarmo-nos a nós próprios”, adquiriu má reputação. Sugere um licenciado universitário de artes liberais sem rumo definido - um licenciado em literatura inglesa, sem dúvida, alguém que foi para um lugar como Amherst ou Pomona - que é muito solicitado para arranjar um emprego e que passa o tempo a olhar para o nada. Mas em contraponto temos Marlow, um marinheiro, comandante de navios. Uma pessoa prática e teimosa como não se consegue encontrar. Devo dizer que o criador de Marlow, Conrad, passou 19 anos na marinha mercante, oito deles como comandante de navios, antes de se tornar um escritor, portanto esta não foi apenas uma ideia artística que surgiu na cabeça de um marinheiro. Marlow acredita na necessidade de uma pessoa se encontrar tanto quanto qualquer outra pessoa, e a maneira para o fazer, diz ele, é trabalhar, trabalho em solidão. Concentração. Subir para aquele barco a vapor e passar algumas horas ininterruptas dando-lhe forma. Ou a construir uma casa, ou a preparar uma refeição, ou mesmo a escrever um trabalho para a faculdade, se realmente quiser mesmo dedicar-se a isso.

 

“A sua própria realidade - para si mesmo, não para os outros.” Pensar por si mesmo significa encontrar-se a si mesmo, encontrar a sua própria realidade. Este é o outro problema do Facebook e do Twitter e até mesmo do The New York Times. Quando vocês se expõem a esses meios, especialmente da maneira constante como as pessoas agora o fazem - tanto as mais velhas como as mais jovens - vocês estão continuamente a serem bombardeados com uma torrente de pensamentos de outras pessoas. Vocês estão a marinarem-se na sabedoria convencional. Na realidade, a marinarem-se no conhecimento de outras pessoas: para os outros, não para vocês. Estão a criar uma cacofonia em que é impossível ouvir a própria voz, saber se estão a pensar em si ou em qualquer outra coisa”.

 

Continuando com a obra de Conrad, Deresiewcz passa a ler o que Marlow diz para descrever o gerente da Estação Central:

 

«Ele era de compleição vulgar, nas feições, nos modos e na voz. Era de estatura média e de constituição normal. Os olhos, do azul normal, talvez fossem notavelmente frios. . . .Fora isso, apenas havia uma expressão indefinível e ténue nos lábios, algo furtivo - um sorriso - não um sorriso – lembro-me agora, mas não consigo explicar. . . . Era um comerciante comum, que desde sua juventude fora empregado por estas bandas - nada mais. Ele era obedecido, mas não inspirava amor, nem medo, nem mesmo respeito. Inspirava inquietação. Só isso! Inquietação. Não era uma desconfiança definitiva - apenas inquietação - nada mais. Você não tem ideia de quão eficaz tal. . . tal . . . faculdade possa ser. Ele não tinha qualquer génio para organizar, nem iniciativa, nem mesmo para a dar ordens. . . . Ele não tinha conhecimentos nem qualquer inteligência. Aquela posição, o lugar que ocupava, chegaram-lhe a ele - por quê? . . . Ele não iniciava nada, mantinha apenas a rotina - isso era tudo. Mas ele era o maior. Ele era grande por essa pequena coisa que era impossível dizer sobre o que poderia controlar um homem assim. Ele nunca revelou esse segredo. Talvez não houvesse nada dentro dele. Essa suspeita faz-nos pensar.»

 

Notem os adjetivos: vulgar, comum, normal, comum. Não há nada de distinto nesta pessoa. Aí para a décima vez que li esta passagem, percebi que era uma descrição perfeita do tipo de pessoa que tende a prosperar no ambiente burocrático. E a única razão que o fiz foi porque de repente me ocorreu que era uma descrição perfeita do chefe da burocracia da qual eu fazia parte, o presidente do meu departamento académico - que tinha exatamente o mesmo sorriso, como um tubarão, e que tinha exatamente a mesma capacidade de nos deixar inquietos, como se estivéssemos fazendo algo errado, só que ela nunca nos iria dizer o quê. Como o gerente - e sinto dizer isso, mas como tantas pessoas que encontrarão quando negociarem com a burocracia do Exército ou de qualquer outra instituição para a qual acabem por entregar os vossos talentos depois do Exército, seja a Microsoft ou o Banco Mundial ou o que quer que seja - o chefe do meu departamento não tinha qualquer génio para organizar, nem iniciativa ou mesmo para dar ordens, nem nenhum conhecimento ou inteligência particular, nenhuma característica distintiva. Apenas a capacidade para manter a rotina e, além disso, como dizia Marlow, essa sua posição havia-lhe chegado - por quê?

 

Este é realmente o grande mistério das burocracias. Por que é tão frequente que as melhores pessoas fiquem retidas a meio da progressão e as pessoas que dirigem as coisas - os líderes - sejam os medíocres? Porque a excelência geralmente não é o que o leva até ao topo do mastro gordurento. O que o faz atingir é o talento para manobrar. Bajulando os superiores, calcando os que lhe estão por baixo. Agradando aos professores, agradando aos superiores, escolhendo um mentor poderoso e agarrando-se a ele até que chegue a hora de esfaqueá-lo pelas costas […]. Ser o que as outras pessoas querem que você seja, de modo a que finalmente, tai como o gerente da Estação Central, já não tenha absolutamente nada dentro de você. Não correr riscos estúpidos como tentar mudar a forma como as coisas são feitas, nem questionar por que são feitas. Mantendo apenas a rotina.”

 

Deresiewcz vê nesta conformidade burocrática da sociedade a principal razão porque as instituições universitárias só produzam seguidores em vez de leaders.

 

As memórias, tal como as opiniões, são contagiosas e virais. Mesmo que saibamos que a opinião não é correta. Vimos já que as pessoas estão quase sempre predispostas a dar uma resposta incorreta para ela coincidir com a resposta que a maioria dá. Especialmente neste ano de pandemia no qual devem ter aumentado enormemente o on line e as comunicações digitais, que efeito é que essa imersão digital quase constante acarretará para as nossas memórias e opiniões? Serão as nossas memórias mesmo nossas e as nossas opiniões mesmo nossas? “Provavelmente, nunca poderemos saber”.

 

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