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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(308) O Grande Recomeço

Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Em outubro de 2019, dois meses antes de terem sido descobertos os primeiros casos de Covid na China, o World Economic Forum coorganiza uma série de conferências, Event 201, onde é apresentada uma discussão sobre um modelo de uma pandemia de coronavírus.

 

Muitos de nós começamos a pensar sobre quando é que as coisas vão voltar ao normal. A resposta curta é: nunca, Klaus Schwab.

 

Mais cedo do que muitos antecipam, o trabalho de profissões tão diferentes como a de advogados, analistas financeiros, médicos, jornalistas, contabilistas, agentes de seguros ou bibliotecários, estará parcial ou totalmente automatizado, Klaus Schwab.

 

Aqueles que permanecerem como humanos provavelmente tornar-se-ão numa subespécie. Eles serão, efetivamente, os chimpanzés do futuro, Kevin Warwick.

 

Peço-vos que zelem para que a humanidade seja servida pela riqueza e não governada por ela, Papa Francisco.

 

 

 

Em outubro de 2019, dois meses antes de terem sido descobertos os primeiros casos de Covid na China, o World Economic Forum coorganiza uma série de conferências, Event 201, onde é apresentada uma ficção modelada sobre uma pandemia de coronavírus. Em julho de 2020, Klaus Schwab publica o livro, Covid-19: The Great Reset, “uma sucinta análise preditiva para investidores privados, CEO’s globais e decisores e fazedores de opinião”, com “conjeturas e ideias acerca do que poderá vir a ser o mundo pós-pandemia, e do que deveria ser”.

 

Quem é Klaus Schwab? Klaus Schwab, engenheiro e economista de profissão, nascido em Ravensburg na Alemanha em 1938, é uma das personalidades marcantes destes tempos em que vivemos.

Com a sua visão sobre o que deverá ser a gestão moderna das empresas, ao ligá-la não só à proteção dos acionistas, mas a todos os que dela dependam (clientes, empregados, comunidades em que operem, incluindo o governo) como única forma para “assegurar o seu crescimento e prosperidade sustentáveis a longo termo”, Schwab é ainda o fundador, em 1971, do European Management Forum, que transforma em 1987 no World Economic Forum (WEF), organização internacional para a cooperação público-privada, com as suas propagandeadas reuniões anuais em Davos-Klosters.

A sua visão do mundo está bem expressa na intervenções e obras que tem publicado, e que esquematicamente assentam nas seguintes convicções:

 

# As empresas constituem a coluna vertebral da sociedade, dependendo delas o bem-estar da sociedade.

# O progresso da sociedade está intimamente relacionado com as inovações tecnológicas.

# No atual estado de desenvolvimento tecnológico, a solução dos problemas das sociedades passa, obrigatoriamente, pela criação de uma governança global que não ponha entraves ao funcionamento das empresas privadas.

# As alterações climáticas e a pandemia são fatores de aceleração para a mudança necessária da sociedade.

 

Vejamos como Schwab vai defender estas suas ideias, através de excertos retirados de algumas das suas obras mais recentes. Comecemos com A Quarta Revolução Industrial, 2016, termo que ele próprio cunhou:

A Quarta Revolução Industrial (QRI), constitui, a par da primeira, segunda e terceira Revolução Industrial, um novo capítulo no desenvolvimento humano, e mais uma vez fomentada pelo aumento das possibilidades e interações de um conjunto extraordinário de tecnologias”.

“A QRI representa uma fonte significativa de esperança no continuo desenvolvimento da humanidade que resultou do aumento dramático da qualidade da vida para biliões de pessoas que se tem vindo a verificar desde 1800”, e é “uma revolução que fundamentalmente vai mudar a forma como vivemos, trabalhamos, e nos relacionamos com os outros”.

“As tecnologias da QRI são verdadeiramente disruptivas – elas vão pôr fim a maneiras existentes de sentir, calcular, organizar, agir e fazer. Elas representam totalmente novas maneiras de criar valor para as organizações e para os cidadãos”.

“Mais cedo do que muitos antecipam, o trabalho de profissões tão diferentes como a de advogados, analistas financeiros, médicos, jornalistas, contabilistas, agentes de seguros ou bibliotecários, estará parcial ou totalmente automatizado”.

“A tecnologia está a progredir tão depressa que Kristian Hammond, cofundador da Narrative Science, uma empresa especializada na geração automática de narrativas, prevê que em meados dos anos 20, 90% das notícias serão geradas por um algoritmo, a maior parte delas sem qualquer tipo de intervenção humana, a não ser o desenho do algoritmo”.

Considerem-se as possibilidades infinitas de se terem biliões de pessoas ligadas por telemóveis, com as enormes potencialidades de processamento, de armazenamento e de acesso ao conhecimento daí resultante. Ou pense-se na confluência espantosa das inovações tecnológicas sempre prontas a aparecer, desde os mais variados campos da inteligência artificial (IA), robótica, a internet das coisas (IdC), veículos autónomos, impressão a 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia, e computação quântica. A maior parte destas inovações encontram-se ainda na infância, mas estão já a alcançar um ponto de inflexão nos seus desenvolvimentos em que à medida que crescem vão ampliando outras numa fusão de tecnologias que atravessam os mundos físico, digital e biológico”.

“Todas as coisas serão smart e ligadas à internet”, estendendo-se até aos animais à medida que “sensores implantados no gado poderão comunicar entre si através de uma rede de telemóvel”.

“Será vital o estabelecimento de confiança na data e nos algoritmos usados. As preocupações dos cidadãos relativas à privacidade e ao estabelecimento de responsabilização nos negócios e estruturas legais, vão necessitar de um ajustamento no modo de pensar”.

As ferramentas da quarta revolução industrial permitem novas formas de vigilância e de outros meios de controle que vão contra os valores estabelecidos nas sociedades saudáveis e abertas”. Essas tecnologias “podem introduzir-se no espaço privado dos nossos pensamentos, lendo-os e influenciando o nosso comportamento”.

“À medida que as capacidades nesta área forem melhorando, a tentação para as polícias e para os tribunais para usarem técnicas que possam determinar atividades criminosas, para acederem a culpas e mesmo a memórias existentes nos cérebros das pessoas, irá aumentando. Pode mesmo evoluir-se para o vasculhar detalhado do cérebro (brain scan) para se garantir que o indivíduo não apresenta riscos para a segurança”.

Mas por outro lado, “o crime público deverá diminuir por causa da convergência de sensores, camaras, IA e aplicações de reconhecimento facial”.

“As enormes inovações introduzidas pela quarta revolução industrial, da biotecnologia à IA, vão redefinir o que é ser humano” […] “O futuro irá pôr à prova o nosso conhecimento sobre o que significa ser humano, quer seja sob um ponto de vista biológico ou social” […] “Já hoje os avanços em neurotecnologias e em biotecnologias nos levam a questionar o que significa ser humano”.

 

É no Shaping the Future of the Fourth Industrial Revolution: A Guide to Building a Better World, (Moldando o futuro da Quarta Revolução Industrial: um guia para construir um mundo melhor), 2018, que Schwab vai ser mais explícito sobre o que é ser humano, nomeadamente numa das secções do livro, intitulada “Alterando o Ser Humano”:

As tecnologias da Quarta Revolução Industrial não se irão contentar só em serem parte do mundo físico que nos rodeia - elas tornar-se-ão parte de nós. Na verdade, alguns de nós já sentem que os nossos smartphones são uma extensão de nós próprios. Os dispositivos externos de hoje - de computadores que usamos connosco a auscultadores de ouvido de realidade virtual - acabarão quase certamente por serem implantáveis ​​nos nossos corpos e cérebros. Exoesqueletos e próteses irão aumentar nossa força física, enquanto os avanços na neurotecnologia aumentam as nossas potencialidades cognitivas. Seremos mais capazes de manipular os nossos próprios genes e os dos nossos filhos. Esses desenvolvimentos levantam questões profundas: onde traçamos a linha entre o homem e a máquina? O que significa ser humano?"

“Essas tecnologias vão operar dentro de nossa própria biologia e vão mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. Elas são capazes de ultrapassar as fronteiras do corpo e da mente, melhorando as nossas capacidades físicas e tendo até mesmo um impacto duradouro na própria vida”.

Fala de “microchips implantáveis ​​ativos que quebram a barreira da pele dos nossos corpos”, “tatuagens inteligentes”, “computação biológica” e “organismos personalizados” […]  “sensores, interruptores de memória e circuitos que podem ser codificados em bactérias intestinais humanas comuns” […] e de “poeiras inteligentes (Smart Dust), matrizes de computadores completos com antenas, cada um muito menor do que um grão de areia, que se podem organizar dentro do corpo ”e de “dispositivos implantados que provavelmente também ajudarão a comunicar pensamentos normalmente expressos verbalmente por meio de um smartphone ‘embutido’, e pensamentos ou humores potencialmente não expressos por meio da leitura de ondas cerebrais e outros sinais ”.

Tudo isto, “prenuncia o aparecimento de novas indústrias e sistemas para a criação de valor” e “representa a oportunidade para a criação de novos sistemas de valor na Quarta Revolução Industrial”.

“O facto de ser agora muito mais fácil manipular com precisão o genoma humano dentro de embriões viáveis ​​significa que provavelmente veremos no futuro o aparecimento de bebês ‘desenhados’, que possuem características particulares ou que sejam resistentes a uma doença específica”.

“Estamos no limiar de uma mudança sistémica radical que exige que os seres humanos se adaptem continuamente. Como resultado, podemos testemunhar um grau crescente de polarização no mundo, marcado por aqueles que abraçam a mudança versus aqueles que a ela resistem”.

 “Tal dará origem a uma desigualdade que vai para além da descrita anteriormente. Essa desigualdade ontológica separará aqueles que se adaptam daqueles que resistem - os vencedores e perdedores materiais em todos os sentidos das palavras. Os vencedores podem beneficiar, de certa forma, do aprimoramento humano gerado por certos segmentos da quarta revolução industrial (como a engenharia genética), da qual os perdedores serão privados. Isto corre o risco de criar conflitos de classe e outros confrontos diferentes de tudo o que até aqui vimos”.

A relutância da maior parte da humanidade relativamente à 4RI, reflete a tragédia de que “o mundo carece de uma narrativa consistente, positiva e comum que descreva as oportunidades e os desafios da quarta revolução industrial, narrativa essencial se quisermos dar poder a um conjunto diversificado de indivíduos e comunidades e evitar uma reação popular contra as mudanças fundamentais em curso”.

 “É, portanto, crítico que se invista atenção e energia na cooperação entre múltiplas partes interessadas através das fronteiras acadêmicas, sociais, políticas, nacionais e industriais. Essas interações e colaborações são necessárias para criar narrativas positivas, comuns e cheias de esperança, permitindo que indivíduos e grupos de todas as partes do mundo participem e beneficiem das transformações em curso”.

Um dos obstáculos a que a tecnologia da 4RI se instale rapidamente, é que “mais da metade da população mundial - cerca de 3,9 bilhões de pessoas - ainda não consegue ter acesso à internet”, com “85% da população dos países em desenvolvimento permanecendo offline e, portanto, fora de alcance, em comparação com 22% no mundo desenvolvido”.

“Pensar de forma inclusiva, vai para além de pensar na pobreza ou nas comunidades marginalizadas simplesmente como uma aberração - algo que podemos resolver. Isso força-nos a perceber que 'os nossos privilégios estão localizados no mesmo mapa que os seus sofrimentos'. Vai para além da renda e dos direitos, embora estes continuem importantes. Em vez disso, a inclusão dos acionistas e a distribuição de benefícios, ampliam as liberdades para todos”.

“Neste novo sistema industrial revolucionário, o dióxido de carbono passa de um poluente proveniente do efeito estufa para um ‘ativo’, e a economia de captação e armazenamento de carbono deixa de ser inscrita como ‘custos’, bem como sumidouros de poluição, para se tornarem instalações lucrativas de captação e uso de carbono. Mais importante ainda, ajudará empresas, governos e cidadãos a tornarem-se mais conscientes e interessados em estratégias para regenerar ativamente o capital natural, permitindo usos inteligentes e regenerativos do capital natural para orientar a produção e o consumo sustentáveis ​​e dar espaço para a biodiversidade se recuperar em áreas ameaçadas”.

“As propostas incluem a instalação de espelhos gigantes na estratosfera para desviar os raios do sol, o polvilhar quimicamente a atmosfera para aumentar as chuvas e a implantação de grandes máquinas para remover o dióxido de carbono do ar”.

Tudo isto “só será possível através de um sistema efetivo de governança global” imposto em todas as partes do planeta. “A governança global é o nexus para a resolução de todos os outros problemas”.

“A ideia de reformar os modelos de governança para lidar com as novas tecnologias não é nova, mas a urgência de o fazer é muito maior à luz do poder das tecnologias emergentes de hoje ... o conceito de governança ágil busca combinar agilidade, fluidez, flexibilidade e adaptabilidade das próprias tecnologias e dos atores do setor privado que as adotam”.

Sugere “acordos de comparticipação público-privados de dados para que ‘em caso de emergência quebrem os vidros’. Eles entrarão em ação apenas em circunstâncias de emergência pré-acordadas (como no caso de uma pandemia) e podem ajudar a reduzir atrasos e melhorar a coordenação das ajudas, permitindo temporariamente a comparticipação de dados que seria ilegal em circunstâncias normais”.

Sobre o “ativismo jovem” diz:

“O ativismo juvenil está a aumentar em todo o mundo, revolucionado pelas redes sociais que aumentam a mobilização numa extensão que teria sido impossível antes. Ele assume muitas formas diferentes, que vão desde a participação política não institucionalizada a manifestações e protestos, e aborda questões tão diversas como a alteração climática, reformas econômicas, igualdade de gênero e direitos LGBTQ. A geração jovem está firmemente na vanguarda da mudança social. Não há dúvida de que será o catalisador para a mudança e uma fonte de impulso crítico para o Great Reset (Grande Reinício)”.

Neste novo sistema industrial revolucionário, o dióxido de carbono transforma-se de poluente do efeito estufa num ‘ativo’, e a economia de captura e armazenamento de carbono passa de um sumidouro de custos e de poluição, para instalações lucrativas de captura e uso do carbono. Mais importante ainda, ajudará empresas, governos e cidadãos a tornarem-se mais conscientes e interessados nas estratégias para regenerar ativamente o capital natural, permitindo usos inteligentes e regenerativos do capital natural para orientar a produção e o consumo sustentáveis ​​e dar espaço para que a biodiversidade recupere em áreas ameaçadas”, ou seja, poluição significa lucro e a crise ambiental é apenas mais uma oportunidade de negócios.

Schwab também lamenta toda a burocracia que atrasa o avanço dos alimentos GM, alertando que "a segurança alimentar global só será alcançada se os regulamentos sobre alimentos geneticamente modificados forem adaptados para refletir a realidade de que a edição de genes oferece um método eficiente e seguro de melhorar as colheitas”.

 

No capítulo final, intitulado “What You Can Do to Shape the Fourth Industrial Revolution” (O que pode você fazer para moldar a Quarta Revolução Industrial), volta a insistir na necessidade de se impor uma governança global para que essa nova ordem imaginada por Schwab venha a abranger o mundo inteiro.

“Devemos restabelecer um diálogo entre todas as partes interessadas para garantir o entendimento mútuo que constrói ainda mais uma cultura de confiança entre reguladores, organizações não governamentais, profissionais e cientistas. O público também deve ser considerado, pois deve participar da formação democrática dos desenvolvimentos biotecnológicos que afetam a sociedade, os indivíduos e as culturas”.

Liderar sistemas é cultivar uma visão compartilhada para a mudança - trabalhar junto com todas as partes interessadas da sociedade global - e então agir para mudar como o sistema entrega seus benefícios e a quem. A liderança de sistemas requer ação de todas as partes interessadas, incluindo indivíduos, executivos, influenciadores sociais e formuladores de políticas”

 “A ideia de reformar os modelos de governança para lidar com as novas tecnologias não é nova, mas a urgência de fazer isso é muito maior à luz do poder das tecnologias emergentes de hoje ... o conceito de governança ágil busca combinar a agilidade, a fluidez, flexibilidade e adaptabilidade das próprias tecnologias e dos atores do setor privado que as adotam”.

 

No seu novo livro de julho de 2020, Covid-19: The Great Reset, começa por admitir que o Covid-19 “é uma das pandemias menos mortíferas dos últimos 2000 anos”, e que “as consequências do COVID-19 em termos de saúde e de mortalidade é pouco agressiva quando comparada com anteriores pandemias”.

Não constitui uma ameaça existencial, ou um choque que deixe marca na população mundial por décadas

A Segunda Guerra Mundial foi a guerra transformacional por excelência, desencadeando não apenas mudanças fundamentais na ordem global e na economia global, mas também envolvendo mudanças radicais nas atitudes e crenças sociais que acabaram por abrir caminho a políticas radicalmente novas e cláusulas de contratos sociais (como as mulheres poderem entrar no mercado de trabalho antes de se tornarem eleitores). Obviamente, existem diferenças fundamentais entre uma pandemia e uma guerra (que consideraremos com alguns detalhes nas páginas seguintes), mas a magnitude de seu poder transformador é comparável. Ambos têm potencial para ser uma crise transformadora de proporções até então inimagináveis”.

Comparando o Covid-19 com o 11 de setembro: "Isto é o que aconteceu depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Em todo o mundo, novas medidas de segurança, como o uso generalizado de câmaras, exigência de cartões de identificação eletrônicos e o registrar funcionários ou visitantes, dentro e fora, tornou-se a norma. Naquela época, essas medidas eram consideradas extremas, mas hoje são usadas em todos os lugares e consideradas 'normais'”.

“Alguns líderes e decisores, que já estavam na vanguarda da luta contra as alterações climáticas, podem querer aproveitar o choque infligido pela pandemia para implementar mudanças ambientais mais duradouras e mais amplas. Eles irão, certamente, fazer 'bom uso' da pandemia, não deixando que a crise vá para o lixo”.

É o momento definitório”. “Muitas coisas vão mudar para sempre”. “Um novo mundo vai surgir”. “A convulsão social desencadeada pela COVID-19 durará anos e possivelmente gerações”. “Muitos de nós começamos a pensar sobre quando é que as coisas vão voltar ao normal. A resposta curta é: nunca.

“À primeira vista, a pandemia e o meio ambiente podem parecer apenas parentes distantes; mas estão muito mais próximos e interligados do que pensamos”.

“Uma das relações é que tanto a “crise” climática quanto a do vírus são usadas pelo WEF para impulsionar a sua agenda de ‘governança global’. "Ambas são globais por natureza e, portanto, só podem ser tratadas adequadamente de uma forma globalmente coordenada "

Esta diferença crucial entre os respetivos horizontes temporais de uma pandemia e da mudança climática, e perda da natureza, significa que um risco de pandemia requer uma ação imediata que será seguida por um resultado rápido, enquanto as mudanças climáticas e a perda da natureza também requerem ação imediata, mas o resultado (ou 'recompensa futura', no jargão dos economistas) só virá com um certo lapso de tempo”.

A pandemia está claramente a exacerbar e a acelerar as tendências geopolíticas que já eram aparentes antes do início da crise”.

“Com a pandemia, a "transformação digital" a que tantos analistas se referem há anos, sem saber exatamente o que significava, encontrou o seu catalisador. Um dos principais efeitos do confinamento será a expansão e progressão do mundo digital de maneira decisiva e muitas vezes permanente”.

“Em abril de 2020, vários líderes de tecnologia observaram a rapidez e a radicalidade com que as necessidades criadas pela crise da saúde precipitaram a adoção de uma ampla gama de tecnologias. No espaço de apenas um mês, verificou-se que muitas empresas em termos de aceitação da tecnologia avançaram vários anos”.

“A pandemia acelerará a adoção da automação no local de trabalho e a introdução de mais robôs nas nossas vidas pessoais e profissionais”.

“Os consumidores precisam de produtos e, se não puderem fazer compras, inevitavelmente recorrerão à compra online. À medida que o hábito se instala, as pessoas que nunca haviam feito compras online antes ficarão agradadas ​​com isso, enquanto que as pessoas que antes eram compradores online presumivelmente ficarão mais confiantes. Isso ficou evidente durante os confinamentos. Nos Estados Unidos, a Amazon e o Walmart contrataram 250.000 empregados para acompanhar o aumento da procura e construíram uma infraestrutura gigante para entregas online. Este crescimento acelerado do e-commerce significa que os gigantes do setor de retalho online provavelmente sairão da crise ainda mais fortes do que na era pré-pandemia”.

 “À medida que mais coisas e serviços diversos nos forem sendo trazidos por meio dos nossos telemóveis e computadores, empresas em setores tão díspares como e-commerce, operações sem contato, conteúdo digital, robôs e entregas por drones (para citar apenas alguns) prosperarão. Não é por acaso que empresas como Alibaba, Amazon, Netflix ou Zoom emergiram dos confinamentos como ‘vencedores’”.

“A pandemia certamente aumentará o foco na higiene. Uma nova obsessão com a limpeza implicará na criação de novas formas de embalagem. Seremos encorajados a não tocar nos produtos que compramos. Prazeres simples como cheirar um melão ou apertar uma fruta serão reprovados e podem até tornar-se uma coisa do passado”.

“De uma forma ou de outra, as medidas de distanciamento social e físico provavelmente persistirão depois de a pandemia diminuir, justificando a decisão de muitas empresas de diferentes setores em acelerar a automação. Depois de um tempo, as preocupações duradouras com o desemprego tecnológico diminuirão à medida que as sociedades enfatizarem a necessidade de reestruturar o local de trabalho de uma forma que minimize o contato humano próximo. Na verdade, as tecnologias de automação são particularmente adequadas para um mundo no qual os seres humanos não podem ficar muito próximos uns dos outros ou estão dispostos a reduzir as suas interações. O medo persistente, e possivelmente duradouro, de ser infetado por um vírus (COVID-19 ou outro) irá, portanto, acelerar a marcha implacável da automação, particularmente nos campos mais suscetíveis à automação”.

“A necessidade de enfrentar a pandemia com todos os meios disponíveis (mais, durante o surto, a necessidade de proteger os trabalhadores de saúde permitindo que trabalhem remotamente) removeu alguns dos impedimentos regulatórios e legislativos relacionados à adoção da telemedicina”.

“Até o momento, os governos frequentemente atrasaram o ritmo de adoção de novas tecnologias por meio de longas ponderações sobre como deveria ser a melhor estrutura regulatória, mas, como o exemplo da telemedicina e da entrega por drones está a mostrar, é possível uma aceleração dramática forçada pela necessidade. Durante os confinamentos, um relaxamento quase global das regulamentações que antes prejudicavam o progresso em domínios onde a tecnologia estava há anos disponível, repentinamente aconteceu porque não havia melhor solução ou outra escolha disponível. O que até recentemente era impensável de repente tornou-se possível ... Novos regulamentos que se manterão em vigor”.

 “O COVID-19 reescreveu muitas das regras do jogo entre os setores público e o privado. … A maior intromissão benevolente (ou não) dos governos na vida das empresas e na condução dos seus negócios dependerá do país e da indústria, assumindo, portanto, muitas formas diferentes”.

“Medidas que teriam parecido inconcebíveis antes da pandemia podem se tornar como padrão em todo o mundo, à medida que os governos tentam impedir que a recessão económica se transforme numa depressão catastrófica”.

“Cada vez mais, haverá apelos para que o governo atue como um ‘pagador de último recurso’ para prevenir ou conter a onda de layoffs em massa e da destruição de negócios desencadeada pela pandemia. Todas essas mudanças estão a alterar as regras do ‘jogo’ da política económica e monetária.”

“Uma das grandes lições dos últimos cinco séculos na Europa e na América é esta: as crises agudas contribuem para aumentar o poder do Estado. Sempre foi assim e não há razão para que seja diferente com a pandemia de COVID-19”.

 “Olhando para o futuro, muito provavelmente os governos, mas com diferentes graus de intensidade, decidirão que é do interesse da sociedade reescrever algumas das regras do jogo e aumentar permanentemente o seu papel”.

“Durante os confinamentos, muitos consumidores anteriormente relutantes em depender de aplicativos e serviços digitais foram forçados a mudar os seus hábitos quase da noite para o dia: assistir a filmes online em vez de ir ao cinema, receber refeições em vez de ir a restaurantes, conversar com amigos remotamente em vez de encontrá-los pessoalmente, conversar com colegas numa tela em vez de num café, fazer exercícios online em vez de ir ao ginásio, e assim por diante ...

“Nenhum aplicativo de rastreamento voluntário funcionará se as pessoas não estiverem dispostas a fornecer os seus próprios dados pessoais à agência governamental que monitora o sistema; se algum indivíduo se recusar a baixar o aplicativo (e, portanto, a reter informações sobre uma possível infeção, movimentos e contatos), todos serão afetados adversamente”.

“Enquanto para uma pandemia, a maioria dos cidadãos tenderá a concordar com a necessidade de impor medidas coercivas, resistirão a políticas restritivas no caso de riscos ambientais onde as evidências podem ser contestadas”.

O movimento das empresas será em direção a uma maior vigilância; para o bem ou para o mal, as empresas estarão a observar e às vezes a registrar o que sua força de trabalho faz. A tendência pode assumir várias formas, desde medir a temperatura corporal com câmaras térmicas até monitorar, por meio de um aplicativo, como os funcionários cumprem o distanciamento social”.

 

Toda esta construção de Schwab assenta numa visão corporativista (para pior) da sociedade, que deixa de ser uma comunidade viva, passando antes a ser vista como um negócio, em que os seres humanos não são encarados como cidadãos, mas como participantes secundários numa enorme empresa comercial.

 Para ela se impor, começa por nos propor um embuste verdadeiro: querer fazer-nos acreditar que as empresas servem para privadamente acarretarem dinheiro para os seus acionistas e executivos, ao mesmo tempo que mantêm uma fachada pública de sensibilidade social e de altruísmo exemplar. A tal “mentira da verdade”, ou o “com a verdade me enganas”.

Relembremos que o projeto original fascista pretendia a fusão do estado com os negócios, como forma de usar o estado para proteger e impulsionar os interesses da elite enriquecida.

 Benito Mussolini respondeu à crise económica em 1931 com o lançamento de um órgão especial de emergência, L'Istituto mobiliare italiano, para ajudar as empresas como “uma forma de impulsionar energicamente a economia italiana para sua fase corporativa, ou seja, um sistema que respeita fundamentalmente a propriedade e a iniciativa privadas, mas as vincula fortemente ao Estado, que é o único que pode protegê-las, controlá-las e alimentá-las”.

A justificação para que as empresas devam liderar o processo vai encontra-la na importância que dá à tecnologia como fonte de progresso. Nem poderia ser de outra forma, uma vez que quem domina a tecnologia são as empresas.

Apercebendo-se das imensas possibilidades das novas tecnologias, não para a transformação positiva da sociedade, mas para aumentar a criação de valor, único elemento que interessa, vê com ansiedade o atraso na sua implementação.

Como potenciador e acelerador para a mudança pretendida, a da 4RI, percebe a importância da alteração climática e dos movimentos ativistas que aparecem à sua volta. E dizendo-se favorável a eles, vai propondo exatamente o contrário, aproveitando apenas o que trouxer mais valor, independentemente das consequências que mais tarde serão “resolvidas”.

E tão impaciente está, que atinge o cúmulo quando começando por não atribuir importância à pandemia, acaba por a eleger como principal elemento para a alteração comportamental da sociedade no único sentido correto.

Às maravilhas do seu ardente transumanismo, cito apenas uma previsão do tratado de Kevin Warwick de 2002, I Cyborg:

 “Os humanos serão capazes de evoluir aproveitando a superinteligência e outras habilidades extras, oferecidas pelas máquinas do futuro, unindo-se a elas. Tudo isso aponta para o desenvolvimento de uma nova espécie humana, conhecida no mundo da ficção científica por ‘ciborgues’. Isto não significa que todo o mundo precise de se tornar num ciborgue. Se você está feliz com seu estado de ser humano, então que seja, você pode permanecer como é. Mas esteja avisado - assim como nós, humanos, nos separámos anos atrás dos nossos primos chimpanzés, os ciborgues separar-se-ão dos humanos. Aqueles que permanecerem como humanos provavelmente tornar-se-ão numa subespécie. Eles serão, efetivamente, os chimpanzés do futuro”.

Acima de tudo, porque devemos acreditar nas soluções propostas exatamente pelas mesmas forças que se beneficiaram e criaram a situação em que nos encontramos?

 

Em 2014, o Papa Francisco foi convidado por Klaus Schwab para participar em Davos no encontro que se realizava entre 22 e 25 de janeiro. Eis parte da sua mensagem:

“[…] Contudo, os sucessos que têm sido alcançados, mesmo que tenham conseguido reduzira pobreza para um grande número de pessoas, conduziu muitas vezes a um aumento de exclusão social. Na realidade, a maioria dos homens e mulheres continuam ainda a experienciar diariamente uma insegurança social, muitas vezes com consequências dramáticas.

[…] É intolerável que milhares de pessoas continuem a morrer de fome todos os dias, embora haja quantidades substanciais de alimentos disponíveis e, muitas vezes, simplesmente desperdiçados. Da mesma forma, não podemos deixar de nos comover com os muitos refugiados que procuram condições de vida minimamente dignas, que não só não encontram hospitalidade, mas muitas vezes, tragicamente, morrem ao mudarem-se de um lugar para outro. Sei que estas palavras são fortes, até dramáticas, mas procuram afirmar e desafiar a capacidade desta assembleia para fazer a diferença. Na verdade, quem demonstrou aptidão para ser inovador e para melhorar a vida de muitas pessoas com engenhosidade e competência profissional pode contribuir ainda mais, colocando as suas competências ao serviço de quem ainda vive em extrema pobreza. O que é, então, necessário, é um renovado, profundo e ampliado sentido de responsabilidade por parte de todos. “O negócio é - de facto - uma vocação, e uma nobre vocação, desde que os que nela se empenham se sintam desafiados por um maior sentido da vida” (Evangelii Gaudium, 203). Esses homens e mulheres são capazes de servir mais eficazmente o bem comum e de tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos. No entanto, o crescimento da igualdade exige algo mais do que crescimento económico, embora o pressuponha. Exige antes de tudo “uma visão transcendente da pessoa” (Bento XVI, Caritas in Veritate, 11), porque “sem a perspetiva da vida eterna, o progresso humano neste mundo não tem espaço para respirar” (ibid.). Exige também decisões, mecanismos e processos orientados para uma melhor distribuição da riqueza, a criação de fontes de emprego e uma promoção integral dos pobres que vai além de uma simples mentalidade assistencialista. Estou convencido de que dessa abertura ao transcendente pode-se formar uma nova mentalidade política e empresarial, capaz de orientar toda a atividade económica e financeira no horizonte de uma abordagem ética verdadeiramente humana.

[…] Sem ignorar, naturalmente, as exigências científicas e profissionais específicas de cada contexto, peço-vos que zelem para que a humanidade seja servida pela riqueza e não governada por ela […]”

 

 

 

 

 

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