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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(295) Natureza humana e verdade

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

Se os modernos e contemporâneos se esforçam por parecer que estão a inovar, mesmo quando estão apenas a repetir, acontece o inverso com os medievais, que se esforçam por parecer que estão a repetir, mesmo quando estão a inovar.

 

Ouvistes que foi dito: ‘não cometerás adultério.’ Mas eu digo-vos que todo aquele que olha para uma mulher com a intenção de a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração, (Evangelho segundo Mateus, O sermão na montanha, 5:27)

 

Deus passa a ter acesso aos pensamentos pecaminosos que cada um de nós tem na privacidade do nosso ser.

 

No século XX, as pessoas tornam-se autores das suas próprias histórias, verdadeiras ou imaginárias, em que aparecem como muito bem desejam.

 

 

 

 

A Idade Média continua a ser aquela época que ainda hoje é considerada por quase todos os modernos e contemporâneos como a Idade das Trevas, um milénio perdido de retrocesso civilizacional ou de estagnação, invasões bárbaras, guerras, pestes, fomes, obscurantismo, dogmatismo.

E, no entanto “esquecemo-nos” que muito provavelmente as Invasões Bárbaras não passaram de movimentos de povos (migrações) que eram ditos bárbaros, não por não terem cultura própria mas por ela ser diferente da romana, migrações essas que nem sempre foram pacíficas.

“Esquecemo-nos” do aparecimento de instituições como a universidade, que vindas desse tempo ainda hoje perduram (Oxford, Paris, Salamanca, Coimbra …), da expansão do cristianismo (“religião dos escravos” como lhe chamou Nietzsche) que baniu a escravatura por considerar que cada homem era criado à imagem de Deus (passaram a servos da gleba…), da proteção e conservação de tesouros culturais da antiguidade, dos avanços na agricultura (variados sistemas de pousio, lavradio -relha de ferro- e irrigação), da atrelagem semifixa de animais, do moinho de vento, etc..

 

Curiosamente, é no campo da filosofia que os ataques são mais contundentes, ao ponto de se duvidar que na Idade Média pudesse ter existido verdadeira filosofia, isto porque os seus filósofos mais não teriam feito que “mastigar” referências anteriores já contidas na Filosofia Antiga, e porque, sendo religiosos, faziam assentar os seus pensamentos em pressupostos e preconceitos (o religioso e o transcendente) que impediam o filosofar no sentido radical do termo, o verdadeiro filosofar.

Na realidade, o que se passava é que a postura dos filósofos medievais perante o saber, na sua maior parte teólogos e sacerdotes, era bem diferente daquela que era própria dos filósofos antigos e dos que lhes sucederam. Imbuídos numa sociedade imersa nos Evangelhos onde a verdade que salvará o homem já fora dita, eles não tinham a pretensão de descobrir uma outra verdade, mas sim de explicar esta:

 

Mesmo quando inovavam, preocupavam-se em mostrar que estavam de acordo com a tradição. Se os modernos e contemporâneos se esforçam por parecer que estão a inovar, mesmo quando estão apenas a repetir, acontece o inverso com os medievais, que se esforçam por parecer que estão a repetir, mesmo quando estão a inovar.” (M. Inês Bolin.)

 

Deve-se ainda notar que não foram os medievais que se classificaram a si mesmos como sendo medievais (na altura, eles eram a atualidade, contemporâneos). Foram os renascentistas, com a finalidade deles se distanciarem, que cunharam a expressão médium tempus (Petrarca).

 

A tentativa de comparação de culturas, civilizações, povos, para além de ser complicada, é normalmente enviesada por critérios subjetivos, deixando intocável aquele que é afinal o problema principal, o da interpretação da existência da natureza humana.

Para alguns ela é fixa, dada para sempre pela natureza ou por Deus. Foi isto que pensaram e nos transmitiram as escolas da filosofia antiga, o platonismo, aristotelismo, estoicismo, e ainda a tradição cristã.

A ser assim, a natureza humana é algo que nos foi dado ou criado, para todo o sempre, uma essência.

Mas para outros, para as novas interpretações existencialistas, desconstrutivistas, e outras filosofias da mente, a natureza humana não passa de um conjunto complexo de comportamentos e atitudes que nos permite discutir de forma conveniente a experiência humana e que, portanto, não corresponde a nenhuma realidade externa.

A ser assim, a natureza humana é como que uma ficção ultrapassada que herdamos da tradição.

 

Há ainda uma outra via já anteriormente proposta por G W F Hegel (1770-1831), e segundo a qual a realidade da natureza humana só poderá ser compreendida se considerarmos a análise do desenvolvimento humano ao longo da história.

Segundo ele, no início da história da humanidade, as pessoas não se viam a elas próprias como indivíduos como se vêm hoje. Não havia o conceito da existência de uma esfera interior especial que nos autodefinisse. Nessa época as pessoas viam-se como pertencendo a um grupo: a família, a tribo, o estado, etc.

Aquilo que nos aparece hoje como intuitivo, como escolhas que os indivíduos têm o direito de fazer (que curso tirar, que profissão escolher, com quem viver, que religião professar, etc.), não acontecia assim noutros tempos. Ou seja, tudo isso não é considerado como absoluto, mas sim como condicionado social e historicamente.

 

Os mesopotâmios, egípcios, gregos, não tinham esses direitos. Aquilo que determinaria aquilo que seriam na vida, era o facto de terem nascido em famílias específicas ou classes. Os mais novos seguiam os desejos dos pais, os seus desejos próprios e visões não eram tidos em conta.

 

Alguns exemplos: o historiador grego Plutarco explicava que Licurgo, o legislador de Esparta, “acostumara os cidadãos a não terem o desejo de uma vida privada, nem a manifestarem qualquer conhecimento dela, devendo antes serem como abelhas, sempre ligadas à comunidade, com uma extasiada e fervente ambição de se devotarem inteiramente ao seu país”.

A Esparta de Licurgo, era uma sociedade que não reconhecia a validade de os indivíduos tomarem decisões para eles próprios. A subjetividade ou a individualidade não eram cultivadas, imperava a conformidade. Nada havia na individualidade que pudesse ser visto como possuindo valor sustentável, uma vez que tudo devia submeter-se às necessidades da sociedade ou do estado. O indivíduo não contava para nada.

 

Édipo nunca tencionara matar o pai ou casar com a mãe e, no entanto, era visto como culpado pelas ações cometidas. Isto porque as intenções próprias de cada indivíduo não eram consideradas relevantes para o processo: apenas contava a ação exterior cometida. O mesmo não acontece na sociedade atual em que os tribunais, antes de proferirem a sentença, entram em consideração com a intenção do acusado.

 

A subjetividade do indivíduo foi uma das grandes revoluções ensinadas por Sócrates. Segundo ele, nada deveria ser aceite única e exclusivamente por ser tradição. As pessoas devem ser críticas acerca de tudo, aceitando apenas aquilo que puder ser demonstrado estar de acordo com o seu raciocínio. Ou seja, devia ser o indivíduo a ter o direito de dar o seu consentimento sobre aquilo que se julgava ser verdadeiro, em vez de isso vir ditado de cima. Ideia tão radical e provocadora que o levou a ser condenado à morte na progressista Atenas.

 

Jesus Cristo vai levar mais longe esta importância da interioridade nos seres humanos. Mais importante que a ação no mundo era a disposição do indivíduo para olhar para o seu interior, e isto por  as ações praticadas no mundo serem sempre limitadas no espaço e no tempo (só se pode fazer um número finito de coisas), ao passo que na esfera interior dos nossos desejos e pensamentos o campo ser infinito.

Ou seja, temos de prestar atenção não apenas ao que fazemos, mas também ao que pensamos.

Quando Jesus diz aos seus seguidores

 

Ouvistes que foi dito: ‘não cometerás adultério.’ Mas eu digo-vos que todo aquele que olha para uma mulher com a intenção de a desejar já cometeu adultério com ela no seu coração.” (Evangelho segundo Mateus, O sermão na montanha, 5:27)

 

o conceito de moralidade vai alargar-se enormemente, ao considerar que só pelo simples facto de se desejar, poder-se já estar a cometer um crime antes de a sua ação ter sido feita.

Isto vai acabar por conduzir a uma regulamentação obsessiva sobre a pureza dos pensamentos dignos de Deus. Deus passa a ter acesso aos pensamentos pecaminosos que cada um de nós tem na privacidade do nosso ser.

 

No mundo moderno, as pessoas têm o direito de decidir sobre as suas vidas, o direito de rejeitarem e de criticarem tudo o que contradiga as suas consciências individuais. Foi o aparecimento desta ideia da verdade subjetiva, que permitiu a libertação do domínio dos costumes e da tradição, e o desenvolvimento de princípios como os da liberdade religiosa, liberdade de expressão e consciência, e dos direitos humanos individuais.

No mundo antigo predominava o sentido de família e de comunidade, onde todos conheciam o lugar e papel que lhes estava destinado, essencial para a sua sobrevivência. As pessoas identificavam-se com a sua cultura, a sua religião e a sua sociedade.

Desde que se mantivessem no lugar que lhes era atribuído, tudo correria suavemente. Se saíssem do seu lugar, a ordem quebrava-se, ameaçando com a vinda da desarmonia. Os pensadores do antigo chamavam-lhe de harmonia. Os pensadores medievais chamavam-lhe de ordem.

 

É este sentido de comunidade ou de vida em sociedade que se perdeu. Este é o preço que se tem de pagar pelo aparecimento da individualidade: sentimento de isolamento e de separação da comunidade ou de outras instâncias maiores com as quais é difícil uma identificação imediata, ou ainda com estruturas que muitas vezes parecem contraditar as nossas próprias sensibilidades.

O reconhecimento da importância deste valor da subjetividade do indivíduo, vai aumentar no Renascimento e na Reforma, bem explícito por Lutero quando explica que a decisão da fé religiosa era um assunto que só dizia respeito ao indivíduo, ou do Iluminismo quando considerava que eram os indivíduos que possuíam os direitos humanos dados por Deus. No século XIX, dá-se uma aceleração na celebração da individualidade com o Romantismo, o seu culto do génio, da vida como arte, do amor livre, e da rejeição dos valores burgueses.

 

No século XX, assiste-se ao crescimento da autoindulgência e do narcisismo, segundo os quais todos nos consideramos como átomos individuais na persecução de finalidades privadas e com ideias que não tenham de respeitar nada do que à volta se possa passar. As pessoas tornam-se autores das suas próprias histórias, verdadeiras ou imaginárias, em que aparecem como muito bem desejam.

As preocupações das pessoas vão para todos os aspetos das suas vidas individuais: os seus corpos, as suas roupas, os seus gostos, a coisas que possuem. A intenção é sempre o desejo de conseguirem expressar o quão únicas são as qualidades que acreditam ter, o que as torna presa fácil dos propagandistas das modas que lhes conseguem vender produtos que os levem a acreditar nisso.

 Assim, quando esses produtos aparecem servem para demonstrar a individualidade daquela pessoa mas que quando passam a ser do agrado de outras pessoas, rapidamente passam a demonstrar o seu contrário, ou seja, que aquela pessoa está a seguir uma moda já aceite por todos.

Isso obriga-a a ter de mudar, procurar outro foco de autoidentificação. O que implica uma procura constante pela novidade, pela substituição do já visto. Esta dificuldade sentida pela perca dessa demonstração da individualidade, conduz ao desespero e é em si a demonstração mais evidente da grande importância do princípio da individualidade e da subjetividade na sociedade atual.

Não se trata de um problema que afeta só os adolescentes. É mais geral. O acreditar que apenas as coisas que nos agradem e sirvam, poderão ser rotuladas como novidade, ou seja, que só os indivíduos, enquanto indivíduos, podem ditar que a sua verdade é a verdade, revela o fenómeno de rejeição de qualquer forma de verdade objetiva. Deixa de haver verdade objetiva.

O jornalismo atual, a política atual, a educação atual, a ciência atual, reflete bem este estado de coisas, em que a verificação das fontes, da veracidade dos fatos, o método científico, deixam de ser relevantes.

Na New Yorker publicada logo após o início da interminável eleição presidencial americana, vinha um desenho humorístico inanimado em que os apoiantes de Trump apontavam várias causas para que os votos fossem considerados inadmissíveis. Uma das que levaria de imediato à rejeição do voto por fraudulento, era aquela em que o quadradinho indicativo da preferência estivesse preenchido no nome de Joe Biden.

 

Quando as pessoas passam a ter a liberdade para construírem a sua própria ficção como sendo a realidade, mesmo que essa sua ficção vá de encontro aos factos verificados objetivamente, leis estabelecidas, costumes aceites, ou princípios éticos evidentes, considerando-os como “força de bloqueio” contra a sua individualidade, a validade ou a verdade objetiva, desaparecem.

Com ela desaparecem também o sentido de qualquer responsabilidade pessoal ou de culpabilidade. Qualquer comportamento ou ação mais abjeta pode sempre ser justificado com recurso à verdade devida do indivíduo.

 

Esta relação entre natureza humana e verdade, nem sempre tem sido evidente. O que nos parece é que quando os humanos começaram a reconhecer a importância e a irredutibilidade da esfera interior do indivíduo, começou a operar-se uma mudança gradual na noção de verdade.

Recordemos Hegel quando na sua teoria da história nos dizia que cada período tinha a sua própria justificação. Neste caso, a liberdade é algo que foi emergindo lentamente ao longo do último milénio, sendo esse próprio conceito do que é, que vai desenvolvendo o ser humano.

E se Hegel estiver certo quando nos dizia que um princípio acabará necessariamente por dar lugar ao seu oposto, então este desbragado e necessário relativismo individualista acabará de algum modo por conduzir a uma nova ideia de objetividade e de verdade exterior. Aguardemos.

 

 

Entretanto:

              Desde que recentemente o Twitter e o Facebook intensificaram os seus sistemas de verificação de veracidade dos conteúdos (fact checking), milhões de utilizadores mudaram-se para outras plataformas alternativas – como a Newsmax, Parler e Rumble, onde as mentiras podem circular à vontade até desaparecerem ou passarem a ser aceites.

 

              E, já agora, este recente artigo do Yahoo (https://www.yahoo.com/lifestyle/er-nurse-some-covid-19-patients-still-think-virus-hoax-160448458.html), onde se relata que pacientes que chegam aos hospitais com covid 19, recusam-se a serem tratados por não acreditarem que o covid 19 exista, não passa de uma mentira.

 

 

 

 

 

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