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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(291) Outras formas de ver

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Os principais meios de comunicação social têm-se vindo a afastar cada vez mais da missão de informar o público, aproximando-se cada vez mais da missão de dizer-lhes o que devem pensar e o que devem fazer, Diana Johnstone.

 

A grande importância dada ao jornalismo de investigação no caso Watergate, não permitiu ver aquela que é a mais relevante questão: a do aparecimento de um modelo de jornalismo com base em fontes governamentais não identificadas,

 

A suspensão da convertibilidade do dólar em ouro aconteceu como resultado direto do enorme défice dos EUA devido ao custo da Guerra do Vietname.

 

Sempre que os EUA e a OTAN querem intervir, há sempre uma “crise humanitária” e uma “responsabilidade de proteger”.

 

 

 

 

Aos 86 anos de idade, a jornalista americana Diana Johnstone, há muito a viver na Europa, publicou recentemente (2020) um livro, Circle in the Darkness, Memoir of a WorldWatcher, no qual resume a sua visão sobre muitos dos acontecimentos que assistiu ao longo dos seus 55 anos de jornalismo.

O gosto pela convivência com todas as pessoas, a tentativa de as conhecer e ajudar, fez com que durante o período importante da Guerra do Vietname criasse vários grupos e campanhas com o objetivo de explicar o que se estava a passar e o porquê  da necessidade de se oporem à guerra.

É sua opinião que a criação desses grupos com implantação comunitária, e que passaram despercebidos à comunicação social, muito contribuíram para a educação de estudantes e professores na sua tomada de posição sobre a guerra.

 

Sobre o escândalo de Watergate, entende que a importância dada ao jornalismo de investigação no caso, não permitiu ver aquela que é a mais relevante questão: a do aparecimento de um modelo de jornalismo com base em fontes governamentais não identificadas.

Segundo ela, o escândalo Watergate serviu bem, intencionalmente ou não, para desviar a atenção para a mortandade que se estava a passar no Sudeste asiático:

 

Ver-nos livres de Nixon foi um golpe brilhante que de uma assentada uniu gerações, despedaçadas por atitudes opostas para com a guerra […] Watergate permitiu lavar os pecados nacionais. Preparou a América para ‘renascer de novo’ primeiro através do inocente Gerald Ford e depois pelo bom cristão Jimmy Carter, o campeão dos direitos humanos”.

“As ondas levantadas pelo Watergate foram uma distração para as ações de maior significado empreendidas pela administração Nixon, particularmente o abanão da economia mundial de agosto de 1971 quando decidiu suspender (ou seja, acabar) a convertibilidade do dólar em ouro. Tal aconteceu como resultado direto do enorme défice dos EUA devido ao custo da Guerra do Vietname.”

 

Quanto à esquerda nos EUA, o seu testemunho:

 

Meio século depois, o movimento americano contra a guerra desapareceu como força política influente sem deixar rasto. Há agora mais críticos de guerra inteligentes do que então, mas na sua grande maioria encontram-se confinados ao mundo virtual da net, sem qualquer impacto num sistema político que está totalmente integrado num complexo industrial militar que assenta em conflitos intermináveis.”

 

Como profissional na Associate Press e na Agence France Press, Jonhstone apercebeu-se melhor sobre como as notícias e as histórias eram selecionadas de acordo com as preferências da ordem instituída, e de como a comunicação social promovia a leaders de opinião certas pessoas entre os grupos que promoviam ou lideravam protestos. Casos de Daniel Cohn Bendit e do filósofo Bernard Henri Levy.

 

Aborda também alguns dos acontecimentos que se verificaram como o assassinato o primeiro ministro sueco Olaf Palm, e como a partir daí a Suécia se foi mostrando subserviente aos EUA; as causas e as consequências do assassinato de Aldo Moro, na Itália, por militantes da extrema esquerda; o assassinato do moderado palestiniano Issa Sartawi, numa conferência do Partido Socialista; a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II por um militante turco e a campanha de propaganda que se seguiu com a intenção de o ligar à Bulgária e à União Soviética.

 

Quando a União Soviética colapsa, os EUA ficam livres para atuarem como quiserem. Johnstone resume esse momento com duas observações: “Mikhail Gorbachev era um negociador ingénuo, continuadamente ludibriado pelos americanos”, e “A total rendição do ‘comunismo real’ existente no Leste contribuiu para a derrota da Esquerda Ocidental”.

 

A dissolução da União Soviética marca também o início da dominação mundial das políticas económicas neoliberais. A formação da União Europeia em 1992 implicou o aparecimento, imposição e obrigações que favoreciam os bancos privados e outras instituições, ao mesmo tempo que restringiam ou impediam a intervenção do estado para a solução de problemas.

 

Com o desaparecimento do Pacto de Varsóvia em 1991, a OTAN (mais conhecida por NATO) ficava sem finalidade para existir, pelo que rapidamente encontrou uma nova finalidade, na demonização da Jugoslávia (único estado que continuava socialista) e da Sérvia. Aparece então o termo “imperialismo humanitário”, que serviu de justificação para a promoção do “Exército de Libertação do Kosovo” e para o bombardeamento da Sérvia durante 78 dias. A Jugoslávia acabou.

 

Após o “imperialismo humanitário” aparece o conceito de “Direito de Proteger” (Right to Protect, R2P) como justificação para violar a soberania nacional, que começou a ser utilizado pela OTAN na sua campanha contra a Líbia com vista à remoção de Gadhafi.

 Mais tarde, volta a ser utilizado na intervenção na Síria, incluindo no patrocínio e formação de exércitos de terroristas. Sempre que os EUA e a OTAN querem intervir, há sempre uma “crise humanitária” e “responsabilidade de proteger”.

 

Sobre o movimento dos “Coletes Amarelos” em França, Jonhstone explica como ele se formou e cresceu, agregando imensas pessoas vulgares independentemente das suas opções partidárias. Comprando-o com o movimento estudantil de maio de 1968, diz-nos que os Coletes Amarelos têm muito maior apoio:

 

Sociologicamente esta revolta é o oposto de maio de 68, Em vez de estudantes privilegiados que imaginavam a revolução de uma classe de operários não existente num tempo de prosperidade, [os coletes amarelos] são de facto a classe trabalhadora em tempos difíceis.”

 

Sobre a forma como os Coletes Amarelos têm sido atacados pela polícia (imensos feridos e até algumas mortes), escreve:

 

Curiosamente, toda esta dura e pesada repressão tem falhado totalmente quando se trata de prevenir que os membros mascarados do “Bloque Negro” ateiam fogos, partam montras, ataquem a polícia … A polícia nada fez para evitar que desconhecidos invadissem o andar térreo do Arco do Triunfo para partirem a estátua de Marianne …. Vale a pena notar que quase todos os seriamente aleijados eram manifestantes pacíficos dos Coletes Amarelos, ao passo que os Bloque Negro escapavam sem serem tocados. Pode ser que os Bloque Negro acreditassem que estavam a atacar o sistema. Quaisquer que fossem as suas intenções, eles fizeram o papel de auxiliares do governo à repressão.”

 

Johnstone, aponta muitos exemplos ao longo dos últimos 50 anos de como frequentemente os instigadores foram agentes do governo ou da polícia. Segundo ela, a violência e o vandalismo são nocivos para as causas progressistas, mesmo quando delas resultem publicidade e atenção dos media.

Segundo ela, os esforços dos grandes meios de comunicação social têm vindo a concentrarem-se no controle dos pensamentos e raivas das pessoas:

 

Os principais meios de comunicação social têm-se vindo a afastar cada vez mais da missão de informar o público, aproximando-se cada vez mais em dizer-lhes o que devem pensar e o que devem fazer.”

 

E finaliza com um desejo e um aviso, para que todas as diferentes forças trabalhem juntas em favor da paz, mesmo que não concordem em todos os pontos que possam definir “políticas identitárias”. E, não nos devemos distrair dos objetivos centrais que são a guerra e a desigualdade social. E avisa que quando a Esquerda se focaliza na franja à direita, o poder instituído fica não só contente, como até encoraja e promove a distração.

 

 

 

 

 

 

 

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