Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(290) “Arte, Verdade e Política”

 Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Não há distinções rígidas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa, Harold Pinter.

 

A verdade tem apenas que ver com a forma como os Estados Unidos entendem ser o seu papel no mundo e como optam por levá-lo a cabo.

 

A maioria dos políticos, segundo as evidências de que dispomos, não está interessada na verdade, mas apenas no poder e na manutenção desse poder.

 

O que nos rodeia é um enorme tapete de mentiras, do qual nos alimentamos.

 

Gente inocente, na verdade, sempre sofre.

 

Às vezes um escritor tem mesmo que quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos encara.

 

 

 

 

Os prémios Nobel valem o que valem, são o que são. Frutos da época, instituídos em 1895, começaram a ser atribuídos pela primeira vez em 1901. E se bem que em quatro das suas categorias não se tenham verificado grandes objeções (física, química, medicina e economia), já em duas outras (paz e literatura), essa tal quase unanimidade não se verifica.

Recorde-se só em tempos mais recentes algumas das polémicas que envolveram a atribuição dos Nobel da paz a Henry Kissinger e a Aung San Suu Kyi, e os de literatura, não atribuídos em 2018 devido ao escândalo sexual – e não só - revelado no seio dos “juízes”, o de 2019 atribuído a Peter Handke (pelas suas posições de branqueamento dos genocídios na guerra da Bósnia), o de 2016 a Bob Dylan (que nem um agradecimento esboçou, enviando apenas Patti Smith à cerimónia de entrega, o que não o coibiu de ficar com o prémio pecuniário), e o deste ano de 2020 à pouco conhecida e tranquila Louise Gluck pela “sua voz eminentemente poética que juntamente com uma beleza austera torna universal a existência individual”.

 

As polémicas que envolvem a atribuição destes prémios são passíveis de várias leituras, desde as críticas ao próprio prémio em si até às provenientes das caraterísticas pessoais ou políticas das personalidades escolhidas. Parece ser, contudo, mais interessante focar a atenção sobre as escolhas que foram sendo feitas para tentar aquilatar do que elas possam refletir sobre o seu significado relativamente à sociedade em que vivemos.

O exemplo mais revelante foi o da atribuição do Nobel em 2005 a Harold Pinter e ao seu discurso de aceitação que intitulou “Arte, Verdade e Política”. (1)

Quando o sistema de poder vigente permite uma exposição como a feita por Pinter, tal poderá significar que o sistema estava distraído, ou que acreditava ser tão intocável a ponto de permitir alguns devaneios artísticos, ou que considerava a arte como faits divers e utilizava-a não apenas para “chocar os burgueses” mas para “espantar” toda a gente, ou que o controle estava a ser tão efetivo que ninguém já se importaria com as escolhas que lhes vêm sendo impostas (pois elas são momentâneas, passam, e seguem-se rapidamente outras coisas novas de igual sem importância).

Em resumo: será que tal discurso poderia ser feito (autorizado) nos dias de hoje?

 

Em 1964, Jean-Paul Sartre recusou aceitar o Nobel de literatura. Em 2005, Pinter terminou o seu discurso dizendo que a definição da verdade era uma obrigação que recaía sobre todos nós e que “se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não teremos esperança para restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade do homem.”

 

 

“Arte, verdade e política”.

 

Eis o discurso completo de Harold Pinter a quando da aceitação do Prémio Nobel de Literatura, 1905:

 

“Em 1958, escrevi o seguinte:

Não há distinções rígidas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa.’

Acredito que essas afirmações ainda fazem sentido e que ainda se aplicam à exploração da realidade através da arte. Portanto, como escritor, defendo-as, mas como cidadão não posso. Como cidadão, devo perguntar: O que é verdade? O que é falso?

 No drama, a verdade é para sempre ilusória. Nunca a encontra, mas a sua procura é compulsiva. É a sua procura o que claramente impulsiona o esforço. A procura é a tarefa. Muitas vezes no escuro tropeça-se na verdade, colidindo com ela, ou apenas vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas das vezes sem se perceber que se o fez.

Mas a verdade real é que na arte dramática nunca se encontra uma verdade. Há muitas. Essas verdades desafiam-se umas às outras, recuam umas das outras, refletem-se umas às outras, ignoram-se, provocam-se umas às outras, estão cegas umas para as outras. Às vezes sente-se que num dado momento se conseguiu ter nas mãos a verdade, mas então ela escapa-se por entre os dedos e perde-se.

 

Têm-me muitas vezes perguntado como é que as minhas peças acontecem. Não sei dizer. Nem sequer posso resumir as minhas peças, só posso dizer que foi isso que aconteceu. Isso é o que elas disseram. Isso foi o que fizeram.

 A maioria das peças é concebida a partir de uma linha, uma palavra ou uma imagem. Essa palavra dada, é geralmente logo seguida por uma imagem. Dou-vos dois exemplos de duas linhas que surgiram do nada na minha cabeça, seguidas por uma imagem.

As peças são The Homecoming e Old Times. A primeira linha de The Homecoming é “O que é que você fez com a tesoura?” A primeira linha de Old Times é “Escuro”.

Em qualquer dos casos não tive qualquer outra informação.

 

No primeiro caso, alguém estava obviamente à procura de uma tesoura, perguntando sobre o seu paradeiro a alguém que suspeitava que provavelmente a tivesse roubado. Mas, de alguma forma, eu sabia que a pessoa a quem me dirigia não se importava minimamente quer com a tesoura, quer para a pergunta que lhe fizera.

Em “Dark”, começo com a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e isso era a resposta a uma pergunta. Em qualquer dos casos, vi-me brigado a prosseguir com o assunto. Isso aconteceu visualmente, num desvanecimento muito lento, da sombra para a luz.

 

Começo sempre uma peça chamando aos personagens A, B e C.

Na peça que se chamou “The Homecoming”, vi um homem entrar numa sala deserta e fazer uma pergunta a um jovem que se encontrava sentado num sofá feio, lendo um jornal de desporto. Por qualquer razão, suspeitei que A era o pai e que B era o filho, tudo isto sem ter provas. No entanto, tudo isso foi confirmado pouco tempo depois, quando B (mais tarde chamado de Lenny) disse a A (mais tarde chamado de Max):

Pai, importa-se se eu mudar de assunto? Eu quero perguntar-lhe uma coisa. O prato que comemos ao jantar, como se chamava? Como é que o chama? Por que não compra um cão? Você é um cozinheiro de cachorros. Verdade. O pai julga que está cozinhando para muitos cachorros.”

Portanto, uma vez que B chama A de 'pai', parecia-me razoável supor que eles fossem pai e filho. E também parecia claro que o cozinheiro e os seus cozinhados não eram muito apreciados. Isso significava que não havia mãe? Não sabia. Mas, como eu me disse a mim mesmo na época, o início nunca conhece o fim.

 'Dark.' Uma grande janela. Céu noturno. Um homem, A (mais tarde chamado de Deeley) e uma mulher, B (mais tarde chamada de Kate), sentados a beberem.   “Gordo ou magro?” pergunta o homem. Mas de quem estão eles falando? Vejo então de pé à janela, uma mulher, C (mais tarde chamada de Anna), a uma outra luz, de costas para eles, com cabelos escuros.

 

É um momento estranho, o de criar personagens que até aquele momento não tinham existência. O que se segue é intermitente, incerto, até alucinatório, embora às vezes possa ser uma avalanche incontrolável.

A situação do autor é estranha. Num sentido, ele não é bem-vindo pelos personagens. Os personagens resistem-lhe, não são fáceis de conviver, são impossíveis de definir. Não se lhes pode dar ordens. Até certo ponto joga-se um jogo sem fim com eles, do gato e rato, do cão cego, do esconde-esconde. Mas finalmente acaba por se descobrir que se tem pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com vontade e sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que se é incapaz de mudar, manipular ou distorcer.

Portanto, a linguagem na arte continua a ser uma transação altamente ambígua, uma areia movediça, um trampolim, uma piscina congelada que perante o autor pode ceder a qualquer momento.

 

Mas, como disse, a busca pela verdade nunca pode parar. Não pode ser deixada para depois, não pode ser adiada. Tem de ser enfrentada, ali mesmo, no local.

O teatro político apresenta um conjunto de problemas totalmente diferente. Deve ser evitado a todo custo o sermão. A objetividade é essencial. Os personagens devem ter autorização para respirarem o seu próprio ar. O autor não pode confiná-los e restringi-los para satisfazer o seu próprio gosto, disposição ou preconceito. Ele deve estar preparado para abordá-los por uma variedade de ângulos, de uma gama completa e desinibida de perspetivas, apanhá-los ocasionalmente de surpresa, mas dar-lhes a liberdade para seguirem o caminho que quiserem. Isso nem sempre funciona.

Já a sátira política, não segue nenhum desses preceitos, na verdade faz exatamente o contrário, é essa a sua função própria.

 

Na minha peça “The Birthday Party”, penso que permito que toda uma gama de opções se desenrole numa densa floresta de possibilidades antes de finalmente se concentrar num ato de subjugação.

Mountain Language”, finge não ter esse tipo de opções. Mantem-se brutal, curta e feia. Mas na peça, os soldados divertem-se um pouco com isso. Às vezes, esquecemos que os torturadores se aborrecem facilmente. Eles precisam de um pouco de riso para manter o ânimo. Isso foi confirmado, é claro, pelos eventos em Abu Ghraib, em Bagdad. “Mountain Language” dura apenas 20 minutos, mas poderia prosseguir hora após hora, repetindo indefinidamente o mesmo padrão indefinidamente, hora após hora.

Por outro lado, já em “Ashes to Ashes”, tudo parece estar a acontecer debaixo de água. Uma mulher a afogar-se, a mão acima das ondas, descaindo para fora de vista, tentando chamar a atenção dos outros, mas não encontrando ninguém, nem acima nem debaixo de água, encontrando apenas sombras, reflexos, flutuando; a mulher, uma figura perdida numa paisagem em que se afoga, uma mulher incapaz de escapar da desgraça que parecia pertencer apenas a outros.

Mas como eles morreram, ela também deve morrer.

 

A linguagem política, como a usada pelos políticos, não se aventura em nenhum destes territórios uma vez que a maioria dos políticos, segundo as evidências de que dispomos, não está interessada na verdade, mas apenas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas se mantenham na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, até mesmo da verdade das suas próprias vidas. O que nos rodeia, portanto, é um enorme tapete de mentiras, do qual nos alimentamos.

 

Como todo mundo aqui sabe, a justificação para a invasão do Iraque foi que Saddam Hussein possuía um conjunto altamente perigoso de armas de destruição em massa, algumas das quais poderiam ser disparadas em 45 minutos, causando uma devastação terrível. Foi-nos assegurado que isso era verdade. Isso não era verdade.

Fomos informados de que o Iraque tinha relações com a Al Qaeda e compartilhava a responsabilidade pela atrocidade em Nova York a 11 de setembro de 2001. Tínhamos a certeza de que isso era verdade. Isso não era verdade. Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Garantiram-nos que era verdade. Não era verdade.

A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como os Estados Unidos entendem ser o seu papel no mundo e como optam por levá-lo a cabo.

 

Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar para o passado recente, ou seja, para a política externa dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Eu creio que é obrigatório sujeitarmos esse período a algum tipo de escrutínio, mesmo que limitado, e que neste caso será todo o tempo que me é permitido aqui.

Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e em toda a Europa Oriental durante o período pós-guerra: a brutalidade sistemática, as atrocidades generalizadas, a supressão implacável do pensamento independente. Tudo isso foi já totalmente documentado e verificado.

 Mas o que interessa aqui mostrar é que os crimes cometidos pelos EUA no mesmo período, foram só superficialmente registrados, e muito menos documentados, muito menos reconhecidos, e ainda muito menos reconhecidos como crimes.

Eu acredito que isso deve ser abordado porque a verdade tem uma influência considerável na posição do mundo. Embora limitados, até certo ponto, pela existência da União Soviética, as ações dos Estados Unidos em todo o mundo deixaram claro que eles concluíram que tinham carta branca para fazerem o que quisessem.

A invasão direta de um estado soberano nunca foi de facto o método preferido da América. No geral, preferiu sempre o método que descreveu como 'conflito de baixa intensidade'. Conflito de baixa intensidade, significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do que se se lançasse sobre elas uma bomba. Significa que infecta o coração do país, que faz crescer um tumor maligno e fica a ver a gangrena florescer.

Quando a população for subjugada - ou espancada até a morte - é o mesmo – bem como os amigos, então os militares e as grandes corporações, sentam-se confortavelmente no poder, e a América aparece nas televisões a dizer que a democracia prevaleceu. Isso foi o lugar-comum na política externa dos Estados Unidos nos anos a que me refiro.

A tragédia da Nicarágua foi um desses casos altamente significativo. Decidi apresentá-lo aqui como um exemplo da visão dos Estados Unidos sobre o seu papel no mundo, tanto naquela época quanto agora.

Estive presente numa reunião na embaixada dos Estados Unidos em Londres no final dos anos 1980.

O Congresso dos Estados Unidos estava prestes a decidir se devia dar mais dinheiro aos Contras na sua campanha contra o estado de Nicarágua. Fui membro de uma delegação que falava em nome da Nicarágua, em que o membro mais importante dessa delegação era o padre John Metcalf. O representante da parte americana era Raymond Seitz (então o número dois da Embaixada, mais tarde promovido a embaixador). O Padre Metcalf disse:

 

 'Senhor, eu sou responsável por uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivemos em paz. Há alguns meses, uma força dos Contra, atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o posto de saúde, o centro cultural. Violaram enfermeiras e professores, massacraram médicos da maneira mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, exija que o governo dos Estados Unidos retire o apoio a essa chocante atividade terrorista.”

Raymond Seitz tinha uma muito boa reputação como sendo um homem racional, responsável e altamente sofisticado. Era muito respeitado nos círculos diplomáticos. Ele ouviu, fez uma pausa e então falou com alguma gravidade.

'Padre', disse ele, 'deixe-me dizer-lhe uma coisa. Na guerra, pessoas inocentes sempre sofrem. ' Houve um silêncio gelado. Nós encarámo-lo. Ele nem pestanejou.

Gente inocente, na verdade, sempre sofre.

Por fim, alguém disse:

'Mas neste caso “gente inocente” foi vítima de uma atrocidade horrível subsidiada pelo seu governo, uma entre muitas. Se o Congresso permitir dar aos Contras mais dinheiro, mais atrocidades desse tipo acontecerão. Não é este o caso? Portanto, não é o seu governo culpado de apoiar atos de assassinato e destruição de cidadãos de um estado soberano? '

 

Seitz manteve-se imperturbável. "Não concordo que os factos apresentados apoiem ​​as suas afirmações", disse ele.

 Quando estávamos a sair da embaixada, um assessor dos Estados Unidos disse-me que gostava das minhas peças de teatro. Nem respondi.

Devo lembrar que, na época, o presidente Reagan fez a seguinte declaração: 'Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores'.

Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua por mais de 40 anos. O povo nicaraguense, liderado pelos sandinistas, derrubou esse regime em 1979, numa revolução popular de tirar o fôlego.

 Os sandinistas não eram perfeitos. Eles possuíam a sua parte de arrogância e a sua filosofia política continha uma série de elementos contraditórios. Mas eles eram inteligentes, racionais e civilizados. Eles propuseram-se a estabelecer uma sociedade estável, decente e pluralista. A pena de morte foi abolida. Centenas de milhares de camponeses atingidos pela pobreza foram resgatados dessa vida de mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de terra. Duas mil escolas foram construídas. Uma campanha de alfabetização bastante notável reduziu o analfabetismo para menos de um sétimo. A educação gratuita foi estabelecida, bem como um serviço de saúde gratuito. A mortalidade infantil foi reduzida em um terço. A poliomielite foi erradicada.

Os Estados Unidos denunciaram essas conquistas como sendo uma subversão marxista / leninista. Na opinião do governo dos Estados Unidos, tratava-se de um exemplo perigoso que estava a ser dado. Se a Nicarágua pudesse estabelecer normas básicas de justiça social e econômica, se pudesse elevar os padrões de saúde e educação e alcançar a unidade social e o respeito próprio nacional, os países vizinhos fariam as mesmas perguntas e fariam as mesmas coisas. Naturalmente, houve na época uma forte resistência ao status quo em El Salvador.

Falei anteriormente sobre 'o tapete de mentiras' que nos cerca. O presidente Reagan descrevia a Nicarágua como uma "masmorra totalitária". No geral, a comunicação social e o governo britânico consideraram isso como um comentário preciso e justo. Mas de fato não havia registo de esquadrões da morte sob o governo sandinista. Não houve registo de tortura. Não houve registo de brutalidade militar sistemática ou oficial. Nenhum padre foi assassinado na Nicarágua. Na verdade, havia três padres no governo, dois jesuítas e um missionário Maryknoll.

As masmorras totalitárias ficavam na verdade ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os Estados Unidos derrubaram o governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954, estimando-se que mais de 200.000 pessoas tenham sido vítimas das sucessivas ditaduras militares.

Seis dos mais ilustres jesuítas do mundo foram cruelmente assassinados na Universidade Centro-americana de San Salvador em 1989 por um batalhão do regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Aquele homem extremamente corajoso, o arcebispo Romero, foi assassinado enquanto rezava a missa. Estima-se que 75.000 pessoas morreram.

Por que foram mortas? Foram mortas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e deveria ser alcançada. Essa crença fê-los imediatamente ser qualificou como comunistas. Eles morreram porque ousaram questionar o status quo, o patamar sem fim de pobreza, doença, degradação e opressão, único direito adquirido de nascença.

 Os Estados Unidos finalmente derrubaram o governo sandinista. Demorou alguns anos e uma resistência considerável, mas a perseguição econômica implacável e 30.000 mortos finalmente minou o espírito do povo da Nicarágua. Eles estavam exaustos e atingidos pela pobreza mais uma vez. Os casinos voltaram para o país. Saúde e educação gratuitas acabaram. Os grandes negócios voltaram a toda a força. A 'democracia' prevaleceu.

 

Mas essa 'política' não se restringia apenas à América Central. Foi realizada em todo o mundo. Sem fim à vista. E é como se nunca tivesse acontecido.

 Os Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial apoiaram e, em muitos casos, organizaram no mundo, todas as ditaduras militares de direita. Refiro-me à Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e, claro, Chile. O horror que os Estados Unidos infligiram ao Chile em 1973 nunca pode ser eliminado e nunca pode ser perdoado.

Centenas de milhares de mortes ocorreram nesses países. Elas aconteceram? E são em todos os casos atribuíveis à política externa dos Estados Unidos? A resposta é sim, elas aconteceram e são atribuíveis à política externa americana. Mas você nunca saberia.

Isso nunca aconteceu. Nunca aconteceu nada. Mesmo enquanto estava a acontecer, não estava a acontecer. Não importa. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos foram sistemáticos, constantes, cruéis, implacáveis, mas muito poucas pessoas falaram sobre eles. Tem de se atribuir isso à América. Ela conseguiu manipular clinicamente o exercício do seu poder em todo o mundo, mascarando-se como uma força para o bem universal. É um ato de hipnotismo brilhante, até espirituoso e altamente bem-sucedido.

Digo-vos que os Estados Unidos são, sem dúvida, o maior espetáculo em cena. Pode ser brutal, indiferente, desdenhoso e implacável, mas também é muito inteligente. Como vendedor, está por conta própria e sua mercadoria mais vendável é o amor próprio. É um vencedor. Ouvimos todos os presidentes americanos a dizerem na televisão as palavras 'o povo americano', como na frase, 'Eu digo ao povo americano que está na hora de rezar e defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano para confiar na ação que o seu presidente está prestes a realizar em nome do povo americano.

 É um estratagema brilhante. A linguagem é realmente empregada para manter o pensamento sob controle. As palavras "o povo americano" fornecem uma almofada verdadeiramente voluptuosa de segurança. Não se precisa pensar. Tem-se apenas de deitar na almofada. A almofada pode estar a sufocar a sua inteligência e as suas faculdades críticas, mas ela é muito confortável. Isso não se aplica, é claro, aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres presos no vasto gulag de prisões, que se estende por todos os Estados Unidos.

Os Estados Unidos já não se preocupam com estes conflitos de baixa intensidade. Não vêm qualquer sentido em serem reticentes ou mesmo tortuosos. Colocam as suas cartas na mesa sem medo ou favor. Simplesmente não dão a mínima importância às Nações Unidas, ao direito internacional ou à dissidência crítica, considerando-os impotentes e irrelevantes. E têm também preso por uma trela, o seu próprio cordeirinho balindo atrás de si, a patética e desanimada Grã-Bretanha.

 O que aconteceu com a nossa sensibilidade moral? Alguma vez tivemos alguma? O que significam essas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente empregado hoje em dia - consciência? Uma consciência que tem que ver não apenas com os nossos próprios atos, mas também com a responsabilidade que compartilhamos para com os atos dos outros? Estará tudo morto?

Veja-se a Baía de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação há mais de três anos, sem representação legal ou sem o devido processo legal, tecnicamente detidas para sempre. Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de Genebra. Tudo isto não é apenas tolerado, mas consentido pela chamada “comunidade internacional”.

Este ultraje criminoso está sendo cometido por um país, que se declara 'o líder do mundo livre'.

Pensamos nós sobre os habitantes da Baía de Guantánamo? O que é que a comunicação social diz sobre eles? Eles raramente são referidos - um pequeno item na página seis. Eles foram atirados para uma terra de ninguém da qual, de facto, podem nunca mais regressar. Atualmente, muitos estão em greve de fome, sendo alimentados à força, incluindo residentes britânicos. Alimentação forçada sem sutilezas. Sem sedativo ou anestésico. Apenas um tubo enfiado no nariz e na garganta. Você vomita sangue. Isso é tortura.

 O que é que disse o Ministro do Exterior britânico sobre isto? Nada. O que disse o primeiro-ministro britânico sobre isto? Nada. Por que não? Porque os Estados Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um ato hostil. Vocês ou estão connosco ou contra nós. Por isso Blair cala-se.

 A invasão do Iraque foi um ato de banditismo, um ato flagrante de terrorismo de estado, demonstrando absoluto desprezo pelo conceito de direito internacional. A invasão foi uma ação militar arbitrária inspirada por uma série de mentiras e mentiras e manipulação grosseira da comunicação social e, portanto, do público; um ato destinado a consolidar o controle militar e econômico americano sobre o Médio Oriente, disfarçado, em último recurso como libertação, após todas as outras justificações terem falhado. Uma afirmação formidável de poderio militar, responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.

Trouxemos tortura, bombas em cacho, urânio empobrecido, inúmeros atos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte para o povo iraquiano e chamámo-lo "trazer liberdade e democracia ao Médio Oriente”.

Quantas pessoas se têm que matar antes de tal ser descrito como sendo um assassínio em massa e uma guerra de criminosa? Cem mil? Mais do que suficiente, pensaria eu. Portanto, é justo que Bush e Blair sejam denunciados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça.

Mas Bush foi inteligente. Ele não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Portanto, se algum soldado americano ou político se encontrar no banco dos réus, Bush avisou que enviará os fuzileiros navais. Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e, portanto, está disponível para ser processado. Podemos deixar o endereço do Tribunal se eles estiverem interessados. É o número 10, Downing Street, Londres.

A morte, neste contexto, é irrelevante. Tanto Bush quanto Blair colocam a morte bem longe, em segundo plano. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos por bombas e mísseis americanos antes do início da guerra no Iraque. Essas pessoas não têm qualquer importância. As suas mortes não existem. Eles são apenas alvos. Nem mesmo contam para o registo de mortos. 'Não fazemos contagem de corpos', disse o general americano Tommy Frank.

 No início da invasão, foi publicada na primeira página de jornais britânicos uma fotografia de Tony Blair beijando a face de um garotinho iraquiano. “Uma criança agradecida”, dizia a legenda. Poucos dias depois, apareceu uma história e uma fotografia, numa página interior, de outro menino de quatro anos sem braços. A sua família foi morta por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. – ‘Quando terei os meus braços de volta?’ perguntou. A história foi retirada. Bem, Tony Blair não o segurava nos braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem o corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a camisa e a gravata quando estiver a fazer um discurso sincero na televisão.

Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. Eles são transportados para casa durante a noite. Os funerais são discretos, fora das vistas. Os mutilados apodrecem nas suas camas, alguns para o resto de suas vidas. Assim, os mortos e os mutilados apodrecem, em diferentes tipos de sepulturas.

 

Eis o extrato de um poema de Pablo Neruda, 'Algumas coisas que explico’:

 

E numa manhã tudo isso estava a arder,

numa manhã as fogueiras

escaparam da terra

devorando seres humanos

 e a partir deles em chamas,

 pólvora de daí em diante,

e daí em diante sangue.

 Bandidos com aviões e mouros,

 bandidos com anéis no dedo e duquesas,

 bandidos com frades negros distribuindo bênçãos

 vieram pelo céu para matar crianças

 e o sangue de crianças corria pelas ruas

 sem barulho, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais desprezariam

 pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,

víboras que as víboras abominariam.

Face a face contigo, eu vi o sangue

da torre da Espanha como uma maré

para te afogar numa onda

de orgulho e facas.

Generais

traiçoeiros:

vejam a minha casa morta,

olhem para a Espanha destruída:

de cada casa que o metal em chamas flui

em vez de flores

de cada lugar da Espanha

a Espanha emerge

 e de cada criança morta um rifle com olhos

e de todo crime nascem balas

 que um dia encontrarão

 o alvo de seus corações.

E tu perguntarás: por que é que o seu poema

 não fala de sonhos e folhas

 e dos grandes vulcões da sua terra natal.

Venha ver o sangue nas ruas.

Venha ver

O sangue nas ruas.

Venha ver o sangue

nas ruas!

 

Deixem-me tornar bem claro que, ao citar o poema de Neruda, não estou de forma alguma a comparar a Espanha republicana ao Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em nenhum sítio de poesia contemporânea li uma descrição visceral tão poderosa do bombardeamento de civis.

Disse anteriormente que os Estados Unidos são agora totalmente francos, colocando as cartas na mesa. É esse o caso. A sua política oficial declarada é agora definida como de 'domínio de espectro total'. Este não é o meu termo, é o deles. 'Domínio de espectro total' significa controle de terra, mar, ar e espaço e todos os recursos associados.

 Os Estados Unidos detêm agora 702 instalações militares em todo o mundo espalhadas por 132 países, com a honrosa exceção da Suécia, é claro. Não se sabe bem como o conseguiram, mas eles estão lá.

Os Estados Unidos possuem 8.000 ogivas nucleares ativas e operacionais. Duas mil estão em alerta rápido, prontas para serem lançadas com aviso de 15 minutos. E estão desenvolvendo novos sistemas nucleares, conhecidos como bunker busters.

Os britânicos, sempre cooperantes, pretendem substituir o seu próprio míssil nuclear, o Trident. Quem, pergunto-me eu, tentam eles atingir? Osama bin Laden? Vocês? Eu? Zés Ninguém? China? Paris? Quem sabe?

O que sabemos é que essa insanidade infantil - a posse e   ameaça de utilização de armas nucleares - está no cerne da atual filosofia política americana. Devemos lembrar-nos que os Estados Unidos mantêm bases militares permanentes e não dão sinais de as abandonar.

 Muitos milhares, senão milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos estão comprovadamente enojados, envergonhados e irritados com as ações de seu governo, mas como as coisas estão, não constituem uma força política coerente - ainda. Mas a ansiedade, a incerteza e o medo que podemos ver ir diariamente crescendo nos Estados Unidos, provavelmente não diminuirão.

 

Sei que o presidente Bush tem muitos redatores de discursos extremamente competentes, mas gostaria de voluntariar-me para o trabalho. Proponho o seguinte breve discurso que ele pode fazer à nação pela televisão. Eu vejo-o sério, cabelo cuidadosamente penteado, vencedor, sincero, muitas vezes cativante, às vezes com um sorriso irônico, curiosamente atraente, um homem macho.

 'Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin Laden é ruim. O seu Deus é mau. O Deus de Saddam era mau, exceto que ele não tinha nenhum. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Não cortamos a cabeça das pessoas. Acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou um bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia que ama a liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Nós aplicamos eletrocussão compassiva e injeção letal compassiva. Somos uma grande nação. Eu não sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles são. Eu possuo autoridade moral. Vêm este punho? Esta é minha autoridade moral. E não se esqueçam disso.’

 

A vida de um escritor é uma atividade altamente vulnerável, quase sem apoio. Não temos que chorar por causa disso. O escritor faz a sua escolha e fica preso a ela. Mas a verdade é que está exposto a todos os ventos, alguns deles realmente gelados. Está entregue a si próprio, está sozinho, num limbo. Não encontra refúgio nem abrigo, nenhuma proteção, a menos que minta, e neste caso, é claro, construiu a sua própria proteção e, pode-se então dizer que se tornou um político.

 

Já me referi à morte várias vezes esta noite. Vou citar agora um poema de minha autoria chamado "Morte".

 

Onde foi encontrado o cadáver?

Quem encontrou o cadáver?

Estava o cadáver morto quando foi encontrado?

 Como foi encontrado o cadáver?

Quem era o cadáver?

Quem era o pai, a filha, o irmão,

ou o tio, a irmã, a mãe ou o filho

do corpo morto e abandonado?

O corpo estava morto quando foi abandonado?

O corpo foi abandonado?

 Por quem foi abandonado?

O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?

 O que o fez declarar que o cadáver estava morto?

Você declarou o cadáver morto?

O quão bem você conhecia o cadáver?

 Como sabia que o cadáver estava morto?

Você lavou o cadáver?

Você fechou-lhe os dois olhos?

 Você enterrou o corpo?

 Você deixou-o abandonado?

 Você beijou o cadáver?

 

Quando nos olhamos ao espelho, pensamos que a imagem que temos diante de nós é precisa. Mas basta movermo-nos um milímetro e a imagem muda. Na verdade, estamos a olhar para uma gama infinita de reflexos. Às vezes um escritor tem mesmo que quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos encara.

Acredito que, apesar das enormes probabilidades que existem, a determinação intelectual inabalável, inabalável e feroz como cidadãos, de definir a verdade real das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação crucial que recai sobre todos nós. Na verdade, é obrigatória. Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não teremos esperança para restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade do homem.”

 

 

 

 

  • file:///C:/Users/HELDER~1/AppData/Local/Temp/ArtTruthandPolitics.pdf

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2016
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2015
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub