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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(289) A candeia de Díógenes

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

 

A única forma para se evitar o comunismo é seguir a China.

 

É possível um outro fim do mundo.

 

Somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários, Terence McKenna.

 

 

 

 

Em pleno dia de sol de verão na Grécia Antiga, Diógenes foi encontrado por Sócrates a caminhar por uma das ruas mais movimentadas da cidade, com uma candeia acesa na mão, como se estivesse a iluminar o caminho. Sócrates não resistiu a perguntar-lhe o que andava a fazer. Ao que Diógenes lhe respondeu:

 

Ando à procura de um homem honesto.”

 

 

Num recente artigo (1), Slavoj Zizek, conta-nos uma anedota que corria nos tempos da guerra fria, passada entre Richard Nixon dos EUA, Leonid Brezhnev da URSS e Eric Honecker da RDA, quando resolveram interrogar Deus para saberem qual seria o futuro reservado para os seus respetivos países.

Eis o que Deus disse a Nixon: “No ano 2050, os EUA serão comunistas.” Nixon voltou-se de costas e começou a chorar. Para Brezhnev, Deus disse: “No ano 2050, a União Soviética será uma província da China.” Brezhnev voltou-se de costas e começou a chorar. E finalmente Honecker perguntou: “E o que acontecerá à minha amada RDA?” Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

 Zizek vai transportar esta anedota para a atualidade, agora com novos personagens, desta vez com Putin, o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump. Eis a resposta de Deus para Putin: “A Rússia estará controlada pela China”. Putin voltou-se de costas e chorou. Para Xi, Deus disse: “A China continental será dominada por Taiwan”. Xi voltou-se de costas e chorou. E quando Trump faz a mesma pergunta sobre os EUA, Deus voltou-se de costas e chorou.

 

Com esta forma ligeira e divertida, Zizek pretende chamar-nos a atenção para o facto de as sociedades consideradas como as mais desenvolvidas da nossa época, serem muito idênticas no que se refere ao tipo e aos métodos de desenvolvimento que prosseguem. Todas elas seguem sistemas económicos capitalistas, cada vez mais assentes na vigilância e direção eletrónica consentida ou não dos seus cidadãos, numa construção totalitária devidamente articulada, em maior ou menor grau, entre empresas privadas e estado. 

E segundo ele, quem vai à frente nesta integração programada, é, sem dúvida, a China (exemplos comezinhos são os dados recentes vindos da China onde devido a meia dúzia de casos de Covid testaram uma cidade de 9 milhões de habitantes em cinco dias, e a distribuição gratuita da vacina a todos os habitante, o que lhe possibilitará prover às necessidades objetivas de cada um dos cidadãos de melhor forma que outro estado garanta).

 

A quem queira evitar o reaparecimento do comunismo, recomenda que se deve seguir o exemplo da China:

 

“A única forma para se evitar o comunismo será seguir a China.”

 

Talvez preocupado com esta sua conclusão, Zizek sugere-nos uma alternativa:

 

“É possível um outro fim do mundo.”

 

De certa forma, esta sua análise política tem apenas que ver com os aspetos gerais de uma possível evolução da sociedade humana, mesmo quando propõe a possibilidade de um outro mundo (recordemos que também findável) em que essa alternativa aparece escamoteada.

 

Para se tentar perceber melhor em que assenta esta análise macropolítica da evolução da sociedade humana, devemos de ter em conta a interação e interdependência entre o comportamento humano, o meio e a sociedade. Embora seja difícil de separar esta interdependência, pode-se considerar que alterar a sociedade significa alterar o comportamento humano, mas também que alterar o comportamento humano significa alterar a sociedade.

Pelo que se torna fundamental começar por tentar definir a sociedade em que, por acaso ou por desígnio vivemos, ao nível de comportamento individual: que valores fazem parte dele? Que valores incentivamos os mais novos a seguirem?

 

Vivemos numa sociedade em que não somos incentivados, nem somos valorizados por sermos melhores pessoas, melhores pais, melhores colegas, melhores amigos, melhores ouvintes, melhores cuidadores. Antes pelo contrário, somos valorizados por sermos famosos, por sermos influentes, por aumentarmos os negócios, por sermos promovidos, por esmagarmos a concorrência, por sermos poderosos.

Ter “sucesso” significa ter muitos empregados, muitas pessoas subservientes, muitos consumidores, muitos seguidores, muitas pessoas que nos ouçam e vejam e que julguem que somos importantes. É a isto a que a maior parte das pessoas dedica a sua vida, especialmente os que pretendem deter alguma influência.

Tudo à nossa volta, desde as universidades aos filmes e espetáculos, nos encaminha para esses valores associados ao “sucesso”: conquista e domínio.

Não é, pois, de admirar que a sociedade não priorize os assuntos sociais, a saúde, a compaixão, a solidariedade, o bem-estar mínimo. Não é, pois, de admirar que haja um choque entre aquilo que se ensina em casa e o que se passa lá fora, no “mundo real”. E que quando se “escolha” quem nos vai representar, representantes do “mundo real”, estes não se preocupem com valores que não sejam os do seu mundo.

Daí que as pessoas que escolhemos sejam aquelas que representam o tão ansiado “sucesso”.  

Daí Terence McKernna (1946-2000), o filósofo místico etnobotânico poeta ativista ensaísta cultista do conhecimento do desconhecido, ter notado que:

 

Somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários. Somo conduzidos pelos menores de entre nós e nós não ripostamos contra os valores desumanizantes que nos são impingidos como valores de referência.” (2)

 

 

 

Relembro a “Brevíssima Síntese da História Contemporânea” de Galeano:

 

“Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.

As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?

Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.

As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.”

(Consultar blog de 15 de novembro de 2017, “Dos indignos e dos indignados, segundo Galeano” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/137-dos-indignos-e-dos-indignados-36830).

 

 

  1. https://www.rt.com/op-ed/502825-china-communism-covid-follow/.
  2. Numa conferência subordinada ao título, “A Cultura não é o nosso amigo”, McKernna vai dizer:

O que é a civilização, é 6 biliões de pessoas tentando fazerem-se felizes empoleirando-se nos ombros umas das outras e esmurrando-se umas às outras nos dentes. Não é uma situação agradável.

E, contudo, podemos recostar-nos e olharmos para este planeta e ver que temos o dinheiro, o poder, o entendimento médico, o conhecimento científico, o amor e a comunidade capazes para criarmos um paraíso humano. Mas somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários. Somo conduzidos pelos menores de entre nós e nós não ripostamos contra os valores desumanizantes que nos são impingidos como valores de referência.

Eis a questão: a cultura não é nossa amiga. A cultura é para a conveniência de outras pessoas e para a conveniência de várias instituições, igrejas, empresas, esquemas de coleta de impostos, isto é o que temos. Não é nossa amiga. Ela insulta-nos. Ela torna-nos impotentes. Usa-nos e abusa-nos. Nenhum de nós é bem tratado pela cultura.”

 

 

 

 

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