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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

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Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(288) O “verão vermelho” de 1919

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A “conquista do Oeste” fez com que a população da Califórnia declinasse em mais de 80% entre 1846 e 1873, onde aconteceram mais de 16.000 assassinatos, 370 massacres e linchamentos indiscriminados de latinos.

 

Os grupos de vigilantes armados não se imaginavam como sendo antidemocráticos. Aliás, julgavam até que estavam a melhorar a democracia recém-instalada.

 

Ao passo que nos países da Europa só o estado possuía o monopólio do uso legítimo da força física, nos EUA, pelo menos durante os primeiros 150 anos, o estado apenas aspirava a possuir tal monopólio.

 

Bring Back The Death Penalty, Bring Back Our Police! Donald Trump, 1989.

 

 

 

 

Verão vermelho” foi o termo cunhado pelo escritor James Weldon Johnson (1871-1938) para descrever o período transcorrido entre os meses de abril e outubro de 1919, durante o qual se abateu enorme violência contra os negros americanos. “Vermelho” pelo sangue dos negros que foi derramado nesses meses.

Na realidade, essa enorme violência começara já em julho de 1917 em St. Louis, com o massacre público de negros levado a efeito com toda a impunidade por vigilantes brancos armados, seguido do incêndio de casas e assassinato de famílias que tentavam escapar às chamas, só terminando em 1923, com a destruição da cidade predominantemente negra de Rosewood, na Florida.

Ao longo desses sete anos, vigilantes brancos assassinaram milhares de negros em 26 cidades, incluindo Chicago, Houston e Washington. Em 1921, cidadãos brancos de Tulsa destruíram a comunidade negra mais rica da América, a chamada “Wall Street Negra”, incendiando mais de mil casas, igrejas, escolas e hospitais.

 

Durante esses períodos de violência, os grupos de vigilantes cooperavam muitas vezes com as autoridades. Outras vezes ignoravam-nas, invadindo cadeias, deitando paredes abaixo para retirarem negros que estavam presos, para em seguida os matarem, alguns de maneiras horrorosas.

O aparecimento destes grupos de vigilantes armados que acreditavam que a lei não estava a proteger os seus interesses, e por isso repetidamente se apropriavam da lei, tomando-a nas suas próprias mãos em nome da supremacia branca, é um facto inquestionável e verificável a quando da deslocação e massacre dos índios nativos americanos, a quando dos horrores infligidos pelos donos dos escravos aos negros, das ondas de linchamentos que se seguiram à Reconstrução, do derramamento de sangue do Verão Vermelho por volta da Primeira Guerra, dos assassinatos conduzidos pela Ku Klux Klan e outras organizações extremistas, etc..

 

A América aparece, assim, desde o início como um lugar de violência e de racismo institucional: o governo dos EUA e os seus exércitos constituíram sempre a força que esteve na base da perseguição e desalojamento dos índios americanos; a escravatura foi apenas considerada ilegal em 1865; desde cedo se assistiu à cooperação  das forças policiais com a Ku Klux Klan; ainda hoje a polícia continua a matar um número desproporcionado de negros americanos (1).

Sobre essa cooperação entre as forças extremistas e as forças policiais, será interessante ver-se a série da HBO, Watchmen, sobre a preparação e massacre de Tulsa, em 1921 (2), bem como alguns recentes documentários sobre as matanças durante o Verão Vermelho, em Elaine, Arkansas (3) e Knoxville, Tennessee (4).

Embora esses grupos de vigilantes não fossem os únicos responsáveis por esses rimes racistas, eles cooperaram sempre avidamente com as instituições do estado em todas as ações racistas. E estavam prontos por si próprios para imporem a supremacia branca, sempre que as forças policiais tratavam as pessoas com igualdade perante a lei.

 

O professor da CUNY (City University of New York), Michael Pfeifer, no seu livro The Roots of Rough Justice, vai tentar explicar o aparecimento da violência destes movimentos libertários de vigilantes que pretendiam impor as suas próprias leis, procurando os seus fundamentos na Revolução Americana e na subsequente falta de um estado centralizado forte.

Estes grupos de vigilantes não se imaginavam como sendo antidemocráticos. Aliás, eles julgavam que estavam a melhorar a democracia recém-instalada, inclusivamente praticando, em alguns casos, procedimentos democráticos como a adoção de leis gerais e a eleição dos seus chefes, com tribunais onde procediam a julgamentos votando as punições a serem atribuídas: a forca ou serem queimados vivos. Ou seja, constituíam como que um estado paralelo com exército paralelo.

 

Ao passo que nos países da Europa apenas o estado possuía o monopólio do uso legítimo da força física, nos EUA, pelo menos durante os primeiros 150 anos, o estado apenas aspirava a possuir tal monopólio. Prevalecia a justiça de fronteira dos grupos de vigilantes.

Antes e pouco depois da Revolução Americana, assistimos, inclusivamente, até à condenação de brancos por esses grupos, mas aos poucos o número de vítimas negras foi aumentando. Os donos de escravos, as patrulhas de escravos e grupos de vigilantes formados arbitrariamente, dispensavam qualquer laivo de justiça.

Mesmo após a abolição da escravatura, essa “tradição cultural”, tal como a do “Juiz Lynch”, foi-se mantendo: a matança dos índios nativos pelo Exército e a violência extrajudicial dos fazendeiros, fez com que a população da Califórnia declinasse em mais de 80% entre 1846 e 1873, onde aconteceram mais de 16.000 assassinatos e 370 massacres (5). Esta “conquista do Oeste” conta ainda também com o linchamento indiscriminado de latinos.

 

Outro dos fatores diferenciadores relativamente aos países da Europa, foi a da utilização indiscriminada do uso de armas por parte destes grupos de vigilantes, que teve que ver, em parte, com a Guerra Civil: a enorme produção de armas de fogo fez baixar o seu preço, pelo que cada vez maior número de cidadãos as possuía e utilizava sem qualquer restrição.

Há incidentes inacreditáveis, como o acontecido em Nova Iorque em 1863, a quando da Semana do Alistamento (o Governo necessitava de mais soldados para a Guerra Civil), em que grupos armados desencadearam ações violentas contra os negros, contra o Partido Republicano e contra os muito ricos, com receio de virem a ficar inundados de negros e sem trabalho (6), e como aquele acontecido em Nova Orleães em 1866, quando o partido republicano entendeu estender alguns direitos cívicos a negros (7).

Nessa época, várias foram as leis publicadas sobre o controle de armas, só que todas elas eram dirigidas à limitação do seu uso a minorias raciais (negros, índios, latinos) (8), e facilitando, por outro lado, o seu uso por milícias organizadas.

 

Aliás, ainda hoje, estudiosos da Constituição, justificam que o direito ao porte de arma garantido na Segunda Emenda, tem aplicação para o caso de milícias do estado, e não, segundo defende a NRA (National Rifle Association) para que qualquer indivíduo tenha o direito de usar armas.

Por extensão, esta interpretação da NRA acolhe a “doutrina do castelo” (o direito de usar força armada para defender a sua própria casa) e as leis sobre o direito ao uso da força para defesa própria.

Não é de estranhar que todos os grupos extremistas se julguem hoje em dia como estando ao abrigo da segunda Emenda com o direito constitucional a usarem armas quando muito bem entenderem, até contra o governo federal.

Não é também de admirar que possa vir a ser o próprio governo federal um seu admirador e suporte. Já se viu antes.

 

 

O Caso de “Os Cinco do Central Park”

 

No Central Park de Nova Iorque, a 20 de abril de 1989, foi encontrada uma mulher branca quase morta, após ter sido espancada e violada. A polícia, ao fim de alguns dias de interrogatório agressivo, acusou Antron McCray, Kevin Richardson, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam, por terem cometido o crime. Os cinco cumpriram sentenças completas de 6 a 13 anos, antes de outro homem, um violador em série, Matias Reyes, ter vindo mais tarde a confessar o crime, o que veio a ser comprovado por provas de DNA (9).

Nesse ano de 1989, Donald Trump publicou anúncios de página inteira (Bring Back The Death Penalty, Bring Back our Police!) no New York Times e em três outros jornais locais, em que pedia para que a Cidade de Nova Iorque reinstalasse a pena de morte face à brutal violação levada a cabo pelo gang. Segundo ele, a cidade era “governada pela lei das ruas” e “assaltantes e assassinos … deviam ser forçados a sofrer e, quando matassem, deviam pagar e serem executados pelos seus crimes.” (10) e (11)

 

 

 

 

 

1. https://www.washingtonpost.com/gdpr-consent/?next_url=https%3a%2f%2fwww.washingtonpost.com%2fgraphics%2finvestigations%2fpolice-shootings-database%2f. 2. https://americanhistory.si.edu/blog/watchmen.

3. https://www.amazon.com/Elaine-Massacre-Red-Summer-1919/dp/B0817JQHDB.

4. https://eu.knoxnews.com/story/news/local/2019/08/30/red-summer-documentary-knoxville-race-riot-1919-airs-saturday-maurice-mays-bertie-lindsey/2164189001/.

5. https://www.amazon.com/American-Genocide-California-Catastrophe-1846-1873-ebook/dp/B01EUYN5IU.

6. http://historydetectives.nyhistory.org/2018/07/new-york-city-draft-riots/.

7. https://www.wwno.org/post/absolute-massacre-1866-riot-mechanics-institute.

8. https://newrepublic.com/article/112322/gun-control-racist.

9. https://www.topic.com/automatic-for-the-people.

10. https://eu.usatoday.com/story/news/politics/2019/06/19/what-trump-has-said-central-park-five/1501321001/.

11. https://www.nytimes.com/2019/06/18/nyregion/central-park-five-trump.html.

 

 

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