(287) “A raça diz-nos sempre quem somos”
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A desumanização como a tendência para ver os outros como sendo decididamente menos humanos.
Os comportamentos de desumanização não se encontram só em extremistas, mas também em grande parte dos que têm posições políticas moderadas.
O nazismo via-se como sendo a revolução total que criaria uma nova imagem do que era ser humano, um novo conceito de humanidade.
Só os humanos, mas nem todos os humanos, possuem uma “raça-alma” que lhes permita desenvolver uma identidade coletiva, Alfred Rosenberg.
A raça diz-nos sempre quem somos, Alfred Rosenberg.
Estávamos em 1938 quando foi publicado na Alemanha o pequeno livro infantil com gravuras coloridas, Der Giftpilz, de Julius Streicher. A tradução inglesa do livro chamou-se The Poisonous Mushroom (1), e encontra-se à venda desde maio de 2020 na Wook, Portugal, editado pela Walden Group. Este era o livro recomendado pelo regime nazi que as mães deveriam ler aos seus filhos, e também utilizado nas escolas primárias, para lhes ensinar o que era um judeu.
Segue-se a tradução do primeiro capítulo, intitulado “Cogumelos venenosos”:
“Tal como muitas vezes se torna difícil distinguir um cogumelo venenoso de um cogumelo comestível, também, de igual modo, se torna muito difícil reconhecer-se um judeu como sendo um vigarista e um criminoso.
Uma mãe e o seu filho estavam a apanhar cogumelos numa floresta da Alemanha. O miúdo encontrou alguns cogumelos venenosos. A mãe explicou-lhe que havia cogumelos bons e cogumelos venenosos e, durante o caminho para casa, disse-lhe:
Olha, Franz, as pessoas neste mundo são como os cogumelos da floresta. Há bons cogumelos e boas pessoas. Há cogumelos venenosos, maus, assim como há pessoas más. E temos de ter muito cuidado e estar precavidos contra as pessoas más da mesma forma como fazemos com os cogumelos venenosos. Percebes?
Sim, mãe, replicou Franz. Percebo que se conviver com pessoas más posso arranjar sarilhos, tal como acontece se comer cogumelos venenosos. Posso até morrer!
E a mãe continuou: E tu sabes quem são essas más pessoas, esses cogumelos venenosos da humanidade?
Franz bateu com orgulho no seu peito: Claro que sei, mãe! São os judeus! O nosso professor já nos disse isso várias vezes.
A mãe louvou o filho pela sua inteligência, e passou a explicar-lhe as várias espécies existentes de judeus venenosos: os vendedores ambulantes judeus, os negociantes de carne judeus, os talhantes judeus, os médicos judeus, os judeus batizados, e por aí fora. Por mais que eles se disfarcem, ou por mais amigos que pareçam ou tentem ser, afirmando mil vezes as suas boas intenções, não devemos acreditar. Judeus são o que eles são, e judeus permanecerão. Para o nosso povo eles são veneno.
Como os cogumelos venenosos! Diz Franz.
Sim, meu filho! Tal como apenas um cogumelo pode matar uma família inteira, também um só judeu pode destruir uma vila inteira, uma cidade, todo o nosso povo.
Franz compreendeu.
Diz-me, mãe, todos os que não são judeus sabem que os judeus são tão perigosos quanto um cogumelo venenoso?
A mãe abana a cabeça.
Infelizmente não, meu filho. Há milhões de não judeus que não conhecem ainda os judeus. Por isso temos de os esclarecer e avisá-los contra os judeus. Os nossos jovens têm de ser alertados. Os nossos rapazes e raparigas têm de aprender a reconhecer os judeus. Têm de aprender que os judeus são os cogumelos mais venenosos que existem. Tal como os cogumelos venenosos crescem em qualquer parte, também os judeus aparecem em qualquer país. Tal como os cogumelos venenosos originam as mais terríveis calamidades, os judeus são também a causa da miséria e aflição, das doenças e morte.”
Seguem-se vários capítulos com títulos elucidativos: Como identificar um judeu, Como é que os judeus chegaram à Alemanha, Como é que os judeus se deixaram batizar, Como os nossos camponeses foram corridos das suas terras, Como é que os judeus aldrabam nas trocas comerciais, A visita de Inge a um médico judeu, Como os judeus tratam os seus empregados domésticos, Como os judeus torturam os animais, O que disse Cristo sobre os judeus, Há judeus decentes?, Sem se resolver a questão dos judeus não há salvação para a humanidade.
A definição de desumanização como a tendência para ver os outros como sendo decididamente menos humanos, é abertamente assumida neste pequeno livro. Só com a convicção de que homens, mulheres e crianças judias não faziam parte da humanidade, não eram seres humanos, é que se pode entender como é que os nazis os enviaram para os campos de concentração e extermínio.
Embora o caso nazi seja aquele que mais ressalta, este problema da desumanização é mais vasto, vem de longa data e continua a existir nas nossas sociedades. Basta referir a opressão dos índios e dos escravos negros nas Américas, dos asiáticos nos EUA durante a construção das vias férreas e o seu “internamento” compulsivo na Segunda Guerra, dos africanos durante o colonialismo, dos vários genocídios cometidos, do tratamento dado aos imigrantes e refugiados, dos preconceitos gerais para com os ciganos, dos preconceitos dos nórdicos para com os povos do Sul da Europa (aplaudidos por algumas gentes dos povos do Sul da Europa), dos citadinos para com os camponeses, etc.
Ou seja, os comportamentos de desumanização não se encontram só em extremistas, mas até em grande parte dos que têm posições políticas moderadas.
Estudos de psicologia (2) mostram que quando somos chamados a elencar diferentes qualidades de grupos, há uma tendência para, mesmo que subtilmente, se negarem a grupos exteriores a posse de qualidades humanas como civilidade, racionalidade e refinamento. E quanto à perceção de emoções que acontecem quando as pessoas interagem com outros grupos sociais (3), há a tendência para ver nos grupos exteriores, manifestações menores de emoções humanas complexas, como as de orgulho, admiração e culpa.
O caso da ideologia nazi tem ainda outra componente, porquanto, para além da desumanização para com judeus e outros grupos, assenta naquilo que entendia ser o privilégio de se ser alemão.
O nazismo via-se como sendo a revolução total que criaria uma nova imagem do que era ser humano, um novo conceito de humanidade.
Uma das formas para alcançar essa finalidade, era através de uma enorme e contínua campanha de propaganda diária conducente à desumanização massiva de outros grupos de pessoas. Essa desumanização, que implicava a desconsideração do outro, passava pela assunção do conceito de raça, de raça superior e de raças inferiores.
O corpo teórico avulso que pretendia sustentar essas intenções, ia desde a explicação antropológica e biológica do conceito de raça, até à sua explicação metafísica.
No primeiro caso, sobressaía Richard Walther Darré, teórico do “Blut und Boden” (Sangue e solo), com as suas tentativas de ligar a aparência exterior das pessoas a caraterísticas comportamentais (uma recuperação da antiga frenologia), adepto da restauração da pureza do sangue nórdico através da eugenia.
No segundo caso, temos Alfred Rosenberg, e a sua obra de 1930, Der Mythus des 20. Jahrhunderts (O Mito do Século XX). Segundo ele, foram os conceitos universais de humanidade e os valores universais, que conduziram as pessoas a não conseguirem entender a realidade. Por isso os seus inimigos são o judaísmo, o catolicismo, o liberalismo, o marxismo, o humanismo, o pacifismo e o materialismo.
Os universalistas, os que propõem valores universais, sugerem que há apenas uma certa maneira de viver, e com isso ameaçam a identidade de todas as outras pessoas (daí a crítica à cultura moderna). As pessoas, ao adaptarem-se à cultura ocidental, perdem a sua identidade particular. São as ideias da “identidade em perigo” e a invocação do “Lembrem-se quem são”, que vão servir de propaganda à ideologia nazi para a solução do problema da identidade, condensada na frase-conceito:
“A raça diz-nos sempre quem somos”.
Seria este acordar para a raça que nos iria permitir alcançar a “perfeição pelo autodesenvolvimento”. O mito do sangue permite alcançar a consciência de si próprio, criando um “novo tipo humano”, um “tipo racial”:
“Presente e passado começam a serem vistos segundo uma nova luz, que nos ilumina, comprometendo-nos para com uma nova missão para o futuro. As ações da história e o futuro, não mais significam lutas de classe ou guerra entre os dogmas da Igreja, sendo antes o conflito entre sangue e sangue, raça e raça, povo e povo. E isto significa combate entre valores espirituais”.
A imagem nazi da humanidade é, pois, caracterizada pelos conceitos de “raça” e “luta”, sendo o conceito “raça” o ponto de apoio da antropologia política do nazismo. Mas não a raça entendida apenas sob o ponto de vista biológico.
Para Rosenberg, a raça era aquilo que essencialmente distinguia os humanos do mundo animal, em que raça significava a “raça-alma” que constituía a profunda unidade espiritual de grupos humanos, e que, portanto, não podia ser encontrada na natureza.
O mundo humano era moldado pela atividade da “raça-alma” que ligava natureza e espírito, biologia e história. Daí a “história racial” ser simultaneamente história natural e mística espiritual. Só os humanos, mas nem todos os humanos, possuem uma “raça-alma” que lhes permite desenvolver uma identidade coletiva.
Ou seja, a caraterística definitória da essência da humanidade era a capacidade para desenvolver uma identidade coletiva que era restrita apenas a certos grupos de pessoas. Pelo que as caraterísticas naturais não eram suficientes para se ser considerado completamente humano: faltava-lhes a dimensão metafísica.
É por esta “metafísica de raça” que a cultura é vista como a manifestação dessa propriedade essencial (“raça-alma”) que separa os humanos dos animais e dos meros humanos animais. Humanos são apenas aqueles que têm um sentimento de comunidade que transcende o instinto de auto preservação.
Segundo Hitler, existiam raças que não eram capazes de serem seres humanos no sentido mais completo. Estavam neste caso os judeus, porque não possuíam esta “disposição idealística”, sendo apenas movidos por instintos de auto preservação, continuando basicamente a serem animais.
E Rosenberg completa:
“O relacionamento dos judeus com o mundo é unicamente feito pelo instinto, sendo sempre guiados pelo egoísmo, e interesses materiais superficiais e libidinosos […] não passam de animais humanos”.
Exatamente por isso os judeus nunca se fixam num lugar, andam sempre a vaguear de um sítio para outro, sem pátria, e sempre dependentes de sociedades hospedeiras que chupam até ao fim. “Parasitas”. São uma ameaça permanente para as comunidades particulares de “raça nórdica”, para todas as formas culturais de vida humana.
Constituem, pois, uma ameaça à humanidade, pelo que vamos ter “de encarar uma decisão final sobre o problema”.
Eis o que Rosenberg disse a 18 de novembro de 1941 numa conferência de imprensa:
“São cerca de seis milhões de judeus que ainda se encontram a viver no Leste, e esta questão só pode ser resolvida com a exterminação biológica de toda a judiaria na Europa. A Questão Judia só estará resolvida para a Alemanha quando o último judeu tiver abandonado o território alemão, e para a Europa quando nem um só judeu permanecer no continente europeu até aos Urais […] E para se alcançar isto é necessário mandá-los para além dos Urais ou então teremos de os erradicar”.
Foi assim que os nazis justificaram a violência contra os judeus como autodefesa. Estavam a defender o futuro da humanidade do ataque dos sub-humanos.
Acrescente-se uma pequena reminiscência da previsão do futuro perdido no passado, de um discurso feito em 1940 por Richard Darré, transcrito a 9 de maio de 1940 na Life magazine:
“Com a guerra relâmpago … antes do outono … seremos os donos absolutos de dois continentes … será criada uma nova aristocracia de senhores e donos alemães [com] escravos agregados, esses escravos serão sua propriedade e serão constituídos por nacionais não-alemães, sem direito a terras … estamos atualmente a pensar numa forma moderna da escravatura medieval que deveremos introduzir porque necessitamos urgentemente de acabar o nosso grande desígnio. A estes escravos não lhes serão negados os benefícios de uma literacia; a educação superior ficará no futuro apenas reservada para a população alemã da Europa …”
Há quem defenda que a desumanização não conduz necessariamente à exterminação de pessoas, apresentando o argumento que se pode conviver com não humanos como os animais de estimação e tratá-los bem (o tal problema dos escravos bem tratados). A realidade é que não há nenhuma exterminação de pessoas sem elas terem primeiro sido desumanizadas.
Aviso ainda aos que se acreditam politicamente moderados: devido ao atual conceito de “cidadania”, oriundo do Iluminismo e da Revolução Francesa, ter um alcance e aplicação universalista, talvez se perceba agora melhor a verdadeira razão encoberta que se encontra por detrás da campanha para a sua eliminação das escolas.
1.https://www.mtholyoke.edu/courses/rschwart/hist151/Nazi/poisonousmushroom.pdf.
- https://journals.sagepub.com/doi/10.1207/s15327957pspr1003_4.
- https://psycnet.apa.org/record/2008-07784-026.