(286) A felicidade possível na infelicidade garantida
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A vida balança para trás e para a frente como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento, Schopenhauer.
A felicidade não é mais que a ausência de dor e sofrimento após a satisfação de um desejo.
Em algumas culturas mexicanas, nos rituais do parto o nascimento de uma criança é acolhido com pena, enquanto que a morte de uma pessoa é celebrada com alegria.
Podemos ter tudo o que nos torna felizes e, contudo, não darmos por isso.
Pensas que haverá felicidade para pessoas como nós? In The Thomas Crown Affair.
Parece que ninguém duvida hoje que somos seres duais, na medida em que se por um lado como seres racionais procuramos conhecer e compreender o mundo, por outro lado somos seres de desejo que nos esforçamos para obter coisas do mundo.
Sabemos ainda que, mesmo que consigamos alcançar um desejo, muitos outros ficam por satisfazer e rapidamente se apresentarão em seu lugar. O que nos pode conduzir à sensação de que a vida mais não seja que uma sucessão monótona e vazia de desejos. Um aborrecimento.
Se tivermos a sorte de poder satisfazer as nossas necessidades básicas, comida e bebida, para escaparmos ao aborrecimento desenvolvemos necessidades para artigos de luxo, como álcool, tabaco, automóveis ou vestuário à moda. Em qualquer dos casos, nunca alcançaremos um estado de plena satisfação. Como dizia Schopenhauer, “a vida balança para trás e para a frente como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento”.
Contrariamente a Leibniz que no seu otimismo afirmava que o mundo em que vivíamos era o melhor de todos os mundos possíveis, Schopenhauer defendia que o nosso mundo estava antes organizado de maneira a maximizar a dor e o sofrimento.
E justificava esta sua asserção com o exemplo dos animais que mais não faziam que para sobreviverem devoram outros animais, passando a serem “o cemitério de milhares de outros”. E lembrando os rituais do parto em algumas culturas mexicanas onde o nascimento de uma criança é acolhido com pena, enquanto a morte de uma pessoa é celebrada com alegria.
Segundo ele, se tentássemos adivinhar qual a finalidade do mundo olhando para os resultados obtidos, rapidamente concluiríamos que o mundo não passava de um lugar de punição. Por isso, a vida não merecia ser vivida e o mundo não devia existir.
Nunca nos foi dada a possibilidade de escolher se deveríamos existir ou não, mas se nos tivesse sido dada essa possibilidade, seria totalmente irracional escolher existir quando nada se poderia lucrar com a vida, apenas perder.
E, contudo, Schopenhauer acreditava que havia um lugar para a felicidade. O que acontece é que andamos enganados sobre aquilo que é felicidade. Para ele, a felicidade não era mais que a ausência de dor e sofrimento após a satisfação de um desejo, um momento de alívio que por vezes se sente entre a realização de um desejo e a busca do próximo desejo.
Assim, a satisfação que sentimos quando finalmente compramos um apartamento, é logo seguida por um estado negativo com as novas preocupações que essa compra traz consigo: a aflição com o encargo de poder pagar o empréstimo, o enorme prazo em que tal obrigação se refletirá, as alterações a introduzir na casa, etc.
Acresce ainda aquela caraterística muito humana de deixarmos de nos focalizarmos sobre as coisas que nos correm bem para passarmos a preocupar-nos com as coisas que nos correm mal, ou tenham a possibilidade de correr mal. Por mais pequeno que seja o problema, a nossa tendência é ampliá-lo, ofuscando o anterior. Por isso, raramente beneficiamos das coisas boas enquanto as temos.
Uma das diferenças entre a felicidade e a dor e sofrimento, é que estas anunciam-se sempre, fazem-se notar, exigindo correção, ao contrário da felicidade: podemos ter tudo o que nos torna felizes e, contudo, não dar por isso.
“Só após termos perdido as três melhores coisas da vida – a saúde, a juventude e a liberdade – é que nos damos conta da sua importância”.
Uma das formas de lidar com este problema, é o recordar o que sofremos no passado, para nos sentirmos bem no presente. Podemos também refletir sobre todo o sofrimento possível que poderíamos ter tido e não tivemos.
Schopenhauer cita Lucretius quando ele nos fala sobre o enorme prazer que sentia à beira-mar num dia tormentoso, ao ver o comandante de uma embarcação a lutar contra as enormes vagas, não que gostasse de ver outra pessoa a sofrer, mas porque tal lhe dava a sensação agradável de estar livre de se encontrar naquela situação.
Ou seja, apesar de não querermos o infortúnio de outra pessoa, esse infortúnio era como que um alerta para a sorte que tínhamos.
Assim, para sermos felizes, deveríamos eliminar a dor e o sofrimento das nossas vidas. E para nos sentirmos felizes, deveríamos ter o tempo suficiente para refletirmos sobre a sua ausência.
O que o coloca perto da antiga escola grega dos estoicos, quando estes identificavam a vida feliz como aquela cuja existência fosse sem dor. Consideravam duas formas para evitar a existência sem dor: uma, através de um planeamento cuidadoso por forma a conseguir seguir-se o caminho menos penoso durante a vida. A outra, em vez de remover ou evitar os obstáculos que se punham, era a de reconsiderar os sentimentos que tínhamos perante esses obstáculos.
Ou seja, a primeira é uma alteração na prática, a segunda uma alteração na forma de pensar. É esta segunda forma que carateriza o estoicismo. Conforma explica Schopenhauer, para os estoicos, os sentimentos penosos derivados da privação “não decorrem imediatamente e necessariamente do não-ter, mas antes do quererem-ter e não terem”.
Donde conclui que para evitar esses sentimentos de privação, o que temos de fazer é eliminar a parte do querer-ter.
E, chama-nos ainda a atenção para o facto de ao nos empenharmos em grandes ambições e desejos, deveremos acautelarmos, porquanto quanto maiores eles forem maiores serão as quedas. É importante conseguirmos adequar as nossas espectativas a um plano realista das nossas possibilidades.
A grande diferença entre Schopenhauer e os estoicos, é que para estes é possível obter a felicidade através de um estado de calma interior e serenidade (ataraxia), por mais turbulento que seja o mundo exterior. Schopenhauer não acredita que seja possível alcançar a felicidade num mundo destinado ao sofrimento universal. Quando muito será possível preocuparmo-nos menos com o sofrimento, se aceitarmos melhor coisas que não podem ser evitadas, como a velhice e a morte.
Para Schopenhauer, o estoicismo concebe a finalidade da felicidade pela eliminação do sofrimento e da dor. Como para ele toda a vida é sofrimento, então a única forma de eliminar o sofrimento é eliminar a vida. Pelo que o fim último do estoicismo seria o suicídio.
Mas embora a vida seja sofrimento, esse sofrimento pode ser reduzido se nos convencermos que ele não durará para sempre. Temos de ter a capacidade de passar da satisfação dos desejos para a dor, e desta para um novo desejo, num jogo que vai da felicidade para o sofrimento, lembrando-nos que esta oscilação entre o desejo e a sua realização, é o máximo que podemos desejar como felicidade.
Como ele dizia, “a vida balança para trás e para a frente como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento”. Este balanço seria suportado pelo ascetismo, única forma para ultrapassar a inevitabilidade do sofrimento universal, transcendendo-o. Embora sabendo que apenas um pequeno número de indivíduos excecionais consegue levar uma vida ascética que conduza à verdadeira salvação.
A rotina diária da vida que Schopenhauer então levava era a seguinte: entre as sete e as oito da manhã, um banho com esponja fria, seguida de um café que ele próprio fazia, dedicando-se depois aos seus escritos durante algumas horas, antes de receber visitas escolhidas. Ao meio-dia a governanta aparecia para as conduzir à saída. Depois tocava flauta durante meia-hora, dirigindo-se em seguida para o seu sítio favorito, o Hôtel d’Anglaterre, para um copioso almoço. Regressava a casa, fazia um novo café, dormitava por uma hora, lia um pouco de literatura antes de ir passear o cão enquanto fumava um charuto. À noite, deitava-se, e dormia nove horas.
No filme de 1999, The Thomas Crown Affair, a caçadora de obras de arte Catherine Banning (Rene Russo) comenta para o multimilionário Thomas Crown (Pierce Brosnan) a sua dúvida existencial: “Pensas que haverá felicidade para pessoas como nós?” Coitadinhos.