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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(284) A neurociência como anfiteatro

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

O Exército investigou honestamente, mas o relatório foi encoberto … a pessoa que conduziu o relatório, o General [William R.] Peers é um dos meus heróis, ele indiciou 25 pessoas, de baixo até ao topo da divisão. Indiciou o general da divisão, incluindo o indivíduo da CIA que forneceu a informação ao general, Oliver Stone.

 

Matavam-se vietnamitas em todo o lado.  Porque eram de outra raça, ou pelo que quer que fosse. Não eram seres humanos, Oliver Stone.

 

Aqui temos um saudável e feliz porco, que está inicialmente tímido mas, como podem ver, com grande energia, vivendo uma vida boa, e que há dois meses tem um implante no cérebro, Elon Musk.

 

Aqueles que controlam a máquina que “lê os meus pensamentos” podem também controlar o meu pensamento e implantar pensamentos nele.

 

 

 

 

Numa recente entrevista do argumentista e realizador de cinema Oliver Stone (https://thegrayzone.com/2020/08/18/oliver-stone-on-challenging-hollywood-convention-film-as-a-disappearing-art-form/), incindindo especialmente sobre a sua própria vivência como voluntário na guerra do Vietname, os filmes “Platoon” e “Scarface”, e o fazer cinema em Hollywood, dizia:

 

“[…] Era uma guerra complicada, e tentei descrever isso no “Platoon” quando Barnes, um dos sargentos, mata os aldeões e é acusado de cometer um crime de guerra por outro sargento, Ellias. Era importante transmitir que havia lutas entre nós dentro de cada pelotão. Estive em três diferentes pelotões de combate, em diferentes locais. Era um problema que estava num crescendo […]

[…] E sim, havia muito racismo. Não… era contra os vietnamitas. E um dos grandes temas da guerra era sobre nós eliminarmos a população civil. Isso acontecia constantemente, julgo que devido ao facto de muitos soldados serem racistas contra os … odiarem os vietnamitas […] porque pensavam que os civis estavam a ajudar o inimigo. É claro, isto é um tema ambíguo porque nós estávamos a lutar contra um povo que pretendia essencialmente viver em paz e livre de opressores e senhores da guerra.”

[…] A segunda mentira (‘da nossa cultura’) tinha que ver com as matanças de civis, a morte de civis. Oh. Estivemos em tantas aldeias. Nós alternávamos entre a selva e as aldeias. Nós íamos às aldeias e investigávamos sobre armas, fornecimento de arroz, sobre tudo. Tínhamos de saber o que se estava a passar. E encontrávamos coisas. E outras vezes não encontrávamos nada, o que era frustrante. Por vezes tínhamos acabado de perder homens na selva com minas ou armadilhas, por isto ou aquilo. Íamos a uma vila, e libertávamos a nossa frustração. Vi alguns incidentes muito chocantes, e falo disso no livro (Chasing the light). E dei por mim quase a ultrapassar a linha. Não passei a linha, quase o fiz, porque se pode ficar muito fora de si.

Por exemplo – e na altura não sabíamos disso – o Massacre de My Lai em maio de 68 é todo sobre isso. De facto […] em My Lai, foi na altura em que vários pelotões foram a uma série de aldeias nessa região, após receberem más informações. As informações vieram da CIA, que tinha acabado de torturar algumas pessoas e que lhes deram informações falsas dizendo-lhes que os norte-vietnamitas do NVA estariam em vilas perto de My Lai. E eles foram lá convencidos que estavam perante o inimigo. Não eram. Nem uma única bala foi disparada contra os soldados. Nem uma. Isto foi o que a investigação do Exército revelou. O Exército investigou honestamente, mas o relatório foi encoberto, e todas as … a pessoa que conduziu o relatório, o General [William R.] Peers foi… é um dos meus heróis, tentou agitar … ele indiciou 25 pessoas, de baixo até ao topo da divisão. Indiciou o general da divisão. De facto, ele foi para além da divisão. Foi até ao indivíduo da CIA que forneceu a informação ao general.

É uma história de tal maneira feia que não é de admirar que [ten. William] Calley fosse o único a ser tramado. Quero dizer, eles apanharam … eles deixaram todos escapar dos anzóis. Mas isto é …  mataram-se a sangue frio 500 civis nessa aldeia, chacinados das piores maneiras, se lermos os detalhes. É o pior exemplo que eu conheço, mas isso era uma pequena escala do que se passava em todos os sítios. Acredito. Em todos os lados. Matavam-se vietnamitas em todo o lado.  Porque eram de outra raça, ou pelo que quer que fosse. Para muitos de nós, eles eram “gooks”. Não eram seres humanos. Isso aconteceu.

 

 

Com a pretensa finalidade de revolucionar o tratamento de muitas condições clínicas, do traumatismo do cérebro e sua paralisia, à epilepsia e esquizofrenia, temos vindo a assistir a um grande desenvolvimento da neurotecnologia ao juntar interfaces entre o cérebro e computador com a inteligência artificial.

Só que esse caminho só será possível através da decifração do processo mental das pessoas, por forma a que se possam manipular diretamente os mecanismos do cérebro para se ultrapassarem as suas intenções, emoções e decisões.

Quando tal acontecer, os indivíduos poderão comunicar entre si apenas pelo pensamento e, se lhes adicionarmos potentes sistemas computacionais diretamente ligados aos cérebros por forma a poderem receber todas as interações do mundo, poderão aumentar extraordinariamente as suas capacidades mentais e físicas.

Para além do aumento das desigualdades sociais e da possibilidade oferecida às corporações, hackers, governos e mais quem quer que seja com meios disponíveis, este é mais um caminho aberto à exploração e manipulação das pessoas. A novidade, neste caso, é a possibilidade de se poderem alterar as caraterísticas básicas (vida mental privada, individualidade, livre arbítrio, a nossa consciência, as nossas recordações, a nossa personalidade e a ligação ao corpo) de seres humanos particulares.

 

Várias são as regulamentações e declarações éticas que têm tentado impor limites e modos de atuação a estas intenções, aparentemente sem grande resultado. Relembro a Declaração de Helsínquia de 1964 (sobre pesquisa médica em seres humanos, https://www.who.int/bulletin/archives/79(4)373.pdf), o Relatório Belmont de 1979 (https://www.hhs.gov/ohrp/regulations-and-policy/belmont-report/read-the-belmont-report/index.html), e a declaração de princípios de Ansilomar de 2017 sobre inteligência artificial (https://futureoflife.org/ai-principles/).

 

Entre as várias corporações (civis, militares e governamentais) interessadas em explorar estas pesquisas, encontram-se as ultimamente sempre presentes Google, IBM, Microsoft, Facebook, Apple, a DARPA (US Defense Advanced Research Projects Agency), a Neuralink, e muitas outras mais pequenas, sem contar com as chinesas, russas, árabes, etc.

Por exemplo, a Facebook trabalha num projeto a que chamam “thought to text” (do pensamento ao texto), que permitirá escrever sem necessidade de teclar. A ideia é que o smartphone seja uma interface não invasiva entre o cérebro e o computador.

 

Na prática, trata-se de colocar no crânio um elétrodo ou um microchip que se introduz diretamente no cérebro, com a finalidade de recolherem dados da atividade neuronal que é depois enviada para um computador onde são processados e interpretados por algoritmos. Codificar os nossos neurónios.

 A parte interessante é que também funcionam em sentido contrário, permitindo introduzir informação nova no cérebro, modificando a sua atividade. Ou seja, estes interfaces cérebro-máquina são dispositivos que podem ler a atividade das ondas cerebrais e podem também escrever nelas novas informações.

 

A 28 de agosto, o empresário de topo e proprietário da Neuralink, Elon Musk, veio apresentar pessoalmente um espetáculo com três porcos, a Gertrude com um pequeno computador implantado no cérebro, a Dorothy a quem já fora implantado e retirado um implante, e um terceiro para desempatar. Segundo ele, a apresentação serviria para recrutar voluntários humanos para se submeterem a experiências na sua start-up em neurociência.

Sobre a Gertrude, Musk afirmou:

 

Aqui temos um saudável e feliz porco(a), que está inicialmente tímido(a), mas, como podem ver, com grande energia, vivendo uma vida boa, e que tem um implante no cérebro há dois meses” (https://www.youtube.com/watch?v=DVvmgjBL74w).

 

Antes de continuar, seria interessante que Musk explicasse os critérios que usou para concluir que a porca era feliz. A não ser que fosse uma apenas expressão para vender mais “banha de porca”.

Estas experiências com elétrodos em porcos, já em 1938 o psiquiatra italiano Ugo Cerletti (1877-1963) usara nos seus estudos sobre terapia de eletrochoques, após ter visto como eram aplicados choques elétricos aos porcos antes da matança, como forma de os tornar mais dóceis nos instantes finais. Foi isso que o levou a tentar aplicar o mesmo tratamento aos humanos.

 

Para além da provável vulnerabilidade destes dispositivos à pirataria, da questão relativa a quem compete decidir usá-los, das vantagens competitivas que poderiam proporcionar só a certas pessoas ou grupos, da desigualdade social entre aqueles que podem ter acesso a melhores capacidades cognitivas face aos que não as podem custear, etc., a crítica mais importante que se pode fazer a este tipo de projetos que pretendem ligar diretamente a nossa vida interior à realidade, por forma a que os nossos pensamentos possam provocar consequências diretas na realidade, ou ainda, que possam ser diretamente regulados por uma máquina que é parte da realidade (e que não pertence ao nosso eu), é que isso significa passarmos a um novo estado da humanidade, à chamada pós-humanidade.

É a distância entre a nossa vida interior, a linha dos nossos pensamentos, e a realidade exterior, que nos permite ter a perceção de nós como seres livres. Somos livres naquilo que pensamos exatamente por os nossos pensamentos estarem a uma certa distância da realidade, por forma a nos podermos divertir com eles, proceder a experimentações, sonharmos com eles, e isto sem que eles produzam quaisquer consequências diretas na realidade. É exatamente nesse distanciamento que ninguém nos pode controlar.

Slavoj Zizek, no seu livro Hegel in a Wired Brain, relembra-nos que nunca devemos esquecer que se pudermos regular diretamente o processo  da realidade com os nossos pensamentos – por exemplo, se eu pensar que a minha máquina de café me deve fazer um café com leite escuro, e tal acontecer – estas ligações causais funcionam também na direção oposta. Ou seja, aqueles que controlam a máquina que “lê os meus pensamentos” podem também controlar o meu pensamento e implantar pensamentos nele.

 

Fiódor Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov, descreve-nos aquela cena em que Ivan, um dos irmãos, conta a reação do Grande Inquisidor, o Cardeal de Sevilha no século XVI, ao ver um Jesus regressado repetir, frente à sua catedral, o milagre de ressuscitar uma criança morta, utilizando palavras de conforto e amor. De imediato, o cardeal mandou os guardas prendê-Lo, ordenando que o encerrassem na masmorra do edifício do Santo Ofício. Durante a noite, visita Jesus e diz-lhe:


“Tu és Ele? És Tu?” Mas, como não recebesse resposta, acrescentou logo: “Não respondas, cala-Te. E que poderias Tu dizer? Sei muito bem o que irias dizer. E, aliás, não tens o direito de acrescentar o que quer que seja ao que já disseste. Porquê, então, vires incomodar-nos? Pois Tu vieste incomodar-nos e bem o sabes. Sabes o que se vai passar amanhã? Ignoro quem sejas, não quero saber. Quer Tu sejas Ele, quer sejas apenas a Sua aparência, amanhã vou condenar-Te e fazer-Te subir à fogueira como o pior dos heréticos, e esse mesmo povo que hoje Te beijava os pés, precipitar-se-á amanhã, a um gesto da minha mão, para amontoar os carvões na Tua fogueira…”(1)

 

De certa forma, também Nikos Kazantzakis no seu Cristo Recrucificado, aborda o mesmo tema. Como o título dá a entender, se Cristo cá voltasse, seria de novo crucificado.

 

Se nesta atual e futura sociedade em que vivemos,  em que os cidadãos  se vão tornando cada vez mais adormecidos, mais indiferentes, contentando-se cada vez mais com as missangas sobrantes, sociedade em que “ninguém” sabe quem está a gerir, em que ninguém é responsável, em que não se sabe o que está a acontecer a não ser o que querem que se saiba, e em que não há ninguém para culpar (“A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém”), surgisse um novo General [William R.] Peers a inventariá-la tal como ele o fez, alguma coisa de diferente ocorreria? Não seria à mesma ignorado e ultrapassado? A resposta é que nem sequer teria a hipótese de surgir. Nada que um implantesinho dos Ellones Muskes não tratem atempadamente.

 

 

 

 

 

(1)Blog de 31 de julho de 2015, “Cristo ‘melhorado’”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/cristo-melhorado-3759).

 

 

 

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