(266) “Tempo para morrer”
Tempo estimado de leitura: 4 minutos.
Androides-como-escravos, metáfora da condição humana.
“Quite an experience to live in fear isn’t it? That’s what it is to be a slave”, Roy Batty, in Blade Runner.
Um dia, esse puramente mundo predatório acabará por se consumir a ele próprio…, in Cloud Atlas de David Mitchell.
Por isso, é que em tempos de crise, dizem que temos de estar todos juntos. Até a crise passar.
Uma obra de ficção científica é normalmente entendida como sendo um relato de algo que se virá a passar num tempo futuro, transportando-nos para locais e cenários que pouco têm que ver com os contemporaneamente existentes, e que com a ajuda do cinema tende a projetar ações, movimentos, sons espetaculares que tudo absorvem.
Contudo, subjacente a tudo isso, encontra-se sempre a intenção de nos dizer coisas importantes sobre a condição humana.
Quando Roy Batty, o replicante Nexus 6 do filme Blade Runner (adaptação do livro de Philip Dick, Do Andriods dream of Electric Sheep?), no seu monólogo final diz
“Quite an experience to live in fear isn’t it? That’s what it is to be a slave” (Grande experiência é o ter de viver com medo, não é? Isso é o que é ser escravo)
está a referir-se, não só à situação particular existente na altura, mas também a uma condição humana mais geral que se tem verificado ao longo dos tempos.
É, contudo, num dos episódios de Cloud Atlas, que melhor vai ser descrita esta relação de escravo-trabalhador-proprietário, de predador-presa. Cloud Atlas, é uma obra escrita por David Mitchell em 2004, na qual pretende enfatizar o facto de a experiência humana ser essencialmente universal através de todos os tempos.
Na sua adaptação de 163 minutos ao cinema, os (as) irmãos (irmãs) Wachowski (da trilogia Matrix) recortam o livro em seis episódios passados nas ilhas do Pacífico em 1849, em Cambridge/Edinburgh em 1936, em San Francisco em 1973, em Londres em 2012, em Nova Seoul em 2144, e na Grande Ilha, 106 invernos depois da Queda em 2321.
No episódio referido tudo se passa em 2144, “Orison of Somni-451”, época em que todos os trabalhadores são clones de humanos, e em que Mitchell vai explorar a possibilidade de uma revolta de clones e do aparecimento de um clone do Messias.
Somni-451 é uma empregada-escrava clone de humanos, que trabalha num restaurante de fast food em Nova Seoul. Acaba por entrar em contacto com ideias revolucionárias através de uma outra clone, Yoona-939. Depois de Yoona ser morta, Somni é resgatada pelo chefe rebelde Hae-Joo Chang, que a inicia na leitura de obras banidas de Aleksandr Solzhenitsyn. O líder carismático do movimento rebelde mostra-lhe o que acontecia aos clones: eram reciclados para comida de outros clones. Somni vai expor essas revelações numa emissão pública, antes de um ataque em que Hae-Joo é morto e em que ela é presa. Após ter contado a sua história a um arquivista, é executada.
Eis parte do que ela diz:
“As nossas vidas não nos pertencem. Desde o ventre até à tumba, encontramo-nos ligados a outros. Passado e presente. E por cada crime ou por cada ato de bondade, recomeçamos o nosso futuro.”
Segundo Mitchell, há como que uma servidão da condição humana (onde se incluem clones) que faz com que o privilégio dos predadores se mantenha:
“A crença é simultaneamente o prémio e a batalha, no espírito & no espelho do espírito, o mundo. Se acreditarmos que a humanidade é uma escada de tribos, um coliseu de confrontos, exploração e bestialidade, então essa humanidade será a que acabará por nascer, & prevalecerão Horroxes, Cabeças Rapinadas & Gansos. Tu & eu, os endinheirados, os privilegiados, os afortunados, não nos sentiremos tão mal nesse mundo, desde que a sorte não desapareça. E se a nossa consciência nos incomodar? Porquê minar o domínio da nossa raça, das nossas armas, da nossa herança & o nosso legado? Porquê lutar contra a ordem “natural” (oh, palavra vaga) das coisas?
Porquê? Apenas por isto: - Um dia, esse puramente mundo predatório acabará por se consumir a ele próprio…
Se acreditarmos que a humanidade possa transcender dentes e garras, se acreditarmos que diversas raças e credos puderem compartilhar pacificamente este mundo, se acreditarmos que os nossos líderes devem ser justos, as violências erradicadas, o poder responsabilizado & os ricos da Terra & os seus Oceanos compartidos equitativamente, então esse mundo predatório acabará por passar.”
O que Roy Batty nos vem mostrar é o reconhecimento do que é viver-se permanentemente com medo, numa sociedade cujo ideal é de, através da educação ou de outro qualquer meio, produzir trabalhadores obedientes, escravos-salariados, sejam humanos ou clones, que servem unicamente para alimentar as engrenagens do moinho da economia. Androides-como-escravos, metáfora da condição humana.
Daí que as suas últimas palavras sejam:
“Time to die” (Tempo para morrer).
(https://www.youtube.com/watch?time_continue=3&v=NoAzpa1x7jU&feature=emb_title).
Abre a mão e solta a pombinha branca que voa em direção ao alto. Concessão estética de Ridley Scott? Imitação dos humanos que se assumem como escravos para se poderem depois libertar para depois em liberdade decidirem de novo serem escravos?
Para nós, humanos por enquanto, com menos vivência histórica que Roy, devemos, apesar de tudo, concluir que sempre que se tem verificado um desastre económico, o sistema vigente faz com que a tragédia reverta a favor das corporações. Os primeiros a serem descartados em grande número são os trabalhadores, dos quais apenas uma pequena parte acaba readmitida, mas com salários reduzidos e muitas vezes a tempo parcial, sem benefícios adicionais e sem segurança de emprego.
Eis o que diz Tim Bray, importante engenheiro e vice-presidente da Amazon, que saiu da empresa por discordar dos recentes despedimentos de trabalhadores:
“O problema é que a Amazon trata os humanos nos armazéns apenas como potenciais unidades fungíveis de carregar-e-embalar. E isto não acontece apenas na Amazon, é como o capitalismo do século XXI é feito.” (https://www.nytimes.com/2020/05/04/business/amazon-tim-bray-resigns.html).
Há, contudo, um paradoxo escondido: enquanto os grandes e pequenos possuidores do capital, os grandes e pequenos gestores e apaniguados seguidores, nos andam a convencer (e nós acreditamos, e eles também acreditam) que a economia depende essencialmente do saber e esforço deles, a realidade que fica bem demonstrada nos tempos de crise, é que a economia para funcionar depende essencialmente dos trabalhadores menos “qualificados”. Se estes falharem, não há economia. Por isso, é que em tempos de crise, dizem que temos de estar todos juntos. Até a crise passar.
Recomendo:
Blog de 14 de dezembro de 2016, “Blade Runner”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/blade-runner-24547.
Blog de 20 de janeiro de 2016, “Tudo azul, tudo muito azul”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/tudo-azul-tudo-muito-azul-11402.
Blog de 20 de julho de 2015, “Os intelectuais são sempre de direita”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/os-intelectuais-sao-sempre-de-direita-3138.